Arquivo do mês: agosto 2010

Noite de estrelas, música e poesia

Giordana Medeiros

Tudo tem um início mesmo que muitas vezes queira se escapar do fim. Eu inicio aqui, com o violão nas mãos tentando musicar a vida, não quero mais o silêncio, porque a morte é silenciosa e fria; a vida, som e calor, paixões intermináveis que crepitam em mim. As ondas levam as notas em suas águas, vem o verde mar levar a música tocada que me surgiu no espírito. Às vezes acredito que sou anjo e posso até voar pelo céu oceano azul. Com um galho seco arranho na areia notas de uma canção, letra de minha dor. E a verdadeira dor é ter tantas dúvidas. Quero respostas e o som de meus pensamentos reverberando no infinito. Sou uma canção triste de despedida. Quando o marinheiro deixa no porto sua vida para abraçar o mar. As cordas de meu violão prendem-me, amarra-me os pulsos a canção. Gosto de escrever também, um tanto assim poesia, outro tanto sonho, já o restante é somente música. Mesmo que não haja palavras rimadas. Porque não sou Homero para escrever Odisséias e Ilíadas. Nem mesmo Clarice que escreve tão bem sobre sentimentos. Não sei sobre o que escrevo, apenas escrevo e canto. Pode ouvir este lamento que profiro, expandir-se? Com apenas um clique você pode ter acesso aos meus mais preciosos tesouros. Minhas histórias são estas lembranças que se amontoam sobre o branco do papel. Pesam sobremaneira em mim, mas quando se tornam palavra ficam tão leves que voam com o vento, como as sementes de dente de leão. Assopra-se a flor, a brisa encarrega-se de ser portadora do conto. É o que ocorre com estas linhas que ao passo que publico, despregam de mim, e vão criar sensações pelo mundo afora. Sabe, pensando nisso por um momento quase acreditei que viver fosse mágico e inexplicável, uma epífania, mas a morte é certa demais para deixar quaisquer margens ao ilusório. Há algum segredo que meus olhos não me hajam revelado? O crepúsculo vem cobrir a canção de púrpura, manchar de sangue meus dedos. Por que a dor tem que dilacerar os corpos? Por que mesmo a dor psíquica tem de ferir de algum modo? Nem que venha conferir aos sonhos janelas para a realidade. Momentos em que há a confusão do real e do ilusório. Daquilo que é com o que deveria ser, mas não é. Nunca é. Fogem de mim as teorias que explicam o real, porque não me restrinjo ao que pode ser revelado. Sou somente a construção do etéreo para a qual não existe sentido.  Pode compreender esta intricada trama? Uma poetisa, uma pintora, uma musicista, uma insana, o que sou eu? Quem sou eu? Sou todas estas e ainda nenhuma, porque não me rotulo. Não sou um produto que se encontra nas gôndolas de um supermercado qualquer. Sou rara, pedra preciosa que deve ser lapidada, porque sou diamante bruto. Mas talvez não seja de um elemento tão duro, pois posso me quebrar, sou frágil, porém, valiosa. Uma canção que cumprimenta as estrelas que pontilham o céu de luz. Sigo por ilhas desertas, continentes exóticos, florestas virgens e por este solo, em que caminho, vou semeando desilusões, nascem árvores de sonhos, árvores do conhecimento da qual é vedado saborear o fruto. Quem quer ser expulso do paraíso? O conhecimento é pura vaidade. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.” Tento ser humilde e reconhecer-me insipiente. Há ainda tanto para se ver ou sentir, sensações e sabores inusitados que me seriam pura novidade. Vou por estas estradas na procura inalcançável do sentido, mas quando nada guarda nenhum significado, por onde seguir? Muito peso trago em mim. Sabe quando o remorso dói mais que a ferida? A qual seria aberta caso não se destruísse as possibilidades do sonho converter-se no mais temível pesadelo. Mas o que sei eu de sonhos, quando me escondo para não os viver? Porque sou tola a ponto de acreditar que é possível fugir de si mesmo eternamente. Nunca é tempo demais. Sou muito mais irrisória do que isso. Um dia a vida se me apresentará de modo que não possa mais escapar. Perderei minhas asas e recuperarei o juízo que hoje sou insana, mas racional, depois serei comedida, mas totalmente instintiva. Animal selvagem que mesmo domesticado não apaga a selva de si. São muitas canções para uma mesma dor. Variações de um mesmo tema. Pergunto-me a razão de sempre haverem opostos. Noite e dia, luz e escuridão, bem e mal ou morte e vida, que são o início e o fim de uma existência Severina. Perdoe-me o trocadilho João Cabral de Melo Neto. Será que há um oposto de mim, um reflexo invertido do espelho que me seja igual, mas totalmente diferente? E que quero eu com tais questionamentos? Por que não me reservo, ante a minha insignificância, a procurar sentidos e antônimos apenas em mim? É que o mundo é-me externo, mas o universo é-me interior.

 Nessa noite que se derrama sobre a praia, encontro as notas como se chovessem em mim, chuva de sons, é preciso apenas sentir as gotas caírem sobre a pele. A música me encontra, mesmo que não a procure. Ela, de uma maneira ou de outra, chega aos meus ouvidos. E então surge de meus dedos e do instrumento que toco. Meu violão quer criar novos sonhos, e minhas mãos, novas histórias. São estas as revelações do sonho que se faz mais real que a realidade. É que sou dada a devaneios, vivo numa existência paralela, num filme em que sou o principal personagem. São fantasias, evasões de uma vida hostil para uma ficção muito mais agradável. Por que é tão fácil ser feliz no sonho? E tão difícil na realidade? Será que o plano ideal de vida nunca passa de um projeto? Para todas as perguntas que faço sempre sei as respostas. Mas não as quero revelar. Ficam assim, escondidas, caso precise algum dia, as resgato. Nesse momento fico apenas com a dúvida. Uma erva daninha no meu jardim. Há tantas flores, contudo prefiro as margaridas. Tento proteger minhas plantas da ferocidade das pragas. Entretanto penso que as considero pragas porque me destroem o jardim. Na verdade só querem sobreviver também. Todos queremos sobreviver. Sermos alegres ao menos. Será que sou feliz? Talvez. Acho que não. Não sei. Pode ser que seja e não o saiba. Nunca sabemos quando somos felizes. Mas sabemos quando estamos tristes. Estranho, não é? Sabe, pensar me faz sempre um tanto mais sorumbática. Deveria não pensar e proteger-me de encontrar meu reflexo invertido desdizendo tudo que falo. Há tantos grãos de areia quanto estrelas no céu. Nesse espaço, onde impera o silêncio, dou som às estrelas. Para cada uma, concedo uma canção. E pode-se cantar eternamente. Música é a linguagem do espírito. O ser humano guarda a música em si. Sabe que a mente humana é uma fonte inesgotável de luz? Mesmo quando já houver se extinguindo a vida, e o corpo não possa mais produzir a beleza, o ser em si ainda é fonte de inspiração. A arte alimenta-se dos seus defuntos. Assim haverá sempre a revolução artística, uma geração sucede a outra e outras novamente virão, o mundo renova-se continuamente. O novo tornar-se-á velho, o velho já foi novidade um dia. A cada acorde estou mais perto de ser anjo. Com o corpo livre e o coração repleto de dúvidas, danço a música da vida, é-me impossível restar indiferente à canção vibrando em mim. Tenho um coração triste e um violão negro, ou tenho um coração negro e um violão triste. Combinações para uma mesma sentença. Sabe que esta noite parece-me haver mais estrelas que o comum? Será que as notas converteram-se em novas estrelas e juntaram-se às antigas que já pontilhavam o céu? Mania de fazer perguntas. Por que não consigo parar de questionar a realidade e o sonho? Aceitar somente? E se sei as razões, por que procuro respostas? “Ouve somente”. Diz-me o mar. As ondas batem nas pedras formando uma espuma branca, que chia como água fervente, e mesmo sabendo salobra, sei que tem sabor de universo. Minhas canções são solitárias, minhas histórias, melancólicas. Mesmo que imagine que não saiba sorrir, posso fazê-lo. Sei aproveitar as manhãs ensolaradas e as noites estreladas. Sentimentos são como as canções, ora solitários, ora constelações. Há certas músicas que devem ser cantadas em coral, outras devem ser cantadas à capela. Ora sozinha ora acompanhada, mas sempre, eternamente solitária. Essa sou eu. Mesmo que não haja mais razões para se cantar, e que a noite esteja fria demais para estar sob as estrelas, ainda assim, irei compor: músicas, histórias ou poesias. A força de meus sonhos é na verdade o combustível de minha criatividade. Seguindo as ondas molho os pés, batizo meu corpo de infinito, para ser também parte deste universo. O violão descansa sobre a areia, enquanto procuro nas águas a fonte de minha inspiração. Rego-me de mar, para crescer forte, viçosa, planta de água salgada. Talvez seja alga marinha. Sou a canção das ondas, o som do mar que se esconde nas conchas. Pés molhados, que se cobrem de areia, reencontro meu violão, tomo-o nas mãos, a lua reflete sua luz sobre a face perolada do instrumento. Instrumento de sonhos, fonte inesgotável de luz. Mas já é tarde, horas que se esvaíram com a areia da ampulheta. Tenho de guardar o violão na bolsa e retornar para a realidade. Descer das nuvens e colocar os pés no chão. Não sou mais anjo, nem escritora, poetisa ou musicista, somente um coração solitário numa noite fria e triste.    

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