Arquivo do mês: outubro 2010

Kyrie Eleison

Giordana Medeiros

Lembro de estar ouvindo uma música, a mais bela já existente, que não pode ser ouvida pelos homens. Na verdade há humanos que a escutam, mas quando este fato inusitado ocorre, chamam de loucos àqueles dotados do dom, os internam em sanatórios e viciam seus corpos em remédios desnecessários, cujo único poder é calar o espírito. Reprimindo-os, não apagam deles o poder de ouvir a canção, somente os fazem calar sobre o que escutam. Eu não posso mais ouvir. Desde que caí nesse mundo, quando me foram arrancadas as asas. Uma cena terrível vem a minha mente, espadas que me cortavam a carne, manchavam-me as alvas penas. A dor não era física… Era um sentimento de profunda agonia, mas que me assaltava tão somente o espírito. Então fui expulso, não pude trazer nada comigo. Cheguei nesse mundo despido de todas as armaduras que me cobriam. Não tinha como voar, tive de aprender a andar. Ficar ereto carregando o peso do mundo nas costas. Anteriormente me sentia leve, não havia sobre mim a nódoa do pecado. Alma manchada, corpo nu. A chuva caia sobre minhas feridas. Passos incertos, tão difícil andar sobre dois pés… E fui caminhando na escuridão da noite, sem destino, aonde ir quando nos tiram todas as bases? Se tudo ao meu lado desfazia-se em dor e minhas mãos traziam as marcas do pecado gravadas na pele. Perdão, era o que clamava, de joelhos, suplicava, mas não havia quem me ouvisse. “Senhor, onde estais que me abandonastes?” Meu crime imperdoável foi perder a fé. Por esta mácula, fui condenado. E me tiraram asas e auréola, pior me desproveram do que entendia por mim. O que era a não ser um ser tão pequeno e amedrontado numa terra inóspita e totalmente hostil?  O que faço? Aonde vou? Não sei. Sabia que sentia um medo tão pungente que meu primeiro impulso seria esconder-me se houvesse algum esconderijo. Mas continuo caminhando, para onde?  O que me diz a consciência? Coisa engraçada este tal de livre arbítrio. Há tantas vias, mas não se sabe por onde seguir. É provável que não escolha a mais correta. Todavia não há mais quem guie meus passos. E escolhendo caminhos trágicos, onde os espinhos cortam-me a pele e a dor fere meu espírito, continuo vivendo. Um som?! O que é isso? Um som estranho que vem de mim, e faz lembrar a vida. Será meu coração? (Eu tenho um coração?). Por que bate, tolo? Não há qualquer razão para continuar… Não vê?  Veja apenas o sol dessa manhã, pois ele acolhe os corações frios e espíritos ausentes… Pergunto-me se posso contar-lhe minha triste história. Estou com os pés descalços e o corpo trêmulo de frio. Como o ser humano pode ter tanto medo? São pequenos, frágeis e apavorados.   Ouvindo somente silêncios denomináveis, no fim sei que tudo se resume ao temor… Do que tenho mais saudade, é do som, da ária que ouvia ao nascer e ao por do sol. Era o mais belo dos sons. E nos reconciliava todas as manhãs e noites com o que para mim poderia se denominar Deus. Se pudesse ouvir o cantar dos anjos… Creio que escuto apenas o sussurrar de meu espírito. Ele fala numa língua morta, a vida fugiu de mim…   Tudo isto, tudo que sinto neste momento, é minha pequena poesia infinita, o infinito delimitável dentro de mim. Paradoxos são compreensíveis quando se fala outra língua. Em que língua me comunico? Qual é o idioma em que fui inserido contra a minha vontade? Não sei qual minha nacionalidade. Porque não posso dizer que nasci. Fui jogado neste mundo, em função de uma pena, fui inserido neste pesadelo. Tantas dúvidas me invadem, mas sei que sinto em mim uma estranha vontade de aventurar-me. Posso ouvir as canções dos homens. Não são como as que costumava ouvir, no tempo em que vivia, mas não vivia, não era um ser, não corriam em mim estas dúvidas que estão no sangue e circulam pelo meu corpo. Depois das claves de sol estão todas as músicas. Tudo gravado, uma história musical imensa, mas nada se compara ao que pode ser depreendido pelo espírito. Não tinha ouvidos, era um espírito, era um ser alado e fantástico. Como um raro Pégaso de alma pura. Agora pesam em mim estes pecados. E tanta culpa… Sede de justiça, fome de sonhos. Já viu um ser desnutrido de sonhos? Alma também definha… Estou coberto de chagas, mas com a pele limpa. É como se agora estivesse cumprindo minha via crucis, envergado sob o peso da cruz. Já é dia, mas me pergunto por que a noite é escura dentro de mim? Talvez porque me faltem Apólos e Artemises ou qualquer outra poesia pagã. Cansado, após uma noite de vigília onde caminhava sem destino, deito-me na calçada, entre as pernas das pessoas que desviam de mim. Como se fosse algo tão deplorável, e inevitável que deveria ser desprezado, nessa sarjeta, entre as pontas de cigarro e lixo que cobrem as ruas. Sou um desabrigado, um miserável que depende da esmola dos homens, ou da misericórdia de Deus. E quando Deus não está presente? Quem pode me ouvir?

Sei que ainda sonho nessas noites onde é dia e não há estrelas, mas a luz da lua se esconde em mim. Uma alma piedosa cobre meu corpo. Não me levanto para agradecer. Não quero estar nesta posição humilhante, quando necessito de tudo e todos. Estou tão desesperado!  Quando o sonho virou pesadelo? Provavelmente quando despertei e já era dia. Onde posso me refugiar, nesta cidade, em que não há quem se compadeça de mim?  Sou único neste mundo totalmente repleto de pessoas. Sou uma pessoa… Sou uma pessoa… Quem guiará meus passos? Que caminhos levam para a luz? Onde está a luz? A lua se esconde em mim. E ébrio de luar vou cantar como Homero os feitos mais prodigiosos que fizeram os homens. Vou cegar-me porque quero estar ciente apenas do que tenho por dentro. Não quero me misturar a essa massa uniforme de almas desumanas. O errado não é propriamente errado no mundo dos homens. No mundo dos seres não-humanos, é-se mais humano. Mas não mais estou no mundo de luz, como haveria de estarem os deuses olímpicos, antes de serem expulsos pela doutrina cristã. E, embora se substituindo os deuses, no fim a deidade é-nos inacessível. Somos falhos, fracos, e imperfeitos. Todas essas coisas que aprendo vão perseverando em meu ser. Aprendemos pela repetição, pela imitação, mymesis , vou copiando as ações dos demais. E já me sinto também um tanto humano. Não fossem essas feridas nas minhas costas, lembrando-me a todo tempo que tinha asas, e em algum momento, já fui algo sem explicações racionais; seria tão homem quanto qualquer humano. Não me entristece não poder mais ouvir a “música dos anjos”, há compensações, o amor é uma delas. Amar de forma mortal é uma maneira mais intensa e estranha de amor. Não somente pelo prazer sexual, pois amar não se limita a isso. É um sentimento que nos redime os pecados. É como estar novamente limpo, como um dia, se pudesse ser assim chamado um tempo em que o tempo era ausente, já fui. Mas a liquidação de todas as faltas me fez sentir só, totalmente só, sem ninguém a não ser eu, sozinho nas trevas absolutas. Por que amo, mas amo absolutamente, num sentimento humano e inefável.  E o contraste do gelo cósmico dessa noite (é noite novamente?), foi tal que me surpreendi pensando que Deus era um milagre. Deus é um milagre?! Aquele que me usurpou as asas, que me expulsou para a vida terrena, poderia ser tão cruel e tão piedoso ao mesmo tempo? Por que fui excluído das milícias celestes? Meu pecado foi apenas deixar de acreditar. E como crer quando não se sabe real? E se existir realmente um Deus que nos protege e nos ama acima de todas as coisas? Se este Deus olha para mim como filho e me conforta, por que esse mesmo Deus tirou-me as asas? Como posso agora voar? Estou preso a estas paixões mundanas e ao pecado que me macula o espírito. Essa imagem do Deus implacável me varreu para um abismo negro que outrora me pareceu uma flama tão brilhante… Esse é o problema da razão. Como não analisar sob a incrédula razão o que se passa no nosso espírito? Sei que era um ser fantástico, e que me tiraram a imortalidade, tão somente porque perdera a fé. E fui jogado neste mundo numa nova encarnação, cerimoniosamente fui batizado na lama da alma humana. Quando foram inseridos em mim os males da caixa de Pandora. Nesse momento posso denominar todas as emoções que me dominam. Estranho ter emoções. É como carregar em si mesmo uma imensa e perigosa tempestade. Imprevisível como um homem. Não sou mais entidade, sou um ente. Mito que se tornou história. Assim se converte a fé em costume. Rezar mecanicamente sem qualquer emoção, é rezar por obrigação, no fim não há o que dizer. Deveriam tão somente conversar com Deus. Porque as orações decoradas a exaustão não dizem nada do que deveriam. Anteriormente poderia ouvir o que falavam Deus e santos. Como dizia a antiga tradição do Islã que atribuía ao rei Salomão um anel que permitia ouvir a língua dos pássaros. Talvez fosse a auréola, da qual fui subtraído, que me conferia o dom de ouvir o que dizem as deidades. Agora tento rezar para poder ouvir-las. Mas o pior da condição humana é se sentir sozinho. Completamente sozinho. Estou mais acostumado ao medo, mas não desprovido dele. Porque nós homens estamos tão abandonados neste mundo,  que procuramos algo que nos conforte, algo maior onde está a paz que em nós está ausente. Nesse cismar, ainda tento penitenciar-me por minhas faltas. Cambaleando na chuva, como quando me fiz homem, vou proferindo numa oração: “Kyrie Eleison”.

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A palavra

Giordana Medeiros

Muitas sentenças para uma única palavra. Sabia dizer-la em cinco idiomas. Uma palavra simples e comum, mas que se me tornou estranha. Impronunciável. Pois, agora, é aquela que está ausente em mim. Em todas as línguas em que outrora me comunicava, já procurei, pesquisei em todo infinito de minha alma. E não consigo achar. Não há solidão mais temível do que aquela que já nos é interior. Acho que não sou mais capaz de proferir esta sentença. Está ausente em mim. Como também o sentimento que ela representa também não mais faz morada em meu espírito. E no vasto vocabulário de uma vida, no dicionário que criei de todos os inumeráveis sentimentos que já se apossaram de mim, esta falta é preocupante. Talvez não seja nem um pouco saudável, não ter mais tal palavra em mim. Mas o que posso fazer? Não sei mais nem como a escrever, sinto-me uma iletrada quando esforço-me para escrever-la e não consigo. É como se houvesse sumido de minha mente. Talvez tenha, na verdade, fugido de mim. Não tenho mais o que tinha e o que tinha era um tanto mais que hoje, e hoje tenho um pouco mais que nada. E nada é um pouco menos que tudo. Mas nunca mais senti o tudo, estou desvalida das sensações que poderiam completar-me. Não sei, mas esta história do tempo curar todas as feridas, talvez tenha me impedido de cerrar em meu espírito este sentimento, que agora não me é nada mais que uma palavra. E, nesse momento, me escapou, temo que para sempre… E não compreendo, o que fiz? Por que me é exterior esta sensação, e em mim, tão somente uma saudade? Tenho medo de viver com este vazio eternamente latejando em meu espírito. Desconheço o que posso fazer se não consigo mais achar a palavra, que, de todos significados possíveis, o mais significante é dar fim nessa sensação que me falta algo. Como se soletra este sentimento que é tão extenso quanto qualquer distância, se estou tão distante de o sentir em mim? Como se faz? Nem me lembro. Minha tristeza é tão exata… É como uma subtração, de repente menos um em mim. E o estranho é que não tinha nada, então fiquei negativa, uma pessoa amarga e sozinha. Sei somente me definir. Mas mesmo assim não me compreendo. O que sou? O que era? O que serei? Queria que todas as questões fossem respondidas, mas as dúvidas permanecem não reveladas. Posso perceber em torno de mim, há tanto que me é exterior, em mim tudo é tão pouco… Como ouvir uma canção, insistentemente, e no fim, por mais bela que aquela seja, o silêncio faz-nos falta. Mas é justamente desta ausência de som que pretendo fugir. Ouço o silêncio, todos os sons do silêncio, e cada som característico deste vazio, me mortifica. Tortura atroz. Sinto me flagelar cada ranger de porta, as buzinas do engarrafamento, as campainhas e suas músicas melódicas, os celulares  e seus sons impertinentes, todo este silêncio sonoro da vida citadina. Onde achar algo que não se vende, e não nos é conferido? O mundo está indiferente a mim, e eu não consigo estar indiferente ao mundo. A sociedade nos exige que nos enquadremos ao que é comum. Não estou adstrita a convencionalismos, haja vista que não sei como preencher este infinito em mim. Minhas idiossincrasias são o que guardo de original. O que não é comum, longe disso, torna-se chocante e não aceitável. Ou talvez seja uma forma de proteger-me de uma dor que me foi dilacerante. Agora não mais sei sentir. Acho que fui subtraída permanentemente do que era. E era alguma coisa pequena e triste, mas tão sonhadora, que me enchia de esperança a simples existência destes sentimentos que agora me são totalmente estranhos.  Sei apenas que me falta uma gama infinita deles, pois a inexistência de um implica necessariamente na ausência de outro. Um ser indiferente. Diferente ser indiferente, não? Quero uma dor pequena que me doa. Uma sensação apenas, mesmo que fugidia.  Onde estão as palavras que me fogem e se escondem de mim? Já não sei o que escrevo. Sei que escrevo e isso já é alguma coisa. Não tudo, que o tudo é não ser nada, mas ser nada é não ser tudo. Onde tudo não significa nada. Eu tentei ser o que queriam que eu fosse, mas descobri que não o sou. Mesmo que eu o fosse, sei que não seria agraciada com o sentimento que me está ausente. E que não tenho esperanças de voltar a sentir. Bate coração, bate sem razão, numa percussão sem canção. Somente marcando o passo dos meus passos. Para onde vou que não me encontro mais? Em que estrada sigo solitária? Não quero chegar a lugar algum, somente sigo, sigo por que não mais consigo estar aqui. Conheço tão somente solidão. Só. Meu vocabulário restringiu-se muito nestes últimos dez anos. Talvez pelo fato de ter sido desfalcada de sensações essenciais. Mas “o essencial é invisível aos olhos.” Será?

Aut damned spot.” Foi assim que apaguei qualquer resquício do passado em mim. Começo do início. Tenho de reaprender a sentir, como, quando criança, tive de aprender a falar. A palavra tem poder. É o que dizem. Hesíodo em sua Teogonia escreveu que “a palavra tem o poder de tornar presente fatos passados e futuros, de restaurar e renovar a vida.” É por isso que sigo a procura da palavra que me escapa. Como capturar uma emoção que não mais se conhece? A lágrima era sincera. O sorriso, um tanto irônico. Sei ser triste assim. Quero me sentir como se tudo me pertencesse nestes jardins do mundo. Não há rosa que não me agrade nem espinho que não me fira. Um desejo irresistível de ser eu mesma me assalta. Sei que os seres autênticos se revelam de forma mais completa na total escuridão. E nesse breu do meu espírito, revelo-me um tanto mais eu, mas ser somente eu é tão pouco, minha autenticidade é tão mesquinha… Por que estou condenada a provocar a aversão dos demais? Quisera ser querida ou ainda lembrada por alguém, ao menos. Estranho se saber invisível. Principalmente quando sabemos que não há quem pense na gente. Será que estou condenada a ser sempre sozinha? Serei uma poetisa? Sylvia Plath dos trópicos? Sei que entregamos nas mãos erradas nossas fantasias e sonhos. E desta forma nos desfalcam do que antes nos era importante. E ser importante é ter um sentimento que nos proteja, como uma armadura. Sem ele ficamos despidos do que nos envolve por dentro. Sinto este vazio que me restou. E neste labirinto de minha vida tento escapar a salvo do terrível Minotauro. Servimo-nos dos outros para medir o quanto valemos. Por isso sei que não valho um único vintém. Sou um ser depreciado como uma estátua antiga que foi quebrada. Violentada em minha autenticidade. Era um ser tão raro, que me era impossível estar sozinha. Mas o coração acostuma-se a bater numa nota só. Nunca mais, dizia o corvo de Poe. Nunca mais me sibila a brisa desta noite, quando mais dói em mim a falta da palavra que me escapa dos livros, das minhas histórias, não a posso proferir. É-me vedado dizer como o nome do anjo caído. Também fui expulsa do paraíso e cortaram-me as asas. Não posso mais voar. Estou presa a este mundo, à solidão, à eterna ausência. Viver é perseguir eternamente a razão inefável da existência. O sagrado é na verdade a essência de uma vida mortal. Por isso, não me creio só somente, mas apenas ferida o suficiente para que, ao procurar uma saída para o abismo de minha alma, acabar por descer mais fundo no que entendo por mim. E onde está a palavra que durante todo este conto me fugiu? Onde está que a persigo insistentemente, que procuro em todos os locais e não encontro? Era tão recorrente na sociedade, mas parece que ninguém mais se importa com ela. Não a encontro na televisão, não está nos programas de qualidade duvidosa, nem nos comerciais que querem vender-nos algo de que não precisamos. Onde está? Nos livros na estante também está ausente. E onde foi parar esta emoção esquiva, que parece ter desaparecido do mundo moderno? E se não existe mais verdadeiramente no mundo? E se todos só pensam apenas em si mesmos, e não tenham tempo para se solidarizar com os outros? Existem sentimentos em extinção. Talvez esta palavra de quatro letras que procuro, tenha desaparecido. E a solidão tenha preenchido todos os espaços. Sem que percebesse o homem se tornou o rei de seu próprio exílio. Durmo sentido a dor desta pena que me foi imposta pela sociedade, e no sonho uma gaivota pousa em minhas mãos, e como por mágica (que pode ocorrer em sonhos), transforma-se numa carta, e nela, tal qual uma graça concedida por alguma piedosa divindade, encontra-se a palavra que procurava. Subitamente o meu coração começa a bater num novo e estranho ritmo.

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