A música abandonada à multidão

Giordana Medeiros

Era apenas uma folha de papel bem comum, daquelas que se arranca do caderno sem muito sacrifício, era igual a todas as demais, com quinze centímetros de largura e vinte de comprimento, pautada com listras azuis, como qualquer outra. Mas algo a distinguia e tornava única, o que estava escrito nesta folha: um poema, na verdade uma elegia, cuja pessoa celebrada, era mais iluminada que as estrelas, talvez fosse uma estrela, de luz fria quando distante, mas se tomada nos braços, era quente, incandescente, sol que queima as retinas. E olhar é a sentença que cegava as emoções, mas mesmo diante de tal perigo era impossível não se submeter a tamanho risco. Era talvez o poema mais belo já escrito, mesmo que o autor, um desconhecido poeta que talvez restasse no anonimato por toda a vida, não gozasse de prestígio ou fama. As palavras que estavam fixadas naquele papel, que foram riscadas a lápis, teriam um efeito excepcional caso cumprissem o itinerário que lhe esperava e chegassem às mãos certas. A folha que portava este importante poema foi dobrada com cuidado e colocada sob o abrigo do bolso de uma calça jeans. E percorreu quilômetros, acompanhando seu portador no ônibus, e no extenso trajeto que este teria de realizar a pé, pois o ponto de ônibus era bem distante do local onde um show aconteceria. Não importa a canção, a música estava toda lá, naquela folha, mesmo que não fizesse reverberar as cordas de uma guitarra, ou soarem os pratos da bateria, a música daquele poema era como o som de liras, que se escutaria no paraíso, proveniente das mais longínquas estrelas. Canção de nebulosas coloridas, inacessíveis ao olhar e ouvidos humanos.  Era assim, um tanto delicada, formada de frágeis sentimentos, mas nem por isso menos fortes, sentimentos são a antítese de si mesmos.  Amor frágil amor, por outro lado, poderoso amor, que a tudo transforma, e também a tudo é suscetível. Na fila para entrar no estádio lá estava o papel em seu esconderijo, esperando seu momento crucial, em que finalmente se revelaria, e deixar-se-ia ler por aqueles olhos, que nas suas linhas desenhavam-se como o verde mar, cujas vagas penetravam no espírito e arrastavam tudo que havia; levavam amor, deixavam lembranças. Procuravam, os olhos do poeta, um rosto conhecido, olhava ansioso, perseguia a imagem que tanto amava e celebrava, mas o foi impossível encontrar. Talvez chegasse um pouco mais tarde, atrasara-se, pois não corre em trilhos a vida, mas em terrenos montanhosos, escala íngremes paredões, por isso não é certo dizer “linha da vida”, que dá idéia de uma superfície lisa e sem percalços, mas “caminho tortuoso da vida”, cujas ramificações, possibilidades e desenganos são melhor retratados. Entraram no estádio, numa corrida acelerada, os espectadores da banda daquela noite, o papel foi retirado de seu esconderijo e sofria nas mãos suadas de seu portador.  Novamente os olhos percorriam o estádio, mas não encontravam o cenário esperado. Estavam lá: a banda, os ouvintes, a música, mas a ausência de uma única pessoa pode acabar com todo o espetáculo. Não era a vocalista que desfalcava a apresentação, nem mesmo o guitarrista que lá estava para criar os solos que embalariam a multidão, o baterista era a percussão que se exigia para o espetáculo e mesmo o baixista também estava presente. A ausência que se via, era mais sonora, apesar de silenciosa, que todos os instrumentos daquela noite. Quando a cantora entoou a primeira música e a multidão que lotava o estádio ovacionou a banda, o portador desiludido deixou cair o papel já amassado e desfigurado no chão, abandonando seus sonhos à multidão que pulava e cantava enlouquecida. Foi sendo então, o papel, arrastado pelos pés das pessoas, chutado, pisado e apesar de sujo e roto, ainda era possível ler-se o poema, a bela canção agora abandonada. A música do silêncio na leitura de um poema, a satisfação nos olhos do leitor, tudo isto seria negado àquela folha? Ninguém teria o privilégio de dedicar cinco minutos de atenção às palavras de um amor impossível, que se construía em versos, singelas rimas, ricas rimas, escavadas na mina dos sentimentos, pedras preciosas lapidadas pelo poeta ourives, as quais, mesmo o ilustre Olavo Bilac seria tomado de profunda admiração caso as lesse, pelo poeta, pelo poema e pelos olhos verdes esmeralda, a quem os versos eram dedicados.

 Mas não seria o destino da indiferença que esperava o papel. Uma das espectadoras, ao ver aquela folha tão inusitada no chão, tomou-a em suas mãos e leu o poema, emocionou-se com aqueles versos, e guardou-a consigo. Dentro do bolso de uma calça jeans, novamente, o papel esperava o seu auge,  quando seria dedicado a outra pessoa, o poema era agora anônimo, pois o poeta desvencilhara-se de sua obra. Abandonou suas palavras num oceano de pessoas, como o faria um pescador ao atirar as redes de pesca ao mar, há de se puxar algum reconhecimento, mesmo que não cheguem aos ouvidos do pescador. E dentro do bolso o papel sujo, meio rasgado, esperava ser percorrido por outros olhos, talvez não tão verdes, ou mesmo nem tão puros, mas seria lido novamente, e seu intuito seria atingido. É para ser lido que o papel existe, o sonho de toda folha em branco é estar coberta de palavras, e que estas palavras, formem textos, e que estes textos sejam unidos em um livro. O sonho do escritor iniciante, tal qual o do papel, é compor um livro. Um compõe como o músico, cria, une as frases, apaga adjetivos exagerados, acrescenta um pronome, tudo para fazer a história final; o outro soma, faz parte de toda uma composição, é calhamaço o substantivo coletivo de papel, mas livro também seria uma boa opção.   O poeta está sempre sozinho, o papel, por sua vez, está a maioria das vezes em grupo. Mas ambos, de uma forma ou de outra, contam uma história. Foi decepcionante para a folha quando um larápio furtou-a do bolso em que se encontrava protegida. Ao verificar tratar-se de apenas um papel sem valor monetário, mais uma vez este foi desprezado. Entre os pés da multidão, desesperado, o papel pulava com as pessoas até enrolar-se nas pernas de um rapaz, que o pegou e leu o que havia na superfície daquela folha, por demais maltratada, mas, com pouco caso, desfez-se do poema, e de novo lá estava o papel caminhando ao sabor das canções, sem que ninguém mais se desse conta da importância de seu conteúdo. Ele que estava tão orgulhoso do poema que trazia consigo, de sua missão, agora estava desgostoso do fim que o esperava. Quando estava crente que haveria de ser recolhido na manhã seguinte juntamente com o lixo, alguém o pegou do chão, um homem ao ver uma bola de papel tomou-a para despejar o chiclete que mascava. Todavia, leu o poema e, tomado de profunda admiração pelo que lera, resolveu guardar aqueles versos. Agora um novo horizonte se abria para aquela folha, suja e amassada, não haveria outro destino para ela que o lixo, mas o homem que a recolhera do chão na verdade era o produtor da banda que se apresentava naquela noite. O poema quando entregue à vocalista, logo tomou aparência de música. Não é que o papel seria lido por dezenas de pessoas? Então, quando já convertido em canção, seriam os versos ouvidos por milhões. E, ao abandonar as redes ao mar, pode-se pescar um cardume. O poeta talvez não houvesse atingido seu intento principal, mas conquistou reconhecimento, mesmo que não invocasse jamais sua autoria sobre aquelas linhas, a canção sobre o olhar verde vívido seria ouvida a exaustão. Agora com ares de importante, num quadro dourado, protegido, o papel era guardado como relíquia, uma lembrança do sucesso alcançado com a música abandonada à multidão.  

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Uma opinião sobre “

  1. Caríssima! Como gosto quando misturas música em tua escrita, o resultado é sempre surpreendente, o final é sempre surpreendente, já que de fato, temos o poder de transformar as coisas ao nosso redor … todos temos uma folha suja e amassada bem aos nossos pés, basta que façamos a leitura no momento certo.
    Torno-me repetitiva, mas … adorei!
    OBS: Vou tentar não deixar nada para depois.
    bjs
    Elis

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