Astronautas

Giordana Medeiros

“-E esse universo imenso, o que me diz?” Perguntou ao vento que respondeu em silêncio e vazio. Há muito tempo que a luz extinguiu-se. Só lhe restam o breu desta noite e as estrelas que brilham minúsculas no céu. Nem se desconfia que são imensas bolas de fogo e calor, pois se traduzem numa luz fria que nos chega pequenina, retratos de um tempo que já passou. As estrelas estão tão distantes que seu brilho, que ilumina a Terra, é, na verdade, produzido milhões de anos atrás. Uma viagem no tempo, a qual o homem não conseguiu alcançar. Ela vai se perdendo em mil solidões. São tantos vazios em um só espírito. E a noite começa a existir dentro de si. Sossego de coisas sobrepostas, mentiras que vão cobrindo as verdades, ilusões que vão suplantando o que seria realidade. Nesse mundo de desenganos e destinos alterados ao sabor da brisa. Eis que um rádio ao longe toca uma melodia e Beethoven e sua Sonata ao Luar preenche todos os espaços. Mesmo o coração, que sem razão pulsava, entra no compasso da música. E tudo que sentia pesava como mil toneladas. Uma tristeza profunda, em que, fácil, fácil é possível se afogar. E se houvesse o luar, para iluminar os sonhos mais obscuros, seria uma verdadeira noite de poesia. Mas não há poemas, não se ouvem os soluços dos amantes, ninguém por quem sofrer, ninguém a quem amar… Uma astronauta abandonada sozinha no infinito. É o que ela era. É o que todos são. Dizem que os homens surgiram da poeira cósmica do universo. Somos apenas pó de estrelas. Ela mais uma vez se dirige ao nada, dessa vez, parafraseando Pessoa: “-Oh universo, sou-te! Oh mundo, somente em ti, sou-me.” E nada se ouve. Nessa noite fria, em que não havia sequer luar, deseja-se ser muito mais do que se é.  O silêncio a pedir que ela se cale. Contudo, ela quer falar, quer contar ao mundo sobre a dor que sente, um vazio sobre o qual se mente. “-Na verdade nem sou triste assim…” É que hoje mergulhada na melancolia da madrugada, há muito em que se pensar, em todas as feridas que lhe marcaram o espírito, em todas as histórias que restaram apenas no papel. Contos de fadas sem princesas ou príncipes. História de reflexos, solidão no espelho: um conto sobre uma garota tão sozinha que só se sabe triste. E há ainda esse universo imenso, em que ela se perde sem retorno. Eis que lhe foge o espírito e a história vai se escrevendo com o sono que também lhe escapou. Não é mais primavera, nem mesmo verão, mas outono que cai sobre o mundo com um beijo frio. E entre o desesperado abandono desta madrugada e as tristezas infinitas, intervêm sonhos e memórias. Para cada estrela, lágrimas da noite, uma tristeza a que se liga. Estrelas de desilusões cujas histórias iniciaram num passado distante, do qual não mais se desvencilham. O mundo em que ela está é onde também está perdida. Nesse verdadeiro labirinto de mágoas faz uma confissão ao silêncio. Ao universo que se estende fora de si. Mas por dentro dela há também universo: um buraco negro que suga a luz ao seu redor. Pela janela uma paisagem incerta, em que sonhos são levados pela noite, no sopro de Zéfiro, numa viagem sem destino, pelo horizonte que a rodeia. Botões inebriados de escuridão se abrem perfumando a madrugada. Ela sabe tudo sobre a noite: um universo particular, infinitos que compõem o finito. E sabe que há de acabar, mas a solidão, que a preenche, permanecerá. Até quando? Quanto tempo há de compor o vazio das madrugadas insones? Sabe que falta algo. Ela só não sabe o que seria. Ou sabe e não se deu conta ainda. Astronauta de infinitos, o homem é tão pequeno comparado ao que tem por dentro. Um imenso oceano impossível. Aonde as vagas vão, mas não vêm. Somente sabem da dor que têm. A alma é divina e o ser, imperfeito. E nesse vagar de silêncios, a música que outrora se ouvia, também silencia. Ela não dorme, nem espera dormir. Não é dado, a uma viajante de estrelas longínquas, o sabor do sono. Porque o mundo é grande demais e pequeno demais para si. Sem força ou energia para voltar a gritar para o mundo, cala-se com um gosto amargo de mágoa na boca. Um penar sobre o qual ninguém sabe e nem mesmo compreende. Não há como se fazer conhecer o que nos é interior. Nem há, ao menos, alguém que se interesse.  Ela musica a solidão em poesia. Canções de abandono, notas musicais solitárias, que voam ao sabor do vento. E nesse universo de caos infinito não há saídas possíveis para a dor, esta restará eternamente em si.

Flutuando em sensações estranhas, o que é isso? Ela e o silêncio, ela e o infinito, ela e o inacessível, ela e o universo. Sempre acompanhada mesmo que sozinha.  E na sua história não tem o que dizer. Fita a parede, obstáculo ao mundo que não a pode ver.  Lá fora o silêncio e todas as coisas ausentes em si. Ela teimando em ser. Sempre sendo, mesmo não havendo qualquer razão. Para que? Para tudo. E sobre o tudo se compreende toda infinidade de coisas que existem e mesmo aquelas que não existem, mas ela pensa que existem, porque na verdade existem em si. Difícil de entender? Ela também o acha. Por isso vai apenas sentindo, sem saber o que na verdade sentir. A madrugada a prolongar-se em escuridão. E ela rezando para que o dia nascesse, para que a luz apagasse o breu do seu espírito. “-Oh dia, por que tarda tanto?” Rói a unha do polegar. Ninguém nunca lhe disse que um dia haveria de nascer o fim da melancolia. Mas mesmo assim ela o crê. Fé que cega a razão. Milagre que se espera e não acontece. Ela a pedir: “-vem dia, vem trazer-me a alegria dessa esperança triste”. Pois sabe que o dia é alegre embora ela se saiba triste. “-Vem e traz esperança, vem e traz esperança.” Mas a noite é caprichosa, a solidão tarda os ponteiros do relógio. Tudo a caminhar lentamente, o som que o silêncio possui a gritar dentro de si. –“Que horas são?” Ela se pergunta, mas teme olhar o relógio. Melhor permanecer na dúvida. Enquanto a humanidade repousa e esquece as amarguras, ela segue em vigília, saboreando seu próprio sofrimento. A flutuar no espaço, no infinito de seus sonhos que somente se conhece quando estamos acordados. A hora que expulsa de si o tempo, desmanchando-se em segundos, que se esvaem em desilusões. E numa confissão muda ela diz ao mundo o que o mundo não lhe diz. Arrepende-se do que foi, e mesmo do que será. Mas não há meios de evitar o futuro, o destino nos alcança e não adianta fugir do que nos espera. Pode-se adiar, tenta-se postergar, mas a vida sempre acontece. O mundo é. O universo também. Nós somos e ela será. E no espaço em que navegamos, entre movimentos de rotação e translação, há tantas galáxias e planetas inóspitos. Será que com tantas, mas tantas possibilidades compondo o universo, nós estaremos sempre, eternamente, sozinhos? Será que não há algum espírito, ou ser, que mesmo diverso do que somos, pense em nos encontrar? Alguém que no outro lado do universo, numa noite de insônia, perdido em divagações, não pense na possibilidade de haver vida, tão semelhante a sua, aqui nestes confins do espaço, nessa via láctea, galáxia de sonhos alvos como leite? Sonhos de estrelas brilhantes, que envolvem o que somos num véu de solidões. A verdade e a vida toda fora de si. Ela, na realidade, não sabe nada sobre o mundo, nem mesmo sobre si. Sabe que o silêncio morre na música, a solidão morre no amor e a tristeza, na alegria. Mas não sabe onde morre a alma que se tem, mas não se tem. A vida, esse universo de estrelas solitárias, onde os seres não se encontrarão jamais. Muito os separam. Abismos de vazios que se traduzem em bilhões de anos luz de distância. Mas mesmo o mais distante pode estar perto. O coração aproxima as pessoas. Sente-se saudade e esta nos liga ao que amamos. A astronauta desta noite insólita sussurra uma canção sobre sonhos e esperanças. Música que inventou naquele momento, que ninguém jamais ouviu ou ouvirá. A sensação de uma saudade do que nunca se teve, mas se imaginava ter. E ela a tocar os anéis de Saturno, sonhando acordada com o seu universo interno, onde os astros e estrelas estão acessíveis. Em nebulosas coloridas que enfeitam o horizonte, navegando num oceano de estrelas, entre asteróides e cometas. Não é preciso espaçonaves futurísticas de filmes de ficção científica ou qualquer traje espacial desconfortável e pesado. Somente é necessário libertar o espírito, e, por fim, deixá-lo flutuar na ausência de gravidade do nosso universo interno. Nada é tão grave que não possa ser esquecido. Nenhum pecado é tão terrível que não possa ser perdoado. Nada. Nada resta de nada. Porque não somos nada além disso: nada! O vazio em nós é respirável. Aqui não precisamos de tubos de oxigênio, nem de levar qualquer mecanismo que nos proteja a vida. O que é grave tem cura, mesmo a mais terrível das enfermidades. Não há o que não possa ser sanado.  Mesmo as trevas que caem sobre ela nesta noite fria outonal, nessas horas que se arrastam teimosas, têm remédio. Eis que no Este, no nascente de nossas esperanças vai surgindo o sol. O crepúsculo em cores púrpuras cobre o horizonte. A alegria do dia vai surgindo, com o sol que se levanta, dando fim à melancolia de uma noite insone. E mesmo sem o breu da madrugada a inspirar-la, a jovem moça, que outrora implorava pelo dia, continua a passear no espaço, no universo de fantasias que colorem as nuvens de vermelho.

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Tags: | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: