Arquivo do mês: janeiro 2011

Uma despedida sem adeus

Giordana Medeiros

Era noite. Talvez se o conto se resumisse a esta frase tudo se explicaria melhor.  Mas não há respostas para todas as questões. E há aquelas respostas para as quais não precisamos de questões. Lá estava aquele rapaz (jovem?) caminhando na rua deserta, onde luzes de sódio faziam molduras alaranjadas para as sombras. Sombras solitárias e sem destino que se tornam vultos da noite. Quem me dera ter a onisciência que me concede a condição de escritora para saber o que aquele jovem pensava. (Jovem?) Andava com as mãos no bolso, pois estava frio, afinal, no inverno, as noites de Brasília são gélidas, e nelas parece que estamos mais sozinhos. Penso isso por não guardar boas memórias dos invernos passados, mas sempre quero fazer no presente o que espero para o futuro. Contudo, no fim, pretéritas mágoas estabelecem-se em mim. Então o que me resta? Viver outras vidas. Tenho muitas dentro de mim. Vou escrevendo, como as Moiras que tecem o fio da nossa existência. Depois, posso até desfazer-me de uma delas, vidas dispensáveis, personagens secundários, de quem posso me livrar com um toque. (Delete). Vou passeando sobre as histórias, não vou apegar-me a vidas inventadas, mesmo que seja a minha. Sou um personagem, quem vai apagar as minhas memórias, as lembranças de uma vida e terminar a história sem fim em que vivo? (Vivo?) Observem os parênteses, talvez esteja nesses espaços que abro no seio do conto, ou melhor, no leito dele (que acho mais bela a metáfora em que se denomina a história de rio) a questão que deu origem a este texto. Mas voltemos ao jovem (Jovem?), para onde vai? Passos apressados, se assobiasse uma canção, talvez fosse mais fácil de compreender seu estado de espírito. Mas caminhava rápido e em silêncio. Tira do bolso um maço de cigarros, acende um, e a fumaça faz nuvens espiraladas e cinzas, que o seguem pelo caminho, encantadas pela chama incandescente. Subitamente o rapaz pára. Um grilo ao longe faz o som que se esperava no silêncio. Algo para quebrar a solidão deste conto. Acho que tudo que escrevo tem em si um período da minha própria solidão. Quantos anos? Se dissesse cem, não acreditariam em mim. Mas é que penso que tenho um pouco dos Buendia em mim. Cem anos de solidão devastadores. E todas as vidas que trago em mim? São tantas que a solidão poderia ser designada como eterna. “Mas a eternidade é o estado das coisas neste momento.” Desculpem-me valer-me das palavras de Clarice, é que muitas vezes não consigo me proferir tão bem, que possa explicar o que há em mim. Tudo que escrevo é uma extensão de minha alma. Dizem que sou meio poeta, mas o que ocorre é que não posso simplesmente fingir que não sinto o que sinto. Importa este rapaz (jovem?) que se detém em frente a uma casa? O que esperava? Talvez terminasse o cigarro antes de entrar… Pronto, pisa na ponta que lançara no chão e apaga a chama. Então pega um molho de chaves, para abrir o portão que range ao ser aberto. Imploro que faça mais barulho, que não suporto este silêncio, a dormência da noite, que cai sobre os homens. Sonhar é o exercício da solidão absoluta. E esse rapaz, importava sua história? Ou que tivesse de desaparecer inevitavelmente? Será que sentia falta de algo? Como de alguma coisa a que pudesse amarrar seu incerto coração? Será difícil para mim matar este personagem, porque nada sei dele, não sinto nada por ele. É um fantasma e é muito mais difícil matar um fantasma do que uma pessoa real. Sabe quantos fantasmas nos perseguem em toda nossa existência? Talvez quando terminar este conto, este (jovem?) permaneça em mim. Amedrontando-me como uma verdade que se quer esconder. Ele abre a porta após destrancá-la e adentra a casa em penumbra.  Não acende as luzes e caminha no escuro como se conhecesse bem aquele lugar. Entra num quarto, e no escuro pega uma mala. Depois acende a lâmpada do quarto, o que nos permite ver os objetos que habitam aquele recinto. Numa cama próxima à janela o (jovem?) coloca a mala, uma valise não muito grande e nem muito pequena. E abrindo as gavetas do armário, começa a preencher-la de roupas. Ele morava ali? Por que tinha as chaves da casa? Quem mais morava ali? E porque ele arrumava as malas como se estivesse partindo? (Para sempre?) Aonde vai? Queria perguntar-lhe. Mas nesse conto desfiz-me da minha onisciência. Vejo tudo, mas de fora, que neste momento sou o fantasma que assombra o fantasma que me assombra. Almas que não se encontram, mas caminham emparelhadas. O (jovem?) rapaz pega um porta-retrato sobre o criado-mudo. Quem está na fotografia? Quem são estas pessoas que sorriem? Ele não me diz nada, deixa-me apenas observar sua indiferença. Não demonstra qualquer emoção ao pegar o porta-retrato, faz menção de colocá-lo na mala, mas desiste e devolve-o a antiga posição. Pega algumas revistas, CDs, livros, coloca-os na valise e, por fim, fecha o zíper. A mala pesa um pouco, mas ele já estava acostumado a carregar o mundo. Nas mãos o mapa para a vida, gravado como uma tatuagem. Uma cigana, ao ler minha mão, uma vez prometeu-me uma vida longa e feliz. Essa promessa me custou 15 reais. E uma vida de expectativa. Estou pronta para ser feliz, todavia tem de ser agora.

O rapaz desliga a luz do quarto e caminha para fora de casa (como conhece bem aquele lugar) no escuro. Trazendo consigo a valise, no silêncio de uma noite fria, ele se despede, (despede?) de quem? Sozinho não olha para trás. Talvez, por medo de se tornar uma estátua de sal. Sente a brisa gélida daquela noite em que estrelas pequeninas e distantes parecem esperanças perdidas que se gravaram no céu. Já tentaram contar estrelas? Impossível contar todas. Para cada esperança perdida, uma nova estrela no céu. Preciso me encontrar. Penso sem compreender. Ou sem querer compreender, ou sem querer apenas. Mas fico tanto tempo observando este (jovem?) rapaz, que minhas questões não têm mais qualquer importância. Quero conhecê-lo ou reconhecê-lo que estamos ligados de uma maneira quase umbilical. Alimenta-se de mim. Cresce em mim. Parasita de minha vida vem sugar de mim sua essência! Porém, diga-me antes quem é, e o que quer, que não mais suporto ver-lhe ir sem nem ao menos um adeus. Adeus é um até logo para sempre. Mas sei que não suporta se revelar. Como se tivesse medo de ficar mais pobre, medo que se alcance seu centro, onde há algo que não queira mostrar nem dar nem, ao menos, dividir. São coisas que guardamos dentro de nós. Como uma dúvida que se mantém pelo simples prazer de não dar respostas a tudo.  Não sei o que mais escrever… Essas coisas que ficam fora da gente, como o tempo e o lugar, tudo isso influência no que iremos dizer. Sabem disso? Sabem também que este rapaz (jovem?) é a minha incógnita escondida? Por isso o criei, pelo simples fato de trazer à tona a dúvida imersa em mim. Muito se esconde em nosso espírito. Fantasmas que nos aterrorizam à noite, quando os problemas vêm nos roubar o sono. E quero logo me livrar deste personagem, assassiná-lo que muito me inquieta sua presença. Ele fecha a porta, coloca as chaves sob o tapete e se vai. Levando na mala sonhos dos quais não posso partilhar. Uma pessoa estranha que acompanho esta noite, tão desconhecida quanto o sou para mim. Para onde vai? De onde veio? Por que deixou para trás aquela fotografia? O que fazia naquela casa que abandonou sem remorso? Não posso simplesmente perguntar a este (jovem?) rapaz, para dar a ele uma identidade. Ele não pode ser mais do que uma lembrança, um temor, uma ferida, denso por dentro e cético por fora. Não me importa que ele tenha apenas mais algumas linhas de vida. Não lhe atribui nome, sonhos, desejos ou sentimentos para não me afeiçoar a ele. Não sabe por onde seguir, não tem destino. “E nossa pior tragédia”, como diria Saramago, “é não saber o que fazer com a vida.” Por isso, nessa noite de junho (escapou de mim esta temporização, porque considero as noites de junho mais melancólicas e solitárias que as demais), ele caminhava lentamente, trazendo consigo uma mala com seus poucos pertences, como se pensasse antes de cada passo. Só sei sobre ele que estava apavorado, mas continuava sonhando. E no silêncio da noite começa assoviar. (Finalmente!) Dou a ele um trecho de uma canção: “and our dreams will break the boundaries of our fears.”¹ Segue assoviando, não sei para onde vai, mas ele continua, a grama seca do inverno estala sob seus pés. Os grilos acompanham a canção. E a lua ainda ilumina as noites, mesmo que o prateado seja ofuscado pelas luzes de sódio. As sombras escapam de nós. Há tanto que queremos esconder.  São segredos que permanecerão em nós por cem anos. Cem anos de solidão. Eu não passo de uma promessa, mas sou também estrela. Sinto que sou estrela espatifada, um caco de vidro no chão. O sol faz-me brilhar ao meio dia. Mas gosto mesmo da solidão das noites. Porque à noite não há quem nos cerceie. Este é o privilégio da solidão: podemos fazer o que nos bem parece. Podemos até chorar se não houver ninguém olhando. Mas o jovem não chora, não olha para trás nem se arrepende de nada. Vai sem respostas. Apenas aumenta o meu número de dúvidas. Nesses momentos em que os conceitos que tenho sobre moral, certo ou errado, bem ou mal deixam de ter sentido. E no final de tudo fica só a vida que flui e reflui sem nome, imensa, perigosa, cotidiana. Um assovio se propaga na noite, a solidão, pela vida inteira. Sem nenhum adeus, o (jovem?) rapaz vai embora para nunca mais voltar.

1. “E nossos sonhos vão quebrar as barreiras de nossos medos.” Brandon Flowers In Crossfire

 

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“Muita coisa que ontem parecia

importante ou significativa,

amanhã virará pó no filtro da memória.” 

Caio Fernando Abreu

Sobre o tempo, o medo e a procura

Giordana Medeiros

“Vamos começar um jogo?” Faz tanto tempo… “Feche os olhos… Mas, espere, não os feche ainda!” Revejo a imagem de um passado perdido, tempo que escapou com a areia da ampulheta. Ampulhetas são mais sinceras ao contar o tempo que os relógios, os ponteiros repetem o mesmo trajeto continuamente, como se fosse possível viver um momento todo o sempre. Já na ampulheta, a areia que se esvai não pode voltar, o tempo que se foi é impossível de ser revivido. Só me restam as lembranças. E sonhos em que posso voltar a um passado onde o tempo não era importante. Quando isso mudou? Quando meus passos ficaram adstritos ao tiquetaquear do relógio? A cada momento, um momento a menos. Meu corpo já está convalescendo. Quem é essa figura decrépita que vejo no espelho? Deus, essa face não é minha! Segredos perdem o sentido, o que era segredo mesmo? Esqueci de revelar-me a moral da história… Perguntas terríveis me abalam: quem sou eu? O que sou eu? Como ser eu? E não há respostas para estas questões que planam sobre minha cabeça e ameaçam tombar sobre mim com o peso de mil toneladas. Anoitece. Também em mim. E na escuridão o mundo desaparece.  Sei que viverei mais uma noite de vigília, tentando encontrar em mim a solução dos enigmas inimagináveis da solidão. Sei que “amanhã vou ter um novo hoje. Há algo de dor e pungência em viver o hoje”.  Como diria Clarice. Mas, creio que não se pode viver o ontem no hoje. Impossível. Quem não queria viajar no tempo e refazer suas escolhas? Viver o passado com a razão do presente? Por que a idade da razão retarda em nós, quando poderíamos muito bem nos valer dela para resolver questões cruciais? A vida está sempre um passo a nossa frente. Estamos numa corrida em que a vida sempre nos precede. Quando ocorrer o fim, ela já nos terá abandonado. Sou tão estranha, como se fosse um pequeno poema, uma história onde os personagens são surdos, cegos, mudos e loucos. Peça estranha em que não há platéia, tão somente um número infinito de personagens. Não me convidem a ser igual, pois só sou completa quando sou diferente. Sinceramente diferente. Não sou um modelo a ser seguido. Nem haverá quem escreva sobre mim num futuro não tão distante. Serei esquecida no infinito. Uma lágrima! É tudo que peço! Uma comoção pequena que seja. Não me deixem morrer dentro de mim! Venham me encontrar no lírico mundo dos poemas não escritos. Procurem-me, que “um encontro sem procura é tão inútil quanto uma procura sem encontro”. Caio Fernando Abreu um dia escreveu isso. Transcrevo aqui que hoje me socorro em memórias emprestadas. Talvez seja até possível se reviver o passado, mas não como nós mesmos. Outras pessoas os viveriam por nós. Assim como fiz: usei memórias que não são minhas para retratar meus sentimentos. É tão solitário aqui, nesse mundo que erigi, no meu coração. Aqui escapo da realidade. E encarcero-me me mim. O que importa se não me alcançam neste abismo que é meu espírito? Estou protegida de tudo, não, de qua-se tudo que não se pode fugir do tempo.  E assim aflita e com medo, sem saber porquê começo a chorar sentindo-me só e pobre e feia e infeliz e velha e abandonada e triste , triste, triste… Uma rosa murcha no vaso sobre a mesa.  A poeira que se acumula sobre os livros. As traças que devoram o meu mundo. Tudo que me sobrou. Restos de uma vida, e restos não importam. Só o som do relógio me lembrando que o hoje já é ontem, e o ontem, não volta mais, e o hoje é um enigma com que a Esfinge me ameaça: “decifra-me ou devoro-te”. O tempo mastiga-me lentamente, moendo-me os ossos, os músculos, sinto até o trincar dos dentes. Mas o que me aflige é outra coisa: o medo de viver. O medo de envelhecer sem saber tudo sobre mim. Sou-me totalmente estranha. Há um sótão em mim onde escondo o velho e o inútil. Foi aí onde perdi meu coração. Agora acumula poeira como um gramofone quebrado, que não pode mais tocar a canção que há em si.

Mas amo meu mundo interior “caos selvagem, bosque antiquíssimo e adormecido, sobre cujo silencioso despenhar verde-luz, meu coração se ergue.” Li isso num poema de Rainer Maria Rilke. É bonito, muito mais singelo que as palavras que nascem em mim. Acho que o que escrevo fere-me como uma tortura perpétua. Sou uma estrela espatifada. Sem brilho, sem luz, sem sentido. Um pedido que não se realizou. Talvez porque meteoritos não têm a mesma poesia das estrelas cadentes. Queria que me dessem a paz dos jardins e o contrapeso das noites. A chuva dos verões brasilienses, dias cinzas onde o tempo parece parar. Mas é só impressão. O tempo é implacável. A procura, infinita. A árvore da vida aproxima-se do inverno.  Foram muitas primaveras e verões ensolarados. Mas, o outono chegou quando menos se esperava. Está aqui. E esquecido no silêncio, das alegrias vivas e apressadas, ficou meu espírito.  Bem como os dias da infância. Ah, dias maravilhosos em que atrás de nós havia mais que um passado e à diante um futuro promissor. Crescíamos, aspirando sermos grandes, talvez por amor aos que tinham nada mais que o fato de “serem grandes”. Hoje em dia, quando já adultos, quem por tão pouco ousaria “ser”?  E esta noite? Noite em que um vento cheio de espaços e vazios nos desgasta as faces, quem quer se imiscuir da culpa de existir? Quem se furtaria a esta noite onde a lua se cobre de nuvens, ou paira sobre elas e esconde-se de nós, em que a escuridão parece chorar sobre a cidade, a solidão de um céu sem estrelas?  E pensando nisto, eu tenho certeza que eu sou ninguém, e o serei até o fim. Sou pequenina para a vida. Um ser minúsculo e triste, dominando pelo medo, numa procura constante de algo que faça tudo ter ao menos algum sentido. Com a face por trás das mãos tento esconder minhas lágrimas. É tanto medo! Fui caminhando até aqui sem saber ao certo o que escrevia. Agora releio as últimas frases e tenho certeza que não encontrei ainda as respostas por que ansiava. Acumulei apenas mais dúvidas. Há uma lua, será que sabem? E estrelas e cometas e astros luminosos que não podemos ver de tão distantes. Mas há tudo isso, como uma promessa inacessível, tão longe se encontram. A noite é a única realidade, desde antes de nós. Antes, tudo era noite. Até que se fez luz. E tudo isso ocorreu no início do universo. Bilhões de anos que humano algum ousa ou pode contar. Terrível tentar subverter o impossível. Não tenho poderes sobre-humanos. Sou uma mísera mulher. Uma costela que anteriormente era barro. Há várias maneiras de se contar a mesma história. Há inúmeras versões: científicas, religiosas, em livros sagrados ou profanos. De qualquer forma, sei que não controlo o tempo e que tudo o que corre agora, em breve acabará; que temo o desconhecido, e me retraio diante do mais ínfimo obstáculo; que há soluções para minhas questões, mas que não posso alcançá-las sem procura. Então, tudo o que escrevi até agora se resume a três palavras: o tempo , o medo e a procura. Não necessariamente nessa ordem. A procura pode anteceder o medo, e o tempo corre antes ou depois. Mas no fim meus grandes dilemas são três palavras irrisórias, gigantes sobre mim. Escondo em uma das mãos a chave de todas as perguntas. O problema é que têm de adivinhar o que seria: “Então, adivinhe o que é?” Faz realmente muito tempo…  

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