Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim…
De pensada, mal vivida…
Triste de quem é assim!

(Fernando Pessoa in Chove, que fiz eu da vida?)

 Uma tempestade improvável

 Giordana Medeiros

Cai uma chuva torrencial em que ouço o som do vento bravio, hoje não é Zéfiro quem dá as cartas, mas Eólo. E nesse rufar desesperado, ouço uma voz. E  o que  ela me diz? “Nunca mais!” Como faria o corvo de Poe. É a vida me negando saídas, e eu tentando fazer as minhas próprias. Mas sigo por caminhos tortos, em que ora me vejo a beira de precipícios, ora emaranhada numa rede de espinhos. “Vida o que você fez de mim?” Pergunto ao nada num grito desesperado de solidão e medo. Ela por sua vez questiona-me: “o que VOCÊ fez de mim?” Nos duas somos o produto de nossos erros. Talvez tão somente os meus erros. É minha culpa, são minhas falhas. Fui eu que erigi esse castelo de fantasias, que agora desmorona sobre mim. Vou perdendo meu reino de sonhos. Tudo vai sendo abandonado no caminho… É muito peso para se carregar. Vou lutando com a vida e lutando pela vida, mas sempre imaginando que se me desfizesse de tudo, talvez, doeria menos. Ou nem mesmo doeria. Essas feridas que trago no espírito, marcadas na alma pelas minhas escolhas insensatas, sumiriam. Mas a proximidade do Letes me assusta. O mundo inferior, o mundo de Hades, a que todos evitam, está cada vez mais próximo. Ocorre que, sabendo disso, fujo. Estamos travando um embate memorável. Eu e esse destino que as Moiras sibilaram-me ao ouvido. Nesse labirinto de palavras vou construindo minha nova morada. Um reino em que possa me evadir do real, mas conservando a racionalidade. Tão estranho carregar esta vida inteira, tentando fazer com que ninguém se dê conta dos traumas, quedas, medos, solidões e mágoas. E é essa a minha bagagem, tudo que terei de transportar até as margens do Letes. Mas, ao provar as águas do rio do esquecimento, de toda esta carga me livrarei. Como nos livraremos todos, após é só escolher outro espírito, outro destino que nos caiba numa nova existência, e nascemos de novo, limpos. Muito embora ocorra já no nascimento nossa primeira ferida: separar-nos do corpo acolhedor de nossa mãe. Somos arrancados de onde estávamos protegidos e lançados na vida. Ainda ouço o vento desta noite a me repetir: “nunca mais!” Creio que irei morrer. Mas como diria Pessoa: “o sentido do morrer não me move. Lembro-me que morrer não deve ter sentido.” É isso. Não vou me perder a busca de definições. A vida implica em morte, todos o sabemos, ela nos acena distante, e observamo-la ali, a nossa espreita. E mesmo com esta ameaça silenciosa, nós seguimos. Sabendo que todos os nossos caminhos somente seguem para uma única direção. E queria não sentir saudade do passado. Uma época em que tudo era simples e que não me preocupava em pensar no dilema de que vida tem a vida e que morte tem a morte… Mas segundo Pessoa tudo isto é apenas uma classificação. Tudo são termos em que se define o indefinível. Apesar de achar que isto deve chamar-se tristeza. Mesmo que não entenda bem o que seja.  As estrelas estão tão, mas tão distantes de mim. Uma noite sonhei que poderia alcançá-las, mas sorrateiras, desviavam-se de minhas mãos. Nem nos sonhos posso ter o que não posso ter. Mas seja o que for é o que tenho. Tudo mais é tudo só, mesmo que esse tudo seja muito maior que o nada que trago em mim. Mas vem Pessoa novamente e diz-me: “Dorme, que a vida é nada. Dorme, que tudo é vão!” Se há estradas a encontrar, achei-as em tremenda confusão. E com a alma ludibriada de sonho, fui seguindo, sem saber se este era o caminho. Há tantas escolhas a se fazer, e por que apenas não nos certificam da via em que menos perigos há, onde possamos perseverar sabendo que no fim haverá saída? Em que finalmente possamos dizer: a vida é um grande intervalo. Muito embora não saibamos entre quê e quê. Uma ponte entre dois nadas, de onde não há o que ser levado. Tudo fica e na morte estaremos tão desnudos quanto no nosso nascimento. Sairemos como entramos. Com uma leve ponta de ironia que os deuses se permitem. De tanto procurar acharemos nosso caminho, mas então será demasiado tarde.

Sei que vou viajando nas histórias que me conto, floreando o meu mundo de muito sonho. Sentir é a melhor maneira de viajar. Sentindo de tudo, de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Os silêncios que adormecem com o vaso sobre a mesa, a noite que cai lentamente, o som da chuva num noturno de Chopin. E tudo isso se deve sentir excessivamente. O vazio, a solidão, a mágoa de um ferido coração. A vida é feita desses excessos, temos de ter uma certeza: tudo transborda. Porque todas as coisas são realmente excessivas. Tudo que há derrama-se: o som, a música, os sentimentos e infelizmente também os sofrimentos. É uma verdadeira violência. “Uma alucinação extraordinariamente nítida” como também diria Pessoa. Vivemos todos, em comum, temos a fúria de nossas almas. Todos os sentimentos que fazem de nós seres irascíveis e complexos. Sei que quanto mais eu sinto, mais próximo estou dos deuses.  Cada alma é uma escada para o Olimpo. Um universo intrínseco ao universo que nos cerca. Um rio cuja foz é o infinito. Matéria e espírito se confundem, sonho e realidade também, nessa abertura a uma nova dimensão que é o outro, nesse encontro improvável entre deidade e pessoa. E tudo isso me faz pensar nessa noite de chuva, onde as árvores balançam-se frenéticas, que a morte é tão somente mais um caminho. Na morte estamos mais perto dos deuses. Sei que sou uma união estranha de forças cheias de luz. Tendendo para todas as direções. Eis que ali se une ao mar, à grama e também às nuvens e ao todo em fim. A vida é o que me une ao mundo. E faz com que tudo que sou seja tão grande que não caiba em meu corpo limitado. Por isso excede-me e mistura-se ao real. Os sonhos que de mim escapam vão ornando o mundo.  Tudo que há dentro do que sou tende a voltar a ser infinito.  Onde deságuam nossos sonhos? Para onde vão todas as sensações em que nos perdermos quando estamos livres da matéria que somos feitos, esse invólucro de carne que abandonamos na morte? Serão assim tão grandes os domínios de Morfeu para que lá se encontrem estes pedaços de nosso espírito que são os sonhos? E se estão lá, será que poderemos partir em busca deles como o fez Orfeu na sua viagem ao mundo inferior à procura de sua amada? Será que teremos também uma Eurídice para nos motivar a aventura? Sei que faço perguntas demais. E destas, poucas são respondidas. As outras de perdem no vácuo, no silêncio de uma alma solitária, no rufar da tempestade. Nesse início de inverno espantosamente chuvoso. Sei que tenho uma chama interior, um sentimento que me liga ao mundo. E que me afasta da tesoura de Átropos. Ela toma em sua mão a sentença de minha vida e, comovida com minha dor, desiste de mim. Dentro do que sou, todos os elementos que compõem o universo. Todas as lógicas ilógicas das teorias físicas. A verdadeira emoção indefinível que é ser. E nesses momentos em que a noite com a raiva dos ventos diz-me nunca mais, eu respondo: por enquanto. Esperança muda, uma sensação que há muito ainda a minha frente. Os raios que riscam a noite, e os trovões que se sobressaem ao silêncio falam-me: eis que o mundo é tortuoso, mas até mesmo na fúria dos elementos há uma beleza encravada. E o coração de mil vulcões entra em erupção no meu espírito. Meu equilíbrio que somente é entendido no desequilíbrio de todas as forças. Sou com todo meu corpo. Sou com todo meu espírito. Sou com tudo que sou, mesmo que seja algo imensamente diminuto e irrisório. Uma alma que está em embate com sua própria melancolia, com a angústia desesperada de seu próprio abandono. Uma nau a deriva no oceano revolto da vida. Eis que as ondas querem virar-me a embarcação e os ventos derrubam-me as velas. Entretanto, domino o leme de minha existência e continuo a navegar. Por que navegar é preciso, viver, também o é. (Perdoe-me o poeta por discordar de sua essência.) Mas começo a compreender a real razão das coisas. E mesmo que ainda não saiba todas as respostas (nunca saberemos), e que a tempestade perdure em mim, sei que logo chegará a calmaria, quando poderei retomar a minha rota, ainda que não saiba o ponto final desta viagem. Não sei se também o quero saber. Ninguém sabe se o quer realmente. Como também desconhecemos a alma que temos. Tudo é incerto e derradeiro. E, embora saibamos de tudo isso, seguimos navegando, nas ondas confusas da dúvida, esperando eternamente o inesperado.

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