Salve-me de uma vida cinza

Giordana Medeiros

Muros pichados, palavras de ordem em vermelho. Outras sem qualquer senso. São palavras? Brancos edifícios que adquirem a cor da cidade. Tudo se torna cinza. Onde está a vida, onde pulsa o coração frenético e urbano, totalmente urbano? Carros, uma infinidade deles, que poluem o ar com seus escapamentos, mas são o sangue que corre nessas veias de asfalto abertas em meio a antiga vegetação. O verde está sumindo. As árvores agora disputam espaço com o concreto armado. Aqui e ali ainda existe uma brava guerreira. “Não se deixe debelar!” Encorajo-a, mas sei que a luta é inútil. Céu azul, nem uma nuvem, oceano de sonhos que nele navegam desvairados, a quem pertencem? As pessoas nem percebem que a aquarela está perdendo suas cores. Desbota, como um tecido antigo, o cinza se projeta sobre todos. Minha íris já não enxerga o colorido, agora vejo como veria um cachorro, em preto e branco. O que falta a mim? O que falta em mim? O que falta ao mundo? O que falta no mundo? Uma infinidade de ausências e perdas. Derrotas vergonhosas. Com que tintas poderei restituir a real fachada de um prédio antigo, que foi destruída pelo verme do tempo, carcomidas, as sacadas já não portam flores. E tudo há tão pouco tempo me era tão novo… Será que é meu coração que não pulsa mais, pois o sangue venenoso em mim vai me matando aos poucos? O mundo pulsava em mim. Em minhas veias  corriam sonhos, desejos de uma vida impossível que ficaram adstritos tão somente ao espaço imenso e ao mesmo tempo minúsculo de minha mente. Não no coração, porque ele há muito tempo está fechado. Trancou-se, acorrentou-se. Por fim, aniquilou-se. Arco-íris arrogantes querem gabar-se por terem sete cores. São espectros da luz branca. Vamos decompor tudo em cores? Sentimentos em cores, roxa de raiva, verde de inveja, azul de tristeza, amarelo de medo… Mas há sentimentos sem cores também, remorsos cinzas, nuvens carregadas, cheias de ressentimentos e dúvidas. Quero tudo aqui, mas ao misturar todas as cores surge o negro. Um passado negro onde convergiram todos os sentimentos, fatos que ficaram marcados, como uma fotografia, polaróides que se grudam no espelho. Vejo como eu era, como o mundo era, e não consigo mais sentir o que sentia. Venha emoção esquiva, que necessito desta cor furtiva, que não vejo mais. Meus olhos míopes não distinguem faces. Não sei quem são. Há tantas pessoas, mas não me guardam nenhum significado. Onde estão os significantes desta história? Minha mente se perde nesta onda anônima que caminha sem direção. Para onde vão? Creio que não têm porto nem morada. Seguem como formigas, minúsculas formigas, insignificantes, vivendo suas vidas. Preparando-se para o próximo inverno. Eu sou a cigarra que canta toda a primavera. Pode ouvir? Estou com os olhos úmidos e a voz embargada por uma emoção tamanha e indecifrável. Sou codificada, criptografada, para que me seja difícil desvendar. Mas no fim é tão simples: basta tirar a venda sobre seus olhos. Pode me ver agora? Com o que pareço? Com o que realmente pareço? Sou ridícula e errante tal qual Dom Quixote? Sou doida e apaixonada, igual a Werther? Gananciosa como Fausto? Talvez um tanto corajosa e astuciosa como Ulisses? Ou mesmo delirante como um personagem de Kafka? Com que cores pinto-me? Que aspecto tem meu verdadeiro rosto? Não sei quem sou. Sou algo que não sou, mas sou o que sou porque não sei ser quem realmente sou. Compreende? Não? Já tirou a venda dos olhos? Há algo que me impede também a mim de me ver. Ou mesmo, de ver o mundo. Vejo um mundo sem graça, sem qualquer colorido, imagens patéticas de senhores de tudo. Guerras de egos e violência. Todos se odeiam mutuamente. Gente sem coração, seres sem espírito que vagam pela terra, almas condenadas, estão no purgatório para remirem suas faltas. “No dia de finados deve-se rezar pelas as almas do purgatório. Para que possam ver a luz do paraíso”. Fecho os olhos, junto as mãos e sussurro um apelo pelas almas penitentes.  “Pela glória de seu nome, amém”.

Não chove há tanto tempo… Está tudo seco, gramados queimados pelo sol inclemente, árvores sem folhas onde galhos se entrelaçam em rede. Balbucio desejos, para o nascente. E se chover esta manhã? Seca que se perdura e tortura os habitantes deste mundo cinza de concreto, fincado no meio do Planalto Central, dê-me logo seu concerto de despedida, faça cantar as cigarras. Zumbido que marca a mudança de estação. Cantam para anunciar a primavera. “Queridas, estão atrasadas!” Advirto estas vizinhas que outrora já me foram insuportáveis. Hoje até me afeiçôo a elas. Formigas saiam de suas casas para pedir a volta da primavera! Uma tempestade de sentimentos dentro de mim. Não há cores, já disse. Sou tão cinza quanto este mundo que me acostumei a ver. O que posso fazer, se me afogo em rejeições, se me flagelo a cada passo e me perco. Estou totalmente confusa, não sei mais porque choro, num soluço reprimido. E porque canto essa música desafinada e obscura. Por que este mundo não tem sentido? Será que quem tem, na verdade, a venda sobre os olhos, sou eu? Por isso, não enxergo as cores, pois não vejo o mundo como ele é, mas uma projeção dele, uma imagem fantasiosa, de uma mente perturbada, onde ao real mescla-se o fantasioso, histórias que nascem como um veio de água, nascente de onde surge o mais puro dos líquidos. Límpidas ilusões. É isso que vejo. Minha constelação de estrelas livres. Vamos provar o sabor das estrelas? Qual o sabor de ser infinito? Em mim um universo crescente de histórias. E fora de mim tudo me limita. Será que há alguém que possa me conceder um coração? Ou a coragem de um leão? Ou um caminho de volta para casa ao menos? Para onde segue a estrada de tijolos amarelos? Vou caminhando por palavras e sonhos. Sinto-me um tanto estranha. Quem é o mágico de Óz? Que perigos posso encontrar por estes caminhos? Engraçado como tudo pode se resumir a apenas um sentimento, vivo sempre na eterna dúvida. Queira desculpar-me se pareço um tanto insegura. Estou cambaleando entre sujeitos e predicados, apesar de não ter muitos predicados a apresentar. Sou o sujeito oculto aparente deste conto. Salve-me de uma vida cinza. Quero cores, tinta, afrescos e aquarelas. Naturezas mortas não, que no meu mundo quero que tudo viva. Flores de todas as cores e aromas, velozes beija-flores a distribuírem carinhos àquelas, macacos divertidos, pulando entre os galhos das árvores. Borboletas, que voariam num jardim de delícias, Jardins Suspensos da Babilônia. Quero as sete maravilhas do mundo antigo. Qualquer coisa que fuja ao normal e rotineiro. Não esses prédios cuja sombra nesta manhã cai sobre de mim. Sinto-me flutuando sobre as vagas profundas do som com os sentidos lassos e perdidos. Vem, pegue minha mão e me conduza nesta dança, somos bailarinos neste espetáculo. Nas pontas dos dedos, vou me entregando ao sabor da música que somente eu posso ouvir. Terá que dançar sem música. “I’m deeply sorry.” Na verdade sou eu quem cria a canção. Noite em mim, manhã lá fora. “O Difícil é conciliar a manhã de fora com as trevas de dentro, respirar é uma oração que nada pede.” Como diria Caio Fernando Abreu. Pois é, não é fácil ser como sou, sabendo que não sou o que seria caso fosse o que sou realmente. Mas, espere aí, não é tudo assim, escuridão e morte. Há também uma palheta de cores, que o artista desta obra nos furta a possibilidade de possuirmos. Uma pincelada de vermelho, o que seria uma simples pincelada de vermelho sobre as rosas do jardim? Imploro por cores que não posso enxergar. Como seria o vermelho para um cego de nascimento? Como definir para ele o que é vermelho? “É vermelho, pulsa como sangue, é sedutor e quente.” Ele interpretaria tais palavras, com que imagem mental? Da mesma forma como seria interpretada a música pelo surdo de nascimento? Agitam-se em mim estas questões, acabo escrevendo sobre o que desconheço. Não me conformo com minha própria ignorância. Creio que as coisas só começam a existir para mim, quando começo a prestar atenção nelas. São como fogos de artifício numa imagem cinza. Pode ver a festa de cores que meus olhos tão acostumados ao gris vêem agora?  Tantas questões explodindo em cores em minha frente. Decomponho a luz do conhecimento em infinitas cores. “Vem doce saber, salve-me de uma existência cinza e triste.” Vamos provar do fruto do conhecimento? Sucumbir à tentação da serpente que se enrosca em nossos pés? Ofereço a você esta maçã, que trago comigo. Agora que finalmente podemos ver o mundo colorido, o artista recolhe a palheta. Está sob nosso arbítrio continuar a pintar o mundo. Quais cores escolheremos?  

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