Dança dos espíritos feridos

Giordana Medeiros

Às sete horas ouço o badalar dos sinos da igreja, há nuvens escuras no céu que ameaçam tombar sobre o mundo. A manhã nasce cinza, mas está quente. Deveria levantar-me, mas me detenho alguns minutos a ouvir minha própria respiração, fico abismado com a vida, mas não sei como dizer o que penso sobre ela. As palavras com as quais pretendo exprimir-me incomodam-me. Não sei ser um artesão de frases. Elas simplesmente surgem. Disseram-me, certa vez, que não se pode ensinar um pássaro a cantar, ele simplesmente o sabe. Eis o que ocorre comigo: “canto porque o minuto existe.” Não dá pra ensinar alguém a sentir. Apesar de já o houver tentado. Tenho medo de despertar um dia com a terrível surpresa de me tornar insensível como muitos seres que vivem por viver. Gente que não sabe por que está aqui, vida de subsistência. Simples viver. Difícil ser o que se é. Ainda mais quando tudo parece frágil, como se pudesse cair sobre nós a qualquer instante. Meu corpo não sou eu, mas meu espírito sim. Não me cerceia este invólucro de carne onde minha alma está armazenada. Volto-me a mim mesmo e acho um mundo. E, assim, viver parece latejar em mim. Ser machuca como uma tortura. Mas, quando fecho os olhos vejo melhor o que sou. Viver é uma fantasia real. E nessa existência só subsistem aqueles que são um tanto loucos. Enquanto me encontro aqui milhões de coisas ocorrem, simultâneo a mim, o tempo existe. Atenho-me a ouvir o tiquetaquear do relógio. E a cada instante morro um pouco. O tempo está acabando, sou perecível. Todos o somos. Nosso tempo é finito. Tudo nos precederá, mesmo nossas fantasias e ilusões. Somente lançamos as sementes, as árvores somente serão vistas por outros olhos que não os nossos. “Eu leio em meu coração e conheço os homens. Eu não sou feito como aqueles que eu vi.” Assino as Confissões de Rousseau. Há um caminho misterioso que me leva para o interior. Mas como diria o filósofo, “quem chega até aqui só chega à metade. O segundo passo tem de ser o de olhar ativo para fora – a observação autônoma, contida, do mundo lá fora” Olhando para o exterior, perco-me no breu da incompreensão e sei que os homens temem o que não podem compreender. Não consigo entender o mundo, mesmo que saiba tudo sobre os homens, eles não sabem nada sobre mim. Ser não nos torna livres, apenas acrescenta mais grilhões àqueles que nos prendem. Basta! “C’est trop fort!” Hora de seguir em frente e não mais pensar. Existir aguarda por mim. Deixo a cama, e sigo para a cozinha, onde encontro minha esposa e filho aos quais digo bom dia ainda perdido nos delírios de um espírito ferido.

Minhas dores não as conhecem ninguém. Meu coração é um espelho partido, reflete a vida, mas de forma desconexa. Sinto o mundo como uma sentença. Eis que cumpro minha pena com paciência. Eu sou, este é o segredo revelado ao mundo. Também é a razão de estarmos presos. Estamos condenados a existir. E a saída, é sempre desmerecida. Acusam de covardia a ação desesperada de escapar ao mundo. Mal sabem que fugir ao ser também é aterrorizante. O que nos espera? E quanta solidão poderá haver no fim? Cerra-se os olhos e mergulha-se na escuridão. Será somente isso? E se houver mais de um caminho? E se todos caminhos seguirem para o mesmo lugar? E se este lugar não existir? E se existisse e fosse como uma Terra do nunca, onde os espíritos não deixariam jamais de serem crianças? Seria fantástico poder preservar a ingenuidade. Ter um coração puro e protegido do mundo. “Mas quem pode deixar seu coração num belo recanto, quando o mundo bate nele com os punhos?” Nas palavras de Hölderlin. Acho que hoje estou um tanto romântica. Efeito das nuvens carregadas desta manhã. Não posso tornar pensamento às coisas externas, mas posso tornar os pensamentos em coisas externas. Eis que vou converter em realidade o mundo que trago em mim. Mas não sou limitada, creio que guardo muito mais que um mundo. Talvez haja em mim um universo em constante expansão. Dentro de nós há também um universo. Sabiam disso? Não quero me guardar em mim. Vou revelar ao mundo o que sou. E sou tão simples… Não haverá maiores problemas para me entender. Se este for o intento do ouvinte. Mas o homem está desacostumado a ouvir. Ouve tão somente a si mesmo, nem o apelo do ser consegue escutar. O coração vive ainda, pulsa e quer pulsar, teme fugir da vida. Mesmo que sempre se mostrem circunstâncias que pareçam provar ao contrário. Há ainda a música, que nos afoga em beleza a alma, varando-a de lado a lado. Minhas noites são acompanhadas de muito som. Se o sono falta, fico deitada a pensar muitas coisas, lastimando a sorte das estrelas infelizes, que brilham belas, guiando os marinheiros, ocupando os sonhos dos amantes, e os cálculos dos astrônomos, mas nada de recompensa recebem. E de tanto sonho banham a Terra! Só posso apiedar-me de sua sorte. Minha alma vive, e, muito embora a gente esqueça, a vida é mágica. Tento recordar-me disso nas horas aflitas que passo, nessas manhãs onde o cinza parece mergulhar tudo em melancolia. Pensando nos níveis não formulados, camadas imperceptíveis de fantasias que nem sempre controlamos, vou silenciar-me provando o amargo do café, proferindo um insípido bom dia ao meu marido que acaba de despertar. Levanta-se da cama já contrariado. Sempre infeliz. O que lhe torna a vida tão insuportável? Talvez jamais saiba a resposta, provavelmente por nunca possuir coragem para perguntá-lo. Temo a resposta, que poderia revelar-me as faltas de meu espírito ferido.

Se chovesse, talvez as nuvens desfizessem-se e o sol aparecesse. Odeio manhãs chuvosas, o cinza me afoga em tristeza. A solidão parece gritar em mim.  Também durante as noites, quando estrelas desmedidas ardem sobre minha cabeça em um mundo sublime que me parece fugir aos sentidos. Sou ainda tão jovem para possuir uma alma tão cansada… Um espírito que envelheceu rápido. Talvez tenha me sido conferido uma alma gasta, usada e pisada, que, de tanto sofrer, fugiu de quem a pertencia. Encontrando meu corpo vazio, fez morada e agora habita meu ser um espírito sofrido que não suporta mais os golpes da vida. E me perco no universo de meus sentimentos, nessa manhã em que o céu ameaça tempestades. Vou me cobrindo de perguntas para as quais sei as respostas, mas não as profiro. Deixo-as perdidas no infinito. Sei que o infinito não acaba. É nunca ou mesmo sempre. Mas não apenas talvez. Não se abre possibilidades. Hoje eu só queria alguém que me dissesse que não devo me preocupar. Alguém que revelasse a razão das incógnitas em que me perco. E que nunca me alcançam porque vivo o sempre. Mesmo que sempre seja uma pena a qual fui condenado pela perpetuidade. Tudo no tempo certo é belo. A vida encarrega-se de produzir a felicidade. Serei feliz, creio na promessa que o mundo me faz. Há o futuro, mesmo que esse ludibrie o presente. Vivemos de esperanças que talvez não sejam jamais mais que esperanças. Aceito todas estas ausências, todos estes silêncios, estas promessas que não nos foram feitas, mas acreditamos que existam. Por que somos ainda tão jovens… Vejo o céu desta manhã tão cinza, sei que há um porvir, mesmo que não seja aquele que aguardamos. Sinto profundamente a falta de alguma coisa, só não sei bem o que é. Sei apenas que dói e dói o tempo todo. Estou me perdendo no tempo, nas palavras, nessas idéias meio loucas que me assaltam nesta manhã e que me soam mesmo como uma ofensa. Estou deixando de ser um tanto mais feliz porque não paro de pensar. Penso logo sofro. Existir é sofrer, então existo. Por quanto tempo, não o sei. A vida é o enigma cuja solução nunca nos será proferida. Provavelmente, não em vida. Muito embora pense que não há algo nos aguardando no fim. É como um ponto. Com ele termina-se a frase. Como ele escreve-se fim. E ponto. É sobre isso tudo que queria falar aos meus pais, mas permanecemos calados no desjejum, como se abismos gigantescos nos separassem. Em silêncio nos desculpamos por nossa infelicidade. Mas continuamos tentando, sobre todos nós que tentamos a vida derrama seu sol mais radioso. E não é que, sob as nuvens escuras, uma réstia de luz surge? A vida prometendo que a solidão é passageira. E cheios de esperanças nos despedimos. Cada um para um lado, com passos fora do ritmo. Bailando numa música da qual desconhecemos a melodia, mas nossos espíritos, feridos, continuam nesta dança, mesmo que não tenhamos, previamente, combinado a coreografia.

 

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Uma opinião sobre “

  1. A beleza de um texto seu revela a doçura que tem dentro de vc jojô!
    Saudade de ter aula contigo!
    Amo cada dia mais seus textos!
    ^.^
    beijo grande!

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