“Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.”

Fernando Pessoa

Sobre uma dolorida saudade

            Giordana Medeiros

 Não sei o que há comigo, ao acordar, nessa casa cheia de vazios, sinto o desejo de ver aquela por quem minha alma se perdeu. E se frito ovos para o café, é a imagem dela naquilo que costumávamos chamar “nossa cozinha” é a única coisa que me ocorre. E bem que poderia não ser feriado. Talvez, se estivesse trabalhando de modo exaustivo, não teria sequer tempo de pensar nela.  Contudo, sei que mesmo nas tediosas segundas-feiras é somente nela em quem penso. Ocorre-me de preocupar-me com as coisas que fazíamos juntos. Será que ela poderia fazer tudo que fazíamos, sozinha? E fico cismando pelo apartamento, tentando alcançar o impossível esquecer. Observo o sol dessa manhã iluminando a vida e as saudades escurecendo meu mundo. Se na estante encontro um livro, minha surpresa é revelar-se nele um pouco da ninfa, que outrora corria nos jardins de minha ilusão. São páginas marcadas, trechos sublinhados e mesmo uma flor seca, que, outrora viçosa, em nossas noites de luxúria percorria-lhe o corpo acetinado. Esses mínimos detalhes, que vividos no presente passam despercebidos, somente quando pensamos neles no passado fazem algum sentido. Ou, provavelmente confiramos-lhes significados que só existem em nós. E se ela soubesse desse desesperado sentimento incutido no meu peito? Dessa saudade que me tortura, mas não me mata? Seria melhor que me ceifasse a vida definitivamente, que este sofrimento vai destruindo o que sou. Ou melhor, o que era. O que sou já é algo bem diferente do que era quando eu era ela e ela era eu. E agora sinto falta deste pedaço, desta metade amputada de mim. Éramos, no passado, não somos no presente e seremos no futuro?E se houvesse uma maneira, um subterfúgio qualquer para partir ao seu encontro, para salvar-me desta solidão devastadora que vai tomando todos os espaços? O que pode ser usado ao meu favor? Meu coração abandonado e devastado? E se pudesse, e se quisesse, e se fosse possível em fim? E se todos os “sês” em que consigo pensar, não representam uma saída real para este cárcere de solidão que erigi em torno de mim? Poderia sair, espairecer as idéias, mas o problema é que já não sei andar só. Preciso da companhia de meu amor que se desfez em desilusão. E vou carregando comigo todas as mágoas, as feridas que invisíveis ao olhar estão bem marcadas no meu espírito. Ouço o murmúrio dos pássaros, para além do meu sonho, há realidade. E, nessa realidade, há ela, aquela que foi fantasia e fato, que se divide na dor do ser e na alegria do era. Montando meu quebra-cabeça de lembranças vejo que muitas peças se perderam no véu do esquecimento. Nem sei por que razão nós brigamos. Então, creio que sequer importa mais. É uma ninharia, algo que podemos superar. Por isso, me cresce um desejo sobre-humano de procurá-la. Esse pensamento visível, esse sentimento material, se apossa de mim e faz-me andar depressa. Dou voltas nesse apartamento, enlouquecido pela falta, pela perda de algo que me era essencial. Desejando me perder, sem possibilidade de reencontrar-me.  E de tudo que tinha me restou muito pouco ou nada. Talvez somente nada. O silêncio das horas perdidas em sonhos e divagações. Mesmo a ausência dela faz-me companhia, é algo que já está comigo. Uma presença indelével no meu espírito. Sei que estou esvaindo-me em lágrimas. Toda e qualquer força foge-me. Sou fraco, o amor, porém, é forte e vai se avolumando em mim. Meu coração quebrou-se, porque quis viver, e, de tanto querer, espatifou-se. Agora vou somando as derrotas e perdas, tudo que deixei pelo caminho. Pedaços do que fui que agora não mais se encaixam no que sou. Vivo o momento que é pura saudade. E ligo a televisão, ligo também o rádio, e o barulho do presente vem me resgatar do passado. Agora vou me encontrando. Sei que não sou mais eu quem a deseja. Mas todas as coisas que fomos, todas as coisas que não mais somos. Todas as coisas que, outrora exteriores, se fizeram interiores. O que temo é atravessar o limite da razão, amor que se torna loucura. Entretanto amar não é realmente se perder? Sinto o perfume dela na cama, o travesseiro exala seu cheiro inebriando meus sentidos. E só isso importa. Para nada mais nos vale a vida. A morte não virá nem tarde nem cedo, mas no momento exato. Eis que a o que me resta é amar. Amar perdidamente, amar profundamente. Por que o essencial é que nada mais é necessário. Que sobre mim se debruce a maldita sorte. Com olhos no passado, vejo o que não vêem. Minhas noites perdidas ou ganhas na vigília de uma paixão que não existe. Mas é dia, manhã de Corpus Christi, ouço até a ladainha da procissão percorrendo as ruas sobre tapetes de serragem. Vai passando, sob canções e orações. Fazendo-me pensar na fé que perdi. Muitas coisas me foram subtraídas. A fé que se quebrou em ceticismo, o amor que se converteu em saudade. O sonho que de transformou em desilusão. Tudo isso que se perdeu para sempre. Agora penso no futuro e vejo o que não pode ser visto, mas eu vejo. O destino de um ser, que se perde em divagações, é ser eternamente sozinho. É chegado o momento de reafirmar o que sou. Mas como fazê-lo se sou o que sinto e o que sinto é um vazio, e se sou vazio, não sou nada e isso é tudo?

O que me pergunto é: por que ir tão longe por quem está perto? Posso ir ao encontro dela, mas não o faço. Não me permite minha pouca coragem. Se eu fosse quem eu deveria ser… Mas não o sou. Sou um projeto do que seria quando fui concebido. Não sei quem sou nesse maldito momento. Sei somente que sou alguém que ama. Alguém que se perdeu, mesmo que nunca haja se encontrado. Alguém à deriva num oceano de mágoas e pensamentos. Entre lapsos da consciência, ora vejo-me louco, ora são. Ora perco-me em ilusões, travo diálogos com o infinito. Ora estou a lamentar meus inúmeros erros, cometidos por minha estranha loucura. Sei que vivo à sombra do fantasma da dama que me aprisionou o coração. E não quero libertar-me. Quero ser eternamente cativo. Parece-me que erro, mas sinto que não sei. Não sei o que sinto. Não sei se fui cegado pela beleza, ou se o sentido da vida é nos entregarmos a quem nos mata. Porém, mesmo sem saber por onde me levam tais caminhos, vou. Tudo quanto penso, tudo quanto sou, é esse deserto imenso em que nem sei onde estou. E nas horas em que espero que ela venha ao meu encontro, pois espero que sinta também como eu sinto; uma ponta de melancolia vai crescendo em mim. Pois sei que ela não virá. E a mágoa de não se saber amado é maior que a mágoa de ser um dia abandonado. Nuvens cobrem o sol deste feriado. Mas não há perigo de chover. Por que o tempo não me copia o pranto. E se minhas lágrimas são infinitas tanto assim a beleza deste dia. Quisera tão somente um pouco da alvura dos luares. A noite e sua estrelada melancolia. Nem peço ilusão, que já tenho um sonho a sonhar. Nem peço alegria, só tenho esperança, mais nada. Quisera talvez que a bela por quem clamo viesse, voltasse, quem sabe, para meus braços de onde nem sequer deveria ter partido. Por Deus, súbito vem-me a imagem de luz que ilumina meus domínios e traz-me um pouco das lembranças. Algo que há muito havia se perdido, esquecido no vão das memórias desfeitas.  Coisas sem importância, mas com uma relevância incomum. Recordo-me que ela sempre apoiava a xícara de chá nas duas mãos, sem ligar para os padrões de etiqueta. Também amava o mar, semelhante uma sereia nas águas mornas do Atlântico, desfrutava da água salobra como se fosse seu habitat natural. Em silêncio vivo este momento de saudade. Aqui, longe do oceano, longe do mundo que ocorre lá fora. Longe dos amores que implicam em solidão. Longe do medo de ser, longe dos perigos que a vida traz. Aqui, separado por um abismo de tudo que é exterior, vou sobrevivendo, imaginando as barcas vazias no mar, balançando-se ao sabor das vagas. E posso até sentir o perfume da maresia. E sem saber o que sinto ou o que quero, com os olhos marejados, ponho-me a lamentar esta saudade. Sempre é belo falar do passado. Estranho que sempre nos refiramos a ele no pretérito imperfeito: eu amava, eu queria, eu sentia… Por que o pretérito seria imperfeito se é no presente que as coisas nos parecem mais doloridas? O passado nos parece muito mais dourado do que foi, ou poderia ter sido. Falar dele é inútil. Porém deveria falar de um passado que talvez não tivesse tido? São só  palavras tristes. E isso é um modo falso de esquecer. Ando de um lado para o outro, esbarrando nos móveis, limitado pelas paredes que me afastam do mundo. Para quê? Para talvez assim buscar sonhos que sumiram do meu baú de memórias. A caixa de Pandora que trago comigo. Eis que a abro e tudo que sinto foge de mim restando tão somente uma frágil esperança. Se estivesse no litoral olhando o mar esqueceria até de viver. Mas isso vem como uma determinação. Não é de repente: viva! É uma ordem: viva! E nem sei por que obedeço ainda. O mar que vejo em sonhos é mais belo que aquele que vi, há muito tempo, quando trazia ainda o amor comigo. Agora não tenho saída. Ou talvez tenha e não a haja encontrado ainda. É frente ao pavor da rejeição que vou buscar o perdão dos pecados que não sei se cometi. Vou remir minhas culpas no colo de quem amei, amo e amarei. No passado, presente e futuro. Com a luz os sonhos geralmente adormecem. O problema é que tenho a estranha mania de sonhar acordado. E nem sei se são somente fantasias, se são reais ou tão somente frutos da solidão e da melancolia. Há razão para as coisas serem como são? E todos estes medos se arvorarem no meu espírito? Onde posso encontrar um lugar a salvo dos sonhos que trago comigo? E nem sei se penso nela ainda. Talvez se telefonasse… Mas isso seria demasiadamente grosseiro. Como pedir perdão sem olhar nos olhos da mágoa? Então pego meu casaco (que Brasília é demasiadamente fria no inverno, o mar faz-nos falta, também o calor dos trópicos que desaparece nos meses em que a seca oprime os corações repletos de sonhos), e tomado de coragem vou ao encontro da vida e de todos os desejos por que sofri nesta manhã de céu azul e poucas nuvens. Mas faz frio. Sempre faz. É sempre longe na minha alma. Contudo ela não está tão distante. Nas praças as crianças brincam. E os adultos perdidos em recordações, observam de longe o que outrora lhes pertencia. Quando crianças corriam atrás das ondas, sem saber que elas voltam. Sempre voltam, mas não o sabíamos. Colho uma rosa. Há algo mais tocante que uma rosa roubada? E ao chegar à casa dela encontro o portão aberto pelo qual entro furtivamente. Encontro-a adormecida no quarto. Coloco a rosa ao seu lado e me evado de todas as esperanças que nutria. Despeço-me do amor. E faço como as ondas: vou embora, mas voltarei, que meu espírito é oceano, e minha sina é amar eternamente.

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2 opiniões sobre “

  1. Saudade é frio que sol nenhum é capaz de esquentar.
    Texto forte. A dor é bem expressa. =)

    Saudade de você Jojô!

  2. Mary Leadebal Bonifácio

    sentir saudade é estar vivo. Lindo……

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