A última carta

Giordana Medeiros

Às vezes chorar é bom. Sente-se aquela dor profunda e a emoção explode, convertendo-se em lágrimas. Só resta juntar o que sobrou. Fotografias, cartas, livros, lembranças de alguém que, se anteriormente existia, agora se tornou só saudades. Vou amealhando as desilusões, colocando numa caixa tudo que gostaria de esquecer. Será possível? Apagar as marcas de um amor que ficou escrito em mim? Como uma tatuagem que restará eternamente em minha pele, para fazer-me recordar de algo que me foi outrora essencial, como respirar. Amar é preciso? E sofrer? Tão essencial quanto o sentimento que nos assalta e domina? Imediatamente. E irreversivelmente. Poção de magia para qual não há antídotos. Amar é presentear o ser amado com nosso próprio espírito, e, desvalidos de nós mesmos, tentamos continuar. Só que percebemos ser demasiadamente difícil. Falta-nos o coração. E este é um órgão essencial à vida. Apaixonados não vivemos, sofremos. É isto. Nada mais. Uma dor que nos vicia. Droga devastadora. Por que não consigo simplesmente abrir os grilhões que me prendem? E libertar-me deste sentimento que escraviza? Sei que quando fecho os olhos ainda penso em você. Será possível? Algumas feridas permanecerão eternamente abertas. Sei que posso esconder em mim o que sinto. Mas não posso esconder de mim o que sou. Eu era você. Mas você não era eu. E tudo ficou bagunçado, não sabia mais o que éramos. Eu era uma coisa tão estranha, uma prisioneira de meus próprios sentimentos. E só você tinha as chaves de meu cárcere. Mas você ignorou o que eu sentia. E sentia que nós estávamos tão distantes, quilômetros nos separavam, mesmo quando estávamos lado a lado. Você sempre esteve em mim. Porém, me parece que eu não estava em você. Havia algo que não existia. Havia, mesmo que inexistisse, um sentimento, que lhe conferi desde o primeiro momento, mas você não me retribuiu. Só faltava você. E você não se fez presente. E aqui juntando os pedaços do que fomos, sinto dominar-me por uma dor colossal. Vou montando as peças do que ficou de mim. Para me reconstruir da maneira que era antes de lhe conhecer. E não era um ser tão completo como imaginava, havia em mim um encaixe compatível tão somente com seu corpo. E agora, estou incompleta. Há esse vazio em mim que me mata aos poucos. Um monstro que me corrói por dentro. Essa amargura que resseca minha alma que, talvez,  jamais volte a amar. Foi apenas uma vez, mas me feriu de forma tão profunda que desconfio não ser mais capaz de sentir amor. Foi. Um momento que passou. O hoje só me traz péssimas lembranças do ontem. Muitos dias que se perderam nas vãs tentativas de ser muito mais do que era para você. Eu não era nada, e para mim, você era tudo. Fomos tudo e nada. E dessas forças conflitantes nada se tornou tudo. E, de tudo de nós, nada ficou. Por isso vou juntando os cacos do que fui. Para dar fim no que de mim restou. Lá fora a chuva parou. Era sobre nós que falávamos. Será que se deu conta disso? Nesse jardim de meu espírito você era a flor mais bonita. Mas agora secaram minhas roseiras, murcharam-me as orquídeas. Um furacão devastador de mágoas destruiu-me por dentro. E agora nesta terra desolada de meu espírito, nada mais germina. Meu coração tornou-se solo estéril. Muito pouco me sobrou de mim. Entreguei-me por completo em suas mãos. E você fez do que eu sou um ser que desconheço, e não sei no que me tornei. Sei que era uma escrava de seus desmandos. E não havia abolição de minha pena que me pudesse libertar. Fui voluntária nas masmorras de sua vida. E as chaves de minhas correntes se perderam no vai e vem das vagas. As ondas que levaram você de mim. E nesses labirintos em que me encontro, não lhe encontro. Éramos fruto do acaso. E o acaso realmente não existe. Faz tempo, tempo demais. Posso repetir. Mas o melhor mesmo é esquecer. Você continua a dizer coisas que não entendo. Tudo parece mais difícil do que é. A gente vai se fechando em nós, e as dores vão se tornando insuportáveis. Esse câncer de desilusão vai nos matar em breve. Quer saber? Esquece! Não vamos mais falar sobre isso. Só me é possível recolher as armas e bater em retirada. Vou recuar com minhas tropas porque sua vaidade me venceu. Se quer saber, estou melhor agora. Nem penso mais em nós. (Vou repetir-me essa máxima para talvez começar a acreditar). É tudo o que me sobrou: a possibilidade de esquecer-me de você, nada mais.

É carnaval, espero pela primeira vez ter o que quero: ser outra que não eu mesma. Se eu fosse outra, você me aceitaria? Se fosse algo tão diverso do que era, que lhe era tão errado e falho, você se arrependeria de abandonar-me? Será possível me tornar alguém que não lhe fira? Eu poderia tentar ser feliz. Posso ensaiar alguns sorrisos. Mas deforma-me a face a alegria. Meu rosto está acostumado à dor, e meus lábios encerram em si milhares de tristezas, por isso nossos beijos tinham o sabor salgado de minhas lágrimas. Sabe que estou numa perpétua confusão. O que deve fazer uma pessoa que não sabe o que fazer de si? Não tenho idéia do que posso ou devo fazer de mim. Não há mais caminhos a percorrer quando não sabemos onde devemos chegar. Estou perdida no que sou, nesses abismos que possuo no meu espírito. Ai de mim, tão fraca, tão solitária, tão abandonada, nestes caminhos sem fim que não me levam a lugar algum. Você dizia como meu amor era insípido. Eu não sei amar diferente. Não sei amar indiferente, nem amar eu sei, meu Deus! É esta a confissão que esperava ouvir de mim? É esta a resposta das charadas que me fazia? É isso que queria dizer-me? Pode ouvir-me agora que revelo em mim o arrependimento de ser o que sou? Nas fotografias parecíamos felizes. Onde perdemos o controle de nossa vida? Entender o que é difícil, como estas confissões que não visam redimir-me as culpas, não é vantagem. Amar o que é fácil, como esta carta, a derradeira que escrevo, que provavelmente sequer lhe envie, é um grande subida na escala humana. Você me dizia que lhe sufocava com meus silêncios. Minha voz calava-se porque não queria fazer ouvir o que me era interno. Mas você sentia. Tudo que sou lhe era visível: meu coração uma concha onde cabem mil oceanos. Diria Clarice, que “às vezes, quando duas pessoas estão juntas, apesar de falarem, o que elas comunicam silenciosamente uma à outra é o sentimento de solidão.” Era tudo o que dizíamos um ao outro, o silêncio de nossas almas solitárias. Nossas conversas monossilábicas tornaram-se mais freqüentes até que não mais falávamos o que sentíamos. Mas continuávamos sentindo. A tristeza prolifera-se numa velocidade incrível no vazio que se forma entre as pessoas. Separamo-nos aos poucos. Foi acabando o amor que nos unia. Mesmo que em mim tenha ficado impregnado na minha pele o carinho que sentia por você. Todavia, da mesma forma que me cativou, você se desfez de sua eterna responsabilidade que este ato determina. Viver é construir perpetuamente, mas o que havia entre nós desmoronou. O amor é a viga que sustenta um relacionamento. E, na falta dele, tudo começa a ruir. Toda vez que penso, lembro que estávamos em aparente paz. Mal sabia que o que éramos corria o risco de desabar sobre mim. E foi o que acabou acontecendo. Só quero lhe dizer uma coisa: estou aqui, continuo aqui não sei até quando, e quando e se você quiser, precisar, dê um toque. Não vou esperar porque esperança é a única coisa que não me ocorre. Mas se me permite lhe dizer: não estou me defendendo de nada. Estou lhe perguntando apenas se permite que eu tenha carinho por você, seu idiota? É isso. Foi tudo o que me veio, vendo esse arco-íris belíssimo, senti que devia lhe dizer de uma maneira ou de outra. Talvez não tenha usado as palavras mais bonitas. E tenha me lamentado, considerando-me a mais desgraçada das mulheres. Mas quando me conhecera eu já era assim. Não posso converter-me em outra. Apesar de ter pensado nesta louca possibilidade. Não há nada a ser esperado, nem tão pouco desesperado. Não vou enlouquecer nesta tarde, com estes restos do que fomos em minhas mãos. O que fazer destes momentos irrecuperáveis? Nasce em mim uma idéia fatal: se queimar as provas do que éramos, seria o fim definitivo. As cinzas me libertariam. Vamos terminar esta história? Acendo o palito de fósforo e inicio a queimar as fotografias. Os rostos vão se desfazendo com a combustão. Sabia que somente as chamas dariam um ponto final a esta dor. Eis o fim: os nossos sonhos nos escapam com a fumaça que sobe negra para o infinito.

 

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