Arquivo do mês: maio 2011

Apenas um lenço

Giordana Medeiros

Na minha vida inteira tentei falar-lhe como me sentia. Esperava o momento certo. O problema que esperei por tanto tempo, posterguei tantas vezes este diálogo, que acabei por perder a hora. As muitas confissões que restaram tão somente dentro de mim, você jamais ouvirá. Só sei que isto dói de todos os lados, os de dentro, os de fora, de cima e mesmo de baixo. Não há saídas. Fomos vivendo aos solavancos. Nem sei se foi escolha. Talvez apenas sina. E ainda tentei lhe dizer que precisava de você, de sua presença que ora me oprimia, ora me libertava. Mas já era tarde. O que fomos, se fomos algum dia, não somos mais. E o presente chegou sem que pudéssemos abrir mão do passado. Nossas mentiras ainda estão gravadas naquela árvore. Para sempre o que machucou o caule da planta, cicatrizou-se como uma ferida em nós. Assusta-me esta certeza súbita, que de tão inesperada nada posso fazer senão aceitá-la. Porém, me reservo o direito de fazê-lo sob protestos. Qual seria? A que o amor não é invulnerável. É como um jardim, se não cuidado, enche de erva daninha, e os sentimentos morrem, como flor, murcham. Aqui estou com o lenço na mão, aquele em que estão gravadas suas iniciais, pensando que, sem você, o que sou não faz qualquer sentido. E pressiono o lenço contra o peito, para tentar aplacar a falta que você faz em meu coração. Há um céu resplandecente lá fora. Entretanto sinto frio, não sei se apenas no interior do meu peito, ou se na pele, que me é exterior. Não sei, desde que você se foi, as certezas converteram-se em dúvidas. Não sei mais se existo, ou se sou apenas um sonho. E quem sonha? Eu ou você? Estou perdido com esse sentimento inesperado que não sei denominar, pois é muito mais que uma saudade, uma tristeza invencível, que se funde ao amor que sentia convertendo-se em algo tão estranho que foge a qualquer definição. Estou tão perdido… Não sei por onde seguir, as ruas me levam por onde não quero ir. E sempre chego ao mesmo ponto, como se a todo o momento, estivesse andando em círculos. Mas o que posso fazer, se você era a bússola que me guiava quando não havia destino? Queria tão somente que passasse sua mão sobre minha cabeça, que tocasse meu coração com seus dedos frios, como o fazia nas noites em que estávamos juntos. E que me dissesse novamente, que me tinha muito amor. Mesmo que fosse tão somente por um dia, ou apenas um instante. As coisas vão se perdendo no caminho, sentimentos abandonados que orbitam ao nosso redor. E nosso amor parecia tão real. Pelo menos era palpável para mim. Uma presença que sentia na alma. Ele existia. Será que somente em mim? De repente me deu tanta saudade, que queria correr ao seu encontro, como um náufrago o faria nadando para chegar à praia. Estou me afogando em sentimentos indefiníveis. Só o amor pode traduzir o que sinto. O amor é a língua universal, muito embora seja diferente sua pronúncia em palavras, o beijo é o idioma único dos amantes, todos sabem o que significa. Ainda que o tempo insista em dizer que não significou nada. A melancolia desce sobre mim. São lágrimas de uma nuvem que reanima as flores, mas me inunda o espírito. Dores de milhares de solidões. E você me dizia para que lhe deixasse tranqüilizar minha mágoa sobre uma rosa, as pétalas servem de esconderijo para a tristeza. Pegava sua mão delicada e nas vagas do seu olhar me perdia. Minha embarcação à deriva no mar dos seus olhos. E recordo-me tão somente de você levar os dedos aos lábios, num gesto que era mais que uma despedida. Era o fim de tudo que éramos. Um prenúncio do que seríamos a partir de então. O que somos hoje? O que fomos um dia? Por que cada pergunta que surge vem coberta deste véu de melancolia, que somente é visível a quem já provou da alegria soberana do amor? Sinto a saudade amargar na boca. Sabor de desilusões, confissões que só se fazem ao espelho. Porque somente sozinho é possível compreender. E nosso reflexo nos responde o que já sabemos, mas não o admitimos. A vida costumava ser tão bonita… Basta um beijo, somente provar o sabor do mel de seus lábios, que tudo se transforma. Um instante em que as dúvidas não possuem qualquer importância. E somente a certeza de amar responde as mais intrincadas questões.

A chuva que nos batizava de sonhos também os levava embora. Você me dizia adeus, e mesmo querendo que ficasse, não pude dizer o que sentia. As palavras engasgaram na garganta e meu amor não foi forte o bastante para vencer o meu medo. Ou, talvez, meu orgulho. O que eu era partido em mil pedaços, a inevitável despedida demoliu-me por inteiro. O meu mundo em seu rosto que subitamente se transformou em nada. Um universo além do meu alcance, astro que brilha distante, cometa que passa esporadicamente e se vai sem desculpas, volta somente décadas depois quando amar já não faz mais sentido. Sentimento que perece em meu peito. Toda minha vida me senti assim. Estive sempre a sua procura, pois é você tão somente que meu coração pede. E se agora tenho coragem de dizer tudo isto, é pelo fato de que não está presente. Tenho apenas este lenço que ainda exala o seu perfume. E, com ele nas mãos, ocorrem-me todas estas palavras, que fugiram de mim no momento crucial. Por que não a tomei em meus braços e bebi dos seus lábios quando pude? Por que deixei estar, naquela lágrima, a dor que sentia? Por que não implorei que ficasse, que não me abandonasse, pois poderia concertar tudo? As relações quebram, mesmo com as palavras, porque sentimentos são frágeis, um descuido, o amor se desfaz em cacos. A gente morrendo como o dia que termina, ou morrendo nele todas as nossas esperanças. A louca ilusão da eternidade acabando: era uma vez o para sempre. Reconstruindo uma história de amor, ficção que se sabe ser unicamente ficção. E se fosse real? E se não fosse? E se fosse mesmo, mas não fosse como fosse?  Assim posso me recordar de você, da história que não teve fim em mim. Mesmo que você já nem se lembre mais, a saudade ainda bate em meu peito. Eu queria pedir que ficasse. Estas foram as palavras que não pude dizer. Uma frase e o fim não mais existiria. E esse rio de arrependimentos vai me levando, como a jangada que segue com a força do vento. Vou para onde finda o rio, talvez no mar, se não vier a encalhar em qualquer galho ou monte de areia.  Na lembrança os contornos imprecisos da cena derradeira. Tentando reconstituir um momento passado que não pode mais ser vivido enquanto ainda dói em mim a solidão e a presença da sua ausência no meu espírito. E, sentindo tudo isso, vou sofrendo. Na rua, as pessoas vão vivendo. O mundo continua, mesmo que eu tenha parado no tempo. Naquele instante em que a chuva escondia nossas lágrimas, ou seria nossas lágrimas que se transformavam em chuva? Sofro em silêncio, nesse recinto, com seu lenço nas mãos. Pedindo que fique, quando não mais está. Deveria implorar que voltasse. Porém, já nem sei onde estaria. Aonde você se escondeu de meus olhos? Na suavidade do entardecer, tudo que sou está morrendo, só o corpo sobrevive. E já nem sei o que peço, a noite me deixa livre. O dia aprisiona-me na claridade. É a razão que me cerceia e o amor que me liberta. Um ruído vem de longe e quase não se escuta. Uma canção, um diálogo, o que ouço tão distante? O mundo fora de mim me assusta. Sou um universo muito restrito. É infinito apenas em mim. E meu amor era imenso, e tudo que queria era que você ficasse. Nunca consegui achar as palavras certas para lhe dizer. E agora já não o é possível. “O instante passou, meu chapa.” Fala para mim a imagem no espelho. Minha dor é tão grande que não pode ser conceituada somente com palavras. Não há definições para esse sentimento. Sente-se até o fim. É só. E continuo me perguntando:“quid debui facere vineae meae, et non feci?”* Talvez com a mão hirta de frio, no instante final dessa novela, encontre uma saída para tanto pesar. Mas pesa sobre mim tantas coisas, tanto, que já nem posso carregar. A eternidade, por exemplo, o dever de levar tudo para o sempre. Mas o eterno desconhece o amor, e nem ele mesmo sabe sobre si. Agora consigo compreender o som que vem de fora. São violinos, que em soluços graves vêm trazendo o outono. Ferem minha alma, como a espada cortante do sentimento perdido. E como diria Vérlaine: “sufocado, em ânsia, Ai! Quando à distância soa a hora, meu peito magoado relembra o passado e chora.” O lenço, tudo que me resta, apara-me o pranto. O coração pedindo: fique! Mesmo que não seja mais o momento. O remorso é sempre atrasado. Só ocorre depois, mas depois é muito tarde. Arrepender-me é o que me resta, pois quando meus lábios disseram o que pulsava na minha alma, você já houvera partido. Para sempre? Como obter uma resposta a este enigma da esfinge? “Uma solução para minha dor, um alento, qualquer coisa, quem quer que seja, conceda-me algo que meu coração pede, n’importe quoi!” Digo ao nada, depois, fico em silêncio por longos minutos, na mão apenas o lenço, no peito, mais nada.

* “Que tive eu de fazer à minha vida e não fiz?”

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Pequeno compêndio sobre o universo feminino

Giordana Medeiros

Olá. Você não me conhece. E sugiro que nem se dê o trabalho de fazê-lo. Sou uma mulher como tantas outras. Tenho TPM, e nesses terríveis dias sou mal humorada, implico com tudo e recomendo que nem tentem me contrariar nesse período. Fico insuportável! Mas, nos outros dias, sou doce e afável. Consigo fazer mil coisas ao mesmo tempo, trabalho, cuido dos filhos, do marido, do lar. A mulher nasceu com a sina de guiar a família. Somos o sustentáculo da sociedade, já que o embrião, a menor porção da humanidade, a sua célula máster, é a família. O mundo deve muito a nós. Por isso deveriam ser-nos dedicados todos os dias do ano e não somente um como é-nos sagrado. Estou escrevendo esta carta, com o propósito de falar um pouco sobre as mulheres, para que os homens, com sua falta de sensibilidade natural, possam entender um pouco mais sobre o mundo complicado de uma mulher. Não é uma tarefa fácil. Não sei como resumir em poucas linhas, tudo que nós fazemos, e, sobretudo, todas as facetas da fêmea da espécie humana. Somos muito mais complexas do que se imagina. Por isso vou desmontar o que sou para que possa entrar em contato com o que seríamos caso não fossemos mulheres, ou seja, com nosso lado mais estúpido e masculino. Nossa vida tem início na pré-história, quando os homens primitivos resolveram nos conceder o controle da casa e dos filhos. Abandonadas nas cavernas, começamos a montar o que se entenderia por linguagem. Os homens, claro, nunca entenderam bem o que seria comunicação. Por isso até hoje sofremos para ensinar-los coisas básicas, como, reconhecer nossas qualidades tão patentes. Mas somos pacientes, o que não conseguimos fazer em centenas de milhares de anos, continuamos esperançosas de fazer-lo. Não é por isso que estou aqui a escrever este compêndio, para auxiliar nossos irmãos de espécie, como agir com relação a nós? Pois é, somos muito, mas, muito pacientes. Sei que na pré-história os homens já não entendiam nada de romantismo. Não é para menos que acertavam as fêmeas com uma clava ao invés de convidá-las para jantar. Mas aos poucos isso vem se modificando. Sei que há ainda muitos trogloditas, mas conseguimos ensinar um bom percentual da população masculina. Sim, hoje muitos homens pagam o jantar, abrem a porta do carro e, ainda, esperam a vontade da fêmea para saciar seus instintos primitivos. E quando o fazem, são muito mais carinhosos que outrora. Não são mais machos primitivos, mas homens. Não é uma evolução lá muito grande, porém, já é um grande passo. Posso falar também que estamos inserindo o homem na vida familiar. Antes, este macho alfa, se excluía da família, tinha tão somente o papel de provedor. Hoje já está mais ligado aos filhos e ao lar em geral. Já é muito comum legar aos homens tarefas domésticas, o que era impensável há menos de seis décadas atrás. Isso graças ao esforço e lábia feminina. As mulheres fincaram o pé e conseguiram se fazer ouvir. E os homens estão bem mais domesticados. Conseguem trocar fraldas e ainda fazer as terríveis compras de supermercado. Levam as crianças para escola e também ajudam na lição. E já conseguimos fazer-los suportar nossa proeminência no campo profissional. Nós somos realmente fantásticas! Contudo, voltemos ao manual da compreensão do universo feminino. Há muitos anos, a mulher era escrava do homem, na Grécia antiga, nem pessoas éramos consideradas. Então, com muito esforço, conseguimos modificar essa realidade. Não somos somente pessoas, mas mulheres. E comandamos não somente o lar, mas todo o planeta. Os homens dependem de nós, e, nós, ao contrário, não dependemos deles. Não é estupendo? Outrora o campo de trabalho era eminentemente masculino. Entretanto, fomos corajosas, invadindo o que antes era somente do homem. E estamos aqui. Homens ajoelhem-vos aos nossos pés. Somos guerreiras, amazonas que lutam pela vida com tanto, ou mais furor, do que fariam os machos da espécie. E além de tudo nos lançamos na sociedade sem nos afastar do lar. Somos mães e não medimos esforços para proteger a nossa prole. Então, caros maridos, tenham em mente que jamais nos desfazeremos do nosso papel de mulher, nossos filhos são mais importantes para nós que o sucesso profissional. A carreira vem depois da família. O que não é verdade para os nossos cônjuges que se esquecem dos filhos e deixam sobre nós toda a responsabilidade da casa.

Muito difícil é fazer que os homens nos vejam com respeito atualmente. Com a liberação sexual, agora tendem a nos tratar como objeto. Algo que podem usar e descartar com tanta facilidade quanto uma camisinha. O que antes era visto com reserva, como o sexo sem compromisso, agora tende a ser preferido pelos machos que não suportam a relação conjugal e a responsabilidade de um lar. Não somos mulheres caisadoras, longe disso, deixamos há muito este papel de subserviência e procura de maridos. O problema é que não somos simples vaginas sem nome. Algo que está tão somente a serviço dos machos e que depois de usadas podem ser descartadas. Não é tão simples assim, caro macho. Gostamos de nos sentir importantes, portanto nos papariquem! Queremos ser lembradas, não usadas! Querem ouvir uma verdade muito dura? Nós, mulheres, não estamos ligando para o tamanho do seu pênis, nem de sua conta bancária. Queridos, queremos atenção e respeito, compromisso e vida conjugal. Aliás, são muitas as mulheres que abdicaram da vida a dois e não querem saber de casamento. Porém não é que queiram se imiscuir do relacionamento. Amor é importante! Não vamos jamais abdicar desse direito! Queremos amar e ser amadas! Por isso senhor homem, seja carinhoso, faça a barba, se perfume, que detestamos desleixo e seja bem submisso, que hoje em dia somos nós que mandamos. Você só tem o dever (direitos somos nós que lhe concedemos) de nos agradar.  É uma ditadura feminina. Mas não somos tiranas. Nada disso, somos governantes bem mais piedosas quanto você nunca o foi. Aqui nesse universo feminino, abrimos o precedente de explicar aos homens como agir. Por que sabemos o quão difícil é para vocês entender quem é que manda agora. Então abram bem os ouvidos, que aqui vão as normas que devem seguir no relacionamento: – sejam carinhosos, atenciosos e não abram mão do romantismo; sejam disponíveis e ajudem no trabalho doméstico; entendam que não abrimos mão de confessarmo-nos com nossas amigas, então sejam pacientes; cuidem dos filhos, porque as crianças precisam da companhia do pai; digam sempre o quanto somos lindas e importantes para vocês (apesar de sabermos disso, é ótimo para nosso ego que nos falem); telefonem após o primeiro encontro (não o faremos se vocês não o fizerem); comprem-nos flores e escrevam frases apaixonadas para nós (outra coisa que satisfaz nosso ego feminino); lembrem-se de datas importantes, como aniversário de namoro e casamento; e quando estivermos com dor de cabeça compreendam que não é uma desculpa, mas uma realidade decorrente de nossa vida tão atribulada (afinal, temos dupla jornada, como profissionais e também como mães); levem-nos para jantar e paguem a conta (a mulher deve se sentir amada, não usada); é sempre bom variar, portanto não deixem o relacionamento cair na rotina; a norma principal é que nos amem e isso significa que não nos troque por qualquer outra fêmea. Somos suas companheiras, portanto sejam nossa força, então, se apresentem como muito mais que o homem que abre o pote de picles, sejam o homem que nos escuta e compreende. (Mesmo que não lhes agradem). Saibam que gostamos de balé, e, se vamos ao futebol com vocês, é para que nos acompanhem quando o precisarmos. Sua mãe criou vocês, entretanto somos nós quem escolheram para viver ao seu lado, então, não nos cobrem os cuidados de uma mãe, mas a paixão de uma esposa. Seguindo estas e mais normas que podem ser criadas por sua companheira, possivelmente você homem, consiga inserir-se com mais facilidade no nosso complexo universo. Mas para tanto tem de desfazer-se dos preconceitos ditados pelo machismo e deixar aflorar o seu lado feminino para, finalmente, entrar em contato com a realidade da mulher. E com esse pequeno compêndio pretendo abrir o caminho para outras mulheres também, querendo, doutrinarem o mundo masculino e inserirem o homem no nosso estranho universo. Isso porque o mundo masculino é limitado e nós mulheres somos muito mais dinâmicas, nossa realidade não tem limites, é infinita. O que queremos é o que possuímos. Isso é ser mulher. Portanto senhor, se quiser saber de mim, abra seu coração ao amor, abra sua mente a novas possibilidades e se insira na nova realidade mundial, pois são as mulheres, hoje, que determinam as regras.

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“Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.”

Fernando Pessoa

Sobre uma dolorida saudade

            Giordana Medeiros

 Não sei o que há comigo, ao acordar, nessa casa cheia de vazios, sinto o desejo de ver aquela por quem minha alma se perdeu. E se frito ovos para o café, é a imagem dela naquilo que costumávamos chamar “nossa cozinha” é a única coisa que me ocorre. E bem que poderia não ser feriado. Talvez, se estivesse trabalhando de modo exaustivo, não teria sequer tempo de pensar nela.  Contudo, sei que mesmo nas tediosas segundas-feiras é somente nela em quem penso. Ocorre-me de preocupar-me com as coisas que fazíamos juntos. Será que ela poderia fazer tudo que fazíamos, sozinha? E fico cismando pelo apartamento, tentando alcançar o impossível esquecer. Observo o sol dessa manhã iluminando a vida e as saudades escurecendo meu mundo. Se na estante encontro um livro, minha surpresa é revelar-se nele um pouco da ninfa, que outrora corria nos jardins de minha ilusão. São páginas marcadas, trechos sublinhados e mesmo uma flor seca, que, outrora viçosa, em nossas noites de luxúria percorria-lhe o corpo acetinado. Esses mínimos detalhes, que vividos no presente passam despercebidos, somente quando pensamos neles no passado fazem algum sentido. Ou, provavelmente confiramos-lhes significados que só existem em nós. E se ela soubesse desse desesperado sentimento incutido no meu peito? Dessa saudade que me tortura, mas não me mata? Seria melhor que me ceifasse a vida definitivamente, que este sofrimento vai destruindo o que sou. Ou melhor, o que era. O que sou já é algo bem diferente do que era quando eu era ela e ela era eu. E agora sinto falta deste pedaço, desta metade amputada de mim. Éramos, no passado, não somos no presente e seremos no futuro?E se houvesse uma maneira, um subterfúgio qualquer para partir ao seu encontro, para salvar-me desta solidão devastadora que vai tomando todos os espaços? O que pode ser usado ao meu favor? Meu coração abandonado e devastado? E se pudesse, e se quisesse, e se fosse possível em fim? E se todos os “sês” em que consigo pensar, não representam uma saída real para este cárcere de solidão que erigi em torno de mim? Poderia sair, espairecer as idéias, mas o problema é que já não sei andar só. Preciso da companhia de meu amor que se desfez em desilusão. E vou carregando comigo todas as mágoas, as feridas que invisíveis ao olhar estão bem marcadas no meu espírito. Ouço o murmúrio dos pássaros, para além do meu sonho, há realidade. E, nessa realidade, há ela, aquela que foi fantasia e fato, que se divide na dor do ser e na alegria do era. Montando meu quebra-cabeça de lembranças vejo que muitas peças se perderam no véu do esquecimento. Nem sei por que razão nós brigamos. Então, creio que sequer importa mais. É uma ninharia, algo que podemos superar. Por isso, me cresce um desejo sobre-humano de procurá-la. Esse pensamento visível, esse sentimento material, se apossa de mim e faz-me andar depressa. Dou voltas nesse apartamento, enlouquecido pela falta, pela perda de algo que me era essencial. Desejando me perder, sem possibilidade de reencontrar-me.  E de tudo que tinha me restou muito pouco ou nada. Talvez somente nada. O silêncio das horas perdidas em sonhos e divagações. Mesmo a ausência dela faz-me companhia, é algo que já está comigo. Uma presença indelével no meu espírito. Sei que estou esvaindo-me em lágrimas. Toda e qualquer força foge-me. Sou fraco, o amor, porém, é forte e vai se avolumando em mim. Meu coração quebrou-se, porque quis viver, e, de tanto querer, espatifou-se. Agora vou somando as derrotas e perdas, tudo que deixei pelo caminho. Pedaços do que fui que agora não mais se encaixam no que sou. Vivo o momento que é pura saudade. E ligo a televisão, ligo também o rádio, e o barulho do presente vem me resgatar do passado. Agora vou me encontrando. Sei que não sou mais eu quem a deseja. Mas todas as coisas que fomos, todas as coisas que não mais somos. Todas as coisas que, outrora exteriores, se fizeram interiores. O que temo é atravessar o limite da razão, amor que se torna loucura. Entretanto amar não é realmente se perder? Sinto o perfume dela na cama, o travesseiro exala seu cheiro inebriando meus sentidos. E só isso importa. Para nada mais nos vale a vida. A morte não virá nem tarde nem cedo, mas no momento exato. Eis que a o que me resta é amar. Amar perdidamente, amar profundamente. Por que o essencial é que nada mais é necessário. Que sobre mim se debruce a maldita sorte. Com olhos no passado, vejo o que não vêem. Minhas noites perdidas ou ganhas na vigília de uma paixão que não existe. Mas é dia, manhã de Corpus Christi, ouço até a ladainha da procissão percorrendo as ruas sobre tapetes de serragem. Vai passando, sob canções e orações. Fazendo-me pensar na fé que perdi. Muitas coisas me foram subtraídas. A fé que se quebrou em ceticismo, o amor que se converteu em saudade. O sonho que de transformou em desilusão. Tudo isso que se perdeu para sempre. Agora penso no futuro e vejo o que não pode ser visto, mas eu vejo. O destino de um ser, que se perde em divagações, é ser eternamente sozinho. É chegado o momento de reafirmar o que sou. Mas como fazê-lo se sou o que sinto e o que sinto é um vazio, e se sou vazio, não sou nada e isso é tudo?

O que me pergunto é: por que ir tão longe por quem está perto? Posso ir ao encontro dela, mas não o faço. Não me permite minha pouca coragem. Se eu fosse quem eu deveria ser… Mas não o sou. Sou um projeto do que seria quando fui concebido. Não sei quem sou nesse maldito momento. Sei somente que sou alguém que ama. Alguém que se perdeu, mesmo que nunca haja se encontrado. Alguém à deriva num oceano de mágoas e pensamentos. Entre lapsos da consciência, ora vejo-me louco, ora são. Ora perco-me em ilusões, travo diálogos com o infinito. Ora estou a lamentar meus inúmeros erros, cometidos por minha estranha loucura. Sei que vivo à sombra do fantasma da dama que me aprisionou o coração. E não quero libertar-me. Quero ser eternamente cativo. Parece-me que erro, mas sinto que não sei. Não sei o que sinto. Não sei se fui cegado pela beleza, ou se o sentido da vida é nos entregarmos a quem nos mata. Porém, mesmo sem saber por onde me levam tais caminhos, vou. Tudo quanto penso, tudo quanto sou, é esse deserto imenso em que nem sei onde estou. E nas horas em que espero que ela venha ao meu encontro, pois espero que sinta também como eu sinto; uma ponta de melancolia vai crescendo em mim. Pois sei que ela não virá. E a mágoa de não se saber amado é maior que a mágoa de ser um dia abandonado. Nuvens cobrem o sol deste feriado. Mas não há perigo de chover. Por que o tempo não me copia o pranto. E se minhas lágrimas são infinitas tanto assim a beleza deste dia. Quisera tão somente um pouco da alvura dos luares. A noite e sua estrelada melancolia. Nem peço ilusão, que já tenho um sonho a sonhar. Nem peço alegria, só tenho esperança, mais nada. Quisera talvez que a bela por quem clamo viesse, voltasse, quem sabe, para meus braços de onde nem sequer deveria ter partido. Por Deus, súbito vem-me a imagem de luz que ilumina meus domínios e traz-me um pouco das lembranças. Algo que há muito havia se perdido, esquecido no vão das memórias desfeitas.  Coisas sem importância, mas com uma relevância incomum. Recordo-me que ela sempre apoiava a xícara de chá nas duas mãos, sem ligar para os padrões de etiqueta. Também amava o mar, semelhante uma sereia nas águas mornas do Atlântico, desfrutava da água salobra como se fosse seu habitat natural. Em silêncio vivo este momento de saudade. Aqui, longe do oceano, longe do mundo que ocorre lá fora. Longe dos amores que implicam em solidão. Longe do medo de ser, longe dos perigos que a vida traz. Aqui, separado por um abismo de tudo que é exterior, vou sobrevivendo, imaginando as barcas vazias no mar, balançando-se ao sabor das vagas. E posso até sentir o perfume da maresia. E sem saber o que sinto ou o que quero, com os olhos marejados, ponho-me a lamentar esta saudade. Sempre é belo falar do passado. Estranho que sempre nos refiramos a ele no pretérito imperfeito: eu amava, eu queria, eu sentia… Por que o pretérito seria imperfeito se é no presente que as coisas nos parecem mais doloridas? O passado nos parece muito mais dourado do que foi, ou poderia ter sido. Falar dele é inútil. Porém deveria falar de um passado que talvez não tivesse tido? São só  palavras tristes. E isso é um modo falso de esquecer. Ando de um lado para o outro, esbarrando nos móveis, limitado pelas paredes que me afastam do mundo. Para quê? Para talvez assim buscar sonhos que sumiram do meu baú de memórias. A caixa de Pandora que trago comigo. Eis que a abro e tudo que sinto foge de mim restando tão somente uma frágil esperança. Se estivesse no litoral olhando o mar esqueceria até de viver. Mas isso vem como uma determinação. Não é de repente: viva! É uma ordem: viva! E nem sei por que obedeço ainda. O mar que vejo em sonhos é mais belo que aquele que vi, há muito tempo, quando trazia ainda o amor comigo. Agora não tenho saída. Ou talvez tenha e não a haja encontrado ainda. É frente ao pavor da rejeição que vou buscar o perdão dos pecados que não sei se cometi. Vou remir minhas culpas no colo de quem amei, amo e amarei. No passado, presente e futuro. Com a luz os sonhos geralmente adormecem. O problema é que tenho a estranha mania de sonhar acordado. E nem sei se são somente fantasias, se são reais ou tão somente frutos da solidão e da melancolia. Há razão para as coisas serem como são? E todos estes medos se arvorarem no meu espírito? Onde posso encontrar um lugar a salvo dos sonhos que trago comigo? E nem sei se penso nela ainda. Talvez se telefonasse… Mas isso seria demasiadamente grosseiro. Como pedir perdão sem olhar nos olhos da mágoa? Então pego meu casaco (que Brasília é demasiadamente fria no inverno, o mar faz-nos falta, também o calor dos trópicos que desaparece nos meses em que a seca oprime os corações repletos de sonhos), e tomado de coragem vou ao encontro da vida e de todos os desejos por que sofri nesta manhã de céu azul e poucas nuvens. Mas faz frio. Sempre faz. É sempre longe na minha alma. Contudo ela não está tão distante. Nas praças as crianças brincam. E os adultos perdidos em recordações, observam de longe o que outrora lhes pertencia. Quando crianças corriam atrás das ondas, sem saber que elas voltam. Sempre voltam, mas não o sabíamos. Colho uma rosa. Há algo mais tocante que uma rosa roubada? E ao chegar à casa dela encontro o portão aberto pelo qual entro furtivamente. Encontro-a adormecida no quarto. Coloco a rosa ao seu lado e me evado de todas as esperanças que nutria. Despeço-me do amor. E faço como as ondas: vou embora, mas voltarei, que meu espírito é oceano, e minha sina é amar eternamente.

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Astronautas

Giordana Medeiros

“-E esse universo imenso, o que me diz?” Perguntou ao vento que respondeu em silêncio e vazio. Há muito tempo que a luz extinguiu-se. Só lhe restam o breu desta noite e as estrelas que brilham minúsculas no céu. Nem se desconfia que são imensas bolas de fogo e calor, pois se traduzem numa luz fria que nos chega pequenina, retratos de um tempo que já passou. As estrelas estão tão distantes que seu brilho, que ilumina a Terra, é, na verdade, produzido milhões de anos atrás. Uma viagem no tempo, a qual o homem não conseguiu alcançar. Ela vai se perdendo em mil solidões. São tantos vazios em um só espírito. E a noite começa a existir dentro de si. Sossego de coisas sobrepostas, mentiras que vão cobrindo as verdades, ilusões que vão suplantando o que seria realidade. Nesse mundo de desenganos e destinos alterados ao sabor da brisa. Eis que um rádio ao longe toca uma melodia e Beethoven e sua Sonata ao Luar preenche todos os espaços. Mesmo o coração, que sem razão pulsava, entra no compasso da música. E tudo que sentia pesava como mil toneladas. Uma tristeza profunda, em que, fácil, fácil é possível se afogar. E se houvesse o luar, para iluminar os sonhos mais obscuros, seria uma verdadeira noite de poesia. Mas não há poemas, não se ouvem os soluços dos amantes, ninguém por quem sofrer, ninguém a quem amar… Uma astronauta abandonada sozinha no infinito. É o que ela era. É o que todos são. Dizem que os homens surgiram da poeira cósmica do universo. Somos apenas pó de estrelas. Ela mais uma vez se dirige ao nada, dessa vez, parafraseando Pessoa: “-Oh universo, sou-te! Oh mundo, somente em ti, sou-me.” E nada se ouve. Nessa noite fria, em que não havia sequer luar, deseja-se ser muito mais do que se é.  O silêncio a pedir que ela se cale. Contudo, ela quer falar, quer contar ao mundo sobre a dor que sente, um vazio sobre o qual se mente. “-Na verdade nem sou triste assim…” É que hoje mergulhada na melancolia da madrugada, há muito em que se pensar, em todas as feridas que lhe marcaram o espírito, em todas as histórias que restaram apenas no papel. Contos de fadas sem princesas ou príncipes. História de reflexos, solidão no espelho: um conto sobre uma garota tão sozinha que só se sabe triste. E há ainda esse universo imenso, em que ela se perde sem retorno. Eis que lhe foge o espírito e a história vai se escrevendo com o sono que também lhe escapou. Não é mais primavera, nem mesmo verão, mas outono que cai sobre o mundo com um beijo frio. E entre o desesperado abandono desta madrugada e as tristezas infinitas, intervêm sonhos e memórias. Para cada estrela, lágrimas da noite, uma tristeza a que se liga. Estrelas de desilusões cujas histórias iniciaram num passado distante, do qual não mais se desvencilham. O mundo em que ela está é onde também está perdida. Nesse verdadeiro labirinto de mágoas faz uma confissão ao silêncio. Ao universo que se estende fora de si. Mas por dentro dela há também universo: um buraco negro que suga a luz ao seu redor. Pela janela uma paisagem incerta, em que sonhos são levados pela noite, no sopro de Zéfiro, numa viagem sem destino, pelo horizonte que a rodeia. Botões inebriados de escuridão se abrem perfumando a madrugada. Ela sabe tudo sobre a noite: um universo particular, infinitos que compõem o finito. E sabe que há de acabar, mas a solidão, que a preenche, permanecerá. Até quando? Quanto tempo há de compor o vazio das madrugadas insones? Sabe que falta algo. Ela só não sabe o que seria. Ou sabe e não se deu conta ainda. Astronauta de infinitos, o homem é tão pequeno comparado ao que tem por dentro. Um imenso oceano impossível. Aonde as vagas vão, mas não vêm. Somente sabem da dor que têm. A alma é divina e o ser, imperfeito. E nesse vagar de silêncios, a música que outrora se ouvia, também silencia. Ela não dorme, nem espera dormir. Não é dado, a uma viajante de estrelas longínquas, o sabor do sono. Porque o mundo é grande demais e pequeno demais para si. Sem força ou energia para voltar a gritar para o mundo, cala-se com um gosto amargo de mágoa na boca. Um penar sobre o qual ninguém sabe e nem mesmo compreende. Não há como se fazer conhecer o que nos é interior. Nem há, ao menos, alguém que se interesse.  Ela musica a solidão em poesia. Canções de abandono, notas musicais solitárias, que voam ao sabor do vento. E nesse universo de caos infinito não há saídas possíveis para a dor, esta restará eternamente em si.

Flutuando em sensações estranhas, o que é isso? Ela e o silêncio, ela e o infinito, ela e o inacessível, ela e o universo. Sempre acompanhada mesmo que sozinha.  E na sua história não tem o que dizer. Fita a parede, obstáculo ao mundo que não a pode ver.  Lá fora o silêncio e todas as coisas ausentes em si. Ela teimando em ser. Sempre sendo, mesmo não havendo qualquer razão. Para que? Para tudo. E sobre o tudo se compreende toda infinidade de coisas que existem e mesmo aquelas que não existem, mas ela pensa que existem, porque na verdade existem em si. Difícil de entender? Ela também o acha. Por isso vai apenas sentindo, sem saber o que na verdade sentir. A madrugada a prolongar-se em escuridão. E ela rezando para que o dia nascesse, para que a luz apagasse o breu do seu espírito. “-Oh dia, por que tarda tanto?” Rói a unha do polegar. Ninguém nunca lhe disse que um dia haveria de nascer o fim da melancolia. Mas mesmo assim ela o crê. Fé que cega a razão. Milagre que se espera e não acontece. Ela a pedir: “-vem dia, vem trazer-me a alegria dessa esperança triste”. Pois sabe que o dia é alegre embora ela se saiba triste. “-Vem e traz esperança, vem e traz esperança.” Mas a noite é caprichosa, a solidão tarda os ponteiros do relógio. Tudo a caminhar lentamente, o som que o silêncio possui a gritar dentro de si. –“Que horas são?” Ela se pergunta, mas teme olhar o relógio. Melhor permanecer na dúvida. Enquanto a humanidade repousa e esquece as amarguras, ela segue em vigília, saboreando seu próprio sofrimento. A flutuar no espaço, no infinito de seus sonhos que somente se conhece quando estamos acordados. A hora que expulsa de si o tempo, desmanchando-se em segundos, que se esvaem em desilusões. E numa confissão muda ela diz ao mundo o que o mundo não lhe diz. Arrepende-se do que foi, e mesmo do que será. Mas não há meios de evitar o futuro, o destino nos alcança e não adianta fugir do que nos espera. Pode-se adiar, tenta-se postergar, mas a vida sempre acontece. O mundo é. O universo também. Nós somos e ela será. E no espaço em que navegamos, entre movimentos de rotação e translação, há tantas galáxias e planetas inóspitos. Será que com tantas, mas tantas possibilidades compondo o universo, nós estaremos sempre, eternamente, sozinhos? Será que não há algum espírito, ou ser, que mesmo diverso do que somos, pense em nos encontrar? Alguém que no outro lado do universo, numa noite de insônia, perdido em divagações, não pense na possibilidade de haver vida, tão semelhante a sua, aqui nestes confins do espaço, nessa via láctea, galáxia de sonhos alvos como leite? Sonhos de estrelas brilhantes, que envolvem o que somos num véu de solidões. A verdade e a vida toda fora de si. Ela, na realidade, não sabe nada sobre o mundo, nem mesmo sobre si. Sabe que o silêncio morre na música, a solidão morre no amor e a tristeza, na alegria. Mas não sabe onde morre a alma que se tem, mas não se tem. A vida, esse universo de estrelas solitárias, onde os seres não se encontrarão jamais. Muito os separam. Abismos de vazios que se traduzem em bilhões de anos luz de distância. Mas mesmo o mais distante pode estar perto. O coração aproxima as pessoas. Sente-se saudade e esta nos liga ao que amamos. A astronauta desta noite insólita sussurra uma canção sobre sonhos e esperanças. Música que inventou naquele momento, que ninguém jamais ouviu ou ouvirá. A sensação de uma saudade do que nunca se teve, mas se imaginava ter. E ela a tocar os anéis de Saturno, sonhando acordada com o seu universo interno, onde os astros e estrelas estão acessíveis. Em nebulosas coloridas que enfeitam o horizonte, navegando num oceano de estrelas, entre asteróides e cometas. Não é preciso espaçonaves futurísticas de filmes de ficção científica ou qualquer traje espacial desconfortável e pesado. Somente é necessário libertar o espírito, e, por fim, deixá-lo flutuar na ausência de gravidade do nosso universo interno. Nada é tão grave que não possa ser esquecido. Nenhum pecado é tão terrível que não possa ser perdoado. Nada. Nada resta de nada. Porque não somos nada além disso: nada! O vazio em nós é respirável. Aqui não precisamos de tubos de oxigênio, nem de levar qualquer mecanismo que nos proteja a vida. O que é grave tem cura, mesmo a mais terrível das enfermidades. Não há o que não possa ser sanado.  Mesmo as trevas que caem sobre ela nesta noite fria outonal, nessas horas que se arrastam teimosas, têm remédio. Eis que no Este, no nascente de nossas esperanças vai surgindo o sol. O crepúsculo em cores púrpuras cobre o horizonte. A alegria do dia vai surgindo, com o sol que se levanta, dando fim à melancolia de uma noite insone. E mesmo sem o breu da madrugada a inspirar-la, a jovem moça, que outrora implorava pelo dia, continua a passear no espaço, no universo de fantasias que colorem as nuvens de vermelho.

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Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim…
De pensada, mal vivida…
Triste de quem é assim!

(Fernando Pessoa in Chove, que fiz eu da vida?)

 Uma tempestade improvável

 Giordana Medeiros

Cai uma chuva torrencial em que ouço o som do vento bravio, hoje não é Zéfiro quem dá as cartas, mas Eólo. E nesse rufar desesperado, ouço uma voz. E  o que  ela me diz? “Nunca mais!” Como faria o corvo de Poe. É a vida me negando saídas, e eu tentando fazer as minhas próprias. Mas sigo por caminhos tortos, em que ora me vejo a beira de precipícios, ora emaranhada numa rede de espinhos. “Vida o que você fez de mim?” Pergunto ao nada num grito desesperado de solidão e medo. Ela por sua vez questiona-me: “o que VOCÊ fez de mim?” Nos duas somos o produto de nossos erros. Talvez tão somente os meus erros. É minha culpa, são minhas falhas. Fui eu que erigi esse castelo de fantasias, que agora desmorona sobre mim. Vou perdendo meu reino de sonhos. Tudo vai sendo abandonado no caminho… É muito peso para se carregar. Vou lutando com a vida e lutando pela vida, mas sempre imaginando que se me desfizesse de tudo, talvez, doeria menos. Ou nem mesmo doeria. Essas feridas que trago no espírito, marcadas na alma pelas minhas escolhas insensatas, sumiriam. Mas a proximidade do Letes me assusta. O mundo inferior, o mundo de Hades, a que todos evitam, está cada vez mais próximo. Ocorre que, sabendo disso, fujo. Estamos travando um embate memorável. Eu e esse destino que as Moiras sibilaram-me ao ouvido. Nesse labirinto de palavras vou construindo minha nova morada. Um reino em que possa me evadir do real, mas conservando a racionalidade. Tão estranho carregar esta vida inteira, tentando fazer com que ninguém se dê conta dos traumas, quedas, medos, solidões e mágoas. E é essa a minha bagagem, tudo que terei de transportar até as margens do Letes. Mas, ao provar as águas do rio do esquecimento, de toda esta carga me livrarei. Como nos livraremos todos, após é só escolher outro espírito, outro destino que nos caiba numa nova existência, e nascemos de novo, limpos. Muito embora ocorra já no nascimento nossa primeira ferida: separar-nos do corpo acolhedor de nossa mãe. Somos arrancados de onde estávamos protegidos e lançados na vida. Ainda ouço o vento desta noite a me repetir: “nunca mais!” Creio que irei morrer. Mas como diria Pessoa: “o sentido do morrer não me move. Lembro-me que morrer não deve ter sentido.” É isso. Não vou me perder a busca de definições. A vida implica em morte, todos o sabemos, ela nos acena distante, e observamo-la ali, a nossa espreita. E mesmo com esta ameaça silenciosa, nós seguimos. Sabendo que todos os nossos caminhos somente seguem para uma única direção. E queria não sentir saudade do passado. Uma época em que tudo era simples e que não me preocupava em pensar no dilema de que vida tem a vida e que morte tem a morte… Mas segundo Pessoa tudo isto é apenas uma classificação. Tudo são termos em que se define o indefinível. Apesar de achar que isto deve chamar-se tristeza. Mesmo que não entenda bem o que seja.  As estrelas estão tão, mas tão distantes de mim. Uma noite sonhei que poderia alcançá-las, mas sorrateiras, desviavam-se de minhas mãos. Nem nos sonhos posso ter o que não posso ter. Mas seja o que for é o que tenho. Tudo mais é tudo só, mesmo que esse tudo seja muito maior que o nada que trago em mim. Mas vem Pessoa novamente e diz-me: “Dorme, que a vida é nada. Dorme, que tudo é vão!” Se há estradas a encontrar, achei-as em tremenda confusão. E com a alma ludibriada de sonho, fui seguindo, sem saber se este era o caminho. Há tantas escolhas a se fazer, e por que apenas não nos certificam da via em que menos perigos há, onde possamos perseverar sabendo que no fim haverá saída? Em que finalmente possamos dizer: a vida é um grande intervalo. Muito embora não saibamos entre quê e quê. Uma ponte entre dois nadas, de onde não há o que ser levado. Tudo fica e na morte estaremos tão desnudos quanto no nosso nascimento. Sairemos como entramos. Com uma leve ponta de ironia que os deuses se permitem. De tanto procurar acharemos nosso caminho, mas então será demasiado tarde.

Sei que vou viajando nas histórias que me conto, floreando o meu mundo de muito sonho. Sentir é a melhor maneira de viajar. Sentindo de tudo, de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Os silêncios que adormecem com o vaso sobre a mesa, a noite que cai lentamente, o som da chuva num noturno de Chopin. E tudo isso se deve sentir excessivamente. O vazio, a solidão, a mágoa de um ferido coração. A vida é feita desses excessos, temos de ter uma certeza: tudo transborda. Porque todas as coisas são realmente excessivas. Tudo que há derrama-se: o som, a música, os sentimentos e infelizmente também os sofrimentos. É uma verdadeira violência. “Uma alucinação extraordinariamente nítida” como também diria Pessoa. Vivemos todos, em comum, temos a fúria de nossas almas. Todos os sentimentos que fazem de nós seres irascíveis e complexos. Sei que quanto mais eu sinto, mais próximo estou dos deuses.  Cada alma é uma escada para o Olimpo. Um universo intrínseco ao universo que nos cerca. Um rio cuja foz é o infinito. Matéria e espírito se confundem, sonho e realidade também, nessa abertura a uma nova dimensão que é o outro, nesse encontro improvável entre deidade e pessoa. E tudo isso me faz pensar nessa noite de chuva, onde as árvores balançam-se frenéticas, que a morte é tão somente mais um caminho. Na morte estamos mais perto dos deuses. Sei que sou uma união estranha de forças cheias de luz. Tendendo para todas as direções. Eis que ali se une ao mar, à grama e também às nuvens e ao todo em fim. A vida é o que me une ao mundo. E faz com que tudo que sou seja tão grande que não caiba em meu corpo limitado. Por isso excede-me e mistura-se ao real. Os sonhos que de mim escapam vão ornando o mundo.  Tudo que há dentro do que sou tende a voltar a ser infinito.  Onde deságuam nossos sonhos? Para onde vão todas as sensações em que nos perdermos quando estamos livres da matéria que somos feitos, esse invólucro de carne que abandonamos na morte? Serão assim tão grandes os domínios de Morfeu para que lá se encontrem estes pedaços de nosso espírito que são os sonhos? E se estão lá, será que poderemos partir em busca deles como o fez Orfeu na sua viagem ao mundo inferior à procura de sua amada? Será que teremos também uma Eurídice para nos motivar a aventura? Sei que faço perguntas demais. E destas, poucas são respondidas. As outras de perdem no vácuo, no silêncio de uma alma solitária, no rufar da tempestade. Nesse início de inverno espantosamente chuvoso. Sei que tenho uma chama interior, um sentimento que me liga ao mundo. E que me afasta da tesoura de Átropos. Ela toma em sua mão a sentença de minha vida e, comovida com minha dor, desiste de mim. Dentro do que sou, todos os elementos que compõem o universo. Todas as lógicas ilógicas das teorias físicas. A verdadeira emoção indefinível que é ser. E nesses momentos em que a noite com a raiva dos ventos diz-me nunca mais, eu respondo: por enquanto. Esperança muda, uma sensação que há muito ainda a minha frente. Os raios que riscam a noite, e os trovões que se sobressaem ao silêncio falam-me: eis que o mundo é tortuoso, mas até mesmo na fúria dos elementos há uma beleza encravada. E o coração de mil vulcões entra em erupção no meu espírito. Meu equilíbrio que somente é entendido no desequilíbrio de todas as forças. Sou com todo meu corpo. Sou com todo meu espírito. Sou com tudo que sou, mesmo que seja algo imensamente diminuto e irrisório. Uma alma que está em embate com sua própria melancolia, com a angústia desesperada de seu próprio abandono. Uma nau a deriva no oceano revolto da vida. Eis que as ondas querem virar-me a embarcação e os ventos derrubam-me as velas. Entretanto, domino o leme de minha existência e continuo a navegar. Por que navegar é preciso, viver, também o é. (Perdoe-me o poeta por discordar de sua essência.) Mas começo a compreender a real razão das coisas. E mesmo que ainda não saiba todas as respostas (nunca saberemos), e que a tempestade perdure em mim, sei que logo chegará a calmaria, quando poderei retomar a minha rota, ainda que não saiba o ponto final desta viagem. Não sei se também o quero saber. Ninguém sabe se o quer realmente. Como também desconhecemos a alma que temos. Tudo é incerto e derradeiro. E, embora saibamos de tudo isso, seguimos navegando, nas ondas confusas da dúvida, esperando eternamente o inesperado.

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