A dama da noite

Giordana Medeiros

A mão que segura a pena é indecisa, desenha as palavras de forma desconexa, titubeia, com muito esforço cria-se a primeira frase. É uma carta? Um diário? Um confessionário? O que pretende esta mão alva, com unhas roídas, que se dedica a esta tarefa de criar, de escrever sob a tênue luz da vela, cuja chama dança ao sabor do vento?  Às vezes é sombra, poucas vezes é luz, “onde está você inspiração?” pergunta-se a detentora da mão. Os punhos da camisa sujos de tinta, a noite é o silêncio da vida, mas neste silêncio surgem os sonhos e neles há a canção, não há como se esquecer da sinfonia composta pelas nuances da imaginação, onde o espírito livre se entrega a mais bela das músicas. A pena mergulha na tinta, depois novamente é erguida, respinga na mesa, com um pano, a escritora apaga a confissão de sua vigília. Se soubessem que estava durante a madrugada, escrevendo, sonhando em palavras… Sobre o papel, a confissão de uma vida, a realidade que não é musicada. O desafinado ruído que viver se torna, quando falta o essencial, mas o essencial para sobreviver é supérfluo, contudo para aproveitar a essência da vida não é o bastante. Não é. Não basta o silêncio, não basta a dor, não basta a solidão, não basta, não basta!  O frio que se sente por dentro é mais voraz que o que sibila a brisa frígida do inverno. Se fosse possível, apenas com palavras, dar um novo curso à vida… Ao que se desenrola no presente, às premonições de um futuro, que cada vez mais rápido se torna presente também. Pudera parar o tempo. E estender a noite, noite eterna que cai sobre si. Sobre o coração, trevas eternas, ausência de tudo, muito além da luz. Há algo além da luz. Não pode denominar o que, talvez por jamais ter conhecido. Só sente a falta, daquilo que desconhecia, uma peça, um peão que se perdeu no tabuleiro de xadrez. Talvez fosse a rainha, que caminha rapidamente, voraz assassina. Cheque-mate. Ela mesma se perdeu, e caiu na armadilha de seu oponente: o tempo que reduz a todos a derrotados. A mão que segura a pena dança sobre a folha, escreve veloz. Mas ainda não é possível identificar o que escreve. O que pretende esta dama da noite? A moça que não se importa que, no século XVIII, não dêem valor ao que pensa uma mulher, “poemas de uma jovem moça são piegas”, dizem, talvez seja verdade. Mesmo assim, não desiste, a mão, que corre sobre as palavras, risca o que não lhe agrada, pontua, acentua e reescreve. Não desiste. Persiste. Já a dama, há muito não mais acredita em sua sorte. Será assim, eternamente sozinha, com sua literatura, com a beleza de seus sonhos com os quais ninguém se importa. Todos querem a beleza que é visível, aquela que é palpável. Não o que está somente na nuance do sonho. Ninguém se importa com aquela desajeitada ao bailar, que não é, e nunca foi, a rainha da desenvoltura. Não sabia se portar em público, sentia-se com dois pés esquerdos. Era desajeitada e desastrada. Só tinha na realidade uma imaginação tão fértil que quaisquer culturas poderiam se plantar neste solo. Livros, devorava-os. Vivia, na realidade, mais nos livros do que em si mesma. Era mais doce viver onde não está o coração. São tantas dores que se podem carregar em um único peito. Amarguras que pesam em desilusão. Doem-lhe os dedos, que carregam calos; o peso da escrita, que não é apenas física. O espírito também sofre. É talvez o que mais pena com as palavras ferinas, que são afiadas e duras. Crucificam o escritor. Eis aqui o rei da dor. No caso, a rainha. “Queen of pain”. Cantar-se-á muito, mas muito tempo depois, quando houver computadores e luzes elétricas. E música que não surgirão de cravos, mas de guitarras. Coisas que a dama da noite nem imagina, mas talvez apenas pressinta.  Sabe que o mundo não se limita a si. E que não há quem se interesse pelo que escreve. Conhece o tamanho de sua solidão, mas ignora a saída de seus dilemas. Enxuga com as costas da mão a lágrima que lhe desliza sobre a face. Dor que não se limita a si. Tem de transbordar de alguma forma. A lágrima é a mais usual. Mas com a pena transforma sua solidão em histórias. É isto a que tenta dar vida, Doutora Frankenstein? Tenta unir pedaços de sonhos, e conceder vida a um monstro? O monstro de sua dor? Espero que consiga, com um sopro, faça-o respirar. Estará vivo e o que era apenas interno lhe excederá.

Com as mãos trêmulas, vê agora tomar corpo sua emoção? Madrugada curta, o dia vai raiando, a vela, agora já diminuta desfez-se em horas, tempo que escorreu com a cera derretida da vela. Ainda falta tanto a criar, agora o texto se desenvolve por si só. Não tem mais as rédeas da carruagem, a dama da noite, cujos olhos ardem com a luminosidade do dia. Outro dia, outros sonhos, que ocupam maços e maços de papel. Mesmo que ninguém leia, mesmo que não haja público para sua peça, e que não se encene a tragédia de sua existência é fundamental escrever. Dar corpo a uma história que deixa de ser interna para exceder o minúsculo invólucro, que não suporta o volume da dor que carrega. Coloque as páginas perto do fogo da lareira, para que o calor possa secar a tinta. Para que somente suas lágrimas possam borrar a história que não é mais somente sua. Então escreve, dê vida a sua criatura, a este ser disforme e louco, que não anda, mas percorre quilômetros, nômade, não cria raízes. É andarilho, e dentro de três centenas de anos se deslocará na velocidade de um clique. Por enquanto, é físico, quando deixa de ser sonho para ser papel. Muitos anos depois, eles estarão libertos do seu calabouço de celulose, estarão livres no universo de sonhos eletrônicos, onde a todos será lícito conhecer-los. Sonhos são sementes de espírito. Ela é apenas uma minúscula partícula do universo que criou. E como universo que é, se tornou infinito, expandindo-se eternamente. Dama que se entrega nessa viagem insólita. Não compreende o tamanho do que criou. Talvez desconheça a importância do que realizou. Mas não há quem se importe. Ninguém se dá conta da realidade paralela de sonho que foi erigida sob as frágeis bases de sentimentos. Seu vestido é roto, sua casa simples, nem luvas possui. Esquenta as mãos no fogo, que atiça para ver as faíscas saltarem. Em breve sua família despertará. É necessário preparar-lhes o café, arrumar a casa, vestir e limpar seus irmãos menores. E as atividades domésticas ocupam-lhe todo tempo, só lhe restam as madrugadas para fazer o que realmente lhe agrada, que é ler e escrever.  Sua evasão do mundo de obrigações que lhe soterram. Coser, lavar, as mulheres têm de se mostrarem prendadas, como então conseguir um marido quando não se possui um dote? Sua mãe muito se esforçara para lhe conceder um enxoval. Sabia que provavelmente ele se perderia no baú em que se encontrava. Não se considerava bela o suficiente para conquistar a atenção de um pretendente. Nem ao menos era convidada para festas e jamais fora cortejada. Só lhe restavam os livros, era tudo que lhe prendia à vida, mesmo sendo uma evasão dela. Desde muito menina foi educada pelo pai, que não queria meninas “caisadoras”, mas mulheres firmes, inteligentes, que pudessem ser mais do que donas de casa, que pudessem crescer sem a base de um marido. Mesmo que não o fosse comum para aquela época. “Mulheres independentes, que coisa absurda!” Diriam os vizinhos. Mas todas as irmãs foram educadas. Se fosse possível iriam até para a faculdade, mas naquela época não era possível às damas freqüentar ambientes predominantemente masculinos. A dama da noite, que agora era a mulher da casa, a que guiava os afazeres, que criava os irmãos tendo em vista a doença da mãe. Tísica, provavelmente morreria, tossia sangue recorrentemente. Não poderia mais guiar a família. E com o pai morto, restou a ela, a escritora da madrugada, a função de progenitora da família. Lavava e passava roupas para os vizinhos, com o pouco que ganhava comprava o necessário para se alimentarem. Pobre menina, cujos sonhos se materializavam em páginas de uma realidade que se repete, com outros personagens, em outros tempos, mas que se manterá atual por séculos. Mesmo quando não houver mais a necessidade de se sujar os punhos de tinta para escrever uma bela história.

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Uma opinião sobre “

  1. MARTA LUZ

    LIndo, tem sua musicalidade propia. Es intimista y denota una gran sensibilidad en su creadora. La palabra fluye, la pluma da cuenta de ello, escritura silenciosa que todo lo abarca, permitiéndo un diálogo entre escritor y lector. Pura fineza, pura belleza. Obrigada por permitir que la tinta fluya y nos acerque a la escritora.

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