Arquivo do mês: maio 2010

Ne me quitte pas

Giordana Medeiros

O garçon acompanhou-nos até nossa mesa, você ainda sorria, como interpretava bem o papel que lhe impuseram! Disfarçava a dor num sorriso de desesperada tristeza.  Eu queria dizer, gritar que não me abandonasse. Poderíamos simplesmente esquecer tudo. Mas ao olhar-lhe as mãos delicadas tremerem, pude adivinhar o roteiro da peça que se desenrolaria essa noite. Era necessário esquecer, tudo se pode esquecer, os mal-entendidos e o tempo que perdemos. Brigas mesquinhas, discussões sem sentido. Isso poderia acabar com o que tivemos juntos? E nossa história, tudo que vivemos? Os momentos felizes não contam? Construímos uma relação sólida em bases de barro? Então é isso?

Chegamos à mesa e você não me olhava diretamente. Com frieza, ignorou meus olhos que clamavam pelo verde-mar dos seus. Ordenou o jantar. Eu pedi um chadornnay para adoçar-lhe os lábios que por diversas vezes já adoçaram os meus. Todavia tudo findaria essa noite, era a fatal sentença de nossa relação. Tudo já passou, não vê? As horas que mataram nossa história já findaram, não há o que nos impeça de começar de novo. “Não me deixe”.  Suplicavam meus olhos, mas você, mesmo adivinhando o que queriam dizer, não tinha misericórdia: era o carrasco com o machado que aguardava o juiz proferir a decisão final. Silenciosos, seus olhos fugiam de mim, em seu rosto a expressão tão conhecida de desgosto. Contrariada, aceitou que lhe acendesse o cigarro. A chama do isqueiro, lhe iluminou a veia que saltava na testa, o que ocorria quando estava numa situação de grande estresse. Era necessário terminar tudo rápido e não prolongar essa tortura. Vamos, diga! Sabe que não serei eu a falar primeiro. Vamos…  Sabe que sofro, então diga. Eu não posso fazê-lo. Pensava quase em desespero, éramos dois desconhecidos, não sabíamos como agir. Como atores numa peça mal ensaiada. Você usava as pérolas que lhe presenteei no seu último aniversário. “Pérolas de chuva de um país onde não chove.” Como você disse-me, citando a canção de Jacques Brel. Mas agora sou eu quem diz: “ne me quitte pas”. Você sabe que faria o impossível para que não tivéssemos de viver este momento. No restaurante um cantor de voz rouca entoava “Non, rien de rien, je ne regrette rien”. Poderia pedir a canção de Brel que talvez mudasse o intuito de minha acompanhante.  Mas não tive coragem. Como não tenho coragem de pedir que não me deixe. Você sabe que “escavaria a terra até próximo a minha morte para cobrir-lhe o corpo de ouro e luz”. Não há antídoto para o veneno que nos mata aos poucos. Uma dor dilacerante tomava-me, não sabia mais o que fazer, comia em silêncio o jantar, como a última refeição de um condenado a morte.

E os nossos dominios? O castelo que erguemos para o rei amor, que ao seu lado, comandava nossos feudos? Será que éramos servos desse? Simples vassalos, que agora eram expulsos do reino?  Estávamos acossados, diante da espada de um cavaleiro, pretendia proteger-lhe, mas na verdade, descobri que você seguiria nos braços deste, que lhe tomou de mim. Eu perdi-lhe num duelo onde minha arma estava descarregada. Pode ver a mancha de sangue no local onde a bala transpassou-me o coração? Eu inventava palavras insensatas, e você as compreendia. Será que nada significavam? Você tinha um dicionário próprio para as palavras que desconhecia. Isso restará como uma doce recordação. Eu lhe contava histórias, como o faria a uma criança. E você as escutava com um olhar infantil. Eu poderia dizer-lhe tudo isso, mas sei que nada valeria para você. Eram lembranças que só a mim importavam agora.

Rubem Alves, já dissera que “o amor é a vida acontecendo a cada momento, sem futuro, presente puro, eternidade numa bolha de sabão”. É a coisa mais poderosa e frágil que se tem conhecimento. Tudo pode vir a destruí-lo. E por mais que se tente curar as feridas, elas permanecem no espírito, de onde nem o tempo pode apagá-las.  Eu invejo Robert Frost, que, em sua lápide, mandou escrever “teve um caso de amor com a vida”. No meu caso minha vida é você. Suplico: não me deixe. Não suporto a existência sem você.  “A tristeza amorosa é o vazio desejando o pleno.” Assim é o amor, bem sabe. Você preenchia o vazio em mim com alegria. Se me abandonar, o que será de mim?

Você sabia que eu era triste, sabia que muitas coisas na minha alma não poderiam ser comunicadas. Eu sou assim, um relógio cujos ponteiros correm em sentido anti-horário, vive-se o futuro, depois o presente e o avenir é o passado que não me abandonava. Seguiremos essa noite em silêncio, procurando palavras e coragem para dizer o evidente. Para mim restarão as fotografias, tudo o mais pode levar. Pois entoarei poesias a sua imagem como o poema de Cassiano Ricardo, que lemos há alguns anos, quando resolvêramos fazer aquele curso de arte dramática:

 

“Por que tenho saudade

de você, no retrato,

ainda que o mais recente?

E por que um simples retrato,

mais que você, me comove,

se você ainda está presente?”

 

As fotos que, em cores, aprisionaram os momentos felizes são tudo que posso guardar. Não quero recordar-me deste dia, do fim inevitável. Continuamos em silêncio. Esperando. Queremos ambos nos esquivar da responsabilidade do fim. Não há quem faça subir os letreiros, como ocorria nos filmes antigos, em que, não se sabe por que, era necessário anunciar o final da película. Talvez porque as pessoas preferiam continuar sonhando, e era fundamental despertá-las para a realidade. Eu não vou ser o assassino, venha e apunhala-me pelas costas, fingirei não saber de seu intento.  Por que não posso e não farei o mesmo a você.  “O amor é a coisa mais triste quando se desfaz”. O retrato é na verdade uma sepultura. “Por que ele faz lembrar uma felicidade que não se tem mais.” Lembro-me de quando nos conhecemos, ainda vejo você dançar e sorrir, cantando, dando voltas pelo salão, rindo muito. Eu poderia ficar aqui, apreciando sua imagem, escutando você em meus sonhos. Deixe-me que me torne “a sombra da sua sombra, a sombra da tua mão” e lhe conduza  por estes bailes de amor, que não acontecerão jamais. Este tempo controlado por Chronos não é aquele que vivemos, vivemos o tempo coordenado pelas batidas de nossos corações, outrora coadunados, que se desvencilhavam aos poucos e baterão solitários e saudosos um do outro. Nosso coração dança ao ritmo da vida. Não são os melhores dançarinos, é verdade, mas são eles que controlam tudo.  Fernando Pessoa tinha dó das estrelas,

 

“Luzindo há tanto tempo,

Há tanto tempo…

Tenho dó delas,

Não haverá um cansaço,

Das coisas, de todas as coisas,

Um cansaço de existir,

De ser,

Só de ser?”

 

Eu também estou fatigado, sei que não conseguiremos falar do que já não mais podemos fugir. Você é a estrela cansada, que não pode mais luzir para mim. Pedi a conta, de um jantar que quase não comemos. Silenciosos, em nosso medo. Temendo a solidão, o vazio que nos aguardava. Paguei a conta, no meu derradeiro ato de cavalheirismo. Andamos lado a lado sem nos tocar. Minha alma clamava por perdão, meu corpo se retinha, queria abraçar-lhe, mas se continha. Fora do restaurante, você finalmente tocou-me a mão (estava tão fria!) e disse, numa só palavra: “acabou”. E sim, aquele foi o fim. Depois não dissemos mais nada, fiquei estático apenas observando-lhe seguir naquela noite fria de outono, caminhava rapidamente, como se quisesse fugir, deixar-me, sem se voltar um único momento, para não poder ver a dor que me tomava. Nem mesmo remorso teve em me abandonar, seguia na rua das desilusões, enquanto meu coração, a golpes de porquês, suplicava:

 

“Ne me quitte pas,

Ne me quitte pas,

Ne me quitte pas,

Ne me quitte pas.”

Categorias: Uncategorized | Tags: | 1 Comentário

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: