Uma noite azul

Giordana Medeiros

Há coisas que permanecerão sempre as mesmas: essa solidão, a lua que brilha soberana no céu desta noite, o som das corujas à procura de sua caça, a melancolia das estrelas, que de tão distantes parecem-me frias, mesmo sabendo que queimam freneticamente durante milhões de anos. Mas para mim são frias, congelantes como a calda de um cometa. E assim sempre, sempre e sempre, mesmo quando o sempre se torna nunca. Nunca mais para sempre. São nestas noites que a vida parece doer mais em meu espírito. Vamos nos machucar perpetuamente? Querendo alcançar algo que desconhecemos? Por que queremos tanto o que não temos? E isso que queremos brilha na nossa frente para atiçar nossos sentidos. Mas querer é muito diferente de poder ter. Não apenas bens materiais, mas tudo que não nos é possível, como dar um basta na dor que permanece em nossos corações. E pensando nisso, posso caminhar nessas ruas, sob a tênue luminosidade do luar, sem temer que as estradas por onde segui por toda a vida terminem. Gatos correm pelas calçadas, uma brisa bagunça-me os cabelos, distante uma música toca melancólica. São muitas solidões para uma noite só. Passos incertos, pois me equilibro numa corda bamba, qualquer vacilo e posso cair no total desespero. Loucura ou realidade? Certo ou errado? Bem ou mal? A cada passo, a corda trepida. E o pavor é saber que não há rede para amparar-me a queda. Vou cair no infinito em mim. Minhas revelações são segredos conhecidos. Não há mistério, sou assim mesmo. O que se há de fazer? Quero abrir meu cofre interior, para mostrar-me como realmente sou. Uma alma condenada, num cárcere em que não lhe prendem grades, mas a prisão de não poder ser quem se é realmente. Porque ser o que se é, é por demais chocante para a sociedade. Assim, nas masmorras de minha mente, está guardada a imagem de quem seria, mas não sou porque não me permito ser. “Ser ou não ser? Eis a questão” Não me censurem por uma frase tão clichê. Não tenho muito que dizer. Só vou em frente, sempre em frente. As pessoas assistem novelas em suas residências, guardadas por suas idiossincrasias. Outras bebem nos bares lotados, onde fingem ser o que não são. Só para corresponder a aquilo que esperam de si. Minhas lutas sempre foram contra moinhos de vento. Cavalgando em meu Rocinante, vou em busca da glória que na verdade inexiste. Se pudesse pintar minhas emoções, para mostrar as cores da minha tristeza… Mas só me é possível cantar, eternamente, até que não mais tenha voz, até que tudo em mim silencie. Carros buzinam no engarrafamento, esbarro em pessoas nos meus caminhos, mas elas não me vêem. Como se não existisse. Sou um fantasma cuja alma ficou presa ao corpo. Há muito pereci, mas ainda estou aqui, porque me foi impossível deixar a existência. Agora existo sem existir. Sou uma mentira, conto de fadas sem “viveram felizes para sempre”. Para sempre só mesmo a dor. Vai latejar por toda a vida. Fecho os olhos que quero ouvir a canção que murmura no silêncio. Seria Joni Mitchell? Uma lágrima surge e escorre-me pela face. É bom chorar. Assim podemos dizer sem palavras o quanto estamos tristes. Continuo andando até tropeçar e cair. As mãos amparam o tombo. Com os braços e joelhos ralados, reergo-me. É o que sempre faço: levantar, depois de cada queda. Sempre é possível recolher as armas após cada derrota. E voltar à luta. Empunhar o escudo que nos guarda das espadas cortantes da verdade. Sei que há uma saída para os dilemas que me assaltam mesmo que me seja impossível enxergá-la agora. Mas há todas as luzes dessa noite, porque na cidade em que vivo, as luzes querem ofuscar a lua. Há prédios iluminados, relógios piscantes que tentam nos avisar que não há mais tempo. A hora passou. Estamos atrasados. Minhas mãos estão frias, coloco-as nos bolsos da calça para tentar aquecê-las. Um carro freia subitamente e quase sou atropelada. O motorista repreende-me a desatenção. Talvez houvesse me xingado de qualquer coisa que não entendi. Desculpo-me desajeitadamente. E sigo, para onde? Não sei aonde quero chegar, mas continuo, buscando algo que desconheço. Sempre desejei descobrir em mim aquilo que vejo nos outros. Mas é difícil achar. Talvez não exista em meu espírito, e tudo que há em mim é uma culpa inocente dos pecados que não cheguei a cometer.

A vida é má, a vida é detestável. Mas é tudo que temos. No momento da morte tudo que teremos é a vida e nada mais, nem posses, nem crenças, nem medos, só a vida e ela também nos abandonará. Mesmo assim todos seguimos. Fazemos nossos próprios caminhos. Ninguém pára. É como se marchássemos ao som de uma música (Joni Mitchell?), talvez do vento, e do rio, ao som de clarins e trombetas num verdadeiro êxtase e tumulto da alma. Vejo uma garota, provavelmente tenha vinte e dois anos. Anda mal vestida, e caminha a passos trôpegos. Depressa, nada a distrai. Num momento parece ver tudo, noutro parece não perceber coisa alguma. É assim que me vêem também? Essa foi a maneira como fomos educados: a ver nos outros o que vemos em nós. Sei que cismar assim pela noite é perigoso. Temos de temer aos homens. “O homem é o lobo do homem.” Somos nossos próprios predadores naturais. E nessas ruas onde a solidão parece mais gritante, onde estamos cercados por todos e ninguém nos vê, tenho certeza que tudo passa. Até a juventude e o amor. Vai escorrendo de minhas mãos tudo que tentei inutilmente reter. E só me resta a esperança, o único dos males do mundo que permaneceu na caixa de Pandora. Não pretendo pregar sermões, e nada do que digo é realmente relevante. A única coisa que vale a pena a fazer desse conto é jogá-lo fora. Voltemos a tratar das querências que temos. Sabem, querer e não ter, querer e querer, como isso atormenta meu coração. Querer sempre, querer sem poder ter, como se algo estivesse tão próximo e ainda assim tão distante. Será que as palavras dizem tudo? Há algumas coisas que estas não podem corresponder completamente. É como se não conseguíssemos exaurir o sentido das coisas somente conceituando-as. Na verdade, creio que as palavras não dizem coisa alguma, apenas nos confundem ainda mais. Nos becos, onde se amontoam latas de lixo, vira-latas fuçam os dejetos humanos à procura de alimento. E ainda há a música sibilando em minha mente. Tenho quase certeza que é Joni Mitchell. E se fosse realmente? E se não fosse, isso modificaria o que sinto agora?   “A verdade é que não tenho aptidão para refletir. Em todas as coisas procuro o que é concreto. Só assim consigo agarrar o mundo.” Se posso fazer minhas as palavras de Virgínia Woolf. Não sei por que me procuro se não me acho. Sei que acho que sou como as ondas que vão e vêm. Inconstante e por vezes perigosa. A vida é estranha. O amor também. Sempre se pensa que não vai acontecer, mas acontece. Estranho como pensar ouvir uma canção azul numa noite solitária. Eu realmente adoro música. Parece dizer todas as coisas que nós não conseguimos dizer. E o amor é esta canção soando em nós. E posso ouvir-la perfeitamente: “Blue, here is a shell for you/ Inside you’ll HEAR a sigh/ A foggy lullaby/ There is your song from me.”¹  O corpo cansado tenta se agarrar em algo para não se afogar no vazio desta noite. Por mais astuta que aparente ser, sou na verdade muito grave (tal qual uma doença), muito profunda (igual ao oceano pacífico), e muito humana (semelhante ao mais comum dos homens). A poesia não consiste no que a gente escreve, mas naquilo que a gente sente. Vou sentindo tudo nesta noite onde Joni Mitchell segue cantando, na solidão das ruas de uma cidade repleta de sonhos, em que me perco cada vez que me encontro. Toda vez que tento consertar um erro, cometo outro. Sou uma culpada inocente. E se a lua pode roubar das estrelas a luz que reflete, posso tomar para mim a canção que murmura no silêncio, para musicar meus momentos. Vou andando, por estradas sinuosas e sem destino. “Easy Rider”. Há respostas mais claras para as perguntas mais obscuras. Porém não quero respostas agora. Prefiro permanecer na dúvida, com Blue embalando meus passos, seguindo para onde desconheço. Caminhos marcados nos labirintos da nossa dor. Faz de conta que tudo que tinha não era faz de conta. “Era uma vez…” Por que iniciar uma história que não termina num “viveram felizes para sempre”?  Agora vou terminar com o sonho. “E vou abrir os olhos e da escuridão para a luz meu coração vai se abrir para a manhã.” Agora é Clarice quem me ilumina. Já é hora de voltar para a realidade, em que Joni Mitchell não embala os caminhos e a escuridão, em que tudo fica claro, se converte em dia, quando todos os desejos se tornam obscuros. É preciso seguir, mesmo que não se saiba para onde.

1. Blue, aqui está uma concha para você/ Dentro dela você vai ouvir um sopro/ Uma frágil canção de ninar/ E essa é minha canção pra você.

 

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Tags: | 1 Comentário

Navegação de Posts

Uma opinião sobre “

  1. Ludmila

    Ah, que fantástico! Não há remédio melhor pra escuridão do que a luz tranquila da manhã. Grande Clarice!
    Não há remédio melhor para a triste realidade que uma subversão bem acreditada. Grande Cervantes!
    E não há prisão pior do que dentro da alma. Mas não há coisa mais linda que a imponente lua que inspira a maioria dos poetas.

    Emocionante!
    Beijos querida!
    Lud

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: