As quatro estações

Giordana Medeiros

A vida dança no ritmo das estações. Como se a areia, que esvai na ampulheta, transformasse o mundo, e, a cada segundo, tudo mudasse: é quente, é frio, é seco, é chuvoso. Os dias não se repetem. Antes, tudo amarelo, queimado pelo sol inclemente, era inverno. Hoje, verde e florido, clima agradável, é tão gostosa a primavera! E depois, chuvas de verão, águas de março, e, então, chega silenciosamente o outono, das paixões, das ilusões, que somente serão substituídas na primavera. Minha história também se escreve na areia do tempo. Tal qual o faço, quando, no litoral, na praia que me causa saudades no inverno, escrevo, para as ondas, minhas confissões. O mar leva minhas tristezas cultivadas no inverno de Brasília, onde nada pode brotar além de desilusões. O solo vermelho, nuvens de poeira, em redemoinhos que levam em turbilhão o que me restava de sonhos. Mas quando chega a primavera, a cidade sem esquinas se transforma. Enfeita-se e enamora-se. Verde e agradável, como se não houvesse ocorrido o hiato do inverno. Foi no frio, das noites vazias de solidão, que abandonei os desejos mais floridos. Eram luminosos como as estrelas que pontilham o céu na madrugada gélida de início de junho. Havia tantas esperanças, que caíram como mangas maduras, mas não há quem as recolha do chão. Ficam esquecidas, e, por fim, apodrecem desprezadas pelo paladar das pessoas. Ignoradas, esperanças que não são esperanças, são somente promessas irrealizadas, ou, talvez, irrealizáveis. Um pedido que se faz, quando criança, à primeira estrela da noite. Acumulam-se pedidos, tenho uma coleção deles, nada concretizado, simples desesperanças, das minhas conversas com o poderoso oceano. O clima em mim faz morada: sou tão mais feliz na primavera, e muito mais sorumbática no inverno. No caminhar infinito das horas, desconhece-se o dia que se foi e aprende-se sobre a noite que virá. As estações são música, Vivaldi converteu em som o que é físico. Translação do planeta. Quem quer saber do que dizem os cientistas? Prefiro ouvir a melodia, a música do movimento da Terra. Antes era estrela, hoje sou cometa errante e livre. Dizem que todos os astros se movimentam perpetuamente. Até quando? Será que não haverá mais os banhos (intencionais ou não) de chuva em meados de setembro? E temporais com raios cortando o céu, que se ouvem durante a noite, sob os lençóis, assustando-se com os trovões? O inverno vai se perpetuar em mim? Seco, frio, distante? Não posso crer que, em razão da arrogância do homem, as estações se extinguirão. E o mundo vai morrer sem ter como futuro a chegada da primavera. Sei que este texto é meio bobo, mas penso que tudo que é meio bobo é mais bonito, porque está ausente de complicações. Eis aqui meu pobre coração partido em mil pedaços. Um sonho que se esvai com a areia da ampulheta. E nessa noite onde cai uma garoa fria, que quase ninguém percebe, vou calar meus lamentos, enclausurá-los em mim. Somente o sorriso se verá, não as feições do que sinto, tão feio, tão doloroso, guardo o Quasimodo em meu espírito. Sei que estou suscetível as intempéries. “Mas não temas o calor do sol, nem as iras do inverno furioso.” Afirmo para mim, o que diria a Mrs Dalloway. Recuso-me a submeter-me ao concreto mundo científico. Sei que entre as certezas da física e os mistérios da sorte, cada instante pode ser o derradeiro. Só a vida dura o tempo todo. Nada mais. As estações vão e vêm. Nada está completamente estático. Depende do referencial. Isto eu aprendi na escola, há muito tempo atrás. Mas esforço-me para converter o tempo ao meu favor. Foram anos perdidos tentando compreender a vida, o tempo, o mundo! E nunca percebi como é horrível, puro e inapelável viver. E, nesse cismar, a noite prossegue, sei que “temos ainda muito tempo, temos todo tempo do mundo. Todos os dias, antes de dormir, lembro e esqueço como foi o dia. Sempre em frente, não temos tempo a perder, nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo.” Hoje busco palavras que não encontro em mim.

E agora sei que o verde é temporário. Existe o inverno a minha espreita. Os dias são fugazes, as noites eternas. Recordo-me das coisas que ocorreram e não voltam mais, coisas que se foram para sempre nas águas do tempo. Perderam-se, momentos que eram como botões na árvore da vida, como se uma linda rosa houvesse florescido tão somente para meus olhos, e estes momentos, tesouros na arca do tempo, são minha fortaleza. É pensando neles que suporto as estações do frio. Não chove, seis meses com insuportáveis baixos índices de umidade no ar. Mas quando estes índices caem a doze por cento é uma festa.  É a versão brasiliense do dia de nevasca. Não há aulas nestes dias. São especiais. As mães ralham com os filhos para que não façam exercícios sob o sol, mas quem ouve? Quem não aproveita o dia de folga? Minhas mais fantásticas aventuras ocorreram sob o temeroso inverno de Brasília. “Não se esqueça de beber bastante água!” Vociferam as mães da porta de casa. E as crianças soltas, fazem sua vida muito mais feliz. Eu sou tão pequena neste mundo. Hoje que deveria sentir-me confiante, sinto-me ainda mais frágil, como se tudo que houvesse construído pudesse desabar sobre mim a qualquer momento. Instável. Inconstante. Esta sou eu. Sou tão mutável quanto as estações do ano. Tenho dias de verão e noites de inverno. Nos meus sonhos há um mundo do qual não faço parte. E este mundo é maior do que eu. Como diria John Donne: “É muito pouco chamar um homem de um pequeno mundo; exceto por Deus o homem é um diminutivo de nada” Sou nada, sou ninguém, sou tão pouco neste universo. Um pequeno episódio da tragédia humana. Batendo no peito, censuro meu coração: agüenta coração que já sofreste bem pior. Não posso me mostrar como realmente sou. Nada do que sou é realmente eu. Eu não sou nada do que realmente sou. Sou realmente nada e não sou nada realmente. Nada. Somente eu. Muito e ainda assim tão pouco. Mesmo nessa madrugada chuvosa consigo encontrar o inusitado em mim. Como aquelas flores, que expelem perfumes durante a noite, alucinadas de escuridão. Eu vou me encontrando neste texto onde queria falar sobre as estações do ano. No fim, falo sobre mim também. É tudo sobre mim. Este sonho meu que se esvai e não abraço. E nesse sonho, grito. Um grito de vastas e imensas solidões. Se parasse de chover? Se parasse de sofrer? Se parasse de viver… Não sei o que ainda pode acontecer, é primavera, sei enfim. Mas, por que ainda é inverno dentro de mim? Não suporto mais as madrugadas de junho. É como se vivesse a repetição infinita de uma história mal escrita da qual conheço o final. É tão doloroso saber por que caminhos segue seu coração. E que apesar de saber que não os suporta, continua-se por esta estrada para lugar nenhum. Estou seguindo. Minhas lágrimas marcam o caminho. Sei que sempre poderei voltar, mesmo que jamais tenha saído. Ando em círculos num verdadeiro sacrifício de Sisífo. Não foram afinal as estações que mudaram, mas eu mesma. Eu que escrevo estas linhas tortas. Maus pensamentos, que provêm do meu coração. Sim, porque é sabido que “De corde exeunt cogitationes malae”¹ Mas é primavera, vamos aproveitar, a grama está verde e há tanto a se fazer antes de chegar o inevitável inverno. Não chove mais porque minhas lágrimas secaram. Mas, nas telhas ouço o respingar da chuva. E trovões estrondam na madrugada. A garoa se converteu em tempestade. A dor, que era garoa, é hoje tempestade em mim. E a quanta dor minha dor resiste? Foram muitas madrugadas. Foram muitas primaveras. Os dias seguem continuamente. É a vida dançando no ritmo das estações.

1-                 “Porque do coração provêm os maus pensamentos” Mateus, 15,19.   

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2 opiniões sobre “

  1. Fantástico! Bonito e triste. E no final a vida é mutável como ela mesma. É tudo vida afinal.
    E que se dane o tal do simulacro. =)

  2. André Guimarães

    Antes de mais nada, parabéns, Giordana. As frases concisas salpicadas no texto proporcionaram prazer e leveza à leitura. E realmente, o inverno de bsb é duro… Mas é isso aí: vivamos eternos dias de baixa umidade relativa do ar em pleno novembro. Ninguém é de papel, celebremos (n)as águas de março o ano todo, mesmo sem chuva. Molhemo-nos e dancemos em dias de garoa, tempestade e estiagem.

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