Eu acredito em estrelas cadentes

Giordana Medeiros

Ontem, no crepúsculo que precede a noite, fui surpreendida por uma estrela cadente. Como é comum, procurei em mim desejos que queria ver realizados, por alguns minutos fiquei a pesquisar no meu espírito algo que almejasse com tanto vigor que pudesse ser pedido a uma estrela cadente, meteoritos, que não se sabe por que, os homens os atribuem o poder de satisfazer aquilo que lhe solicitamos. Porém percebi que havia muitos, mas muitos desejos a se fazer e coisas que queria que ocorressem, as quais em função de minha própria passividade perante a vida ou de meus temores frente ao mundo, não têm a mínima possibilidade de serem em fim realidade. E tinha medo de errar, como fiz numa outra oportunidade, num outro momento, há treze anos, quando fui agraciada com a visão deste corpo cósmico atraído pela gravidade terrestre, em que desperdicei o pedido com algo que não queria realmente ver realizado. Na primeira vez em que vi um meteorito em chamas cruzando o céu, era noite, estava com meu pai e vivíamos, naquele momento, uma situação de grande fragilidade em nossa família: minha irmã mais nova estava grávida, com apenas catorze anos, era mãe solteira, o que acabou por se tornar um abalo sísmico nas estruturas de nosso lar. Estávamos muito feridos, porque, como uma família muito tradicional nordestina, casos assim, são vistos como uma grande mácula no trato social. E ao ver a estrela cadente fiz um pedido do qual viria arrepender-me profundamente. Num ímpeto de manter o que entendia por vida, a candura e rigidez do ambiente em que fui criada, desejei que minha irmã perdesse o neném que crescia em seu ventre. Quando nasceu meu sobrinho, fiquei feliz que o meu desastroso pedido não veio a se concretizar. Não quero de modo algum perder esse menininho, que transformou sim nossa família, mas para algo muito melhor. Ainda vivemos terremotos, mas depois da primeira calamidade, do raio que nos acertou quando estávamos descuidados, conseguimos nos reerguer mais fortes. Minha irmã deu a luz ao meu sobrinho mais velho, que, hoje, é um dos meus mais preciosos companheiros. Acho que a estrela cadente deu a mim o que precisava e não aquilo que eu queria. Porque nem sabia o queria realmente. Meus desvelos com o Marquinhos, a criança que nasceu sob a insígnia da mudança, são muito maiores, tendo em vista temer que a estrela resolva de algum modo cumprir com o prometido. Situações como a que vivi, outros também viveram, pois acontecem a todo o momento e  temos medo do que desconhecemos. Temos de evoluir com nossos erros. E de algum modo, confesso, que evito estas situações. Meu temor de errar acaba por engessar a minha vida. Evito as mudanças. Fico presa numa realidade que talvez não seja a melhor por medo de ter de enfrentar o inesperado. Contudo, há, ainda, uma margem para as novidades. Consegui há pouco tempo a aprovação para uma nova faculdade e fiz uma revolução no cotidiano a que estava acostumada. Deixei o frio mundo das normas para aventurar-me no instável mundo das letras. Estou aprendendo a andar na corda bamba, porque não há nada mais perigoso que a nitroglicerina das palavras. Só que, por uma ironia da vida, uma nova chance me foi concedida, na noite anterior, fui agraciada mais uma vez com uma estrela cadente que premiou meus olhos ao cair da noite. Naquele momento, em meio a tantas possibilidades, tentei concertar o primeiro pedido, que outrora fiz e que não quero de modo algum ver realizado. Em mente, com o silêncio dos meus pensamentos, solicitei que esquecessem meu pedido de treze anos atrás. E ao invés do que pedi naquela ocasião, que me concedessem o privilégio de ver os filhos dos meus sobrinhos. O amor é o sentimento mais confuso que existe. Evitamos amar, mas é impossível pegar no colo seres tão frágeis, como meus sobrinhos o eram no momento do nascimento, sem se encantar. Recordo de aconchegar-los no meu colo e pedir para que nada de ruim os ocorresse. Espero que a estrela me ouça dessa vez. Todavia, caso ache melhor, possa conceder-me aquilo que necessito e não apenas o que penso como essencial para mim. Por que posso errar nas palavras, mas no coração não há erro que não possa ser remediado. Tenho apenas a certeza que, mesmo que não realizem meus desejos desastrosos ou não, eu acredito em estrelas cadentes.

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