A palavra

Giordana Medeiros

Muitas sentenças para uma única palavra. Sabia dizer-la em cinco idiomas. Uma palavra simples e comum, mas que se me tornou estranha. Impronunciável. Pois, agora, é aquela que está ausente em mim. Em todas as línguas em que outrora me comunicava, já procurei, pesquisei em todo infinito de minha alma. E não consigo achar. Não há solidão mais temível do que aquela que já nos é interior. Acho que não sou mais capaz de proferir esta sentença. Está ausente em mim. Como também o sentimento que ela representa também não mais faz morada em meu espírito. E no vasto vocabulário de uma vida, no dicionário que criei de todos os inumeráveis sentimentos que já se apossaram de mim, esta falta é preocupante. Talvez não seja nem um pouco saudável, não ter mais tal palavra em mim. Mas o que posso fazer? Não sei mais nem como a escrever, sinto-me uma iletrada quando esforço-me para escrever-la e não consigo. É como se houvesse sumido de minha mente. Talvez tenha, na verdade, fugido de mim. Não tenho mais o que tinha e o que tinha era um tanto mais que hoje, e hoje tenho um pouco mais que nada. E nada é um pouco menos que tudo. Mas nunca mais senti o tudo, estou desvalida das sensações que poderiam completar-me. Não sei, mas esta história do tempo curar todas as feridas, talvez tenha me impedido de cerrar em meu espírito este sentimento, que agora não me é nada mais que uma palavra. E, nesse momento, me escapou, temo que para sempre… E não compreendo, o que fiz? Por que me é exterior esta sensação, e em mim, tão somente uma saudade? Tenho medo de viver com este vazio eternamente latejando em meu espírito. Desconheço o que posso fazer se não consigo mais achar a palavra, que, de todos significados possíveis, o mais significante é dar fim nessa sensação que me falta algo. Como se soletra este sentimento que é tão extenso quanto qualquer distância, se estou tão distante de o sentir em mim? Como se faz? Nem me lembro. Minha tristeza é tão exata… É como uma subtração, de repente menos um em mim. E o estranho é que não tinha nada, então fiquei negativa, uma pessoa amarga e sozinha. Sei somente me definir. Mas mesmo assim não me compreendo. O que sou? O que era? O que serei? Queria que todas as questões fossem respondidas, mas as dúvidas permanecem não reveladas. Posso perceber em torno de mim, há tanto que me é exterior, em mim tudo é tão pouco… Como ouvir uma canção, insistentemente, e no fim, por mais bela que aquela seja, o silêncio faz-nos falta. Mas é justamente desta ausência de som que pretendo fugir. Ouço o silêncio, todos os sons do silêncio, e cada som característico deste vazio, me mortifica. Tortura atroz. Sinto me flagelar cada ranger de porta, as buzinas do engarrafamento, as campainhas e suas músicas melódicas, os celulares  e seus sons impertinentes, todo este silêncio sonoro da vida citadina. Onde achar algo que não se vende, e não nos é conferido? O mundo está indiferente a mim, e eu não consigo estar indiferente ao mundo. A sociedade nos exige que nos enquadremos ao que é comum. Não estou adstrita a convencionalismos, haja vista que não sei como preencher este infinito em mim. Minhas idiossincrasias são o que guardo de original. O que não é comum, longe disso, torna-se chocante e não aceitável. Ou talvez seja uma forma de proteger-me de uma dor que me foi dilacerante. Agora não mais sei sentir. Acho que fui subtraída permanentemente do que era. E era alguma coisa pequena e triste, mas tão sonhadora, que me enchia de esperança a simples existência destes sentimentos que agora me são totalmente estranhos.  Sei apenas que me falta uma gama infinita deles, pois a inexistência de um implica necessariamente na ausência de outro. Um ser indiferente. Diferente ser indiferente, não? Quero uma dor pequena que me doa. Uma sensação apenas, mesmo que fugidia.  Onde estão as palavras que me fogem e se escondem de mim? Já não sei o que escrevo. Sei que escrevo e isso já é alguma coisa. Não tudo, que o tudo é não ser nada, mas ser nada é não ser tudo. Onde tudo não significa nada. Eu tentei ser o que queriam que eu fosse, mas descobri que não o sou. Mesmo que eu o fosse, sei que não seria agraciada com o sentimento que me está ausente. E que não tenho esperanças de voltar a sentir. Bate coração, bate sem razão, numa percussão sem canção. Somente marcando o passo dos meus passos. Para onde vou que não me encontro mais? Em que estrada sigo solitária? Não quero chegar a lugar algum, somente sigo, sigo por que não mais consigo estar aqui. Conheço tão somente solidão. Só. Meu vocabulário restringiu-se muito nestes últimos dez anos. Talvez pelo fato de ter sido desfalcada de sensações essenciais. Mas “o essencial é invisível aos olhos.” Será?

Aut damned spot.” Foi assim que apaguei qualquer resquício do passado em mim. Começo do início. Tenho de reaprender a sentir, como, quando criança, tive de aprender a falar. A palavra tem poder. É o que dizem. Hesíodo em sua Teogonia escreveu que “a palavra tem o poder de tornar presente fatos passados e futuros, de restaurar e renovar a vida.” É por isso que sigo a procura da palavra que me escapa. Como capturar uma emoção que não mais se conhece? A lágrima era sincera. O sorriso, um tanto irônico. Sei ser triste assim. Quero me sentir como se tudo me pertencesse nestes jardins do mundo. Não há rosa que não me agrade nem espinho que não me fira. Um desejo irresistível de ser eu mesma me assalta. Sei que os seres autênticos se revelam de forma mais completa na total escuridão. E nesse breu do meu espírito, revelo-me um tanto mais eu, mas ser somente eu é tão pouco, minha autenticidade é tão mesquinha… Por que estou condenada a provocar a aversão dos demais? Quisera ser querida ou ainda lembrada por alguém, ao menos. Estranho se saber invisível. Principalmente quando sabemos que não há quem pense na gente. Será que estou condenada a ser sempre sozinha? Serei uma poetisa? Sylvia Plath dos trópicos? Sei que entregamos nas mãos erradas nossas fantasias e sonhos. E desta forma nos desfalcam do que antes nos era importante. E ser importante é ter um sentimento que nos proteja, como uma armadura. Sem ele ficamos despidos do que nos envolve por dentro. Sinto este vazio que me restou. E neste labirinto de minha vida tento escapar a salvo do terrível Minotauro. Servimo-nos dos outros para medir o quanto valemos. Por isso sei que não valho um único vintém. Sou um ser depreciado como uma estátua antiga que foi quebrada. Violentada em minha autenticidade. Era um ser tão raro, que me era impossível estar sozinha. Mas o coração acostuma-se a bater numa nota só. Nunca mais, dizia o corvo de Poe. Nunca mais me sibila a brisa desta noite, quando mais dói em mim a falta da palavra que me escapa dos livros, das minhas histórias, não a posso proferir. É-me vedado dizer como o nome do anjo caído. Também fui expulsa do paraíso e cortaram-me as asas. Não posso mais voar. Estou presa a este mundo, à solidão, à eterna ausência. Viver é perseguir eternamente a razão inefável da existência. O sagrado é na verdade a essência de uma vida mortal. Por isso, não me creio só somente, mas apenas ferida o suficiente para que, ao procurar uma saída para o abismo de minha alma, acabar por descer mais fundo no que entendo por mim. E onde está a palavra que durante todo este conto me fugiu? Onde está que a persigo insistentemente, que procuro em todos os locais e não encontro? Era tão recorrente na sociedade, mas parece que ninguém mais se importa com ela. Não a encontro na televisão, não está nos programas de qualidade duvidosa, nem nos comerciais que querem vender-nos algo de que não precisamos. Onde está? Nos livros na estante também está ausente. E onde foi parar esta emoção esquiva, que parece ter desaparecido do mundo moderno? E se não existe mais verdadeiramente no mundo? E se todos só pensam apenas em si mesmos, e não tenham tempo para se solidarizar com os outros? Existem sentimentos em extinção. Talvez esta palavra de quatro letras que procuro, tenha desaparecido. E a solidão tenha preenchido todos os espaços. Sem que percebesse o homem se tornou o rei de seu próprio exílio. Durmo sentido a dor desta pena que me foi imposta pela sociedade, e no sonho uma gaivota pousa em minhas mãos, e como por mágica (que pode ocorrer em sonhos), transforma-se numa carta, e nela, tal qual uma graça concedida por alguma piedosa divindade, encontra-se a palavra que procurava. Subitamente o meu coração começa a bater num novo e estranho ritmo.

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Uma opinião sobre “

  1. Achei fantástico. A primeira parte um pouco repetitiva, concordo. Mas a segunda parte desbanca lindamente! FANTÁSTICO! Aqui está mais um dos meus favoritos adicionados a net. E ainda quero ter a oportunidade e tempo para ler todos os seus textos. Adorei! beijos. Lud

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