Por que estou triste?

Giordana Medeiros

Por que estou triste? Pergunto ao espelho onde meu reflexo se mostra tão perplexo quanto eu. Há alguma razão para este pranto? Por que meu coração dói? E dói ainda esta saudade em mim de um tempo em que o tempo não era importante? Havia o futuro que, de tão distante, parecia mágico. Mas se passaram anos e desfalcaram-me do que entendia como esperança. Hoje só tenho a espera muda. O silêncio constrangedor que, sem palavras, diz muito. Vou fechar as janelas para não ouvir o sussurro do vento, um murmúrio, numa manhã solitária. Eis que a brisa traz o outono. As folhas caem por causa do frio, por falta da chuva e por medo do inverno. E meu coração também desfolha-se pelos mesmos motivos. Sou o cantor da solidão, dos momentos vazios, os quais tento preencher de sentimentos. Meu coração parte, vai-se com as ondas, vagas da cor da esperança, numa história que começou, mas não teve fim. Vai ao encontro do amor, apesar da tamanha distância e das inúmeras adversidades que o aguardam. Seguem-lhe minhas saudades, que pretendem ao meu amor socorrer. Mas se vão também minhas fantasias, que se dispersam nos campos, nos vales e montanhas. Minhas ilusões cobrindo o mundo, são sementes de sonho, se florescessem seriam lírios selvagens, flores do campo, cujas túnicas seriam da cor da pureza e da inocência do que desejo. Nem desejo nada. É um apelo somente. Mas não ouso pedir. Pois não espero que vá receber. Por que o céu me fez assim? Por que há tanto a se lamentar nessa vida? Por que tanto ressentimento? Minha alma geme aflita. Nem queiram saber por que suspiro. Há razões que não devem ser reveladas. Há motivos que não devem ser expostos. Minha alma sangra em silêncio. E meu corpo padece de dores que não existem, mas insistem em ferir. A inexistência de razões é a razão predominante. Como reduzir a angústia que sinto? Esse doce padecer, porque sofrer também é bom. Eu sozinho, eu que não existo. Pois eu é apenas um termo, ora conveniente, que utilizo para fingir que não sou alguém desprovido de existência real. Minha história que me persegue, segue-me ao meu quarto e invade meus sonhos. Não posso mais pensar sem me dar conta do que sou. Sei que estou aterrorizado com minha própria solidão. As severas dores que me torturam, deixam marcas no meu espírito. Feridas que não cicatrizam e estão sempre abertas. Latejam como uma saudade.  Se pudesse olhar as coisas de outro jeito, um jeito mágico que fizesse tudo ficar mais bonito… Mas vejo tudo sob as lentes da solidão, que convertem o colorido no cinza. Cores são privilégio da felicidade. Arco-íris outrora me traziam sorte. Porém, somente quando era criança. Os arco-íris perderam a magia quando descobri que são mera decomposição da luz branca. Não há potes de ouro, relacionados a estes, nem qualquer outra fábula que costumava ouvir. Simplesmente ciência. Razão que racionaliza tudo. O segredo do belo está em nós. Naquilo que escolhemos ver. Mas quando nos abstemos da responsabilidade de sermos o que somos? O que pode explicar nossa tristeza? Será que não aprendemos ainda a olhar? Só consigo ver o que tenho por dentro. E é tudo tão sujo e feio… Vez em quando baixa uma saudade… Aquela falta de ser o que não se é, mesmo que nunca se tenha sido. Só que isto ocorre quase sempre. Mas não vale a pena falar sobre estes problemas. Como disse, há segredos que não podem ser ditos. Eis que a resposta se esconde nas entrelinhas. Entretanto não pode ser jamais revelada. Ainda bem! Quero uma dose de amnésia e desapego. Vamos saborear uma poção do esquecimento, que nos livre do remorso. Eis que não haveria nada mais a se lamentar. Queria precisar sem exigências, sem as solicitações que entopem os diálogos de necessidades. Somente aceitar o que me é dado. Sem ir além. Sempre desejei ampliar as noites para que assim, talvez pudesse ter mais sonhos. Mas é impossível, os sonhos não se conservam para sempre. Sonhos morrem, assassinados pela desilusão. Estou meio adormecido, murmurando palavras fragmentadas… É a miséria do mundo que me força a pensar. E estou pensando tantas coisas hoje… Muitos sentimentos que se entrelaçam formando uma rede de sofrimentos. A vida excedendo-se em memórias. Um sentimento, uma canção, uma lágrima, tudo ocorre assim. Primeiro se sente, é saudade? Talvez. Depois se escuta aquela canção, é saudade? Provavelmente. Então surge a lágrima e tem-se certeza, tudo se resume a falta que nos faz.

É apenas uma melodia triste acompanhada de pranto. Olho pela janela, o orvalho sobre a grama, tudo amanhecendo em mim. É dia e lá fora o mundo ocorre. Eis que ouço o apito do trem e fico imaginando a existência do que me é exterior. Porque nada se resume ao que sou. Se sou realmente ou não sou. Se sou, por que sou? São tantas dúvidas que escapam às respostas possíveis. Este mundo está muito confuso. Se sofremos, não sabemos a razão, e se estamos felizes, é por causas que também desconhecemos. A verdade que se esconde sobre as mentiras de uma vida. “Uma mentira repetida inúmeras vezes se torna uma verdade.” Vamos esconder o que somos de nós mesmos. Vamos ignorar a realidade. Não quero ver-me ou conhecer-me. Vou apagar tudo que resta, não me deterei em contar as minhas desventuras. Sei que, há algum tempo, não acreditaria estar tão triste. Hoje se derramam lamentações. Je regrette tout! Mesmo que este tudo tenha sido o pouco que tenho. Mas não tenho, porque o que tinha, já se perdeu. O rio da Melancolia por onde segue minha embarcação finda numa cachoeira. Se quiser continuar a viagem devo seguir pelo rio da Ilusão. Mas não ouso dizer que gosto de viver. Não quero viver pelo simples fato de gostar da vida. Deve haver outras coisas. Talvez tão pequenas que não se vejam. Promessas que não se realizam… Coisas que esquecemos por muito tempo, e que subitamente recordamos, quando não há mais tempo para fazê-las. Não consigo suportar esta dor excessiva. Vou enxugar o pranto e confessar-me ao sol, às nuvens, ao céu azul desta manhã de junho. As coisas insistindo em serem, mesmo quando ser não faz mais qualquer sentido. E sentido se confunde com sentindo? Há algum sentido quando estamos simplesmente sentindo? Como descrever um mundo que me é externo? Sei que há muitos pássaros cantando na minha janela. E beija-flores, que voam frenéticos, talvez por existirem muitas flores a amar. Quantos beijos se podem distribuir na inconstância do amor? As palavras faltam e temo estar sendo repetitivo. Não pretendia falar sobre o que sou. Por que não importa minha identidade. Melhor se nem ao menos tivesse uma. Sei que me sinto sempre sozinho diante da vida. Ela é minha antagonista. Vivemos nos debelando. São lutas homéricas, tragédias e também poemas épicos. Mas não quero recordar tais histórias. Nem mesmo a minha. Só me atenho ao sentimento. E tudo que escrevo, vou sentindo. Não sei nem, ao menos, me nomear ou medir e juntar os fragmentos de que sou feito, mas consigo definir todos os sentimentos. Sensações que se fundem ao meu espírito. Um nada que é tudo.  E não sei se apenas existo… Essa é a profunda tragédia da vida… Ter que continuar o que começamos. Terminar as coisas que iniciamos… Sem saber o que realmente fazemos. Se nem ao menos nos conhecemos, como podemos conhecer os outros? O mundo é uma incógnita. A dor não é apenas passageira, porque vivemos a esconder as coisas que verdadeiramente importam. Vamos nos refugiando juntos na solidão. Nossas feridas expostas para secar no ar. E essa tristeza explicando-se por si só. Não consigo fingir que estas coisas que não tenho, não valem à pena. Sei apenas que as noites são mais poéticas que as manhãs. Porque há estrelas no céu e luminosos de neon na terra. Piscam em luzes coloridas, mas, como os arco-íris, são pura ciência. A claridade da razão iluminando o breu dos nossos espíritos. O que leva os homens ao suicídio? É o tempo ruim? A chuva? O frio? As razões seriam internas? Talvez, tenham somente desistido, porque a derrota é iminente. A vida é como um jogo de xadrez. Quando perdemos a rainha, o jogo está praticamente perdido. Mas há maneiras de recuperá-la, porém estão além do nosso alcance, haja vista que é muito difícil um peão chagar a última casa. Somos como este peão, andando uma casa por vez, enquanto nossos inimigos deslizam por todo o tabuleiro. E nós sofrendo ataques de bispos, cavalos, torres e rainha. Todos coadunados contra nosso pobre peão. O estranho é que continuamos. Passos lentos e esperançosos, mas esperanças são insetos frágeis. Sentimentos também. Percebo que a vida é também um poema. A tristeza apenas um de seus versos. Nada mais vai ocorrer nessa pálida manhã de junho, para mitigar, velar, cobrir ou ocultar os fatos, a realidade é fatal, não factual. E ainda não sei por que estou tão triste… Talvez porque não passe de uma esponja encharcada, cheia de emoções humanas. É tão desumano ser humano. A vida era mais fácil quando era apenas jovem. Acho que a razão de minha mágoa seja o correr dos anos que não posso evitar. O tempo nos devora.  Mas a verdade é uma miragem. Nada existe e mesmo o tempo é apenas uma ilusão no deserto de nossas vidas. O que me resta neste momento é a espera que apenas parta meu coração e leve consigo esta tristeza infinita…

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