Arquivo do mês: junho 2011

Sobre o cotidiano e a felicidade

Giordana Medeiros

O que precisamos para nossas vidas é objetivo, se resolvermos ser felizes, seremos. Tomemos como exemplo os seguintes fragmentos de cotidiano:

Um homem diz: “acordei com vontade de ser”. E se assim planejar todo o dia: “vou tomar meu café e sorrir a minha esposa. Vou acariciar o rosto de meu filho e dizer a minha família o quanto a amo. Vou ao trabalho por um novo caminho e nem mesmo o engarrafamento da hora do rush conseguirá demover-me da necessidade de existir. Vou escutar o chefe vociferar cobranças e com um coração puro, aceitarei a raiva sem refletir-la na minha secretária. Vou agradecer a pressão sofrida e relaxarei a tensão andando descalço sobre a grama. Vou comprar o jornal na hora do almoço e não me entristecerei com a situação política e econômica do país. Nenhum dos escândalos que costumam estampar as primeiras páginas será suficientemente terrível para quebrar o plano que tracei para meu dia. Vou rir das misérias humanas, porque sei que nada que faça será suficiente para debelá-las. Também não me ferirá ver os homens na mais absoluta pobreza. Vou acolher o faminto mendigo e oferecer-lhe-ei uma refeição, mesmo sabendo que qualquer coisa que faça não modificará em nada a realidade desse homem. Vou cruzar com garotos vendendo doces na esquina e, mesmo que não me agradem, vou comprar suas guloseimas pelo simples prazer que proporcionarei a pura alma dessas crianças maculadas pela dura sociedade. Não vou atravessar a rua para não cruzar com inimigos, vou, ao contrário, desfazer as desavenças existentes. Vou desculpar-me por meus erros, reconhecendo as minhas falhas. Hoje vou almoçar no melhor restaurante, não naquele de hábito, pelo simples prazer de satisfazer o paladar. Reformularei antigas metas, viverei sonhos antigos e ainda criarei outros para não perder a possibilidade de ter novos horizontes. Vou comprar um presente para meu filho, aquele trenzinho que ele sempre quis, o qual, por economia, não o adquiri. Vou encomendar flores a minha esposa, para dar-lhe certeza que ainda a amo e que nossa vida em família é tudo o que sempre desejei. Vou para casa mais cedo e mesmo que ocorra um problema no carro, como um pneu furado, não me afligirá nem destruirá o bom humor que cultivei durante todo o dia. O macaco quebrado e as horas perdidas no borracheiro são um imprevisto compreensível, mesmo que o valor cobrado pelo concerto da roda seja absurdo, isso não me importunará. Ao sair da borracharia, vou desapertar o nó da gravata, vou respirar fundo e ainda que gaste horas num grande congestionamento, também isso, não me irritará. Vou aprender a ser paciente, ouvindo uma canção antiga no rádio do carro, vou cantar em voz alta sem me importar com a opinião dos outros motoristas. Não vou me alterar com a manobra arriscada, feita em frente a meu carro, que poderia causar um acidente. Nada disso, nem mesmo a chuva que resolveu cair durante a noite, as poças que sujam o carro, a enxurrada que inunda as ruas, trar-me-á qualquer raiva. Ao chegar em casa, abraçarei meu filho e esposa, que estarão felizes a minha espera e conversaremos sobre nossos dias, sobre as aflições que não conseguiram destruir nosso bom humor. E mesmo que o jantar tenha queimado e que tenhamos de comer pizza novamente, não haverá qualquer desconforto em função deste evento. Ficaremos felizes com nossa rotina tão atribulada e nossas vidas imperfeitas”.

E, depois de tantos planos, esse homem consegue perceber que o essencial não será a rotina, nem os fatos que se passarão nesse dia, mas tudo que se encontra entremeado nele: o senso de humor, o amor, a boa vontade, a amizade e a generosidade, pois, o primordial, não é o cotidiano, mas tão somente os sentimentos com que nos blindamos para enfrentar a guerra de ser. É a partir destes fatos que vivemos todos os dias, de forma diferente, mas, de certa maneira, tão semelhante, que nos damos conta que a rotina é o que escolhemos fazer dela. O dia pode ser realmente terrível, com imprevistos, contratempos, esperas e ausências, mas, se tomarmos como objetivo sermos felizes, o seremos porque, de uma maneira ou de outra, somos fruto de nossas escolhas. Então, antes de levantarmos da cama, todos os dias, antes iniciar esta batalha que denominamos cotidiano, tentemos planejar o dia, imaginar todos os componentes desta jornada e de que maneira poderemos contornar os problemas, pois estes, com certeza, surgirão. Deveremos fazer isto sempre com intuito de perseverar nos bons sentimentos, essa é uma atitude difícil, devemos admitir, pois a rotina mina as nossas defesas, e o dá ensejo a intromissão dos maus sentimentos em nossa vida. Sem que percebamos estaremos depreciando nossos hábitos, destruindo a felicidade, pois se não virmos a vida com a leveza que esta merece, ser será um verdadeiro tormento. Por tal razão, é fundamental, dotarmo-nos de objetivos, se queremos ser felizes, devemos ter a felicidade por meta principal. E desse modo poderemos construir-la com as peças que a nossa vida oferece. A rotina mais devastadora, onde os acontecimentos mais inconvenientes ocorrem, pode ser transformada no dia mais agradável já vivido, em função dos meios com que escolhemos encarar o cotidiano. Se enxergarmos a vida sob as lentes dos bons sentimentos, o que veremos será unicamente o prazer de ser, a existência nas suas feições mais belas. Pensemos novamente, se a mesma rotina que tomamos como exemplo, fosse vivida de forma diferente, como teria sido? Se o homem ao invés de resolver ser, tivesse como intuito tão somente sobreviver? Ele não planejaria seu dia, esperaria tão somente que os fatos ocorressem, não perceberia o quanto ama sua família, pois não aproveitaria os mínimos minutos que estaria com ela. Sofreria com os imprevistos, com a rotina atribulada da vida moderna. Se o chefe o tratasse mal, da mesma forma assim trataria quem estivesse a sua volta. Irritar-se-ia com a miséria humana e também com a miséria dos homens. Indignar-se-ia com os escândalos políticos e a situação econômica do Brasil, e tais fatos acabariam com seu humor. Por isso não presentearia a mulher e o filho em virtude das economias que fazemos e que no fim não se justificam. Não realizaria os sonhos antigos e nem mesmo pensaria em novos, pois não visualizaria qualquer possibilidade de concretizá-los. Amealharia inimigos e não resolveria velhas desavenças e, muito menos, construiria novas amizades. Comeria a mesma comida intragável no almoço quando se poderia conceder o prazer de provar novas delícias. O pneu furado seria uma calamidade, bem como o valor de seu concerto. O engarrafamento, por sua vez, desencadearia uma sequência de reclamações e o jantar queimado seria a razão de uma discussão desnecessária e sem fundamento. O homem, imbuído de maus pensamentos, não veria o mais importante da vida que são os sentimentos que a constroem. Porque, é necessário asseverar, a nossa existência é o que escolhemos fazer dela. Podemos escolher viver um cotidiano insuportável ou tratá-lo com a leveza com que deve ser realmente vivido. Por isso, antes de acordar, devemos traçar os objetivos que queremos atingir, pois, ao final, a vida assume a responsabilidade de trazer a felicidade que tanto se deseja.

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Eu acredito em estrelas cadentes

Giordana Medeiros

Ontem, no crepúsculo que precede a noite, fui surpreendida por uma estrela cadente. Como é comum, procurei em mim desejos que queria ver realizados, por alguns minutos fiquei a pesquisar no meu espírito algo que almejasse com tanto vigor que pudesse ser pedido a uma estrela cadente, meteoritos, que não se sabe por que, os homens os atribuem o poder de satisfazer aquilo que lhe solicitamos. Porém percebi que havia muitos, mas muitos desejos a se fazer e coisas que queria que ocorressem, as quais em função de minha própria passividade perante a vida ou de meus temores frente ao mundo, não têm a mínima possibilidade de serem em fim realidade. E tinha medo de errar, como fiz numa outra oportunidade, num outro momento, há treze anos, quando fui agraciada com a visão deste corpo cósmico atraído pela gravidade terrestre, em que desperdicei o pedido com algo que não queria realmente ver realizado. Na primeira vez em que vi um meteorito em chamas cruzando o céu, era noite, estava com meu pai e vivíamos, naquele momento, uma situação de grande fragilidade em nossa família: minha irmã mais nova estava grávida, com apenas catorze anos, era mãe solteira, o que acabou por se tornar um abalo sísmico nas estruturas de nosso lar. Estávamos muito feridos, porque, como uma família muito tradicional nordestina, casos assim, são vistos como uma grande mácula no trato social. E ao ver a estrela cadente fiz um pedido do qual viria arrepender-me profundamente. Num ímpeto de manter o que entendia por vida, a candura e rigidez do ambiente em que fui criada, desejei que minha irmã perdesse o neném que crescia em seu ventre. Quando nasceu meu sobrinho, fiquei feliz que o meu desastroso pedido não veio a se concretizar. Não quero de modo algum perder esse menininho, que transformou sim nossa família, mas para algo muito melhor. Ainda vivemos terremotos, mas depois da primeira calamidade, do raio que nos acertou quando estávamos descuidados, conseguimos nos reerguer mais fortes. Minha irmã deu a luz ao meu sobrinho mais velho, que, hoje, é um dos meus mais preciosos companheiros. Acho que a estrela cadente deu a mim o que precisava e não aquilo que eu queria. Porque nem sabia o queria realmente. Meus desvelos com o Marquinhos, a criança que nasceu sob a insígnia da mudança, são muito maiores, tendo em vista temer que a estrela resolva de algum modo cumprir com o prometido. Situações como a que vivi, outros também viveram, pois acontecem a todo o momento e  temos medo do que desconhecemos. Temos de evoluir com nossos erros. E de algum modo, confesso, que evito estas situações. Meu temor de errar acaba por engessar a minha vida. Evito as mudanças. Fico presa numa realidade que talvez não seja a melhor por medo de ter de enfrentar o inesperado. Contudo, há, ainda, uma margem para as novidades. Consegui há pouco tempo a aprovação para uma nova faculdade e fiz uma revolução no cotidiano a que estava acostumada. Deixei o frio mundo das normas para aventurar-me no instável mundo das letras. Estou aprendendo a andar na corda bamba, porque não há nada mais perigoso que a nitroglicerina das palavras. Só que, por uma ironia da vida, uma nova chance me foi concedida, na noite anterior, fui agraciada mais uma vez com uma estrela cadente que premiou meus olhos ao cair da noite. Naquele momento, em meio a tantas possibilidades, tentei concertar o primeiro pedido, que outrora fiz e que não quero de modo algum ver realizado. Em mente, com o silêncio dos meus pensamentos, solicitei que esquecessem meu pedido de treze anos atrás. E ao invés do que pedi naquela ocasião, que me concedessem o privilégio de ver os filhos dos meus sobrinhos. O amor é o sentimento mais confuso que existe. Evitamos amar, mas é impossível pegar no colo seres tão frágeis, como meus sobrinhos o eram no momento do nascimento, sem se encantar. Recordo de aconchegar-los no meu colo e pedir para que nada de ruim os ocorresse. Espero que a estrela me ouça dessa vez. Todavia, caso ache melhor, possa conceder-me aquilo que necessito e não apenas o que penso como essencial para mim. Por que posso errar nas palavras, mas no coração não há erro que não possa ser remediado. Tenho apenas a certeza que, mesmo que não realizem meus desejos desastrosos ou não, eu acredito em estrelas cadentes.

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A música ainda toca em mim

Giordana Medeiros

Silêncio. Eis que ainda consigo ouvir a música que ela cantava no momento em que nos conhecemos. Mesmo aqui, onde o que há é apenas o vazio, o nada que preenche tudo. E nesse recinto vou me perdendo em sentimentos. E encontrando-me perdido nas partituras. A voz que era doce, agora amarga em minha boca. Sensações conflituosas me assaltam, ora estou devastado, como a Terra de Eliot, ora estou recuperando-me e até me levanto da cama… Mas ainda estou destruído. Sem força para viver, por que continuar? Será que ainda posso reerguer-me? A morte é tentadora… Ela observa-nos sorrateira e está de longe acenando para nós. E mostra-se como a saída mais viável. Pérfida serpente. Fruto proibido que se apresenta apetitoso, mas na realidade é a maçã envenenada que nos fará dormir por mil anos. Se bem que não seria tão ruim dormir… Cair em sono profundo por anos e só despertar quando o mundo fosse outro, quando a realidade houvesse se modificado o suficiente para ser ao menos suportável. Está tão frio. Aqui o inverno torna as noites gélidas. E não há mais o corpo dela para aquecer ao meu. Somente as mágoas que são bem palpáveis para mim. Solidão que não é apenas sentimento. Converte-se em corpo físico, peso que está acorrentado aos meus pés. Prisioneiro desta relação que terminou, vou musicando os momentos de dor. Minha canção é uma saudade, minha solidão a percussão que bate no meu peito: tum-tum, tum-tum. Sei que ando a viajar em fotografias, nos momentos de alegria, aos quais recorro quando a vontade de estar com ela é insuportável.  A falta que ela me faz é enorme, mas, com o passar dos dias, sinto que vou perdendo um pouco das lembranças, de repente, vão sumindo as recordações, tudo se desfazendo em nada. O que foi, no pretérito perfeito, vai se tornando o que era, no pretérito imperfeito. Mas a música, que ouvi de seus lábios, aquela que ela cantava naquele bar, uma canção amor de desespero, almas retratadas num retrato em branco e preto, ainda soa em mim. Vou derramando-me em notas musicais, convertendo lágrimas em versos, que sou todo poesia, já ela, toda canção. Ela tem a alma boêmia, mas minha sina é a responsabilidade, a estabilidade do mundo. Não suporto terremotos, mas ela só queria viver no limiar do perigo. Não sei navegar sem uma bússola e um astrolábio, ela não discernia entre os caminhos, as rotas que tomava conflitavam comigo. Nem sei como nos separamos, mas nos separamos. E aqui estou a maldizer o nosso amor. Reclamar da casa em desordem, dos momentos perdidos na loucura de um amor que findaria… Tudo que éramos desmoronando no vazio. Dinamites de indiferença destroem um relacionamento. Lembro ainda de nós dois naquela lagoa, calmaria de sentimentos, tão incomum para uma relação instável como a nossa… Eram quase duas da tarde. E havia garças se alimentando dos peixes incautos, flores ao redor, um parque maravilhoso, de grama verde e sensações bucólicas. Um oásis no seio da cidade e no seu colo deixava-me levar no sono leve, borboletas esvoaçantes dançavam num balé de colorido, estava num pedaço do paraíso. O paraíso é realmente na outra esquina… Porém, sem ela, aqui em Brasília, é impossível o encontrar.  Nestas ruas numeradas, entre tesourinhas que não cortam e blocos que não se montam… Tudo o que vivo todos os dias. Nesse viver conflituoso de querer e não querer, ter, mas não ter. Se pudesse voltar àquela cidade onde perdi meu coração… Hoje carrego um vazio no peito. “Devolva-me o que é meu!” Diria se por ventura a reencontrasse. Mas ela responder-me-ia, que não se pode reaver o que é doado. E realmente me desfiz da minha alma e entreguei-a a ela. E vou escrevendo até reencontrá-la. Nas mentiras onde foi segregado todo meu sentimento. Sei que agora deve cantar a outros ouvidos, nem pensa mais em mim… Contudo a lembrança dela ainda está presente, mesmo que vá se dissolvendo lentamente, como sorvete derretendo no sol da tarde. E eram quase duas horas, naquele dia, em que o céu estava límpido e as coisas existiam sem razão, nós dois também. Para que ter discernimento? Fui me acostumando a andar na corda bamba de sua vida. Ela, porém, não se adaptou ao regramento de minha existência. Éramos fogo e gelo. Ela, a crepitante loucura, eu, a sólida razão. Hoje eu sou amor, ela, ódio? Eu ainda queria ver-lhe o meio sorriso misterioso, pintura enigmática de Da Vinci. O corpo leve embalado pela música. Minha vida que perdi. Sei que só ela tinha a chave de minhas defesas, minhas muralhas quase impenetráveis de medos. Ela conseguiu abrir portas nas estruturas coesas do que era. E eu era algo tão pequeno e simplório. Ela um furacão que desestruturou o que era, tornando-me um ser dependente de amor. E ela desprezou tudo que a oferecia, porque o que tinha era muito pouco. Sentiu-se atraída por outras canções e a música que possuíamos silenciou-se. Só eu posso ouvir agora.

Hoje a canção pesa em mim como melancolia. Não me desperta mais o desejo, mas outros sentimentos: saudade,talvez nostalgia e um tanto de desespero. Amo-lhe ainda em segredo. É tão secreto este amor que nem a mim mesmo revelo. Estou desmontando a casa, tudo que restou de nós. Agora sou só eu. Por que uma cama tão grande? Unicamente para sentir a falta do corpo dela ao meu lado? E é necessário despregar o amor das paredes, limpar as marcas dos lençóis, dividir os espólios de uma guerra vencida, onde mesmo o vencedor saiu derrotado. Recolher os cacos dos corações partidos após as tempestades das conversas. O amor que não resistiu às ironias, às simulações e às meias-verdades.  Empilhando os remorsos junto com as caixas que levam metade de tudo que fomos. E parecíamos nos amar perdidamente. Ocorre que um dos dois descobriu um mapa e se reencontrou. Houve um tempo em que, apaixonados, nos encontrávamos nas ruas da cidade que se banhava nas águas do Guaíba. Tempo do qual restou tão somente fotografias rasgadas num momento de raiva. Ato que se lamenta depois quando, com fita adesiva, tentamos remendar o que não tem concerto. Era tão pitoresco aquele modo de amar, quando adorava o modo como ela se penteava, as mãos delicadas que tocava quando ela servia a mesa… Um certo modo de amar que se perdeu… O que foi que acabou para nós? Será que relacionamentos têm prazo de validade? Tudo é assim e fim? Vamos escapar de nós dois com as malas e roupas nas mãos, entre insultos e soluços, vozes embargadas e acusações? O amor ruiu, corroído pela ferrugem da convivência. E teve pressa de partir. Foi com ele o cachorro e os livros de Clarice. Restou o rádio, o abajur espatifado e as estantes vazias. Fui um dia a sombra, que buscou no corpo dela, a luz de que era ausente. Como um fantasma que se refugia na solidão, vou agora tentar reconstruir algo com os restos que me pertencem. A síntese desta história é que nem sei onde ela terminará. Com que palavras poderia dar um basta a uma sensação presente? À ausência dela pesando em mim? Vou apenas descrevendo o que sinto com frases vãs. Vou pensando nas alegrias que vivemos e parece-me que nada ocorreu, tudo que fomos não passou de um sonho, parece até que fora em outra vida, em que um dia pude chamá-la: minha querida! E nem sei mais o que tais palavras significam, porque nem querer me é mais concedido. Fico aqui perdido no meu exílio do mundo em que estou presente em corpo, mas não em espírito. Sei que há muito a ser esquecido, as cartas apaixonadas ainda guardam as marcas de nossas lágrimas. E os travesseiros preservam o aroma do perfume dela. Também demora em mim a canção, que um dia ouvi de seus lábios. Nossa vida comporta assim tanta dor? Ficarei eternamente encarcerado por este desolado desespero, lamentando meus sonhos desfeitos e as promessas não cumpridas? Esse sentimento que não pode ser exprimido, pois saudade é exclusivamente nossa. Não há como dividir. Já amor é para ser vivido em conjunto. Quando isso não ocorre, torna-se sofrimento. Estou me torturando nessa madrugada invernal, com as mãos frias, tentando entender o incompreensível. Este martírio que só pode ser poesia ou música, mas a canção perdeu-se nela e só sei chorar em versos. Minha dor na ponta da pena, num desejo lúcido, todavia, mesmo assim, indefinido. De quê? De poder dizer a ela que a música ainda toca em mim. A canção permanece em meu espírito. A voz que me afagava os ouvidos, num toque delicado no coração, ainda está aqui. Jaz em mim, na solidão das gélidas noites insones, este câncer sem remédio, que corrói o que somos por dentro. Sentir e sofrer, sofrer e sentir. Eis a dualidade do que sou. Minha vida fechando-se como um leque. Continuo a recordar aquela tarde, no parque que nos redimia, mas não nos libertava. Você assistia as crianças divertirem-se com bolhas de sabão e soltarem gritinhos de prazer ao estourar as bolhas delicadas… Aquilo seria o que poderia ser designado como paz? E o que sinto agora é o que se chama conflito? Meus olhos aquecidos pelas recordações, marejados pelas lágrimas com sabor de infinito. Naquela sombra entre a luzidia tarde de verão e o arvoredo, entre o desejo e o não pensar, este meu ser secreto, que ela veio a descobrir muito depois, permanecia calado, sob as camadas de medo que me serviam de armadura. Mas ela foi escavando minha alma, fazia questão em me descobrir, sem temor do que viria a encontrar. O problema que quando soube quem eu era na verdade, quando caíram todas as minhas defesas, foi difícil a ela aceitar-me, sem as máscaras que me protegiam. Fiquei suscetível. Frágil, nossa relação desgastou-se pelo uso. A fita terminou, subiram os letreiros e fim. Sei apenas que tudo que não foi não poderá ser jamais, a paixão, se ainda existe, se ignora e o amor em silêncio se desfaz.

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Sou o sonho de tua esperança

Tua febre que nunca descansa

O delírio que te há de matar!…

Álvares de Azevedo

O cavaleiro da morte

Giordana Medeiros

 Estava naquela noite de eclipse da lua, em que as sombras parecem cobrir tudo, sentado em minha poltrona, bebendo uma xícara de café, perdendo-me no labirinto de pensamentos que ora me liberta, ora me aprisiona. Divagando entre as noções que possuo do sempre. Esse sempre que parece ser tudo, mas tudo nunca é sempre, e sempre perco tudo quando tudo se desvenda no sempre. E, enquanto me concentrava nestas questões, aparentemente sem qualquer importância, ele chegou e com sua presença fria, foi se aproximando de mim. Ele tinha um corpo translúcido, em que a matéria parecia não pesar em absoluto. Não tive coragem de tocá-lo, para saber a consistência de que era feito, de modo que pudesse descrever com mais propriedade este ser que não era em absoluto. Se houvesse sido, fora há muito tempo atrás. Hoje seria possível dizer que ele não era um ser. Era algo, porque uma alma sem corpo é tão inútil quanto um corpo sem alma. Minha primeira reação foi de espanto, não surpresa, pois me parecia que já o esperava. Como se o aguardasse por toda a vida. E ele finalmente chegou, sentou-se na poltrona à minha frente, encaramo-nos por vários minutos, em silêncio nos avaliávamos. Ele trazia consigo todo um passado, a história que se perdeu de mim. Ou será que fui eu quem perdeu toda a minha história? E era como um espelho que me refletia, mas não me refletia, pois não era a minha face o que via, mais a expressão de todos os meus medos. Tudo que faz parte de mim, mas não me define. Eis que pergunto sua identidade. E um sopro frio de morte saiu de seus lábios:

-Sou o Cavaleiro da morte, o que traz consigo o fim do mundo. Não vê que trago a armadura, espada e escudo? São minhas armas que me definem, sou o fim de toda esperança, a derradeira lembrança que aos homens ocorrem antes da morte.

-E veio aqui me levar? Chegou a hora que a vida evita? Quando ocorre aos homens a definição de toda existência? Estou pronto há tanto tempo, vinha esperando sua chegada com ansiedade, pois sabia que estava próximo o fim. E ouvia o murmúrio do vento e as promessas do sonho, que me diziam que esta hora chegaria, que sua visita não tardaria. A morte sempre chega no tempo certo, mas jamais estamos preparados para ela. Contudo, estou sereno, não me desconcerta sua chegada repentina. Faltam-me algumas resoluções, cartas que deveria escrever, mas não o fiz. Dívidas a pagar que estão ainda pendentes, mas creio que saberão como resolver cada uma dessas questões, mesmo que não mais aqui esteja. Mas, me diga, Cavaleiro da morte, veio aqui proclamar o fim do mundo, ou tão somente minha alma o interessa?

-Nem uma coisa nem outra. Vim apenas cavalgando pelos campos ressequidos do reino de Hades (pois mesmo a proximidade do Letes não os torna férteis. O reino inferior não é lugar para a vida. Tão somente dor e esquecimento) e cheguei aqui por saber que me perseguia. O trote de meu cavalo ressoava em sua mente, e fui me aproximando com seu próprio consentimento. Seu suspiro profundo, sua melancolia, veio me guiando por este mundo. Sei que estava a minha espera, mas não é a hora ainda, tenha calma e espere. Estou aqui para falar sobre o mundo, sobre o tempo e sobre todos estes males que atormentam o homem em vida. E para você sou uma quimera. Tenta compreender-me, finge não me temer e solicita com veemência minha presença. Então estou aqui, a morte sempre lhe foi companheira, portanto vem a sua presença dialogar consigo.

-Oh Cavaleiro da morte, faço minhas as palavras de Pessoa: “leva-me longe meu suspiro fundo, além do que deseja e que começa, lá muito longe, onde o viver se esqueça das formas metafísicas do mundo.” Bem o sabe, você, a quem pelos meus apelos veio guiado, tantas noites fui tomado pela amarga solidão, que mesmo a companhia da temida morte é-me mais agradável que este vazio profundo. Este silêncio que toma todos os espaços, e ocupa-me em meditações sem qualquer sentido. Estava pensando sobre o dilema do sempre. E como tudo e sempre limitam o que, na verdade, é infinito. E são tantos ais que profiro aqui neste mundo, nesse sentir vago e profundo, onde o exterior me desfalca do tudo, imagino regiões em que possa encontrar o espírito que me foge, onde estaria enfim o sonho verdadeiro…

-Sei que vem esperando a solução pronta destes terríveis dilemas. Mas lhe devo asseverar, como bem diria Pessoa, o poeta de quem imita as palavras: “é elevar demais a aspiração, e falhado este sonho derradeiro, encontra mais vazio seu coração.” Portanto, é mais negócio resignar-se ao que lhe confere a vida. Deve se acostumar com a solidão, este vazio repleto de esperas, e tentar conviver com o que está ao seu alcance. Essas coisas que compõem o sempre não são tudo. Sempre e tudo são palavras que ao invés de definir o infinito lhe limitam a sentenças curtas que não guardam em si todo o sentido do que na verdade compõe o universo. O sempre e o tudo não têm limites. E eis que o que separa os mundos, estrelas e todos os astros é o vazio. De tantos nadas é composto o tudo! Nesta noite em que tais males lhe afetam deveria, ao menos, tentar dormir. Muito mais benfazejo é o sono àquele que padece na solidão que a amarga vigília.

-Nem durmo, nem mesmo almejo dormir. Nem na morte, espero, um dia, vir a dormir. A insônia da largura dos astros, da extensão do universo, toma-me e guia-me pelas horas escuras. Mas nada mais que apenas pensar me ocorre nas noites infinitas. Não posso ler ou escrever, tão somente pensar nessas questões cujas respostas escapam aos homens comuns. E eis que nem mesmo a morte que de armadura se me apresenta, tem consigo a solução dos dilemas mais intricados. Por isso que nem sonhar ouso nestas madrugadas insones. Escuto música e vou me perdendo nas sonatas ao luar.

-Não dorme, na verdade jaz como um cadáver, que embora acordado, morto, vai sentindo todas as dores do mundo. Aquilo que nem ousam pensar, eis que encontro você nisto demorando, remoendo questões das quais escapam as respostas, dúvidas que persistirão muito depois do momento certo de levar-lhe comigo pelas águas do Letes. Passam por você as coisas que sucederam muito tempo atrás, coisas das quais ainda se arrepende e culpa, bem como aquelas que não lhe ocorreram que também lamenta, mesmo que não tenha qualquer responsabilidade sobre estas. E ainda coisas que não são nada. E, mesmo em função destas, você se penaliza. Sem força, fecha os olhos e tenta se enxergar por dentro, mas só encontra aquilo que já vê por fora: o breu de uma noite vazia, mas cheia de sentimentos.

Sem energia para acender um cigarro fito a parede, desvio o olhar do fantasma que se apresenta a minha frente. E penso nesta fronteira do meu universo interno para o externo. Lá fora o silêncio, todos dormindo, ninguém a pesar os temores do mundo, ninguém a tentar solucionar as dúvidas insolúveis da solidão. Essa coisa toda em que me detenho nas madrugadas de insônia e esperas. Tudo isto: um grande silêncio mais apavorante que o espectro que tenho a minha frente. São tantas coisas, a verdade toda, a vida toda fora desta sala, fora desta casa e fora de mim.

-Espectro, profiro num soluço, as lágrimas embargam-me a voz. Sabe tanto sobre mim e tantas dúvidas tenho sobre tudo. E o que eu chamo tudo é este nada que, na verdade, compõe o tudo de que falava. Tenho sono, mas não durmo, sinto e não sei sentir, sou uma sensação apenas, a falta que nos provoca uma saudade. Uma abstração da consciência, é o que sou ou o que você é? Quem somos eu e você? Esse diálogo, que travamos, é real ou será que durmo e, durante o sono, sonho, que está a minha frente o Cavaleiro da morte, cavaleiro apocalíptico, que me visita em vida para responder-me que ainda me tarda a morte?

-Não tenho respostas para esse dilema, saiba somente que sou produto de sua solidão. Talvez uma ilusão que lhe assalta na madrugada. Sou o cavaleiro das armas escuras, armas que traz em mente. Espada de fio permanente. Não é necessário limar, que jamais perderá o corte. Trago o escudo com que se protege da vida e ainda a armadura de medos que lhe cobrem o espírito. Fui cavalgando nessa noite de melancolia e, ao seu apelo, pude ouvir. Então lhe ofereci minha companhia, mesmo que tão temida pelos homens, nesta madrugada insone. Aceitou de pronto que junto a si me sentasse. E viemos dialogando seus temores desde então.

-Tardará tanto a minha morte quanto tarda a amanhecer o dia? Esta noite que se prolonga em mim? Esse vazio cheio de mentiras, esse sonho vazio de verdades, será que findará? Ou terei apenas a surpresa que na realidade nada existe? A solução das mais difíceis dúvidas é que, o que existe não existe na verdade. E que a vida terminará como um sonho do qual despertamos… Então sei a resposta da questão que me atormentava…  Falo tudo isso rapidamente, como se viesse a muito ensaiando dizer tais palavras que proferi de assalto e sem preparo.

O cavaleiro, contudo, se levanta, faz uma reverência e despede-se sem me dizer as soluções dos meus dilemas a que tanto procurava. Ainda tento pedir que fique, pois a madrugada ainda por muitas horas se estenderá silenciosa. Ele, porém, diz que deve seguir, há muitas almas a se colher pela noite, que é chegada a hora de partir. Porém ainda pergunto:

-Aonde vai por estas trevas impuras? A que porta vai bater sua misteriosa figura ainda esta noite?

Mas ele me abandona sem responder aos meus anseios. Ainda ouço, por algum tempo, o trote de seu cavalo partir. E é noite absoluta lá fora. A humanidade a dormir, esquecendo suas alegrias e amarguras, todavia mesmo acordados os homens a tudo esquecem. Eu, entretanto, não durmo e de tudo me recordo. E agora fico a cismar na espera que o espectro retorne, mas, para que, desta vez, possa me acompanhar, finalmente, na travessia do Letes.

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Por que estou triste?

Giordana Medeiros

Por que estou triste? Pergunto ao espelho onde meu reflexo se mostra tão perplexo quanto eu. Há alguma razão para este pranto? Por que meu coração dói? E dói ainda esta saudade em mim de um tempo em que o tempo não era importante? Havia o futuro que, de tão distante, parecia mágico. Mas se passaram anos e desfalcaram-me do que entendia como esperança. Hoje só tenho a espera muda. O silêncio constrangedor que, sem palavras, diz muito. Vou fechar as janelas para não ouvir o sussurro do vento, um murmúrio, numa manhã solitária. Eis que a brisa traz o outono. As folhas caem por causa do frio, por falta da chuva e por medo do inverno. E meu coração também desfolha-se pelos mesmos motivos. Sou o cantor da solidão, dos momentos vazios, os quais tento preencher de sentimentos. Meu coração parte, vai-se com as ondas, vagas da cor da esperança, numa história que começou, mas não teve fim. Vai ao encontro do amor, apesar da tamanha distância e das inúmeras adversidades que o aguardam. Seguem-lhe minhas saudades, que pretendem ao meu amor socorrer. Mas se vão também minhas fantasias, que se dispersam nos campos, nos vales e montanhas. Minhas ilusões cobrindo o mundo, são sementes de sonho, se florescessem seriam lírios selvagens, flores do campo, cujas túnicas seriam da cor da pureza e da inocência do que desejo. Nem desejo nada. É um apelo somente. Mas não ouso pedir. Pois não espero que vá receber. Por que o céu me fez assim? Por que há tanto a se lamentar nessa vida? Por que tanto ressentimento? Minha alma geme aflita. Nem queiram saber por que suspiro. Há razões que não devem ser reveladas. Há motivos que não devem ser expostos. Minha alma sangra em silêncio. E meu corpo padece de dores que não existem, mas insistem em ferir. A inexistência de razões é a razão predominante. Como reduzir a angústia que sinto? Esse doce padecer, porque sofrer também é bom. Eu sozinho, eu que não existo. Pois eu é apenas um termo, ora conveniente, que utilizo para fingir que não sou alguém desprovido de existência real. Minha história que me persegue, segue-me ao meu quarto e invade meus sonhos. Não posso mais pensar sem me dar conta do que sou. Sei que estou aterrorizado com minha própria solidão. As severas dores que me torturam, deixam marcas no meu espírito. Feridas que não cicatrizam e estão sempre abertas. Latejam como uma saudade.  Se pudesse olhar as coisas de outro jeito, um jeito mágico que fizesse tudo ficar mais bonito… Mas vejo tudo sob as lentes da solidão, que convertem o colorido no cinza. Cores são privilégio da felicidade. Arco-íris outrora me traziam sorte. Porém, somente quando era criança. Os arco-íris perderam a magia quando descobri que são mera decomposição da luz branca. Não há potes de ouro, relacionados a estes, nem qualquer outra fábula que costumava ouvir. Simplesmente ciência. Razão que racionaliza tudo. O segredo do belo está em nós. Naquilo que escolhemos ver. Mas quando nos abstemos da responsabilidade de sermos o que somos? O que pode explicar nossa tristeza? Será que não aprendemos ainda a olhar? Só consigo ver o que tenho por dentro. E é tudo tão sujo e feio… Vez em quando baixa uma saudade… Aquela falta de ser o que não se é, mesmo que nunca se tenha sido. Só que isto ocorre quase sempre. Mas não vale a pena falar sobre estes problemas. Como disse, há segredos que não podem ser ditos. Eis que a resposta se esconde nas entrelinhas. Entretanto não pode ser jamais revelada. Ainda bem! Quero uma dose de amnésia e desapego. Vamos saborear uma poção do esquecimento, que nos livre do remorso. Eis que não haveria nada mais a se lamentar. Queria precisar sem exigências, sem as solicitações que entopem os diálogos de necessidades. Somente aceitar o que me é dado. Sem ir além. Sempre desejei ampliar as noites para que assim, talvez pudesse ter mais sonhos. Mas é impossível, os sonhos não se conservam para sempre. Sonhos morrem, assassinados pela desilusão. Estou meio adormecido, murmurando palavras fragmentadas… É a miséria do mundo que me força a pensar. E estou pensando tantas coisas hoje… Muitos sentimentos que se entrelaçam formando uma rede de sofrimentos. A vida excedendo-se em memórias. Um sentimento, uma canção, uma lágrima, tudo ocorre assim. Primeiro se sente, é saudade? Talvez. Depois se escuta aquela canção, é saudade? Provavelmente. Então surge a lágrima e tem-se certeza, tudo se resume a falta que nos faz.

É apenas uma melodia triste acompanhada de pranto. Olho pela janela, o orvalho sobre a grama, tudo amanhecendo em mim. É dia e lá fora o mundo ocorre. Eis que ouço o apito do trem e fico imaginando a existência do que me é exterior. Porque nada se resume ao que sou. Se sou realmente ou não sou. Se sou, por que sou? São tantas dúvidas que escapam às respostas possíveis. Este mundo está muito confuso. Se sofremos, não sabemos a razão, e se estamos felizes, é por causas que também desconhecemos. A verdade que se esconde sobre as mentiras de uma vida. “Uma mentira repetida inúmeras vezes se torna uma verdade.” Vamos esconder o que somos de nós mesmos. Vamos ignorar a realidade. Não quero ver-me ou conhecer-me. Vou apagar tudo que resta, não me deterei em contar as minhas desventuras. Sei que, há algum tempo, não acreditaria estar tão triste. Hoje se derramam lamentações. Je regrette tout! Mesmo que este tudo tenha sido o pouco que tenho. Mas não tenho, porque o que tinha, já se perdeu. O rio da Melancolia por onde segue minha embarcação finda numa cachoeira. Se quiser continuar a viagem devo seguir pelo rio da Ilusão. Mas não ouso dizer que gosto de viver. Não quero viver pelo simples fato de gostar da vida. Deve haver outras coisas. Talvez tão pequenas que não se vejam. Promessas que não se realizam… Coisas que esquecemos por muito tempo, e que subitamente recordamos, quando não há mais tempo para fazê-las. Não consigo suportar esta dor excessiva. Vou enxugar o pranto e confessar-me ao sol, às nuvens, ao céu azul desta manhã de junho. As coisas insistindo em serem, mesmo quando ser não faz mais qualquer sentido. E sentido se confunde com sentindo? Há algum sentido quando estamos simplesmente sentindo? Como descrever um mundo que me é externo? Sei que há muitos pássaros cantando na minha janela. E beija-flores, que voam frenéticos, talvez por existirem muitas flores a amar. Quantos beijos se podem distribuir na inconstância do amor? As palavras faltam e temo estar sendo repetitivo. Não pretendia falar sobre o que sou. Por que não importa minha identidade. Melhor se nem ao menos tivesse uma. Sei que me sinto sempre sozinho diante da vida. Ela é minha antagonista. Vivemos nos debelando. São lutas homéricas, tragédias e também poemas épicos. Mas não quero recordar tais histórias. Nem mesmo a minha. Só me atenho ao sentimento. E tudo que escrevo, vou sentindo. Não sei nem, ao menos, me nomear ou medir e juntar os fragmentos de que sou feito, mas consigo definir todos os sentimentos. Sensações que se fundem ao meu espírito. Um nada que é tudo.  E não sei se apenas existo… Essa é a profunda tragédia da vida… Ter que continuar o que começamos. Terminar as coisas que iniciamos… Sem saber o que realmente fazemos. Se nem ao menos nos conhecemos, como podemos conhecer os outros? O mundo é uma incógnita. A dor não é apenas passageira, porque vivemos a esconder as coisas que verdadeiramente importam. Vamos nos refugiando juntos na solidão. Nossas feridas expostas para secar no ar. E essa tristeza explicando-se por si só. Não consigo fingir que estas coisas que não tenho, não valem à pena. Sei apenas que as noites são mais poéticas que as manhãs. Porque há estrelas no céu e luminosos de neon na terra. Piscam em luzes coloridas, mas, como os arco-íris, são pura ciência. A claridade da razão iluminando o breu dos nossos espíritos. O que leva os homens ao suicídio? É o tempo ruim? A chuva? O frio? As razões seriam internas? Talvez, tenham somente desistido, porque a derrota é iminente. A vida é como um jogo de xadrez. Quando perdemos a rainha, o jogo está praticamente perdido. Mas há maneiras de recuperá-la, porém estão além do nosso alcance, haja vista que é muito difícil um peão chagar a última casa. Somos como este peão, andando uma casa por vez, enquanto nossos inimigos deslizam por todo o tabuleiro. E nós sofrendo ataques de bispos, cavalos, torres e rainha. Todos coadunados contra nosso pobre peão. O estranho é que continuamos. Passos lentos e esperançosos, mas esperanças são insetos frágeis. Sentimentos também. Percebo que a vida é também um poema. A tristeza apenas um de seus versos. Nada mais vai ocorrer nessa pálida manhã de junho, para mitigar, velar, cobrir ou ocultar os fatos, a realidade é fatal, não factual. E ainda não sei por que estou tão triste… Talvez porque não passe de uma esponja encharcada, cheia de emoções humanas. É tão desumano ser humano. A vida era mais fácil quando era apenas jovem. Acho que a razão de minha mágoa seja o correr dos anos que não posso evitar. O tempo nos devora.  Mas a verdade é uma miragem. Nada existe e mesmo o tempo é apenas uma ilusão no deserto de nossas vidas. O que me resta neste momento é a espera que apenas parta meu coração e leve consigo esta tristeza infinita…

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