Arquivo do mês: abril 2011

Anônimos

Giordana Medeiros

Em uma rua qualquer, em alguma cidade (que bem pudera ser nenhuma), nesse lugar em que também estou, a vida pulsa. Homens e mulheres seguem suas vidas sem futuro e crianças brincam imaginando que viver é simples (pobrezinhas…). Mas, nem esses nem aqueles têm certeza de que há um porvir. Somente vivem. Correndo atrás de uma bola, os meninos querem se tornar jogadores de futebol, as meninas, por sua vez, sonham com a vida de modelo, foi-se há muito a época em que as mocinhas desejavam a vida de normalista, veterinária ou médica. Hoje o mais rentável é entregar-se à sociedade de consumo. Desvalorizam-se as profissões, despreza-se o trabalhador, nesse admirável mundo novo em que todos usam vendas para não enxergar a verdadeira ordem das coisas. E essa se mostra gritante aos olhos. Cintila como um luminoso de neon, mas a humanidade cega-se, para justificar o desprezo à educação. É uma cegueira que se difunde sobre o mundo como imaginou Saramago no seu famoso Ensaio. Pessoas anônimas que vivem. Estranho imaginar que externo ao que somos a vida também existe. Como conceber que há vidas estranhas a nós? Corações que batem solitários, ali no cachorro que remexe os dejetos da lixeira, naquele menino que empina uma pipa, no homem que acende um cigarro, na mulher que derruba um saco de compras no chão de onde fogem duas laranjas que rolam no asfalto entre os carros. Há tanto para se ver nesse mundo, que mesmo pequeno, para as pernas curtas de um homem e seus horizontes diminutos, não será totalmente percorrido numa única vida. Temos 80 anos e não 80 dias para percorrer todo um planeta. Mas a volta ao mundo não pode ser completada em sua totalidade nessa vida, que mesmo longa é diminuta. Somos um ínfimo segundo na existência do universo. Esse homem que percorre a calçada com um saco de pães frescos na mão provavelmente será esquecido pelo mundo. A humanidade reconhece a perpetuidade histórica para poucos. Os demais somos todos fadados ao esquecimento. Minha memória também não é muito boa. Despreza acontecimentos importantes, e coisas das quais precisava recordar-me acabam se apagando sem que possa por em prática. Muitas histórias se perderam no travesseiro, planos que se esvaem em sonhos, talvez algum dia retornem. Espero que sim. Mas só espero. Não posso fazer nada mais que aguardar. Nossa mente é estranha, não tem lógica como os computadores, e mesmo esses são imprevisíveis. Quem nunca perdeu algo muito importante devido a falhas no programa dessas máquinas incríveis? Vou me perdendo no hábito. Minha imaginação que foi feita para muito mais que o limitado cotidiano oferece, se cerceia a alguns lampejos de idéias que morrem na impossibilidade de concretização. E nesse mundo de pessoas sem identidade, onde nada é mais como era antigamente, aventuro-me a ser. Vou existindo, mesmo que não me vejam. Sou um ser, mesmo que ser seja uma idéia diferente de existir. Ser, é possuir, e não tenho nada. Somente aconteço. E ninguém se dá conta disso. Talvez porque não sejam também. Nós acontecemos. Existimos tão somente. Assim nesse mundo quieto cheio de hábitos, no silêncio e monotonia desse crepúsculo, dá vontade de fazer alguma coisa, qualquer coisa, mesmo que não tenha nenhuma importância. Assoviar, muito embora não se saiba o ritmo daquela canção (que canção mesmo?),ou ligar o rádio, ou, até, abrir o vidro do quarto, mas não faço nada. Fico parada, na janela, observando a vida passar. Olhando para fora e enxergando para dentro. Tudo existindo discretamente, exceto a lua, que vai surgindo resplandecente no céu. As crianças saem das ruas, atendendo aos berros de suas mães que determinam que se lavem para o jantar. E ficam tão somente os jovens enamorados, em suas conversas cheias de suspiros nos portões das casas. Estou um tanto triste. De vez em quando a gente fica triste sem saber porque, tristeza sem motivo, que chega sorrateira e, de repente, toma conta de todo o seu ser.

É o gelo que tenho por dentro que não consigo entender. Estou tão sóbria que me considero um tanto amarga, irônica por que não? Acho que nunca provei da felicidade, esta embriaga, engana os sentidos. Estou muito seca nessa noite cheia de ilusões. Vou escrevendo sob um manto de estrelas e, pela janela do quarto, o silêncio chega até mim. Vou sorvendo goles de realidade, misturados com doses de desespero. E lá fora há o mundo. Fora dessas paredes brancas, dessa prisão de concreto, desse quarto em penumbra, há toda a liberdade da qual me desprovi voluntariamente. Há um mundo de pessoas anônimas, gente sem importância, tantas vidas que não me interessam por completo. Tanto quanto não interesso a elas. Vamos nos perdendo na nossa individualidade mesquinha, no egoísmo de nossas vidas diminutas. Eu nesse recinto em que um quadro na parede tenta me lembrar que imaginação é mais importante que conhecimento. Mas me fogem idéias para escrever. Somente acompanho o início dessa noite de solidões. Todos sozinhos, eu e o resto da sociedade. Mundo de homens abandonados a sua própria sorte. Rejeitados pelas divindades. Não adianta rezar para que vejam aquele menino maltrapilho deitar na calçada sobre uma folha de papelão. A vida dessa criança desprezada por Deus não tem qualquer importância. Por que? Por que somos tão insignificantes? Por que não há ninguém que olhe por nós? Por que estamos tão sozinhos? Não há quem nos segure a mão e acompanhe como o faria um pai ao seu filho que tenta ensaiar seus primeiros passos. Estamos confusos com tantas possibilidades e nos perdemos em vias que não levam a lugar algum. Por que temos este livre arbítrio que ao contrário de nos ajudar somente nos engana um tanto mais? Estamos livres e presos a nossa liberdade. Corpos nus para enfrentar a guerra de existir. Nascemos tão indefesos, suscetíveis a todo e qualquer perigo. Não há quem nos proteja. Estamos em perigo. Queria apenas poder dar a mão a alguém e acompanhar esta pessoa por seus caminhos tortuosos, porque isso foi sempre o sentido que imaginei de felicidade: poder auxiliar alguém a achar seu próprio destino. Mesmo que não tenha ainda encontrado o meu. Este estado das coisas é muito novo para mim. Verdadeiro, curioso, algo que não esperava. É atraente e pessoal. Estranho ao ponto de não conseguir expressá-lo em palavras, queria ter o dom da pintura porque o agora só pode ser retratado numa tela, com uma infinidade de tintas como as cores do crepúsculo em Brasília. Eu me sinto atraída por este inusitado estado das coisas, porque sou atraída pelo desconhecido. E são tantas vidas anônimas que me excedem. Fora do universo que sou, há outros universos, almas infinitas que serão esquecidas no decurso da história. Eu sei que existe e sempre existirá alguma coisa ausente. O verdadeiro sentido das coisas que nos escapa. Mas não penso nisso agora. Não quero me preocupar. Vou sendo, mesmo sem possuir. Existindo sem ter. Desprovida de qualquer coisa que era essencial, talvez esperança, ou amor. Não consigo amar, porque tenho medo de possuir outro coração e da responsabilidade de cativar e cultivar uma relação. Por isso vou me perdendo nesse anonimato, em que não há quem me veja. Nesse palácio que me cerceia como uma masmorra, porque me fecho em mim. Abro as páginas dos livros, e vejo, no mundo de papel, mais lógica que naquele em que pisamos todos os dias. Ainda bem que existe ainda muito tempo, para tentar fazer deste estranho mundo o que esperamos. E também agradeço por existirem outros sonhos, e essa necessidade cósmica que nos protege de nós mesmos. De repente não é preciso mais fingir nem fugir. Estamos sendo, na nossa existência desimportante, em que ninguém nos vê. Sonhos anônimos, como histórias não escritas, que se modificam no tempo. Depois vem um tal de Homero e imortaliza tudo isso. Vou me perdendo nessas noites escuras em que não se tem vontade de fazer nada, interiorizando o externo. Nesse mundo de pessoas solitárias em que nossas solidões se comunicam. E ficamos tão aterrorizados com isso e com o fato de entender nós mesmos, de ver o mais profundo do que somos… Sempre tentei ampliar a noite, para poder preencher-la de sonhos e divagações… Talvez assim possa ser muito mais que esse ínfimo átimo na existência do mundo. Poder sonhar é meu dom mais importante. Nesse cismar quase não ouço o celular soando desesperadamente, informando que é chegada a hora de abandonar a janela e voltar para o mundo em que não se sente.

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Dança dos espíritos feridos

Giordana Medeiros

Às sete horas ouço o badalar dos sinos da igreja, há nuvens escuras no céu que ameaçam tombar sobre o mundo. A manhã nasce cinza, mas está quente. Deveria levantar-me, mas me detenho alguns minutos a ouvir minha própria respiração, fico abismado com a vida, mas não sei como dizer o que penso sobre ela. As palavras com as quais pretendo exprimir-me incomodam-me. Não sei ser um artesão de frases. Elas simplesmente surgem. Disseram-me, certa vez, que não se pode ensinar um pássaro a cantar, ele simplesmente o sabe. Eis o que ocorre comigo: “canto porque o minuto existe.” Não dá pra ensinar alguém a sentir. Apesar de já o houver tentado. Tenho medo de despertar um dia com a terrível surpresa de me tornar insensível como muitos seres que vivem por viver. Gente que não sabe por que está aqui, vida de subsistência. Simples viver. Difícil ser o que se é. Ainda mais quando tudo parece frágil, como se pudesse cair sobre nós a qualquer instante. Meu corpo não sou eu, mas meu espírito sim. Não me cerceia este invólucro de carne onde minha alma está armazenada. Volto-me a mim mesmo e acho um mundo. E, assim, viver parece latejar em mim. Ser machuca como uma tortura. Mas, quando fecho os olhos vejo melhor o que sou. Viver é uma fantasia real. E nessa existência só subsistem aqueles que são um tanto loucos. Enquanto me encontro aqui milhões de coisas ocorrem, simultâneo a mim, o tempo existe. Atenho-me a ouvir o tiquetaquear do relógio. E a cada instante morro um pouco. O tempo está acabando, sou perecível. Todos o somos. Nosso tempo é finito. Tudo nos precederá, mesmo nossas fantasias e ilusões. Somente lançamos as sementes, as árvores somente serão vistas por outros olhos que não os nossos. “Eu leio em meu coração e conheço os homens. Eu não sou feito como aqueles que eu vi.” Assino as Confissões de Rousseau. Há um caminho misterioso que me leva para o interior. Mas como diria o filósofo, “quem chega até aqui só chega à metade. O segundo passo tem de ser o de olhar ativo para fora – a observação autônoma, contida, do mundo lá fora” Olhando para o exterior, perco-me no breu da incompreensão e sei que os homens temem o que não podem compreender. Não consigo entender o mundo, mesmo que saiba tudo sobre os homens, eles não sabem nada sobre mim. Ser não nos torna livres, apenas acrescenta mais grilhões àqueles que nos prendem. Basta! “C’est trop fort!” Hora de seguir em frente e não mais pensar. Existir aguarda por mim. Deixo a cama, e sigo para a cozinha, onde encontro minha esposa e filho aos quais digo bom dia ainda perdido nos delírios de um espírito ferido.

Minhas dores não as conhecem ninguém. Meu coração é um espelho partido, reflete a vida, mas de forma desconexa. Sinto o mundo como uma sentença. Eis que cumpro minha pena com paciência. Eu sou, este é o segredo revelado ao mundo. Também é a razão de estarmos presos. Estamos condenados a existir. E a saída, é sempre desmerecida. Acusam de covardia a ação desesperada de escapar ao mundo. Mal sabem que fugir ao ser também é aterrorizante. O que nos espera? E quanta solidão poderá haver no fim? Cerra-se os olhos e mergulha-se na escuridão. Será somente isso? E se houver mais de um caminho? E se todos caminhos seguirem para o mesmo lugar? E se este lugar não existir? E se existisse e fosse como uma Terra do nunca, onde os espíritos não deixariam jamais de serem crianças? Seria fantástico poder preservar a ingenuidade. Ter um coração puro e protegido do mundo. “Mas quem pode deixar seu coração num belo recanto, quando o mundo bate nele com os punhos?” Nas palavras de Hölderlin. Acho que hoje estou um tanto romântica. Efeito das nuvens carregadas desta manhã. Não posso tornar pensamento às coisas externas, mas posso tornar os pensamentos em coisas externas. Eis que vou converter em realidade o mundo que trago em mim. Mas não sou limitada, creio que guardo muito mais que um mundo. Talvez haja em mim um universo em constante expansão. Dentro de nós há também um universo. Sabiam disso? Não quero me guardar em mim. Vou revelar ao mundo o que sou. E sou tão simples… Não haverá maiores problemas para me entender. Se este for o intento do ouvinte. Mas o homem está desacostumado a ouvir. Ouve tão somente a si mesmo, nem o apelo do ser consegue escutar. O coração vive ainda, pulsa e quer pulsar, teme fugir da vida. Mesmo que sempre se mostrem circunstâncias que pareçam provar ao contrário. Há ainda a música, que nos afoga em beleza a alma, varando-a de lado a lado. Minhas noites são acompanhadas de muito som. Se o sono falta, fico deitada a pensar muitas coisas, lastimando a sorte das estrelas infelizes, que brilham belas, guiando os marinheiros, ocupando os sonhos dos amantes, e os cálculos dos astrônomos, mas nada de recompensa recebem. E de tanto sonho banham a Terra! Só posso apiedar-me de sua sorte. Minha alma vive, e, muito embora a gente esqueça, a vida é mágica. Tento recordar-me disso nas horas aflitas que passo, nessas manhãs onde o cinza parece mergulhar tudo em melancolia. Pensando nos níveis não formulados, camadas imperceptíveis de fantasias que nem sempre controlamos, vou silenciar-me provando o amargo do café, proferindo um insípido bom dia ao meu marido que acaba de despertar. Levanta-se da cama já contrariado. Sempre infeliz. O que lhe torna a vida tão insuportável? Talvez jamais saiba a resposta, provavelmente por nunca possuir coragem para perguntá-lo. Temo a resposta, que poderia revelar-me as faltas de meu espírito ferido.

Se chovesse, talvez as nuvens desfizessem-se e o sol aparecesse. Odeio manhãs chuvosas, o cinza me afoga em tristeza. A solidão parece gritar em mim.  Também durante as noites, quando estrelas desmedidas ardem sobre minha cabeça em um mundo sublime que me parece fugir aos sentidos. Sou ainda tão jovem para possuir uma alma tão cansada… Um espírito que envelheceu rápido. Talvez tenha me sido conferido uma alma gasta, usada e pisada, que, de tanto sofrer, fugiu de quem a pertencia. Encontrando meu corpo vazio, fez morada e agora habita meu ser um espírito sofrido que não suporta mais os golpes da vida. E me perco no universo de meus sentimentos, nessa manhã em que o céu ameaça tempestades. Vou me cobrindo de perguntas para as quais sei as respostas, mas não as profiro. Deixo-as perdidas no infinito. Sei que o infinito não acaba. É nunca ou mesmo sempre. Mas não apenas talvez. Não se abre possibilidades. Hoje eu só queria alguém que me dissesse que não devo me preocupar. Alguém que revelasse a razão das incógnitas em que me perco. E que nunca me alcançam porque vivo o sempre. Mesmo que sempre seja uma pena a qual fui condenado pela perpetuidade. Tudo no tempo certo é belo. A vida encarrega-se de produzir a felicidade. Serei feliz, creio na promessa que o mundo me faz. Há o futuro, mesmo que esse ludibrie o presente. Vivemos de esperanças que talvez não sejam jamais mais que esperanças. Aceito todas estas ausências, todos estes silêncios, estas promessas que não nos foram feitas, mas acreditamos que existam. Por que somos ainda tão jovens… Vejo o céu desta manhã tão cinza, sei que há um porvir, mesmo que não seja aquele que aguardamos. Sinto profundamente a falta de alguma coisa, só não sei bem o que é. Sei apenas que dói e dói o tempo todo. Estou me perdendo no tempo, nas palavras, nessas idéias meio loucas que me assaltam nesta manhã e que me soam mesmo como uma ofensa. Estou deixando de ser um tanto mais feliz porque não paro de pensar. Penso logo sofro. Existir é sofrer, então existo. Por quanto tempo, não o sei. A vida é o enigma cuja solução nunca nos será proferida. Provavelmente, não em vida. Muito embora pense que não há algo nos aguardando no fim. É como um ponto. Com ele termina-se a frase. Como ele escreve-se fim. E ponto. É sobre isso tudo que queria falar aos meus pais, mas permanecemos calados no desjejum, como se abismos gigantescos nos separassem. Em silêncio nos desculpamos por nossa infelicidade. Mas continuamos tentando, sobre todos nós que tentamos a vida derrama seu sol mais radioso. E não é que, sob as nuvens escuras, uma réstia de luz surge? A vida prometendo que a solidão é passageira. E cheios de esperanças nos despedimos. Cada um para um lado, com passos fora do ritmo. Bailando numa música da qual desconhecemos a melodia, mas nossos espíritos, feridos, continuam nesta dança, mesmo que não tenhamos, previamente, combinado a coreografia.

 

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