Em busca da felicidade 

Giordana Medeiros

À procura da felicidade. Correndo eternamente atrás de um ideal irrealizável, uma busca frenética de algo que não se conhece. O que é isso? Sombra de um sonho que se estende por toda uma vida? Um suspiro de Deus? A utópica idéia de uma realização inalcançável? Talvez sejam muitos conceitos para algo que não se conhece ao certo. Como se define o impossível? Sei que não serei jamais realmente feliz, ao menos não como nos contos de fadas que resumem a vida num “viveram felizes para sempre”. O que há nesse viveram felizes para sempre? Discussões, com certeza, que não se pode fugir das desavenças, porque o consenso eterno é impossível entre pessoas diversas. E ainda dificuldades financeiras, ou no trabalho, escola e aquelas velhas preocupações que nos assaltam no decorrer de nossa existência. Assumo que fui uma das muitas pessoas que sempre estiveram nessa perseguição de uma felicidade vazia resumida na última frase dos contos de fadas. Como se depois de tantos desafios, a felicidade, que tanto se procurou, não fosse nada mais que uma sentença. Sentença de morte, morte das aventuras, dos tropeços que temperam a nossa caminhada. Agora que já sei disso tudo. Estou preparada para ser feliz. Procurei escrever até aqui sem as ironias que se fundem ao que denomino “meu estilo” (na verdade nem sei se o possuo). Olho-me no espelho e uso palavras que não me pertencem: “Tá limpo.” (encaro minha imagem como se fosse um outro), “Sem ironias. Sem engano. Amanhã, depois, acontece de novo, não fecho nada, continuamos vivos e atrás da felicidade.” Minha imagem interroga-me o porquê de tal discurso. Respondo-me (a?) que pertence a Caio Fernando Abreu. E que sou péssima na busca de definições.  Ela (eu?) interroga-me: “por que não se render ao avanço natural das coisas, sem procurar definições?” Às vezes me impressiona a sabedoria de um reflexo de mim, que não sou eu realmente. Talvez seja eu mesma, mas ao contrário. Eu dúvida, ele certeza; eu medo, ele coragem; eu tristeza, ele a lágrima que me escorre sobre a face. Talvez não sejamos tão diversos assim… Ele reflexo de mim, sonho que se materializa numa lágrima que se enxuga com as costas da mão. Eu realidade que foge às determinações das histórias. Cinderela que não foi visitada pela fada madrinha. Não houve carruagens de abóbora e sapatinhos de cristal. Só a amarga vida. Realidade indegustável, mas em que tenho de aprender a bailar. O bom de tudo isto é que não sou limitada pelas badaladas da meia noite. Tenho para mim toda a madrugada… E nela sonho. Isso me basta. Não quero mais fazer teorias a respeito da vida. Não sei se ela é boa ou má. E procuro nem mesmo pensar nisso. Como diria Pessoa: “para meus olhos ela é dura e triste, com sonhos deliciosos de permeio.” Todas essas coisas querem perseverar em meu ser. Fecho as janelas, que a chuva quer molhar o que tenho por dentro de mim. Mas quando choro as lágrimas também encharcam meu espírito de dor. E assim com o corpo imerso em solidão e a alma molhada de dor, vou cantando. Não quero mais correr, ao menos não mais em busca de uma felicidade que não existe. Agora é a hora de ser feliz. Agora! Não num futuro distante, depois de concluir os estudos, quando conseguir encontrar um bom emprego ou casar-se (seguindo o ideal estereotipado que a sociedade impõe às mulheres). “Se você quer ser feliz tem que ser agora!” Determina-me meu reflexo no espelho, esquecendo-se de meus temores, do medo que me sufoca e de tudo que me prende neste mundo. Fecho os olhos e penso no mar. E penso até que vejo o azul se esverdear. Mas abro os olhos e está tudo escuro. O silêncio me impõe o desejo do barulho. Quero sair e perder-me nos caminhos tortuosos do mundo. Mesmo que não haja uma fada madrinha que me faça um vestido e presenteie-me com um sapatinho de cristal feito tão somente para os meus pés. Mas prefiro mesmo andar descalça, sentido as ondas resvalarem nos meus pés e a areia misturar-se a minha pele, como se eu também fizesse parte daquela praia. Sou tal qual às conchas que trago comigo quando volto do litoral. Lembranças da imensidão. Mesmo distantes do mar estão impregnadas de seu som. Alma de oceano.

É Natal. Posso ouvir o som do badalar dos sinos. É o momento certo de ser feliz. Talvez, não pela data em si, mas pelos sorrisos que desperta, pelas luzes que iluminam as noites, antes solitárias e vazias. Nada de ser feliz para sempre, viu? Ser somente feliz: agora, nesse momento. Não há mais como postergar, tem que ser agora. Há tanto que nos impede de sermos realmente felizes. Sou teimosa. Mantenho-me firme no meu propósito. Não posso ainda dizer: sou feliz, mas esforço-me, estou plenamente impregnada deste intuito. Faz muito tempo, acreditava que o para sempre era real, não um sonho que não se alcança porque é etéreo. Utopia que a sociedade ocidental impõe como ideal.  Mas agora os tempos são outros (mesmo que tenha alcançado esta certeza somente no fim desta década) e transformei-me num ser diferente.  Melhor não sei, mas mais completo provavelmente. Esse ano que logo termina me premiou com a esperança que me fugia (ou talvez estivesse em mim e não a percebia). Desde então eu mudei tanto, que quem sabe agora já estou pronta para o verdadeiro “era uma vez…” Mas não desejo que termine num “e viveram felizes para sempre”, que para sempre é muito tempo, e não tenho todo o tempo do mundo. Tão somente um fugaz segundo na história de bilhões de anos do universo. Quero beber as águas do Letes e mergulhar em esquecimento. Vamos viver o agora, que o que passou, não mais importa. Não vou mais sofrer as emoções perdidas, nem as feridas que teimam em não cicatrizar, nem mesmo as decepções que vivi. Nada disso será real para mim. Somente lembranças que vão escapar de minha memória, coisas que partirão nas águas do rio que me satisfazem a alma sedenta. Alegria é deixar para trás o passado, fantasmas de uma existência que se arvoram no espírito. E que se foram, não existem mais. Passou. Por que sofrer-los de novo? Fico com medo. Mas o coração bate. Continua batendo. Meu medo sempre me guiou para caminhos diversos que pretendia. Por medo evitei o meu destino. E, nesse momento, embriagada das águas do Letes, nesta noite de Natal, estou certa que não falta muito para ser feliz. O agora está cada vez mais próximo. Mas tenho medo. Acho que, porque quero temo, pois tudo que desejo me traz um temor absurdo. O medo de ser feliz, do desconhecido sabor da felicidade. E ele me pega pela mão e me desvia, eu sigo calada, sem forças para me opor àquele pavor desesperado do que não consigo definir. Sei sobre mim apenas que sou triste. Nada mais. Se fosse feliz, como haveria de me compreender? Deveria me matar? Não. Vivo como uma bruta resposta. Estou aí. Para desconcertar o destino. Para definir o indefinível. Conceitos um tanto “desconceituados” do que é viver. Pedi para o Papai Noel felicidade. É Natal. Talvez não caiba numa caixa, seja grande demais ou pequena demais que não caiba nem mesmo num envelope. (Contudo já recebi felicidade em envelopes datados e selados). Não sei o que é, portanto não sei seu tamanho. Mas é uma esperança, estou tão cheia dela que transborda de mim. Como um sonho que se estende para a realidade. Uma canção que se ouve no sonho e continuamos a ouvir acordados. É fantástico: o mundo por um instante é exatamente o que meu coração pede.  Um retrato do futuro que se deseja, no agora que se estende por toda a vida. Sou feliz? Não sei. Fui feliz? Não sei. Serei feliz? Desconfio que sim. Agora que não mais quero os finais de sonho dos contos de fadas: a realidade eterna de uma alegria impossível. Sei que procuro algo mais próximo, que posso até tocar com as mãos. Está mais perto de mim e sinto sua presença. Está aqui e até conversa comigo. É o destino que não mais se esconde no verde mar dos olhos que não me vêem. Mas circunda-me, como todo um conjunto de situações. No fim, não devemos entregar nossa felicidade a ninguém. Finalmente me restituíram aquilo de que me desfalquei por tanto tempo. Tempo demais. Vou ser feliz, estou vi-va. (Talvez não mereça tanto). Estou com medo. Mas não quero terminar com medo. Só falta mais um passo. Agora: “abre a mão e feche os olhos!”           

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Uma opinião sobre “

  1. Vc é realmente admirável.

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