Arquivo do mês: julho 2010

No parque

Giordana Medeiros

Crianças se balançam, no movimento pêndulo, soltam gritinhos de prazer. Um menino, aparentando somar três anos, corre trôpego atrás de uma pomba, que pouco se importa com seu perseguidor. Ela limita-se a bater asas, dar um vôo rasante e afastar-se de seu algoz, que, por outro lado, não desiste de seu intento. Uma garotinha persegue uma bola que quica, em cores e alegria. A menininha, no entanto, tropeça numa pedra e rala os joelhos. Chora, numa careta sofrida, lágrimas que lhe deslizam pelo rostinho claro. A mãe socorre a acidentada com beijinhos e carinhos, tentando compensar a dor sofrida.  Velhos jogam dominó alegremente próximo a pista de Cooper onde corredores e bicicletas dividem o espaço, num tráfego que faria lembrar a EPGU na hora do rush. Uma velha solitária alimenta os pombos, enquanto suspirava, com um ar de solidão absoluta, sonhando provavelmente com outra época onde não havia adolescentes em seus skates passando com fones no ouvido de onde estrondavam músicas barulhentas no último volume. Sob uma árvore um casal apaixonado troca carícias, romanceiam o domingo, sem temor da segunda-feira que se aproxima e o fim do prazer ocioso do fim de semana. A grama verde reluz sob o sol acolhedor da primavera.  Cães seguem discos, que voam rapidamente, sem direção definida, levando consigo os bichos numa corrida desesperada. E eu aqui, neste ambiente, esperando que a vida também ocorresse para mim. Porque fora desse corpo vazio, tudo pulsa, a vida pulsa, como um coração que bate percussão. É como uma canção da qual só se decora o refrão. Mas ainda assim é possível assoviá-la. Vontade de ser mais do que se é, como se num mundo tão vasto, não houvesse ninguém. Uma terra inóspita, planeta deserto, num universo também vazio, mas cheio, coberto de estrelas. A beleza que não se alcança, contudo se pode apreciar. A luz é tão bela e sua velocidade é medida de movimento. Quão velozes podem ser meus pensamentos? Quando se escondem de mim minhas lembranças. São levadas pelo vento, leves como bailarinas. Rodopiam frente aos meus olhos, depois se vão, sem deixar vestígios. Pode-se tentar resgatá-las como o menino que fica esperando a volta do passarinho que fugiu da gaiola. No quintal, senta-se paciente, crente no retorno de seu bichinho. O triste é que ele não volta.  O menino, somente à noitinha, vai para casa, decepcionado, com a gaiola vazia nas mãos. E nessa gaiola já couberam tantos sonhos…  Cantavam em mim, sons de um futuro distante, que restou na mera expectativa. Por isso é bom olhá-los, como são raros! Cata-ventos coloridos de cartolina marcaram minha infância. Correr com eles na mão para ver-los girar com a força do vento. Vejo crianças repetirem o que já fiz. Sorrisos que se apagaram em mim. Onde foi o colorido? Tudo pesa cinza sobre mim. Nuvens escuras ameaçadoras. Posso desenhar o sol com giz. Para pedir a alguma força divina que não permita que chova. Mas naqueles tempos chovia tanto. Sobre mim, tempestades, raios e trovões.  

“O céu está escuro
Mas não é para chover.
Meu amor está doente
Mas não é para morrer.
Foi uma rosa
Ainda em botão.
Foi um moreno
Que roubou meu coração.
Meu coração não posso dar
Por que não posso arrancar;
Se não morrerei,
Morrerei, não posso amar.”

Cantam menininhas faceiras brincado de roda. Meu coração é uma coisa estranha e triste. Não cabe nele tudo que sente, tem de derramar-se de algum modo. Algumas vezes canta solidão, outras imensidão. Sempre no aumentativo, ão, por que é grande demais. Infinito interior. Quando caminhava absorta em minhas fantasias, equilibrava-me no meio fio. Braços abertos. Coração fechado. “Qual o segredo de seu diário?” Não posso dizer onde guardo meus pensamentos mais preciosos. “De quem você gosta mais?” Sorrisinhos maliciosos. E se não houver mais ninguém? Se tudo ficou tão monótono e triste, que não há mais razões para se escrever diários, porque não há acontecimentos marcantes o suficiente para cobrirem o papel. “Letra cursiva caprichada, não quero rasuras. Por favor, asseio!” Foi quando comecei a criar histórias, foi como abrir as comportas de uma represa, cachoeiras de sonhos, que se materializaram na forma física da palavra escrita, aprisionei minhas fantasias. Somente os olhos podem libertá-las. Deve-se ler o que está fixado no papel. “Esse é o segredo, deve-se fazer assim, olhe.” Quero de volta os sonhos que fugiram de mim. Será que o passáro quando libertado, volta ao cárcere anterior? “Posso lhe contar um segredo?” Cochichava algumas frases em meu ouvido. Somente permanecia oculto aos demais por algumas horas. Difícil esconder algo, quando a verdade está doida para escapar. Então abre-se ao mundo o que deveria permanecer confidencial . “Não sou mais sua amiga”. Minutos depois voltávamos a brincar.  Se as desavenças no mundo adulto, resolvessem-se assim… Não haveriam guerras, nem conflitos eternos, rusgas entre países irmãos. “É só dar as mãos.” Caras emburradas que se desfaziam em sorrisos. “Viu como é fácil? Agora vão brincar!” E a canção? Ainda está flutuando dentro de mim. Começa assim:

“When you were here before
Couldn’t look you in the eye
You’re just like an angel
Your skin makes me cry
You float like a feather
In a beautiful world
I wish I was special
So very special”

E vou cantarolando saudades pelo parque. Há uma música para cada momento. Um cachorro fareja-me os pés. A sua dona, uma mocinha de doze anos, diz:

– Vamos Orfeu, deixe a moça.

 Então naquele momento eu era Eurídice, resgatada do Mundo dos Mortos pelo filho de Apolo. Mas se ele era cão deveria se chamar Cérbero que adormeceu ao som da lira do herói. “Mas lhe é proibido olhar para ela, o mínimo descuido pode fazer o amor se perder para sempre.”

-Orfeu, que belo nome. Afago a cabeça do cão, que lambe minha mão, amistoso. Então, pego meu livro, coloco o marcador na página em que parei a leitura e me despeço do parque que já é tarde. Amanhã é segunda-feira e está distante o fim de semana onde me era lícito sonhar novamente.

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Alma, oceano e solidão

Giordana Medeiros

As ondas vêm, resvalam em meus pés, novamente tornam para seu leito mar. Sou tão pouco comparada ao mar, ao oceano gigantesco que me é exterior. Quero provar do mar para sentir este infinito em mim. Provo o salgado gosto do universo. Mar que muitos perigos guarda em si, leve-me consigo, deixe-me ser mar também. Penetre em meus pulmões e insira-se em mim, infinito. Não quero mais ser carne, sentimentos e dor. Quero ter a força dos oceanos, ondas gigantescas que afundam navios. Quero ser força da natureza. Poseidon me conceda o domínio dos mares, dá-me seu tridente e o poder sobre os oceanos. Lanço-me nas águas e penetro na imensidão outrora inacessível.  Quanto mais distante da costa, quanto mais fatigados os braços de nadar, mais confio que me será possível ser parte desse azul. “Corpo desfaça-se de minha alma, liberte do invólucro indesejável meu espírito e deixe-o provar o sabor de ser infinito”. Grito quase sem fôlego, mas o mar não quer me tragar, rejeitou meu corpo e devolveu-me novamente à praia. Minúscula, agonizante, com os pulmões queimando por ter absorvido a água salobra, sinto a areia sob meu corpo arranhando-me a pele. O sol aquecendo o corpo hirto de frio. Fui rejeitada pelo mar, fui acolhida pela terra. Levanto cambaleante. Passos trôpegos, incertos, indecisos… Aonde ir? Não tenho morada neste solo. Fui repudiada pelo mar. Será que Zéfiro pode permitir que acaso nos céus possa habitar? Não quero ser humana, quero ser estrela, quero ser cometa, quero ser universo, que guardo em mim algo tão grande que não encontra lugar neste corpo diminuto e frágil. Corpo que não tem forças para lutar e desiste do mar, dos céus e resigna-se a terra. Arrasta-se sem direção, nau à deriva, não há portos em que possa atracar. As roupas encharcadas colam-me ao corpo. Respiro com dificuldade. Não há caminhos para lugar algum, nem lugar algum que tenha caminhos livres. Todas as rotas são vigiadas, estou presa, mesmo que, aparentemente possa fazer tudo, na realidade nada posso ou ouso fazer. Tenho as mãos e os pés atados. Confinada, a mim mesma. Prisão perpétua do espírito. A única saída do cárcere é a morte. Mas morrer é muito mais difícil do que aparenta. Quando mesmo Hades fecha os portões do reino inferior, onde pode estar um ser tão sozinho, que ao menor lampejo de esperança, atemoriza-se e retrai-se? A Morfeu, prometi o espírito, mas, nem mesmo ao senhor do Sono, foi minha  alma de grande valia. Também este expulsou-me de seus domínios. Por todas as divindades rejeitada, por todos os homens desprezada, sou um ser que não encontra abrigo. Nômade, só vê estradas, não há rumo, nem destino. Chronos piorou-me a pena, concedeu-me vida longa, e o sofrimento, que se estende por uma vida, parece-me eterno. Por que é tão difícil? Por que tudo é tão infinitamente difícil? Por que todas as portas estão trancadas? Por que não há maneira de quebrar estes grilhões que me acorrentam? Que há comigo, que espécie de ser ignóbil e mesquinho sou? Por que não há quem se apiede de mim? Por que não há quem me responda estas questões, que me parecem irresolúveis? Mítica história, que na verdade é floreada de elementos de sonhos, não sou eu realmente. Sou muito mais irrisória, sou muito mais repugnante. Se muitos sentimentos se confundem em mim, reconheço o maior deles: o medo. O pavor, que me consome, a principal corrente que me pesa. Há chaves para os cadeados que me encarceram quando nasci um ser totalmente desprovido de coragem? Assim calo-me e aceito, o que me dizem que é certo, os caminhos que devo seguir, mesmo que não sejam meus caminhos, pois o que queria mesmo era abrir estradas por onde jamais ousaram andar os homens, erigir pontes para cruzar os rios de dúvidas em mim. Mas não me é dada a oportunidade de dizer o que sinto, o que penso não tem nenhuma importância.  Ergo-me, retomo as forças e aos berros maldigo céus e infernos. “Nemo me impune lacessit” respondo ao mar. “Ninguém me fere impunemente”, repito baixinho. E retorno para minha vida medíocre.

Abro os portões, estão todos preocupados comigo, não digo o que ocorreu. Mas eles adivinham. Sempre adivinham.  Minha mãe põe-se a chorar. Agora, sou carne, me comovo. Prometo que não, mas penso que sim. Será sempre, eternamente, assim. Mas sei que na verdade tudo se baseia na minha anuência. Eu consenti com tudo isso, foram realmente minhas escolhas. Tenho de responsabilizar-me por elas. Mesmo que me causem asco e não me reflitam. Por que assenti em seguir ao convencional e renegar minha autenticidade, sofro assim.  Mesmo sabendo que « Il y a à parier que toute idée publique, toute convention reçue, est une sottise, car elle a covenue au plus grand nombre »* Queria ver-me livre desta coisa que me pesa no peito. Mas esta dor que me parece insuportável, é-me por vezes a única forma de suportar a vida. Embora eu caminhe por estes vales de sombras, foi neles que aprendi a andar. Não consigo, não posso, não sei percorrer planícies ensolaradas, onde não haja espinhos que me firam a cada passo. Necessito desta dor que me é algo essencial agora. Minha prisão cuja cela na verdade está aberta, como o pássaro que, de tanto viver confinado, desaprendeu a voar. É a mim a quem culpo de proporcionar a mim mesma uma vida desprezível. Sou eu a quem acuso de ser meu algoz, é de mim que não recebo piedade, sou eu que me torturo. Vou para o quarto para fugir dos apelos de meus familiares, das súplicas, de que lhes valho? Não compreendo realmente qual a importância de estar com eles, se não me percebem, se não me permitem que seja eu mesma, mas uma outra pessoa, que desconheço. Não conheço a mim, pois não sou quem deveria ser. Ou poderia ter sido caso fosse o que fosse e não o que me permite os estribos que me foram impostos. E quem puxa as rédeas? Quem me conduz nesta estrada onde não há placas que indiquem os caminhos? Na verdade todos nós somos mentirosos, mentimos a nós mesmos e ao mundo. Mas por mais que me minta, sei que não posso esconder a verdade de mim. Ela está na espreita, na próxima curva ela se me revela. “Todos os vossos segredos”. Diz-me a verdade que não se me esconde. E estão todos lá, reconheço-os. Colho-os como à flor solitária e comprimo-os como um botão entre os dedos, qual a cor? Branca ou vermelha? Esmago o botão  para matar a verdade, para aceitar a mentira em que vivo e que me é a realidade, e afogo o sonho num assassinato que na verdade é suicídio. “Você tangeu cordas invisíveis” Diria Virgínia Woolf. Deixo o botão cair-me das mãos. “Para onde estou indo?” Virgínia me socorre “Descendo por túneis ventosos, onde sopra o vento cego e nada cresce para podermos ver. Nenhuma rosa”. “Para chegar aonde?” Pergunto ainda. Mais uma vez ela me responde “Algum campo infértil e brumoso, onde a noite não baixa seu manto, nem se ergue o sol. Onde tudo é igual. As rosas não desabrocham. Não existe mudança, não existe vário e belo; nem encontros nem separações; nem buscas secretas quando as mãos se procuram e os olhos querem se refugiar em outros olhos.” “Achava que Hades não me queria por lá…” Retruco. Mas não sigo ainda para o reino inferior, vou com Morfeu, que no sonho me conduz, pela terra prometida, onde não há a mentira que me imponho nem a verdade que escondo, nem o medo de descobrir o que na verdade já sei e não aceito. E as memórias me pesam, é a carga que o passado impõe sobre mim, a cada passo cresce o volume do que carrego. Foi tudo que me depositaram no berço ainda, e busco sempre nas ondas do mar um meio de me ver livre desse peso, que não sou divindade para carregar nas costas todo esse mundo. Na verdade as divindades me repudiam, ou talvez seja eu mesma que me rejeite.  Mas não penso nisso agora. No sonho vou com as ondas, livre, livre…

 

*Há motivos para crer que todas as idéias públicas e todas as convenções aceitas são grandes bobagens, pois convém a maioria.

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