Alma, oceano e solidão

Giordana Medeiros

As ondas vêm, resvalam em meus pés, novamente tornam para seu leito mar. Sou tão pouco comparada ao mar, ao oceano gigantesco que me é exterior. Quero provar do mar para sentir este infinito em mim. Provo o salgado gosto do universo. Mar que muitos perigos guarda em si, leve-me consigo, deixe-me ser mar também. Penetre em meus pulmões e insira-se em mim, infinito. Não quero mais ser carne, sentimentos e dor. Quero ter a força dos oceanos, ondas gigantescas que afundam navios. Quero ser força da natureza. Poseidon me conceda o domínio dos mares, dá-me seu tridente e o poder sobre os oceanos. Lanço-me nas águas e penetro na imensidão outrora inacessível.  Quanto mais distante da costa, quanto mais fatigados os braços de nadar, mais confio que me será possível ser parte desse azul. “Corpo desfaça-se de minha alma, liberte do invólucro indesejável meu espírito e deixe-o provar o sabor de ser infinito”. Grito quase sem fôlego, mas o mar não quer me tragar, rejeitou meu corpo e devolveu-me novamente à praia. Minúscula, agonizante, com os pulmões queimando por ter absorvido a água salobra, sinto a areia sob meu corpo arranhando-me a pele. O sol aquecendo o corpo hirto de frio. Fui rejeitada pelo mar, fui acolhida pela terra. Levanto cambaleante. Passos trôpegos, incertos, indecisos… Aonde ir? Não tenho morada neste solo. Fui repudiada pelo mar. Será que Zéfiro pode permitir que acaso nos céus possa habitar? Não quero ser humana, quero ser estrela, quero ser cometa, quero ser universo, que guardo em mim algo tão grande que não encontra lugar neste corpo diminuto e frágil. Corpo que não tem forças para lutar e desiste do mar, dos céus e resigna-se a terra. Arrasta-se sem direção, nau à deriva, não há portos em que possa atracar. As roupas encharcadas colam-me ao corpo. Respiro com dificuldade. Não há caminhos para lugar algum, nem lugar algum que tenha caminhos livres. Todas as rotas são vigiadas, estou presa, mesmo que, aparentemente possa fazer tudo, na realidade nada posso ou ouso fazer. Tenho as mãos e os pés atados. Confinada, a mim mesma. Prisão perpétua do espírito. A única saída do cárcere é a morte. Mas morrer é muito mais difícil do que aparenta. Quando mesmo Hades fecha os portões do reino inferior, onde pode estar um ser tão sozinho, que ao menor lampejo de esperança, atemoriza-se e retrai-se? A Morfeu, prometi o espírito, mas, nem mesmo ao senhor do Sono, foi minha  alma de grande valia. Também este expulsou-me de seus domínios. Por todas as divindades rejeitada, por todos os homens desprezada, sou um ser que não encontra abrigo. Nômade, só vê estradas, não há rumo, nem destino. Chronos piorou-me a pena, concedeu-me vida longa, e o sofrimento, que se estende por uma vida, parece-me eterno. Por que é tão difícil? Por que tudo é tão infinitamente difícil? Por que todas as portas estão trancadas? Por que não há maneira de quebrar estes grilhões que me acorrentam? Que há comigo, que espécie de ser ignóbil e mesquinho sou? Por que não há quem se apiede de mim? Por que não há quem me responda estas questões, que me parecem irresolúveis? Mítica história, que na verdade é floreada de elementos de sonhos, não sou eu realmente. Sou muito mais irrisória, sou muito mais repugnante. Se muitos sentimentos se confundem em mim, reconheço o maior deles: o medo. O pavor, que me consome, a principal corrente que me pesa. Há chaves para os cadeados que me encarceram quando nasci um ser totalmente desprovido de coragem? Assim calo-me e aceito, o que me dizem que é certo, os caminhos que devo seguir, mesmo que não sejam meus caminhos, pois o que queria mesmo era abrir estradas por onde jamais ousaram andar os homens, erigir pontes para cruzar os rios de dúvidas em mim. Mas não me é dada a oportunidade de dizer o que sinto, o que penso não tem nenhuma importância.  Ergo-me, retomo as forças e aos berros maldigo céus e infernos. “Nemo me impune lacessit” respondo ao mar. “Ninguém me fere impunemente”, repito baixinho. E retorno para minha vida medíocre.

Abro os portões, estão todos preocupados comigo, não digo o que ocorreu. Mas eles adivinham. Sempre adivinham.  Minha mãe põe-se a chorar. Agora, sou carne, me comovo. Prometo que não, mas penso que sim. Será sempre, eternamente, assim. Mas sei que na verdade tudo se baseia na minha anuência. Eu consenti com tudo isso, foram realmente minhas escolhas. Tenho de responsabilizar-me por elas. Mesmo que me causem asco e não me reflitam. Por que assenti em seguir ao convencional e renegar minha autenticidade, sofro assim.  Mesmo sabendo que « Il y a à parier que toute idée publique, toute convention reçue, est une sottise, car elle a covenue au plus grand nombre »* Queria ver-me livre desta coisa que me pesa no peito. Mas esta dor que me parece insuportável, é-me por vezes a única forma de suportar a vida. Embora eu caminhe por estes vales de sombras, foi neles que aprendi a andar. Não consigo, não posso, não sei percorrer planícies ensolaradas, onde não haja espinhos que me firam a cada passo. Necessito desta dor que me é algo essencial agora. Minha prisão cuja cela na verdade está aberta, como o pássaro que, de tanto viver confinado, desaprendeu a voar. É a mim a quem culpo de proporcionar a mim mesma uma vida desprezível. Sou eu a quem acuso de ser meu algoz, é de mim que não recebo piedade, sou eu que me torturo. Vou para o quarto para fugir dos apelos de meus familiares, das súplicas, de que lhes valho? Não compreendo realmente qual a importância de estar com eles, se não me percebem, se não me permitem que seja eu mesma, mas uma outra pessoa, que desconheço. Não conheço a mim, pois não sou quem deveria ser. Ou poderia ter sido caso fosse o que fosse e não o que me permite os estribos que me foram impostos. E quem puxa as rédeas? Quem me conduz nesta estrada onde não há placas que indiquem os caminhos? Na verdade todos nós somos mentirosos, mentimos a nós mesmos e ao mundo. Mas por mais que me minta, sei que não posso esconder a verdade de mim. Ela está na espreita, na próxima curva ela se me revela. “Todos os vossos segredos”. Diz-me a verdade que não se me esconde. E estão todos lá, reconheço-os. Colho-os como à flor solitária e comprimo-os como um botão entre os dedos, qual a cor? Branca ou vermelha? Esmago o botão  para matar a verdade, para aceitar a mentira em que vivo e que me é a realidade, e afogo o sonho num assassinato que na verdade é suicídio. “Você tangeu cordas invisíveis” Diria Virgínia Woolf. Deixo o botão cair-me das mãos. “Para onde estou indo?” Virgínia me socorre “Descendo por túneis ventosos, onde sopra o vento cego e nada cresce para podermos ver. Nenhuma rosa”. “Para chegar aonde?” Pergunto ainda. Mais uma vez ela me responde “Algum campo infértil e brumoso, onde a noite não baixa seu manto, nem se ergue o sol. Onde tudo é igual. As rosas não desabrocham. Não existe mudança, não existe vário e belo; nem encontros nem separações; nem buscas secretas quando as mãos se procuram e os olhos querem se refugiar em outros olhos.” “Achava que Hades não me queria por lá…” Retruco. Mas não sigo ainda para o reino inferior, vou com Morfeu, que no sonho me conduz, pela terra prometida, onde não há a mentira que me imponho nem a verdade que escondo, nem o medo de descobrir o que na verdade já sei e não aceito. E as memórias me pesam, é a carga que o passado impõe sobre mim, a cada passo cresce o volume do que carrego. Foi tudo que me depositaram no berço ainda, e busco sempre nas ondas do mar um meio de me ver livre desse peso, que não sou divindade para carregar nas costas todo esse mundo. Na verdade as divindades me repudiam, ou talvez seja eu mesma que me rejeite.  Mas não penso nisso agora. No sonho vou com as ondas, livre, livre…

 

*Há motivos para crer que todas as idéias públicas e todas as convenções aceitas são grandes bobagens, pois convém a maioria.

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