Arquivo do mês: março 2011

A última carta

Giordana Medeiros

Às vezes chorar é bom. Sente-se aquela dor profunda e a emoção explode, convertendo-se em lágrimas. Só resta juntar o que sobrou. Fotografias, cartas, livros, lembranças de alguém que, se anteriormente existia, agora se tornou só saudades. Vou amealhando as desilusões, colocando numa caixa tudo que gostaria de esquecer. Será possível? Apagar as marcas de um amor que ficou escrito em mim? Como uma tatuagem que restará eternamente em minha pele, para fazer-me recordar de algo que me foi outrora essencial, como respirar. Amar é preciso? E sofrer? Tão essencial quanto o sentimento que nos assalta e domina? Imediatamente. E irreversivelmente. Poção de magia para qual não há antídotos. Amar é presentear o ser amado com nosso próprio espírito, e, desvalidos de nós mesmos, tentamos continuar. Só que percebemos ser demasiadamente difícil. Falta-nos o coração. E este é um órgão essencial à vida. Apaixonados não vivemos, sofremos. É isto. Nada mais. Uma dor que nos vicia. Droga devastadora. Por que não consigo simplesmente abrir os grilhões que me prendem? E libertar-me deste sentimento que escraviza? Sei que quando fecho os olhos ainda penso em você. Será possível? Algumas feridas permanecerão eternamente abertas. Sei que posso esconder em mim o que sinto. Mas não posso esconder de mim o que sou. Eu era você. Mas você não era eu. E tudo ficou bagunçado, não sabia mais o que éramos. Eu era uma coisa tão estranha, uma prisioneira de meus próprios sentimentos. E só você tinha as chaves de meu cárcere. Mas você ignorou o que eu sentia. E sentia que nós estávamos tão distantes, quilômetros nos separavam, mesmo quando estávamos lado a lado. Você sempre esteve em mim. Porém, me parece que eu não estava em você. Havia algo que não existia. Havia, mesmo que inexistisse, um sentimento, que lhe conferi desde o primeiro momento, mas você não me retribuiu. Só faltava você. E você não se fez presente. E aqui juntando os pedaços do que fomos, sinto dominar-me por uma dor colossal. Vou montando as peças do que ficou de mim. Para me reconstruir da maneira que era antes de lhe conhecer. E não era um ser tão completo como imaginava, havia em mim um encaixe compatível tão somente com seu corpo. E agora, estou incompleta. Há esse vazio em mim que me mata aos poucos. Um monstro que me corrói por dentro. Essa amargura que resseca minha alma que, talvez,  jamais volte a amar. Foi apenas uma vez, mas me feriu de forma tão profunda que desconfio não ser mais capaz de sentir amor. Foi. Um momento que passou. O hoje só me traz péssimas lembranças do ontem. Muitos dias que se perderam nas vãs tentativas de ser muito mais do que era para você. Eu não era nada, e para mim, você era tudo. Fomos tudo e nada. E dessas forças conflitantes nada se tornou tudo. E, de tudo de nós, nada ficou. Por isso vou juntando os cacos do que fui. Para dar fim no que de mim restou. Lá fora a chuva parou. Era sobre nós que falávamos. Será que se deu conta disso? Nesse jardim de meu espírito você era a flor mais bonita. Mas agora secaram minhas roseiras, murcharam-me as orquídeas. Um furacão devastador de mágoas destruiu-me por dentro. E agora nesta terra desolada de meu espírito, nada mais germina. Meu coração tornou-se solo estéril. Muito pouco me sobrou de mim. Entreguei-me por completo em suas mãos. E você fez do que eu sou um ser que desconheço, e não sei no que me tornei. Sei que era uma escrava de seus desmandos. E não havia abolição de minha pena que me pudesse libertar. Fui voluntária nas masmorras de sua vida. E as chaves de minhas correntes se perderam no vai e vem das vagas. As ondas que levaram você de mim. E nesses labirintos em que me encontro, não lhe encontro. Éramos fruto do acaso. E o acaso realmente não existe. Faz tempo, tempo demais. Posso repetir. Mas o melhor mesmo é esquecer. Você continua a dizer coisas que não entendo. Tudo parece mais difícil do que é. A gente vai se fechando em nós, e as dores vão se tornando insuportáveis. Esse câncer de desilusão vai nos matar em breve. Quer saber? Esquece! Não vamos mais falar sobre isso. Só me é possível recolher as armas e bater em retirada. Vou recuar com minhas tropas porque sua vaidade me venceu. Se quer saber, estou melhor agora. Nem penso mais em nós. (Vou repetir-me essa máxima para talvez começar a acreditar). É tudo o que me sobrou: a possibilidade de esquecer-me de você, nada mais.

É carnaval, espero pela primeira vez ter o que quero: ser outra que não eu mesma. Se eu fosse outra, você me aceitaria? Se fosse algo tão diverso do que era, que lhe era tão errado e falho, você se arrependeria de abandonar-me? Será possível me tornar alguém que não lhe fira? Eu poderia tentar ser feliz. Posso ensaiar alguns sorrisos. Mas deforma-me a face a alegria. Meu rosto está acostumado à dor, e meus lábios encerram em si milhares de tristezas, por isso nossos beijos tinham o sabor salgado de minhas lágrimas. Sabe que estou numa perpétua confusão. O que deve fazer uma pessoa que não sabe o que fazer de si? Não tenho idéia do que posso ou devo fazer de mim. Não há mais caminhos a percorrer quando não sabemos onde devemos chegar. Estou perdida no que sou, nesses abismos que possuo no meu espírito. Ai de mim, tão fraca, tão solitária, tão abandonada, nestes caminhos sem fim que não me levam a lugar algum. Você dizia como meu amor era insípido. Eu não sei amar diferente. Não sei amar indiferente, nem amar eu sei, meu Deus! É esta a confissão que esperava ouvir de mim? É esta a resposta das charadas que me fazia? É isso que queria dizer-me? Pode ouvir-me agora que revelo em mim o arrependimento de ser o que sou? Nas fotografias parecíamos felizes. Onde perdemos o controle de nossa vida? Entender o que é difícil, como estas confissões que não visam redimir-me as culpas, não é vantagem. Amar o que é fácil, como esta carta, a derradeira que escrevo, que provavelmente sequer lhe envie, é um grande subida na escala humana. Você me dizia que lhe sufocava com meus silêncios. Minha voz calava-se porque não queria fazer ouvir o que me era interno. Mas você sentia. Tudo que sou lhe era visível: meu coração uma concha onde cabem mil oceanos. Diria Clarice, que “às vezes, quando duas pessoas estão juntas, apesar de falarem, o que elas comunicam silenciosamente uma à outra é o sentimento de solidão.” Era tudo o que dizíamos um ao outro, o silêncio de nossas almas solitárias. Nossas conversas monossilábicas tornaram-se mais freqüentes até que não mais falávamos o que sentíamos. Mas continuávamos sentindo. A tristeza prolifera-se numa velocidade incrível no vazio que se forma entre as pessoas. Separamo-nos aos poucos. Foi acabando o amor que nos unia. Mesmo que em mim tenha ficado impregnado na minha pele o carinho que sentia por você. Todavia, da mesma forma que me cativou, você se desfez de sua eterna responsabilidade que este ato determina. Viver é construir perpetuamente, mas o que havia entre nós desmoronou. O amor é a viga que sustenta um relacionamento. E, na falta dele, tudo começa a ruir. Toda vez que penso, lembro que estávamos em aparente paz. Mal sabia que o que éramos corria o risco de desabar sobre mim. E foi o que acabou acontecendo. Só quero lhe dizer uma coisa: estou aqui, continuo aqui não sei até quando, e quando e se você quiser, precisar, dê um toque. Não vou esperar porque esperança é a única coisa que não me ocorre. Mas se me permite lhe dizer: não estou me defendendo de nada. Estou lhe perguntando apenas se permite que eu tenha carinho por você, seu idiota? É isso. Foi tudo o que me veio, vendo esse arco-íris belíssimo, senti que devia lhe dizer de uma maneira ou de outra. Talvez não tenha usado as palavras mais bonitas. E tenha me lamentado, considerando-me a mais desgraçada das mulheres. Mas quando me conhecera eu já era assim. Não posso converter-me em outra. Apesar de ter pensado nesta louca possibilidade. Não há nada a ser esperado, nem tão pouco desesperado. Não vou enlouquecer nesta tarde, com estes restos do que fomos em minhas mãos. O que fazer destes momentos irrecuperáveis? Nasce em mim uma idéia fatal: se queimar as provas do que éramos, seria o fim definitivo. As cinzas me libertariam. Vamos terminar esta história? Acendo o palito de fósforo e inicio a queimar as fotografias. Os rostos vão se desfazendo com a combustão. Sabia que somente as chamas dariam um ponto final a esta dor. Eis o fim: os nossos sonhos nos escapam com a fumaça que sobe negra para o infinito.

 

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Uma noite azul

Giordana Medeiros

Há coisas que permanecerão sempre as mesmas: essa solidão, a lua que brilha soberana no céu desta noite, o som das corujas à procura de sua caça, a melancolia das estrelas, que de tão distantes parecem-me frias, mesmo sabendo que queimam freneticamente durante milhões de anos. Mas para mim são frias, congelantes como a calda de um cometa. E assim sempre, sempre e sempre, mesmo quando o sempre se torna nunca. Nunca mais para sempre. São nestas noites que a vida parece doer mais em meu espírito. Vamos nos machucar perpetuamente? Querendo alcançar algo que desconhecemos? Por que queremos tanto o que não temos? E isso que queremos brilha na nossa frente para atiçar nossos sentidos. Mas querer é muito diferente de poder ter. Não apenas bens materiais, mas tudo que não nos é possível, como dar um basta na dor que permanece em nossos corações. E pensando nisso, posso caminhar nessas ruas, sob a tênue luminosidade do luar, sem temer que as estradas por onde segui por toda a vida terminem. Gatos correm pelas calçadas, uma brisa bagunça-me os cabelos, distante uma música toca melancólica. São muitas solidões para uma noite só. Passos incertos, pois me equilibro numa corda bamba, qualquer vacilo e posso cair no total desespero. Loucura ou realidade? Certo ou errado? Bem ou mal? A cada passo, a corda trepida. E o pavor é saber que não há rede para amparar-me a queda. Vou cair no infinito em mim. Minhas revelações são segredos conhecidos. Não há mistério, sou assim mesmo. O que se há de fazer? Quero abrir meu cofre interior, para mostrar-me como realmente sou. Uma alma condenada, num cárcere em que não lhe prendem grades, mas a prisão de não poder ser quem se é realmente. Porque ser o que se é, é por demais chocante para a sociedade. Assim, nas masmorras de minha mente, está guardada a imagem de quem seria, mas não sou porque não me permito ser. “Ser ou não ser? Eis a questão” Não me censurem por uma frase tão clichê. Não tenho muito que dizer. Só vou em frente, sempre em frente. As pessoas assistem novelas em suas residências, guardadas por suas idiossincrasias. Outras bebem nos bares lotados, onde fingem ser o que não são. Só para corresponder a aquilo que esperam de si. Minhas lutas sempre foram contra moinhos de vento. Cavalgando em meu Rocinante, vou em busca da glória que na verdade inexiste. Se pudesse pintar minhas emoções, para mostrar as cores da minha tristeza… Mas só me é possível cantar, eternamente, até que não mais tenha voz, até que tudo em mim silencie. Carros buzinam no engarrafamento, esbarro em pessoas nos meus caminhos, mas elas não me vêem. Como se não existisse. Sou um fantasma cuja alma ficou presa ao corpo. Há muito pereci, mas ainda estou aqui, porque me foi impossível deixar a existência. Agora existo sem existir. Sou uma mentira, conto de fadas sem “viveram felizes para sempre”. Para sempre só mesmo a dor. Vai latejar por toda a vida. Fecho os olhos que quero ouvir a canção que murmura no silêncio. Seria Joni Mitchell? Uma lágrima surge e escorre-me pela face. É bom chorar. Assim podemos dizer sem palavras o quanto estamos tristes. Continuo andando até tropeçar e cair. As mãos amparam o tombo. Com os braços e joelhos ralados, reergo-me. É o que sempre faço: levantar, depois de cada queda. Sempre é possível recolher as armas após cada derrota. E voltar à luta. Empunhar o escudo que nos guarda das espadas cortantes da verdade. Sei que há uma saída para os dilemas que me assaltam mesmo que me seja impossível enxergá-la agora. Mas há todas as luzes dessa noite, porque na cidade em que vivo, as luzes querem ofuscar a lua. Há prédios iluminados, relógios piscantes que tentam nos avisar que não há mais tempo. A hora passou. Estamos atrasados. Minhas mãos estão frias, coloco-as nos bolsos da calça para tentar aquecê-las. Um carro freia subitamente e quase sou atropelada. O motorista repreende-me a desatenção. Talvez houvesse me xingado de qualquer coisa que não entendi. Desculpo-me desajeitadamente. E sigo, para onde? Não sei aonde quero chegar, mas continuo, buscando algo que desconheço. Sempre desejei descobrir em mim aquilo que vejo nos outros. Mas é difícil achar. Talvez não exista em meu espírito, e tudo que há em mim é uma culpa inocente dos pecados que não cheguei a cometer.

A vida é má, a vida é detestável. Mas é tudo que temos. No momento da morte tudo que teremos é a vida e nada mais, nem posses, nem crenças, nem medos, só a vida e ela também nos abandonará. Mesmo assim todos seguimos. Fazemos nossos próprios caminhos. Ninguém pára. É como se marchássemos ao som de uma música (Joni Mitchell?), talvez do vento, e do rio, ao som de clarins e trombetas num verdadeiro êxtase e tumulto da alma. Vejo uma garota, provavelmente tenha vinte e dois anos. Anda mal vestida, e caminha a passos trôpegos. Depressa, nada a distrai. Num momento parece ver tudo, noutro parece não perceber coisa alguma. É assim que me vêem também? Essa foi a maneira como fomos educados: a ver nos outros o que vemos em nós. Sei que cismar assim pela noite é perigoso. Temos de temer aos homens. “O homem é o lobo do homem.” Somos nossos próprios predadores naturais. E nessas ruas onde a solidão parece mais gritante, onde estamos cercados por todos e ninguém nos vê, tenho certeza que tudo passa. Até a juventude e o amor. Vai escorrendo de minhas mãos tudo que tentei inutilmente reter. E só me resta a esperança, o único dos males do mundo que permaneceu na caixa de Pandora. Não pretendo pregar sermões, e nada do que digo é realmente relevante. A única coisa que vale a pena a fazer desse conto é jogá-lo fora. Voltemos a tratar das querências que temos. Sabem, querer e não ter, querer e querer, como isso atormenta meu coração. Querer sempre, querer sem poder ter, como se algo estivesse tão próximo e ainda assim tão distante. Será que as palavras dizem tudo? Há algumas coisas que estas não podem corresponder completamente. É como se não conseguíssemos exaurir o sentido das coisas somente conceituando-as. Na verdade, creio que as palavras não dizem coisa alguma, apenas nos confundem ainda mais. Nos becos, onde se amontoam latas de lixo, vira-latas fuçam os dejetos humanos à procura de alimento. E ainda há a música sibilando em minha mente. Tenho quase certeza que é Joni Mitchell. E se fosse realmente? E se não fosse, isso modificaria o que sinto agora?   “A verdade é que não tenho aptidão para refletir. Em todas as coisas procuro o que é concreto. Só assim consigo agarrar o mundo.” Se posso fazer minhas as palavras de Virgínia Woolf. Não sei por que me procuro se não me acho. Sei que acho que sou como as ondas que vão e vêm. Inconstante e por vezes perigosa. A vida é estranha. O amor também. Sempre se pensa que não vai acontecer, mas acontece. Estranho como pensar ouvir uma canção azul numa noite solitária. Eu realmente adoro música. Parece dizer todas as coisas que nós não conseguimos dizer. E o amor é esta canção soando em nós. E posso ouvir-la perfeitamente: “Blue, here is a shell for you/ Inside you’ll HEAR a sigh/ A foggy lullaby/ There is your song from me.”¹  O corpo cansado tenta se agarrar em algo para não se afogar no vazio desta noite. Por mais astuta que aparente ser, sou na verdade muito grave (tal qual uma doença), muito profunda (igual ao oceano pacífico), e muito humana (semelhante ao mais comum dos homens). A poesia não consiste no que a gente escreve, mas naquilo que a gente sente. Vou sentindo tudo nesta noite onde Joni Mitchell segue cantando, na solidão das ruas de uma cidade repleta de sonhos, em que me perco cada vez que me encontro. Toda vez que tento consertar um erro, cometo outro. Sou uma culpada inocente. E se a lua pode roubar das estrelas a luz que reflete, posso tomar para mim a canção que murmura no silêncio, para musicar meus momentos. Vou andando, por estradas sinuosas e sem destino. “Easy Rider”. Há respostas mais claras para as perguntas mais obscuras. Porém não quero respostas agora. Prefiro permanecer na dúvida, com Blue embalando meus passos, seguindo para onde desconheço. Caminhos marcados nos labirintos da nossa dor. Faz de conta que tudo que tinha não era faz de conta. “Era uma vez…” Por que iniciar uma história que não termina num “viveram felizes para sempre”?  Agora vou terminar com o sonho. “E vou abrir os olhos e da escuridão para a luz meu coração vai se abrir para a manhã.” Agora é Clarice quem me ilumina. Já é hora de voltar para a realidade, em que Joni Mitchell não embala os caminhos e a escuridão, em que tudo fica claro, se converte em dia, quando todos os desejos se tornam obscuros. É preciso seguir, mesmo que não se saiba para onde.

1. Blue, aqui está uma concha para você/ Dentro dela você vai ouvir um sopro/ Uma frágil canção de ninar/ E essa é minha canção pra você.

 

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