Arquivo do mês: junho 2010

A dama da noite

Giordana Medeiros

A mão que segura a pena é indecisa, desenha as palavras de forma desconexa, titubeia, com muito esforço cria-se a primeira frase. É uma carta? Um diário? Um confessionário? O que pretende esta mão alva, com unhas roídas, que se dedica a esta tarefa de criar, de escrever sob a tênue luz da vela, cuja chama dança ao sabor do vento?  Às vezes é sombra, poucas vezes é luz, “onde está você inspiração?” pergunta-se a detentora da mão. Os punhos da camisa sujos de tinta, a noite é o silêncio da vida, mas neste silêncio surgem os sonhos e neles há a canção, não há como se esquecer da sinfonia composta pelas nuances da imaginação, onde o espírito livre se entrega a mais bela das músicas. A pena mergulha na tinta, depois novamente é erguida, respinga na mesa, com um pano, a escritora apaga a confissão de sua vigília. Se soubessem que estava durante a madrugada, escrevendo, sonhando em palavras… Sobre o papel, a confissão de uma vida, a realidade que não é musicada. O desafinado ruído que viver se torna, quando falta o essencial, mas o essencial para sobreviver é supérfluo, contudo para aproveitar a essência da vida não é o bastante. Não é. Não basta o silêncio, não basta a dor, não basta a solidão, não basta, não basta!  O frio que se sente por dentro é mais voraz que o que sibila a brisa frígida do inverno. Se fosse possível, apenas com palavras, dar um novo curso à vida… Ao que se desenrola no presente, às premonições de um futuro, que cada vez mais rápido se torna presente também. Pudera parar o tempo. E estender a noite, noite eterna que cai sobre si. Sobre o coração, trevas eternas, ausência de tudo, muito além da luz. Há algo além da luz. Não pode denominar o que, talvez por jamais ter conhecido. Só sente a falta, daquilo que desconhecia, uma peça, um peão que se perdeu no tabuleiro de xadrez. Talvez fosse a rainha, que caminha rapidamente, voraz assassina. Cheque-mate. Ela mesma se perdeu, e caiu na armadilha de seu oponente: o tempo que reduz a todos a derrotados. A mão que segura a pena dança sobre a folha, escreve veloz. Mas ainda não é possível identificar o que escreve. O que pretende esta dama da noite? A moça que não se importa que, no século XVIII, não dêem valor ao que pensa uma mulher, “poemas de uma jovem moça são piegas”, dizem, talvez seja verdade. Mesmo assim, não desiste, a mão, que corre sobre as palavras, risca o que não lhe agrada, pontua, acentua e reescreve. Não desiste. Persiste. Já a dama, há muito não mais acredita em sua sorte. Será assim, eternamente sozinha, com sua literatura, com a beleza de seus sonhos com os quais ninguém se importa. Todos querem a beleza que é visível, aquela que é palpável. Não o que está somente na nuance do sonho. Ninguém se importa com aquela desajeitada ao bailar, que não é, e nunca foi, a rainha da desenvoltura. Não sabia se portar em público, sentia-se com dois pés esquerdos. Era desajeitada e desastrada. Só tinha na realidade uma imaginação tão fértil que quaisquer culturas poderiam se plantar neste solo. Livros, devorava-os. Vivia, na realidade, mais nos livros do que em si mesma. Era mais doce viver onde não está o coração. São tantas dores que se podem carregar em um único peito. Amarguras que pesam em desilusão. Doem-lhe os dedos, que carregam calos; o peso da escrita, que não é apenas física. O espírito também sofre. É talvez o que mais pena com as palavras ferinas, que são afiadas e duras. Crucificam o escritor. Eis aqui o rei da dor. No caso, a rainha. “Queen of pain”. Cantar-se-á muito, mas muito tempo depois, quando houver computadores e luzes elétricas. E música que não surgirão de cravos, mas de guitarras. Coisas que a dama da noite nem imagina, mas talvez apenas pressinta.  Sabe que o mundo não se limita a si. E que não há quem se interesse pelo que escreve. Conhece o tamanho de sua solidão, mas ignora a saída de seus dilemas. Enxuga com as costas da mão a lágrima que lhe desliza sobre a face. Dor que não se limita a si. Tem de transbordar de alguma forma. A lágrima é a mais usual. Mas com a pena transforma sua solidão em histórias. É isto a que tenta dar vida, Doutora Frankenstein? Tenta unir pedaços de sonhos, e conceder vida a um monstro? O monstro de sua dor? Espero que consiga, com um sopro, faça-o respirar. Estará vivo e o que era apenas interno lhe excederá.

Com as mãos trêmulas, vê agora tomar corpo sua emoção? Madrugada curta, o dia vai raiando, a vela, agora já diminuta desfez-se em horas, tempo que escorreu com a cera derretida da vela. Ainda falta tanto a criar, agora o texto se desenvolve por si só. Não tem mais as rédeas da carruagem, a dama da noite, cujos olhos ardem com a luminosidade do dia. Outro dia, outros sonhos, que ocupam maços e maços de papel. Mesmo que ninguém leia, mesmo que não haja público para sua peça, e que não se encene a tragédia de sua existência é fundamental escrever. Dar corpo a uma história que deixa de ser interna para exceder o minúsculo invólucro, que não suporta o volume da dor que carrega. Coloque as páginas perto do fogo da lareira, para que o calor possa secar a tinta. Para que somente suas lágrimas possam borrar a história que não é mais somente sua. Então escreve, dê vida a sua criatura, a este ser disforme e louco, que não anda, mas percorre quilômetros, nômade, não cria raízes. É andarilho, e dentro de três centenas de anos se deslocará na velocidade de um clique. Por enquanto, é físico, quando deixa de ser sonho para ser papel. Muitos anos depois, eles estarão libertos do seu calabouço de celulose, estarão livres no universo de sonhos eletrônicos, onde a todos será lícito conhecer-los. Sonhos são sementes de espírito. Ela é apenas uma minúscula partícula do universo que criou. E como universo que é, se tornou infinito, expandindo-se eternamente. Dama que se entrega nessa viagem insólita. Não compreende o tamanho do que criou. Talvez desconheça a importância do que realizou. Mas não há quem se importe. Ninguém se dá conta da realidade paralela de sonho que foi erigida sob as frágeis bases de sentimentos. Seu vestido é roto, sua casa simples, nem luvas possui. Esquenta as mãos no fogo, que atiça para ver as faíscas saltarem. Em breve sua família despertará. É necessário preparar-lhes o café, arrumar a casa, vestir e limpar seus irmãos menores. E as atividades domésticas ocupam-lhe todo tempo, só lhe restam as madrugadas para fazer o que realmente lhe agrada, que é ler e escrever.  Sua evasão do mundo de obrigações que lhe soterram. Coser, lavar, as mulheres têm de se mostrarem prendadas, como então conseguir um marido quando não se possui um dote? Sua mãe muito se esforçara para lhe conceder um enxoval. Sabia que provavelmente ele se perderia no baú em que se encontrava. Não se considerava bela o suficiente para conquistar a atenção de um pretendente. Nem ao menos era convidada para festas e jamais fora cortejada. Só lhe restavam os livros, era tudo que lhe prendia à vida, mesmo sendo uma evasão dela. Desde muito menina foi educada pelo pai, que não queria meninas “caisadoras”, mas mulheres firmes, inteligentes, que pudessem ser mais do que donas de casa, que pudessem crescer sem a base de um marido. Mesmo que não o fosse comum para aquela época. “Mulheres independentes, que coisa absurda!” Diriam os vizinhos. Mas todas as irmãs foram educadas. Se fosse possível iriam até para a faculdade, mas naquela época não era possível às damas freqüentar ambientes predominantemente masculinos. A dama da noite, que agora era a mulher da casa, a que guiava os afazeres, que criava os irmãos tendo em vista a doença da mãe. Tísica, provavelmente morreria, tossia sangue recorrentemente. Não poderia mais guiar a família. E com o pai morto, restou a ela, a escritora da madrugada, a função de progenitora da família. Lavava e passava roupas para os vizinhos, com o pouco que ganhava comprava o necessário para se alimentarem. Pobre menina, cujos sonhos se materializavam em páginas de uma realidade que se repete, com outros personagens, em outros tempos, mas que se manterá atual por séculos. Mesmo quando não houver mais a necessidade de se sujar os punhos de tinta para escrever uma bela história.

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Música, sentimentos e palavras

Giordana Medeiros

Toda canção começa com um primeiro acorde. Depois a música flui rapidamente, como um rio de emoções correndo eternamente, uma vazante de emoções. E cantar é preciso. Como o é navegar em canções, músicas que preenchem o vazio em mim. Sinto-me uma partitura, onde notas são desenhadas, construindo minha história. Há a letra também, e vou escrevendo versos, que não rimam, pois nem sempre na vida as palavras combinam. Não é verdade? Há instrumentos que conversam comigo, escuto o que me diz o violino, o cello conta-me tristes histórias. A flauta, com sua voz de pífano, diverte-me. É assim, com todos estes sons, que a solidão converte-se em som, muito som. Saudade é uma canção eterna. Bate como percussão, vai assim meu coração: “tum-tum; tum-tum”. Meus olhos se perdem em terras desoladas. Mas em tudo encontro melodia. Meu coração musical, solitário e triste, não mais se desespera, assim se mantém alheio a dor que anteriormente era tão presente em si.  Chovem em mim, milhares de canções. Nessa manhã fria escutava a terra girar, enquanto pássaros benziam o dia que amanhecia. Cada nota, que reverbera, exime os homens de um pecado. A música é, portanto, a remissão dos pecados. Pandora trouxe os males para a Terra, mas conservou para a humanidade a esperança. Esperança é, para a saudade, a certeza do reencontro. Mesmo que jamais torne a acontecer, e que a vida seja apenas a espera infinita, de algo inalcançável, o desejo do milagre que não existe, uma fé pura e tola no impossível. Há muita sonoridade no silêncio, pois a total ausência de som é música também. Pode-se apreciar o silêncio, a melhor resposta às questões de difíceis soluções. Não há como ser sincero quando as palavras ferem e destoam. Palavras ríspidas que desafinam a sinfonia. Quero a beleza da arte, a canção rimada, a sutileza das notas mais graves a impulsividade das mais agudas.  Mas, me preserve e não me imponha a rusticidade da dança, a sexualidade explodindo dos corpos. Não quero ter em mente que os homens têm corpos. A carne que apodrece e é devorada pelos vermes. Sou etérea, como música, não sou este corpo, este sangue que corre em minhas veias não existe. Sou apenas a brisa da manhã e sua musicalidade. Eólo me sopra para longe, cruzo oceanos, impulsiono os barcos, e espalho ao mundo minha canção. Assim me vejo, assim realmente sou. Não me revele a verdade, frio espelho, que teima em me dizer que não há mais tempo, que a música em mim silencia, e que me resta somente o corpo. Corpo que me ojeriza. Não há música nesses olhos fundos, nessas linhas que me marcam a face, nesses cabelos que rareiam e alvejam.   Quero a docilidade da juventude que ainda sobrevive em meu espírito, quando a arritmia de meu coração era na verdade o único empecilho à música em mim. Agora há outros obstáculos às canções, problemas que vêm sorrateiros e querem desafinar instrumentos, abafar o som que flui de mim para o infinito. É como escutar estrelas, esperar que cantem, que a luz transforme-se em canção, que o silêncio do vazio seja convertido em ondas sonoras, árias sofridas, que se lançam no universo. Será que alguém pode escutar? Há alguém a milhares de anos luz, um ser sozinho e triste de um planeta sem música, a quem posso premiar com canções de saudades, que ninguém mais escuta, por que o que importa hoje é o ritmo, a dança, não a beleza, a harmonia. Festas dionísicas que se estendem por dias, corpos suados, se misturam sem saber o que ouvem realmente. Querem apenas liberar seus corpos em movimentos, dançar, pois, para eles, a canção não é o mais importante, mas a bebida, a sensação de perda dos limites. Mal sabem que a música também quebra barreiras, que também inebria e liberta das mais abjetas prisões a que o corpo físico condena os homens.

Por que não pode ser assim, só música, não este pavor de ser finito, de ser tão pouco, de não ser etéreo, mas físico? Quero ter de volta momentos que não voltam mais, que passaram sem deixar vestígios, aqueles momentos áureos, em que todas as respostas eram simples, em que a canção poderia responder a todas as perguntas que restam martelando, como naqueles dias onde falta luz mesmo que o sol brilhe e o céu azul não revele nuvens, que seriam como faltas que poderiam macular o dia. Mas vamos continuar a canção, há momentos memoráveis, como aqueles que se está a ouvir a música que lhe é interior e nada, mas nada mesmo, pode roubar-los, momentos como estes são como botões da árvore da vida, flores na escuridão, como se naquele instante tão efêmero, uma rosa acabasse de florescer somente para seus olhos. Se pudesse tocar este instante, com minhas mãos trêmulas, sentiria algo delicado, um botão que de tão frágil é vedado tocar que poderia implicar um não florescimento. Mas há mãos rudes que tentam forçar o botão a abrir, e rasgam-lhe as pétalas, destrói-se assim a futura rosa.  Não se deve apressar o tempo. Ele já é por demais efêmero. Fugaz. Não me faça recordar que o tempo passou, saiba que mesmo não podendo retê-lo eu retornarei sempre. Para os instantes mágicos em que há um prazer inigualável de sentir a vida. “Entre as certezas da física e os mistérios do destino, qualquer instante pode ser o derradeiro.” Peço perdão por citar Cecília Meireles, mas ocorreu-me esta frase, mesmo a morte não tem capacidade de silenciar a música, a arte nos excede e transcende. Não há como apagar a obra prima, que se mantém como marcas de um gênio, a impressão do homem na Terra. As pegadas que o cérebro produz e que não são descobertas somente pelos arqueólogos, mas pelo espírito de cada homem. Sei que a canção é minha companheira, a solidão engendra tanto sonho… Escrevo tudo, linhas que são a sentença melancólica de minha pena. Fui condenada pelas artes, pela música que me ultrapassa, que não resta só em mim. Pode ouvir? Será que é tão clara aos seus ouvidos minha beleza interior? Não se atenha ao meu físico, a minha face, aos meus olhos tristes, a estas mãos que muito trabalharam e trazem em si as marcas do seu esforço diário. Tente ouvir o som em mim. Tudo começa com um primeiro acorde. E depois, depois vem toda a canção. Sou toda música, pode ouvir? Minha canção de dor, minha vida toda transformada em música, as partituras estão aí, sob seus olhos, mesmo que não veja. Sinta, ouça. Tudo é música. E viver é minha canção mais difícil, pois trás em si muitos instrumentos, agora não apenas flautas, piano, cellos, mas também se acrescenta a estes a força das guitarras e baterias, pois a modernidade tem sua música também. Não vou me prender ao antigo, mesmo que esteja tentada a fazê-lo. Vejo filmes de épocas em que não existia, porque quero fazer retroceder o tempo, nem que por algumas horas. Uma máquina do tempo, que me faz sentir um tanto mais jovem. Mesmo que saiba ser apenas uma sensação, uma impressão falsa que me deixa o sonho. Por onde anda meus sonhos que fugiram de mim? Minhas esperanças, que não restaram na caixa de Pandora? Queria mesmo era tocar seu coração, que nas palavras de De Béranger: “son coeur est un luth suspendu; Sitôt qui on le touche Il résonne”* , e posso ouvir a música que ele faz, tão delicada… Todos têm sua própria música. Mesmo que desconheçam, cada ser tem sua própria musicalidade.  Quero cruzar os portões que me separam do castelo onde estão guardados os tesouros fantásticos do sonho. A juventude eterna, que todos tanto desejam está aqui nestas palavras, que não restarão só em mim. É a canção que me transcende. É a forma como deixo minha impressão no mundo. E, como a canção, só foi necessário um primeiro acorde, depois, depois a música se libertou e fluiu sozinha. Agora está neste universo, livre de quaisquer amarras para inebriar o coração dos homens, e tentar fazer-me ouvir pelos ouvidos mais exigentes: os seus, que pesam em indiferença sobre mim.

*Seu coração é um alaúde suspenso; assim que é tocado ressoa.

 

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