Arquivo do mês: dezembro 2010

Em busca da felicidade 

Giordana Medeiros

À procura da felicidade. Correndo eternamente atrás de um ideal irrealizável, uma busca frenética de algo que não se conhece. O que é isso? Sombra de um sonho que se estende por toda uma vida? Um suspiro de Deus? A utópica idéia de uma realização inalcançável? Talvez sejam muitos conceitos para algo que não se conhece ao certo. Como se define o impossível? Sei que não serei jamais realmente feliz, ao menos não como nos contos de fadas que resumem a vida num “viveram felizes para sempre”. O que há nesse viveram felizes para sempre? Discussões, com certeza, que não se pode fugir das desavenças, porque o consenso eterno é impossível entre pessoas diversas. E ainda dificuldades financeiras, ou no trabalho, escola e aquelas velhas preocupações que nos assaltam no decorrer de nossa existência. Assumo que fui uma das muitas pessoas que sempre estiveram nessa perseguição de uma felicidade vazia resumida na última frase dos contos de fadas. Como se depois de tantos desafios, a felicidade, que tanto se procurou, não fosse nada mais que uma sentença. Sentença de morte, morte das aventuras, dos tropeços que temperam a nossa caminhada. Agora que já sei disso tudo. Estou preparada para ser feliz. Procurei escrever até aqui sem as ironias que se fundem ao que denomino “meu estilo” (na verdade nem sei se o possuo). Olho-me no espelho e uso palavras que não me pertencem: “Tá limpo.” (encaro minha imagem como se fosse um outro), “Sem ironias. Sem engano. Amanhã, depois, acontece de novo, não fecho nada, continuamos vivos e atrás da felicidade.” Minha imagem interroga-me o porquê de tal discurso. Respondo-me (a?) que pertence a Caio Fernando Abreu. E que sou péssima na busca de definições.  Ela (eu?) interroga-me: “por que não se render ao avanço natural das coisas, sem procurar definições?” Às vezes me impressiona a sabedoria de um reflexo de mim, que não sou eu realmente. Talvez seja eu mesma, mas ao contrário. Eu dúvida, ele certeza; eu medo, ele coragem; eu tristeza, ele a lágrima que me escorre sobre a face. Talvez não sejamos tão diversos assim… Ele reflexo de mim, sonho que se materializa numa lágrima que se enxuga com as costas da mão. Eu realidade que foge às determinações das histórias. Cinderela que não foi visitada pela fada madrinha. Não houve carruagens de abóbora e sapatinhos de cristal. Só a amarga vida. Realidade indegustável, mas em que tenho de aprender a bailar. O bom de tudo isto é que não sou limitada pelas badaladas da meia noite. Tenho para mim toda a madrugada… E nela sonho. Isso me basta. Não quero mais fazer teorias a respeito da vida. Não sei se ela é boa ou má. E procuro nem mesmo pensar nisso. Como diria Pessoa: “para meus olhos ela é dura e triste, com sonhos deliciosos de permeio.” Todas essas coisas querem perseverar em meu ser. Fecho as janelas, que a chuva quer molhar o que tenho por dentro de mim. Mas quando choro as lágrimas também encharcam meu espírito de dor. E assim com o corpo imerso em solidão e a alma molhada de dor, vou cantando. Não quero mais correr, ao menos não mais em busca de uma felicidade que não existe. Agora é a hora de ser feliz. Agora! Não num futuro distante, depois de concluir os estudos, quando conseguir encontrar um bom emprego ou casar-se (seguindo o ideal estereotipado que a sociedade impõe às mulheres). “Se você quer ser feliz tem que ser agora!” Determina-me meu reflexo no espelho, esquecendo-se de meus temores, do medo que me sufoca e de tudo que me prende neste mundo. Fecho os olhos e penso no mar. E penso até que vejo o azul se esverdear. Mas abro os olhos e está tudo escuro. O silêncio me impõe o desejo do barulho. Quero sair e perder-me nos caminhos tortuosos do mundo. Mesmo que não haja uma fada madrinha que me faça um vestido e presenteie-me com um sapatinho de cristal feito tão somente para os meus pés. Mas prefiro mesmo andar descalça, sentido as ondas resvalarem nos meus pés e a areia misturar-se a minha pele, como se eu também fizesse parte daquela praia. Sou tal qual às conchas que trago comigo quando volto do litoral. Lembranças da imensidão. Mesmo distantes do mar estão impregnadas de seu som. Alma de oceano.

É Natal. Posso ouvir o som do badalar dos sinos. É o momento certo de ser feliz. Talvez, não pela data em si, mas pelos sorrisos que desperta, pelas luzes que iluminam as noites, antes solitárias e vazias. Nada de ser feliz para sempre, viu? Ser somente feliz: agora, nesse momento. Não há mais como postergar, tem que ser agora. Há tanto que nos impede de sermos realmente felizes. Sou teimosa. Mantenho-me firme no meu propósito. Não posso ainda dizer: sou feliz, mas esforço-me, estou plenamente impregnada deste intuito. Faz muito tempo, acreditava que o para sempre era real, não um sonho que não se alcança porque é etéreo. Utopia que a sociedade ocidental impõe como ideal.  Mas agora os tempos são outros (mesmo que tenha alcançado esta certeza somente no fim desta década) e transformei-me num ser diferente.  Melhor não sei, mas mais completo provavelmente. Esse ano que logo termina me premiou com a esperança que me fugia (ou talvez estivesse em mim e não a percebia). Desde então eu mudei tanto, que quem sabe agora já estou pronta para o verdadeiro “era uma vez…” Mas não desejo que termine num “e viveram felizes para sempre”, que para sempre é muito tempo, e não tenho todo o tempo do mundo. Tão somente um fugaz segundo na história de bilhões de anos do universo. Quero beber as águas do Letes e mergulhar em esquecimento. Vamos viver o agora, que o que passou, não mais importa. Não vou mais sofrer as emoções perdidas, nem as feridas que teimam em não cicatrizar, nem mesmo as decepções que vivi. Nada disso será real para mim. Somente lembranças que vão escapar de minha memória, coisas que partirão nas águas do rio que me satisfazem a alma sedenta. Alegria é deixar para trás o passado, fantasmas de uma existência que se arvoram no espírito. E que se foram, não existem mais. Passou. Por que sofrer-los de novo? Fico com medo. Mas o coração bate. Continua batendo. Meu medo sempre me guiou para caminhos diversos que pretendia. Por medo evitei o meu destino. E, nesse momento, embriagada das águas do Letes, nesta noite de Natal, estou certa que não falta muito para ser feliz. O agora está cada vez mais próximo. Mas tenho medo. Acho que, porque quero temo, pois tudo que desejo me traz um temor absurdo. O medo de ser feliz, do desconhecido sabor da felicidade. E ele me pega pela mão e me desvia, eu sigo calada, sem forças para me opor àquele pavor desesperado do que não consigo definir. Sei sobre mim apenas que sou triste. Nada mais. Se fosse feliz, como haveria de me compreender? Deveria me matar? Não. Vivo como uma bruta resposta. Estou aí. Para desconcertar o destino. Para definir o indefinível. Conceitos um tanto “desconceituados” do que é viver. Pedi para o Papai Noel felicidade. É Natal. Talvez não caiba numa caixa, seja grande demais ou pequena demais que não caiba nem mesmo num envelope. (Contudo já recebi felicidade em envelopes datados e selados). Não sei o que é, portanto não sei seu tamanho. Mas é uma esperança, estou tão cheia dela que transborda de mim. Como um sonho que se estende para a realidade. Uma canção que se ouve no sonho e continuamos a ouvir acordados. É fantástico: o mundo por um instante é exatamente o que meu coração pede.  Um retrato do futuro que se deseja, no agora que se estende por toda a vida. Sou feliz? Não sei. Fui feliz? Não sei. Serei feliz? Desconfio que sim. Agora que não mais quero os finais de sonho dos contos de fadas: a realidade eterna de uma alegria impossível. Sei que procuro algo mais próximo, que posso até tocar com as mãos. Está mais perto de mim e sinto sua presença. Está aqui e até conversa comigo. É o destino que não mais se esconde no verde mar dos olhos que não me vêem. Mas circunda-me, como todo um conjunto de situações. No fim, não devemos entregar nossa felicidade a ninguém. Finalmente me restituíram aquilo de que me desfalquei por tanto tempo. Tempo demais. Vou ser feliz, estou vi-va. (Talvez não mereça tanto). Estou com medo. Mas não quero terminar com medo. Só falta mais um passo. Agora: “abre a mão e feche os olhos!”           

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Saudade

Giordana Medeiros

 Tudo ocorreu há alguns anos atrás. “Porra, já faz tanto tempo assim?” Penso comigo. Não conto o tempo, mas ele conta-me a vida. Marca minha pele, e enrijece-me os músculos. Os anos voam, mesmo que não tenham asas, já os dias passam devagar e tediosos, embriagados de cotidiano. Mas, voltando ao assunto, faz algum tempo, havia o colorido das manhãs livres. Houve um momento que pelas ruas de uma cidade desconhecida, deixava-me descobrir o sabor da liberdade. Uma cidade de frases cantadas, vozes musicadas, de verões amazônicos, que pude sentir em minha pele, (não são suficientes bloqueadores solares). A sombra que minguava, encontrava no parque no meio da cidade, onde a “redenção” de minhas faltas me circundava. Não sabia por que ao certo me penitenciava, mas na terra do Poeta Passarinho, eu que aprendia a voar. Considerava-me uma principiante, como se naquele momento, desse meus primeiros passos, talvez os primeiros sem carregar o mundo nas costas. É tão bom caminhar sem levar consigo todos os medos, frustrações e cobranças. Aproveitei bastante a liberdade provisória. Naquela terra distante dos problemas, em que tanta gente conheci, encontrei-me um tanto mais eu. Um eu que eu somente sou, quando não sou eu realmente, porque eu sou um eu que não conheço. Na verdade creio-me um tanto criança ainda, mas que “posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.” Como diria Clarice sabiamente. Tenho de recorrer a palavras externas a mim, que não sei me definir apenas com o que me é interior. Eu repetia, naquele porto onde atraquei: agora vou ser feliz, agora, agora… Mas há a expectativa do retorno. Tinha de voltar para a realidade que me aguardava. O sonho era tentador, mas não pôde se manter por muito tempo. É por natureza fugaz. A vida, permanente. Quantas mentiras sou obrigada a dar… Mas comigo mesma não queria ser obrigada a mentir. Senão nada mais me restaria… Mentiras de uma vida que se amontoam num mundo fantasioso. Ainda me pego a dizer “faz de conta que tudo não era faz de conta.” Era a realidade de um sonho que vivia acordada. Entretanto, era fantasia e o objetivo desta é encobrir quem somos quando não escondemos nossos rostos. Estava descobrindo um mundo ao qual não pertencia, uma vida que me escapou entre os dedos. Era uma oportunidade única, fiz o que pude para não revelar a mentira que me contava. Já sabia a verdade, mas não a falava a ninguém. Dizia baixinho para mim mesma. “Sei que você sabe, que não sabe o que sabe, mas sabe, ah se sabe!” Fingindo não me ouvir, prosseguia, a procura da verdade escondida que já houvera encontrado. Naquela cidade era a história dos monumentos que me encantava. Sim, procurava me perder na imagem européia encravada no sul do país, ao lado de pessoas que jamais haveria de encontrar novamente. Gente que conheci, rostos que se unem a outros, quando o véu do esquecimento me cobre os olhos. Achava que talvez não fosse tarde demais, começava por dentro aquela coisa sôfrega e desesperadora de novo: a esperança. Coisa estranha esperar, esperando que a esperança não seja uma espera em vão. O mundo é uma espera constante. Esperamos que alguém nos encontre nesse emaranhado de pessoas, alguém que nos resgate da vida comum, do hábito que se torna um hábito. Todo dia, toda aquela agonia. Por que não se render ao avanço natural das coisas sem procurar definições que na verdade não existem? Não há a ajuda de dicionários. “O que é metalinguagem?” Procurar explicar-se o tempo inteiro. Estou em busca de algo que me defina, mas sou um abismo de sentimentos, “deep, dark, and warm” E naquelas ruas onde o dia no verão se estendia mais que o normal, a vida era tão clara quanto o sol das 19 horas. Vivendo o poente que se atrasava, as ruas em labirintos, em que me perdia na história das fachadas, e suas estátuas que me assustavam com seu olhar rígido. Pareciam me ver mais que eu a elas. Elas viam-me na profundeza de meu abismo. E isso me amedrontava. Agora percebo que caminhava na escuridão do dia, sob o sol de fevereiro tateando a procura de mim mesma.

Perdida, no labirinto de edifícios, me encontrava na cidade. “No alarms and no surprises.” Cantarolava sob a garoa que resolveu refrescar o meu derradeiro dia na cidade que se resume em três letras, contudo é indelimitável. Pensando naquele momento, vem à minha mente tanta, mas tanta coisa, que me pergunto se naquele solo de concreto não estão marcadas minhas pegadas, que seriam uma maneira de provar que aquilo ocorreu mesmo. O mundo era outro, eram outras pessoas, a vida foi fantástica e livre por alguns momentos. Se pudesse levar comigo algo daquele lugar, seria tão somente o poema que proferia quando estava muda. Quando a única esperança era, na verdade, a espera, a fiança que me libertava e nada valia, ou tudo valia, porque não pensava em dinheiro, mas na cálida orquídea que ora se insinuava, ora se escondia no turbilhão de som em que me afogava. Um presente para a cidade de paradoxos. Muitas definições me escapam, não consigo me proferir de maneira clara, todavia não eram claros meus sentimentos, enlouquecida, mergulhava na canção, naquele mundo estranho, como se, guiada pela lira de Orfeu, visitasse o reino inferior, e adormecesse às margens do Lethes. Tudo isso numa noite que me pareceu tão curta quanto num dia de solstício. Queria que a música se derramasse eternamente. Entretanto a fonte da qual jorrava néctar, que me anestesiava os sentidos, secou. As luzes apagaram e a canção cessou. Depois de tudo isso, continuei minha trajetória em busca da felicidade. Sei que não era tão somente o efêmero das coisas.  Um instante isolado, uma centelha de um momento, a luz que brilha sobre as águas calmas do Guaíba. Era algo que, ainda sem grande importância, não se resumia às duas sílabas pelas quais me apelidaram. Sou mais que um dissílabo. Um nome que não se encontra facilmente. A insígnia do filósofo em mim. “A primeira glória é a reparação dos erros.” Se Machado pensa assim, quem sou eu para contestá-lo? Estou meio viciada em solidão: ao barulho do teclado, ao som de uma televisão distante ligada no noticiário, aos livros que se amontoam pelos cantos do quarto.  Tudo isto que é tão diverso do que vivi na minha desbravação dos Pampas. Vivi a sexta-feira mais intensa de todas. Véspera de tudo, mas que deságua em nada, numa segunda-feira insossa, em que me dei conta: o mundo acabou. E por mais que tentem me fazer acreditar que a vida persiste, que sobrevivemos, alguma coisa me faz crer que algo existia mim e me falta agora. Será que deixei meu coração no meio dos torcedores encarnados do Colorado? Ou no reduto tricolor do Grêmio? Talvez meu coração tenha aprendido a voar com as poesias de Quintana. Agora plana no ar, passarinho. Sei que não o trouxe comigo. O mundo acabou, como as esperas que se estendiam por dez horas e que não eram penosas, mas extremamente divertidas. Bom encontrar quem pense como você. É como se olhar no espelho, muito embora de uma maneira diferente. Por que não é sua imagem refletida, mas de outra pessoa com quem se pode dividir emoções e sentimentos. Alguém a quem se possa pedir: salve-me! Muitas preocupações nascem da dificuldade de pedir, e é muito difícil achar quem ofereça. Entre o precipício e a matilha de lobos famintos, não há saídas possíveis. Estou preparada para tudo, menos para suportar as dores que me infligi, penas auto impostas submetendo minha alma à penúria. Não sou a pessoa mais indicada para explicar meu próprio sofrimento. Agora não esqueço, fecho os olhos estou de novo na cidade do sonho. Ouço o Guaíba, suponho ouvir bem suas águas, o murmurar do rio. O silêncio de um sentimento que se foi, levado pela corrente. Nesse devaneio tolo me perco por horas no labirinto de que não pude me desviar. Como ludibriar o Minoutauro? Agora esqueço e sonho, mas não esqueço o sonho. Eis que depois de tanto falar vem-me a vontade de voltar para Porto Alegre. Naquele cais em que atraquei minha nau por parcos e fugazes dias, onde o pretexto forneceu-me as chaves da masmorra em que me trancafiaram. A minha vida de silogismos ilógicos. Suspiro e sei que ainda sinto saudades de POA…  

      

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Há muitas noites ouve-se ainda o mar
que, leve, sobe e desce a lisa areia.
Eco de uma voz na mente aprisionada
que do tempo remonta: e mesmo este
lamento assíduo de gaivotas: dos
pássaros das torres, talvez, que abril
impele para as campinas. Outrora,
comigo estavas aqui com tua voz;
e eu quisera que a ti também voltasse
de mim, agora, um eco de memória,
como esse escuro murmúrio de mar.

Salvatore Quasimodo

Manhã de abril

Giordana Medeiros 

As palavras me escapam hoje, perdida nestas lembranças, começo pelo mar. Era manhã de abril, lembra? Sei que não guarda muitas lembranças dos fatos que passaram, já que para você só o presente importa, mas espero que se recorde daquela manhã em especial. As vagas lambiam a praia, leves, alisavam a fina areia, aos nossos pés molhavam, como se nos batizassem de infinito. Então, já ausente de faltas, nossos corpos entregavam-se ao verde esmeralda do mar, ou era em seus olhos que me banhava? Então, sentia o sabor salgado de sua pele, e, em beijos molhados e condimentados de mar, nos perdíamos em nós. Sabe que nunca mais senti tal sabor? Você roubou o sal dos oceanos. As memórias ainda ecoam em mim. Cantam canções de abandono. Músicas de saudades que lamentam o término das manhãs de abril. Abril que se fechou nas íris de seus olhos. Era claro, mas escuro tornou-se quando me enclausurei em quartos solitários, percorrendo o mundo em frases vãs. Léguas percorridas pelo dançar das mãos, entre a sonoridade do teclado e a mentira das palavras escritas. Sabe que, tal qual ao mar, também amo a lua, gosto de sua luminosidade, como gosto do barulho do oceano, mas escondo-me em recintos escuros e silenciosos. Fora do alcance da Lua, muito, muito distante do mar. Foi-se abril, foram-se tantos meses, tantos anos. Nada de você ficou. Abriu a porta das saudades, num sentimento trágico de abandono. Então chegou novembro de um ano qualquer e minhas alegrias secaram nas chuvas do décimo primeiro mês, do décimo primeiro ano, do décimo primeiro conto, do décimo primeiro retrato, de uma época que permanece em mim. Rezo todos os dias para que a espera seja apenas um hiato. Talvez volte…  Seria abril de um mundo que se reabriria. Sabe quando nem mesmo as lágrimas vertidas são capazes de regar a sementes de felicidade que guardamos? Feijões mágicos que muito prometiam e não germinaram. Não há magia na desilusão. Mas tenho muitos dias para aguardar. Sei que algo me espera, talvez não mais em abril, talvez em junho, julho ou agosto. Por que esperar o verão ou a primavera? Aprendi com as primaveras a me deixar cortar para poder voltar inteira. É sempre outono em mim, talvez porque era frio quando nasci. E me acostumei às gélidas madrugadas sem lua. É tão escuro… Também em mim.  É tão frio… Mesmo em mim. Todas as horas em que penso naquela época de verão, quando a água salobra era mais que uma dádiva, era a liberdade, a abertura de todas as prisões em que nos encarceramos na vida. Éramos livres, no abrir das nuvens e no aparecimento do sol. Diana era eu que passeava pelos reinos de Poisedon.  Mas aqui, tão longe do mar, do pequeno infinito restrito a um planeta minúsculo de um universo inexplorado, sinto-me ainda menor. Há tanto que me falta, como as horas nuas, perdidas nas peles que secavam ao sol. Somente Apolo tinha conhecimento de nós, que nas manhãs de abril, em que nos escondíamos do mundo, nos encontrávamos livres. E agora tudo ficou vazio, o infinito que tinha fugiu-me por inteiro, as vagas levaram de mim tudo o que possuía, mas tudo que possuía era você… Então, foram as ondas que quebravam na praia, que da mesma forma que me presentearam com sua presença, levaram-na de volta a Atlântida. Civilização perdida no oceano, cidade de promessas. Ainda lhe espero na mesma praia. Luto contra minha esperança, tento sufocá-la sob meus temores, mas nada do que faça é forte o bastante para suplantar a força deste sentimento. Talvez morra e minha esperança ainda esteja viva, mesmo que não seja no meu peito.  Na chuva desta noite, há o vento e o frio. Nuvens carregadas dentro de mim. Relâmpagos e trovões, enquanto aqueles iluminam, estes que sucedem os raios, que cortam os céus, atemorizam. O mais incrível é que os mais belos são mortais. Os que causam medo apenas nos avisam: o perigo passou. Lágrimas ainda brotam silenciosas, saudosas, mas ninguém as vê, nem mesmo você que ficou somente no abril despedaçado de minha emoção.

O mar, que apenas nas noites visito agora, ressente-se de você, da tua voz que sumiu e não mais embala o vôo das gaivotas. E numa noite silenciosa de primavera, nesta cidade distante do litoral, escuto as ondas em minha mente, também saboreio o sal de seus cabelos, e nesta ilusão que ultrapassa os limites da realidade, creio-me um tanto mais livre, mesmo que ainda esteja trancafiada neste calabouço de memórias, onde me escondo todas as vezes que penso em você. “Quo vadis?” pergunta-me o cordeiro, quando tento ultrapassar os limites impostos pela minha mente. Tudo que permanece em mim e de que não me desfaço. Envergonhada, retorno para os limites da cidade que criei. Não há como não se oferecer em sacrifício. Está frio, estou fria por dentro também. A questão é libertar a si mesmo, encontrar as verdadeiras dimensões do sonho não se deixando constranger pelas emoções vazias. Há algum tempo os meses eram outros. Era inteira, “porque não sei amar pela metade, como não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão”. Tomo emprestadas as asas de Clarice Lispector, que planava bem mais alto neste céu em que me perco. Mas é noite, Diana, sozinha, desaparece, nem das estrelas tem companhia e não pode mergulhar no verde de teus olhos. “Terrific!” Exclamo para as ruas vazias. “Não poderia ser melhor!” O problema é que poderia. As expectativas aniquilam a felicidade. No fim não se deve aguardar pelo sol que não vem.  Nem pela mão estendida que não dá e nem ao menos oferece. A realidade mesquinha dos homens, avaro de sentimentos, da solidariedade que escapa ao coração das pessoas. Pois benevolência está ausente no vocabulário da arrogância. Sei que pouco me tenho e muito me dou. No fim nada resta de mim. Daquela que fui nos meses distantes do abril que se abriu em mim. Li um poema há pouco tempo que explica isto para que me fogem respostas.  “Se era felicidade e a gente não sabia, a terra toda e um corpo outro, e fica só a fotografia, isso – isso é muito pouco.” É de uma poetisa polonesa: Pawlikowska-Jasnorzewska. Falei sobre ela a você, mas sei que não se lembra. Todos os meus poemas ficaram presos naquele abril. Não consigo libertá-los. Devido a velocidade com que as ondas os levam, não consigo recolher-los. Ficaram espalhados na praia e misturam-se à areia. Agora fazem castelos com meus sonhos. Tão bonito construir castelos de areia… Castelos de sonhos que desmoronam quando a maré sobe e no mar os sonhos tornam-se infinitos. Verdes sonhos, valiosas esmeraldas numa mina desconhecida. Uma fortuna que se perde, veios de esperança, insetos singelos e frágeis que visitam meu refúgio nas noites úmidas de verão. Brasília é uma cidade triste, seca no inverno, chuvosa no verão. E não tem, nem ao menos, a companhia do mar. Por isso perco-me no céu azul, e, como as nuvens que caminham no sibilar das brisas, sou transportada, pelo sopro de Zéfiro, para o litoral. Volto para o mês em que o mundo se abriu para mim. Havia tanta coisa para dizer. Porém, o que queria era lembrar-lhe do que fomos. Éramos muito mais do que somos hoje. Você representante do sonho que se perdeu. Eu, Diana, caçadora solitária, banhada de oceano. Há muito que lhe espero e, se este texto (que escrevo numa noite escura de chuva, num cubículo em breu) alcançar-lhe (que as palavras, quando libertadas, chegam aos confins do universo), espero que se recorde, não do mar, não do abril, não da praia, e nem da areia fina que se misturava aos nossos corpos, mas de mim. Eu que me perdia no silêncio das palavras não ditas, no vagar dos olhares que fugiam, e que se encontrava tão somente sobre seu peito que ressonava sob o meu corpo enquanto dormíamos. Em frente ao mar fiz a promessa de nada levar deste mundo, tão somente as lembranças daquele abril, do seu olhar verde esmeralda, do sabor do sal de sua pele, dos dias em que o tempo parou para nos ver. Quando o murmúrio das ondas calou-se para nos ouvir. E se puder recordar-se de tudo isto, volte, que meu coração está sempre aberto para você, mesmo que não seja em abril.

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