Apenas um lenço

Giordana Medeiros

Na minha vida inteira tentei falar-lhe como me sentia. Esperava o momento certo. O problema que esperei por tanto tempo, posterguei tantas vezes este diálogo, que acabei por perder a hora. As muitas confissões que restaram tão somente dentro de mim, você jamais ouvirá. Só sei que isto dói de todos os lados, os de dentro, os de fora, de cima e mesmo de baixo. Não há saídas. Fomos vivendo aos solavancos. Nem sei se foi escolha. Talvez apenas sina. E ainda tentei lhe dizer que precisava de você, de sua presença que ora me oprimia, ora me libertava. Mas já era tarde. O que fomos, se fomos algum dia, não somos mais. E o presente chegou sem que pudéssemos abrir mão do passado. Nossas mentiras ainda estão gravadas naquela árvore. Para sempre o que machucou o caule da planta, cicatrizou-se como uma ferida em nós. Assusta-me esta certeza súbita, que de tão inesperada nada posso fazer senão aceitá-la. Porém, me reservo o direito de fazê-lo sob protestos. Qual seria? A que o amor não é invulnerável. É como um jardim, se não cuidado, enche de erva daninha, e os sentimentos morrem, como flor, murcham. Aqui estou com o lenço na mão, aquele em que estão gravadas suas iniciais, pensando que, sem você, o que sou não faz qualquer sentido. E pressiono o lenço contra o peito, para tentar aplacar a falta que você faz em meu coração. Há um céu resplandecente lá fora. Entretanto sinto frio, não sei se apenas no interior do meu peito, ou se na pele, que me é exterior. Não sei, desde que você se foi, as certezas converteram-se em dúvidas. Não sei mais se existo, ou se sou apenas um sonho. E quem sonha? Eu ou você? Estou perdido com esse sentimento inesperado que não sei denominar, pois é muito mais que uma saudade, uma tristeza invencível, que se funde ao amor que sentia convertendo-se em algo tão estranho que foge a qualquer definição. Estou tão perdido… Não sei por onde seguir, as ruas me levam por onde não quero ir. E sempre chego ao mesmo ponto, como se a todo o momento, estivesse andando em círculos. Mas o que posso fazer, se você era a bússola que me guiava quando não havia destino? Queria tão somente que passasse sua mão sobre minha cabeça, que tocasse meu coração com seus dedos frios, como o fazia nas noites em que estávamos juntos. E que me dissesse novamente, que me tinha muito amor. Mesmo que fosse tão somente por um dia, ou apenas um instante. As coisas vão se perdendo no caminho, sentimentos abandonados que orbitam ao nosso redor. E nosso amor parecia tão real. Pelo menos era palpável para mim. Uma presença que sentia na alma. Ele existia. Será que somente em mim? De repente me deu tanta saudade, que queria correr ao seu encontro, como um náufrago o faria nadando para chegar à praia. Estou me afogando em sentimentos indefiníveis. Só o amor pode traduzir o que sinto. O amor é a língua universal, muito embora seja diferente sua pronúncia em palavras, o beijo é o idioma único dos amantes, todos sabem o que significa. Ainda que o tempo insista em dizer que não significou nada. A melancolia desce sobre mim. São lágrimas de uma nuvem que reanima as flores, mas me inunda o espírito. Dores de milhares de solidões. E você me dizia para que lhe deixasse tranqüilizar minha mágoa sobre uma rosa, as pétalas servem de esconderijo para a tristeza. Pegava sua mão delicada e nas vagas do seu olhar me perdia. Minha embarcação à deriva no mar dos seus olhos. E recordo-me tão somente de você levar os dedos aos lábios, num gesto que era mais que uma despedida. Era o fim de tudo que éramos. Um prenúncio do que seríamos a partir de então. O que somos hoje? O que fomos um dia? Por que cada pergunta que surge vem coberta deste véu de melancolia, que somente é visível a quem já provou da alegria soberana do amor? Sinto a saudade amargar na boca. Sabor de desilusões, confissões que só se fazem ao espelho. Porque somente sozinho é possível compreender. E nosso reflexo nos responde o que já sabemos, mas não o admitimos. A vida costumava ser tão bonita… Basta um beijo, somente provar o sabor do mel de seus lábios, que tudo se transforma. Um instante em que as dúvidas não possuem qualquer importância. E somente a certeza de amar responde as mais intrincadas questões.

A chuva que nos batizava de sonhos também os levava embora. Você me dizia adeus, e mesmo querendo que ficasse, não pude dizer o que sentia. As palavras engasgaram na garganta e meu amor não foi forte o bastante para vencer o meu medo. Ou, talvez, meu orgulho. O que eu era partido em mil pedaços, a inevitável despedida demoliu-me por inteiro. O meu mundo em seu rosto que subitamente se transformou em nada. Um universo além do meu alcance, astro que brilha distante, cometa que passa esporadicamente e se vai sem desculpas, volta somente décadas depois quando amar já não faz mais sentido. Sentimento que perece em meu peito. Toda minha vida me senti assim. Estive sempre a sua procura, pois é você tão somente que meu coração pede. E se agora tenho coragem de dizer tudo isto, é pelo fato de que não está presente. Tenho apenas este lenço que ainda exala o seu perfume. E, com ele nas mãos, ocorrem-me todas estas palavras, que fugiram de mim no momento crucial. Por que não a tomei em meus braços e bebi dos seus lábios quando pude? Por que deixei estar, naquela lágrima, a dor que sentia? Por que não implorei que ficasse, que não me abandonasse, pois poderia concertar tudo? As relações quebram, mesmo com as palavras, porque sentimentos são frágeis, um descuido, o amor se desfaz em cacos. A gente morrendo como o dia que termina, ou morrendo nele todas as nossas esperanças. A louca ilusão da eternidade acabando: era uma vez o para sempre. Reconstruindo uma história de amor, ficção que se sabe ser unicamente ficção. E se fosse real? E se não fosse? E se fosse mesmo, mas não fosse como fosse?  Assim posso me recordar de você, da história que não teve fim em mim. Mesmo que você já nem se lembre mais, a saudade ainda bate em meu peito. Eu queria pedir que ficasse. Estas foram as palavras que não pude dizer. Uma frase e o fim não mais existiria. E esse rio de arrependimentos vai me levando, como a jangada que segue com a força do vento. Vou para onde finda o rio, talvez no mar, se não vier a encalhar em qualquer galho ou monte de areia.  Na lembrança os contornos imprecisos da cena derradeira. Tentando reconstituir um momento passado que não pode mais ser vivido enquanto ainda dói em mim a solidão e a presença da sua ausência no meu espírito. E, sentindo tudo isso, vou sofrendo. Na rua, as pessoas vão vivendo. O mundo continua, mesmo que eu tenha parado no tempo. Naquele instante em que a chuva escondia nossas lágrimas, ou seria nossas lágrimas que se transformavam em chuva? Sofro em silêncio, nesse recinto, com seu lenço nas mãos. Pedindo que fique, quando não mais está. Deveria implorar que voltasse. Porém, já nem sei onde estaria. Aonde você se escondeu de meus olhos? Na suavidade do entardecer, tudo que sou está morrendo, só o corpo sobrevive. E já nem sei o que peço, a noite me deixa livre. O dia aprisiona-me na claridade. É a razão que me cerceia e o amor que me liberta. Um ruído vem de longe e quase não se escuta. Uma canção, um diálogo, o que ouço tão distante? O mundo fora de mim me assusta. Sou um universo muito restrito. É infinito apenas em mim. E meu amor era imenso, e tudo que queria era que você ficasse. Nunca consegui achar as palavras certas para lhe dizer. E agora já não o é possível. “O instante passou, meu chapa.” Fala para mim a imagem no espelho. Minha dor é tão grande que não pode ser conceituada somente com palavras. Não há definições para esse sentimento. Sente-se até o fim. É só. E continuo me perguntando:“quid debui facere vineae meae, et non feci?”* Talvez com a mão hirta de frio, no instante final dessa novela, encontre uma saída para tanto pesar. Mas pesa sobre mim tantas coisas, tanto, que já nem posso carregar. A eternidade, por exemplo, o dever de levar tudo para o sempre. Mas o eterno desconhece o amor, e nem ele mesmo sabe sobre si. Agora consigo compreender o som que vem de fora. São violinos, que em soluços graves vêm trazendo o outono. Ferem minha alma, como a espada cortante do sentimento perdido. E como diria Vérlaine: “sufocado, em ânsia, Ai! Quando à distância soa a hora, meu peito magoado relembra o passado e chora.” O lenço, tudo que me resta, apara-me o pranto. O coração pedindo: fique! Mesmo que não seja mais o momento. O remorso é sempre atrasado. Só ocorre depois, mas depois é muito tarde. Arrepender-me é o que me resta, pois quando meus lábios disseram o que pulsava na minha alma, você já houvera partido. Para sempre? Como obter uma resposta a este enigma da esfinge? “Uma solução para minha dor, um alento, qualquer coisa, quem quer que seja, conceda-me algo que meu coração pede, n’importe quoi!” Digo ao nada, depois, fico em silêncio por longos minutos, na mão apenas o lenço, no peito, mais nada.

* “Que tive eu de fazer à minha vida e não fiz?”

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