Confissões de uma alma solitária

Giordana Medeiros

 

Sinto-me inteiramente só,

como se estivesse escrevendo

para alguém no ar.

É tão estranho!

Katherine Mansfield

Silêncio, sinto-me como se o tempo houvesse matado algo em mim. Talvez seja meu espírito que tenha perecido. Agora sou um ser oco, vazio de sentimentos. Escrevo, porque não consigo achar outro meio de encontrar em mim as respostas das questões que me atormentam. A solidão me acompanha, como a lua prateada que de repente surge nesta noite, ambas tão distantes das estrelas… Eu uma alma vagando pela noite, ela um astro que toma emprestada a luz da qual resplandece. Somos companheiras no vazio deste espaço repleto de estrelas.  Lendo Katherine Mansfield, sinto inveja da maneira como ela se pronuncia sobre tudo. Quisera escrever com tal propriedade: do mundo eu não sei nada. Sei somente sobre mim. Meus temores, decepções, meus sonhos e frustrações. Sobre isto sei muito bem o que falar. Nada mais me é tão próximo, como as dores do meu selvagem coração. E se chovesse? Tudo ficaria mais claro, pois quando se cobrem as estrelas, e a noite torna-se um breu infinito, posso ver nitidamente o que resta em mim. “I love the rain. I want the feeling of it on my face.”¹ Nas palavras da ilustre autora, que ora me refiro. A chuva que me ensopa as roupas, é também aquela que se mistura às minhas lágrimas. Quanto mais eu sofro, mais sinto em mim uma força que me renova, e me dá condições de seguir em frente. Sempre em frente. Não posso deixar que alguns simples tropeços me demovam da idéia de seguir. Mesmo que não tenha uma direção definida, vou ao sabor das marés, as correntes guiam minha nau. Meu coração em pedaços, sangra em palavras. Nada me deixa tão perplexa quanto o amor. Sei que deveria ser mais fluente na língua dos amantes. Mas, mesmo escrevendo, desconheço como agir. Relacionadas ao amor, só me sobram desilusões. Acho que devo ser incapaz de amar. E agora, aqui, reina tão somente o silêncio, o que está acontecendo? Não me encontro em mim, só me perco neste mundo de pessoas em que ninguém me vê. Sou invisível. Um espírito que vaga pelo mundo. Uma tímida brisa num dia de verão. Eu era o que sou e sou o que era. Não sou nada mais que meu próprio passado, negando isso não sou nada. Uma canção para a qual faltam partituras. No fim deste conto encontrarei em mim o que sou. Depois de tanto procurar, um pouco mais deste espírito que me possui se revela. Há muitas palavras para caracterizar-me. Como há, e haverá muitos contos onde me achar. Um pouco de mim em cada sentença. Eis meu reflexo que se traduz em frases melancólicas. Nada mais, talvez uma lágrima, que me emociona o fato de saber como sou. Um pavor de ser me assalta. Vigiam-me as constelações de estrelas flutuantes. Sobre meu corpo, infinitos astros, luzes que pontilham a noite de luz. É sempre Natal no universo. Mas não se enganem, estrelas também falecem, explodem num festival de cores e, após, se acalmam convertendo-se em estrelas anãs. Confesso que inúmeros problemas me corroem por dentro. Não vejo saída para as questões que me assombram. Se pudesse, escaparia de tudo, para algum lugar deserto, onde nada me alcançaria. Somente a noite, a lua e as estrelas tomariam conhecimento de meu paradeiro. Sou fugitiva dos calabouços de meu espírito. E só queria estar no mar, sentindo as vagas batizarem meus pés, limpando-me das faltas amealhadas durante toda uma vida.  O som do mar, um vago murmúrio, como se houvesse despertado de um sonho ruim. E ouve-se o som do próprio coração, concha que trazemos conosco. Mesmo distante do oceano, coloca-se o ouvido sobre o peito de alguém: eis aí o som das ondas que se perdem em nós. Viver é a mais penosa dúvida que carregamos no espírito. Enquanto isso, o mar respira docemente. Como se fosse possível acolher toda a beleza terna do litoral no peito. Mas por quê? Por quê? É esta a questão mais misteriosa e enlouquecedora que me toma. Eu mesma encarcero-me e não existe quem me permita a fuga de minhas masmorras internas. Vigio-me constantemente, para que não consiga fugir desta prisão interior. Estou cumprindo pena perpétua no meu espírito. A vida é insignificante, ridícula e absurdamente irrisória. Uma piada que contamos a nós mesmos. Risível. No fim somos bobos da corte em nosso próprio reino.

Agora que me equilibro nas palavras, como o tênue fio em que caminha a equilibrista, vou cantar minhas dores. Minhas mágoas que me transcederão. Quando não mais existir, ainda repercutirá no mundo o som de meus soluços. Ouço um barulho, a brisa sibila em meus ouvidos. Um sussurro que escuto de olhos bem abertos. Enquanto espero a chegada de alguém que não vem, à espreita de que algo aconteça e que não acontece. São estes enigmas que me ameaçam como o machado do carrasco sobre minha cabeça. “Por que você tem de sofrer tanto? Você não foi feita para sofrer, então sorria!” Repreende-me o espelho, quando lhe pergunto se há alguém mais bela do que eu. Sempre haverá mais belas, mais inteligentes, mais extrovertidas. Tudo o que sou menos. Quisera ser o cisne que à Leda enganou. Se pudesse converter-me em cisne para tomar para mim incautos corações… Aguardaria o sono deles se apossar, de leve me aproximaria, na surdina chegaria e de assalto laçaria espíritos solitários. Eis que posso me converter em palavras, aqui tudo posso. Não há limites para minha imaginação. Posso ser o cisne ou Leda, posso ser Cástor e Pollux, mesmo Helena seqüestrada, que causaria a guerra de Tróia. Eis meus poderes divinos. Sou a única senhora do conto. E nele posso fazer o que meu coração pede. E neste momento, quero ser divindade, ter conhecimento sobre o destino dos personagens. Posso converter-me em personagem também e, por simples ironia, matar-me. Isso que me aguarda nesta trama. O poder sobre-humano de fazer o que bem me apetece. Na verdade só podemos colocar um certo tanto no conto, sempre há um sacrifício, corta-se trechos, apaga-se palavras, censura-se adjetivos. E o dia vai se apagando. Nesta escuridão da noite, há uma canção esquecida no baú da memória. Quantas músicas podemos cantar no silêncio de uma noite solitária? Quando a lágrima que escorre por nossas faces, deságua em nossos lábios, se pode sentir o sabor salgado da tristeza. Sabe qual a minha maior dificuldade? Como ocorre a maioria dos escritores jovens, sou demasiadamente romântica. « Je pleure parce que Il y a quelque chose que n’ habite plus en mon coeur. Manque quelque chose, pêut être une raison pour vivre. »² Só sei viver de amor, mais nada. Então começa a chover, uma série de longas agulhas de chuva cobrem as janelas. Mas não há problema porque isso ocorre tão somente lá fora, não é? Sinto uma tempestade em mim. Há ainda tanto a dizer, mas com a chuva não ouço mais nada. O vento que sussurrava entre os galhos das árvores, agora sopra furioso. As folhas debatem-se. E tudo isso com raios de luzes ofuscantes, clareando em flashes à noite que se prolonga. Tenho muitas faltas para redimir. Escrevo para ninguém, ou talvez para mim. Talvez doa um pouco menos escrever sobre as lâminas de mágoas que me dilaceram o espírito. Sei cuidar de mim. Claro que sei. Será? Pode ser? Talvez, não sei ao certo. Sinto uma vontade gigantesca de pontuar o que já escrevi. E ponto: fim. Mas não consigo desfazer-me desta história. Ainda há uma série de dúvidas que me atormenta. Sou o que aparento ser?  Parecer não é o mesmo que ser? Ser não é o mesmo que parecer? De qualquer modo, quem pode afirmar que não é? E se for mesmo? E se não for? E se tudo for, o mesmo que seria caso fosse o que fosse? E se eu fosse o que sou, mas não sou, porque temo ser quem seria caso fosse quem sou? Difícil de entender? É proposital. “But don’t think I am unhappy or desperate or lonely. I am not.”³ Nas palavras de Katherine Mansfield. Não pensem que não sei o que estão pensando de mim. Sei bem o que está em sua mente. E me recuso a pertencer ao estereótipo que me atribuem. Não sou uma alma perdida, mesmo que não saiba a direção, vou. E ir é meu firme propósito de viver. Ainda que todos os caminhos não apontem na direção esperada. Absolutamente, nunca acreditei na alma humana. Nem mesmo na minha. Por isso não sigo por onde me indica o espírito. Tomo sempre a via oposta. Sigo o mapa que não me dita o coração. Mas é tempo de parar. O que tenho a dizer, por fim, é: adeus por hoje, não se esqueçam de mim.

 

  1. Eu amo a chuva, quero o sentimento dela sobre minha face.
  2. Eu choro porque há qualquer coisa que não habita mais no meu coração, falta alguma coisa, talvez uma razão para viver.
  3. Mas não pense que eu sou triste ou desesperada ou solitária. Eu não sou.

 

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Uma opinião sobre “

  1. Ludmila

    Pra que se preocupar com o mundo externo tão miúdo e ineficaz e oco quando se tem uma imensidão dentro de si mesma que faz mudar o curso da sua vida de acordo com suas certezas.
    Assim melhoramos internamente, apesar de soar egoísta. Mas o que importa sempre no agora é o nosso interior para as coisas acontecerem bem, afinal.

    =)

    Escrevendo bem como sempre!

    Beijos jojô

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