“Muita coisa que ontem parecia

importante ou significativa,

amanhã virará pó no filtro da memória.” 

Caio Fernando Abreu

Sobre o tempo, o medo e a procura

Giordana Medeiros

“Vamos começar um jogo?” Faz tanto tempo… “Feche os olhos… Mas, espere, não os feche ainda!” Revejo a imagem de um passado perdido, tempo que escapou com a areia da ampulheta. Ampulhetas são mais sinceras ao contar o tempo que os relógios, os ponteiros repetem o mesmo trajeto continuamente, como se fosse possível viver um momento todo o sempre. Já na ampulheta, a areia que se esvai não pode voltar, o tempo que se foi é impossível de ser revivido. Só me restam as lembranças. E sonhos em que posso voltar a um passado onde o tempo não era importante. Quando isso mudou? Quando meus passos ficaram adstritos ao tiquetaquear do relógio? A cada momento, um momento a menos. Meu corpo já está convalescendo. Quem é essa figura decrépita que vejo no espelho? Deus, essa face não é minha! Segredos perdem o sentido, o que era segredo mesmo? Esqueci de revelar-me a moral da história… Perguntas terríveis me abalam: quem sou eu? O que sou eu? Como ser eu? E não há respostas para estas questões que planam sobre minha cabeça e ameaçam tombar sobre mim com o peso de mil toneladas. Anoitece. Também em mim. E na escuridão o mundo desaparece.  Sei que viverei mais uma noite de vigília, tentando encontrar em mim a solução dos enigmas inimagináveis da solidão. Sei que “amanhã vou ter um novo hoje. Há algo de dor e pungência em viver o hoje”.  Como diria Clarice. Mas, creio que não se pode viver o ontem no hoje. Impossível. Quem não queria viajar no tempo e refazer suas escolhas? Viver o passado com a razão do presente? Por que a idade da razão retarda em nós, quando poderíamos muito bem nos valer dela para resolver questões cruciais? A vida está sempre um passo a nossa frente. Estamos numa corrida em que a vida sempre nos precede. Quando ocorrer o fim, ela já nos terá abandonado. Sou tão estranha, como se fosse um pequeno poema, uma história onde os personagens são surdos, cegos, mudos e loucos. Peça estranha em que não há platéia, tão somente um número infinito de personagens. Não me convidem a ser igual, pois só sou completa quando sou diferente. Sinceramente diferente. Não sou um modelo a ser seguido. Nem haverá quem escreva sobre mim num futuro não tão distante. Serei esquecida no infinito. Uma lágrima! É tudo que peço! Uma comoção pequena que seja. Não me deixem morrer dentro de mim! Venham me encontrar no lírico mundo dos poemas não escritos. Procurem-me, que “um encontro sem procura é tão inútil quanto uma procura sem encontro”. Caio Fernando Abreu um dia escreveu isso. Transcrevo aqui que hoje me socorro em memórias emprestadas. Talvez seja até possível se reviver o passado, mas não como nós mesmos. Outras pessoas os viveriam por nós. Assim como fiz: usei memórias que não são minhas para retratar meus sentimentos. É tão solitário aqui, nesse mundo que erigi, no meu coração. Aqui escapo da realidade. E encarcero-me me mim. O que importa se não me alcançam neste abismo que é meu espírito? Estou protegida de tudo, não, de qua-se tudo que não se pode fugir do tempo.  E assim aflita e com medo, sem saber porquê começo a chorar sentindo-me só e pobre e feia e infeliz e velha e abandonada e triste , triste, triste… Uma rosa murcha no vaso sobre a mesa.  A poeira que se acumula sobre os livros. As traças que devoram o meu mundo. Tudo que me sobrou. Restos de uma vida, e restos não importam. Só o som do relógio me lembrando que o hoje já é ontem, e o ontem, não volta mais, e o hoje é um enigma com que a Esfinge me ameaça: “decifra-me ou devoro-te”. O tempo mastiga-me lentamente, moendo-me os ossos, os músculos, sinto até o trincar dos dentes. Mas o que me aflige é outra coisa: o medo de viver. O medo de envelhecer sem saber tudo sobre mim. Sou-me totalmente estranha. Há um sótão em mim onde escondo o velho e o inútil. Foi aí onde perdi meu coração. Agora acumula poeira como um gramofone quebrado, que não pode mais tocar a canção que há em si.

Mas amo meu mundo interior “caos selvagem, bosque antiquíssimo e adormecido, sobre cujo silencioso despenhar verde-luz, meu coração se ergue.” Li isso num poema de Rainer Maria Rilke. É bonito, muito mais singelo que as palavras que nascem em mim. Acho que o que escrevo fere-me como uma tortura perpétua. Sou uma estrela espatifada. Sem brilho, sem luz, sem sentido. Um pedido que não se realizou. Talvez porque meteoritos não têm a mesma poesia das estrelas cadentes. Queria que me dessem a paz dos jardins e o contrapeso das noites. A chuva dos verões brasilienses, dias cinzas onde o tempo parece parar. Mas é só impressão. O tempo é implacável. A procura, infinita. A árvore da vida aproxima-se do inverno.  Foram muitas primaveras e verões ensolarados. Mas, o outono chegou quando menos se esperava. Está aqui. E esquecido no silêncio, das alegrias vivas e apressadas, ficou meu espírito.  Bem como os dias da infância. Ah, dias maravilhosos em que atrás de nós havia mais que um passado e à diante um futuro promissor. Crescíamos, aspirando sermos grandes, talvez por amor aos que tinham nada mais que o fato de “serem grandes”. Hoje em dia, quando já adultos, quem por tão pouco ousaria “ser”?  E esta noite? Noite em que um vento cheio de espaços e vazios nos desgasta as faces, quem quer se imiscuir da culpa de existir? Quem se furtaria a esta noite onde a lua se cobre de nuvens, ou paira sobre elas e esconde-se de nós, em que a escuridão parece chorar sobre a cidade, a solidão de um céu sem estrelas?  E pensando nisto, eu tenho certeza que eu sou ninguém, e o serei até o fim. Sou pequenina para a vida. Um ser minúsculo e triste, dominando pelo medo, numa procura constante de algo que faça tudo ter ao menos algum sentido. Com a face por trás das mãos tento esconder minhas lágrimas. É tanto medo! Fui caminhando até aqui sem saber ao certo o que escrevia. Agora releio as últimas frases e tenho certeza que não encontrei ainda as respostas por que ansiava. Acumulei apenas mais dúvidas. Há uma lua, será que sabem? E estrelas e cometas e astros luminosos que não podemos ver de tão distantes. Mas há tudo isso, como uma promessa inacessível, tão longe se encontram. A noite é a única realidade, desde antes de nós. Antes, tudo era noite. Até que se fez luz. E tudo isso ocorreu no início do universo. Bilhões de anos que humano algum ousa ou pode contar. Terrível tentar subverter o impossível. Não tenho poderes sobre-humanos. Sou uma mísera mulher. Uma costela que anteriormente era barro. Há várias maneiras de se contar a mesma história. Há inúmeras versões: científicas, religiosas, em livros sagrados ou profanos. De qualquer forma, sei que não controlo o tempo e que tudo o que corre agora, em breve acabará; que temo o desconhecido, e me retraio diante do mais ínfimo obstáculo; que há soluções para minhas questões, mas que não posso alcançá-las sem procura. Então, tudo o que escrevi até agora se resume a três palavras: o tempo , o medo e a procura. Não necessariamente nessa ordem. A procura pode anteceder o medo, e o tempo corre antes ou depois. Mas no fim meus grandes dilemas são três palavras irrisórias, gigantes sobre mim. Escondo em uma das mãos a chave de todas as perguntas. O problema é que têm de adivinhar o que seria: “Então, adivinhe o que é?” Faz realmente muito tempo…  

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Uma opinião sobre “

  1. Lud

    Tenho medo do tempo porque não sei o que ele é, mas procuro sempre respostas para esses tipos de indagações que embaralham a cabeça. x)

    Amei seu conto sobre música e borboleta em uma cidade sem esquinas. Me identifiquei muito com ele.
    Beijos Jojo

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