Arquivo do mês: abril 2010

A música abandonada à multidão

Giordana Medeiros

Era apenas uma folha de papel bem comum, daquelas que se arranca do caderno sem muito sacrifício, era igual a todas as demais, com quinze centímetros de largura e vinte de comprimento, pautada com listras azuis, como qualquer outra. Mas algo a distinguia e tornava única, o que estava escrito nesta folha: um poema, na verdade uma elegia, cuja pessoa celebrada, era mais iluminada que as estrelas, talvez fosse uma estrela, de luz fria quando distante, mas se tomada nos braços, era quente, incandescente, sol que queima as retinas. E olhar é a sentença que cegava as emoções, mas mesmo diante de tal perigo era impossível não se submeter a tamanho risco. Era talvez o poema mais belo já escrito, mesmo que o autor, um desconhecido poeta que talvez restasse no anonimato por toda a vida, não gozasse de prestígio ou fama. As palavras que estavam fixadas naquele papel, que foram riscadas a lápis, teriam um efeito excepcional caso cumprissem o itinerário que lhe esperava e chegassem às mãos certas. A folha que portava este importante poema foi dobrada com cuidado e colocada sob o abrigo do bolso de uma calça jeans. E percorreu quilômetros, acompanhando seu portador no ônibus, e no extenso trajeto que este teria de realizar a pé, pois o ponto de ônibus era bem distante do local onde um show aconteceria. Não importa a canção, a música estava toda lá, naquela folha, mesmo que não fizesse reverberar as cordas de uma guitarra, ou soarem os pratos da bateria, a música daquele poema era como o som de liras, que se escutaria no paraíso, proveniente das mais longínquas estrelas. Canção de nebulosas coloridas, inacessíveis ao olhar e ouvidos humanos.  Era assim, um tanto delicada, formada de frágeis sentimentos, mas nem por isso menos fortes, sentimentos são a antítese de si mesmos.  Amor frágil amor, por outro lado, poderoso amor, que a tudo transforma, e também a tudo é suscetível. Na fila para entrar no estádio lá estava o papel em seu esconderijo, esperando seu momento crucial, em que finalmente se revelaria, e deixar-se-ia ler por aqueles olhos, que nas suas linhas desenhavam-se como o verde mar, cujas vagas penetravam no espírito e arrastavam tudo que havia; levavam amor, deixavam lembranças. Procuravam, os olhos do poeta, um rosto conhecido, olhava ansioso, perseguia a imagem que tanto amava e celebrava, mas o foi impossível encontrar. Talvez chegasse um pouco mais tarde, atrasara-se, pois não corre em trilhos a vida, mas em terrenos montanhosos, escala íngremes paredões, por isso não é certo dizer “linha da vida”, que dá idéia de uma superfície lisa e sem percalços, mas “caminho tortuoso da vida”, cujas ramificações, possibilidades e desenganos são melhor retratados. Entraram no estádio, numa corrida acelerada, os espectadores da banda daquela noite, o papel foi retirado de seu esconderijo e sofria nas mãos suadas de seu portador.  Novamente os olhos percorriam o estádio, mas não encontravam o cenário esperado. Estavam lá: a banda, os ouvintes, a música, mas a ausência de uma única pessoa pode acabar com todo o espetáculo. Não era a vocalista que desfalcava a apresentação, nem mesmo o guitarrista que lá estava para criar os solos que embalariam a multidão, o baterista era a percussão que se exigia para o espetáculo e mesmo o baixista também estava presente. A ausência que se via, era mais sonora, apesar de silenciosa, que todos os instrumentos daquela noite. Quando a cantora entoou a primeira música e a multidão que lotava o estádio ovacionou a banda, o portador desiludido deixou cair o papel já amassado e desfigurado no chão, abandonando seus sonhos à multidão que pulava e cantava enlouquecida. Foi sendo então, o papel, arrastado pelos pés das pessoas, chutado, pisado e apesar de sujo e roto, ainda era possível ler-se o poema, a bela canção agora abandonada. A música do silêncio na leitura de um poema, a satisfação nos olhos do leitor, tudo isto seria negado àquela folha? Ninguém teria o privilégio de dedicar cinco minutos de atenção às palavras de um amor impossível, que se construía em versos, singelas rimas, ricas rimas, escavadas na mina dos sentimentos, pedras preciosas lapidadas pelo poeta ourives, as quais, mesmo o ilustre Olavo Bilac seria tomado de profunda admiração caso as lesse, pelo poeta, pelo poema e pelos olhos verdes esmeralda, a quem os versos eram dedicados.

 Mas não seria o destino da indiferença que esperava o papel. Uma das espectadoras, ao ver aquela folha tão inusitada no chão, tomou-a em suas mãos e leu o poema, emocionou-se com aqueles versos, e guardou-a consigo. Dentro do bolso de uma calça jeans, novamente, o papel esperava o seu auge,  quando seria dedicado a outra pessoa, o poema era agora anônimo, pois o poeta desvencilhara-se de sua obra. Abandonou suas palavras num oceano de pessoas, como o faria um pescador ao atirar as redes de pesca ao mar, há de se puxar algum reconhecimento, mesmo que não cheguem aos ouvidos do pescador. E dentro do bolso o papel sujo, meio rasgado, esperava ser percorrido por outros olhos, talvez não tão verdes, ou mesmo nem tão puros, mas seria lido novamente, e seu intuito seria atingido. É para ser lido que o papel existe, o sonho de toda folha em branco é estar coberta de palavras, e que estas palavras, formem textos, e que estes textos sejam unidos em um livro. O sonho do escritor iniciante, tal qual o do papel, é compor um livro. Um compõe como o músico, cria, une as frases, apaga adjetivos exagerados, acrescenta um pronome, tudo para fazer a história final; o outro soma, faz parte de toda uma composição, é calhamaço o substantivo coletivo de papel, mas livro também seria uma boa opção.   O poeta está sempre sozinho, o papel, por sua vez, está a maioria das vezes em grupo. Mas ambos, de uma forma ou de outra, contam uma história. Foi decepcionante para a folha quando um larápio furtou-a do bolso em que se encontrava protegida. Ao verificar tratar-se de apenas um papel sem valor monetário, mais uma vez este foi desprezado. Entre os pés da multidão, desesperado, o papel pulava com as pessoas até enrolar-se nas pernas de um rapaz, que o pegou e leu o que havia na superfície daquela folha, por demais maltratada, mas, com pouco caso, desfez-se do poema, e de novo lá estava o papel caminhando ao sabor das canções, sem que ninguém mais se desse conta da importância de seu conteúdo. Ele que estava tão orgulhoso do poema que trazia consigo, de sua missão, agora estava desgostoso do fim que o esperava. Quando estava crente que haveria de ser recolhido na manhã seguinte juntamente com o lixo, alguém o pegou do chão, um homem ao ver uma bola de papel tomou-a para despejar o chiclete que mascava. Todavia, leu o poema e, tomado de profunda admiração pelo que lera, resolveu guardar aqueles versos. Agora um novo horizonte se abria para aquela folha, suja e amassada, não haveria outro destino para ela que o lixo, mas o homem que a recolhera do chão na verdade era o produtor da banda que se apresentava naquela noite. O poema quando entregue à vocalista, logo tomou aparência de música. Não é que o papel seria lido por dezenas de pessoas? Então, quando já convertido em canção, seriam os versos ouvidos por milhões. E, ao abandonar as redes ao mar, pode-se pescar um cardume. O poeta talvez não houvesse atingido seu intento principal, mas conquistou reconhecimento, mesmo que não invocasse jamais sua autoria sobre aquelas linhas, a canção sobre o olhar verde vívido seria ouvida a exaustão. Agora com ares de importante, num quadro dourado, protegido, o papel era guardado como relíquia, uma lembrança do sucesso alcançado com a música abandonada à multidão.  

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Sob a sombra da Lua Nova

Giordana Medeiros

-Isto termina esta noite.

Ajeitou o casaco que a noite estava fria. Dava passos longos, incertos, como se estivesse equilibrando-se sobre uma eterna dúvida. A procura de um significado, que não se encontra em nenhum livro, nem em nenhuma pessoa, entretanto compreendia que todas as respostas lhe eram exteriores. Por mais que desperdiçasse seu tempo tentando achar alguma razão, sabia que jamais a encontraria. Poderia se inclinar sobre clichês, proferir frases prontas, mas sabia que isto não lhe conferiria nenhuma solução.  A única certeza era que tudo terminaria aquela noite. Como se arrancasse um dente, retirasse a dor encravada em si com um alicate, e depois ficaria a sensação que lhe faltava algo. Algo que já lhe foi essencial, mas que como um órgão atingido por um câncer, veio a lhe provocar um grande sofrimento. O limite foi ultrapassado há mais de uma década, e já estava exausto, exaurido de todas as suas forças. No fim só queria aquilo que ninguém pode ou poderia oferecer-lhe. Neste momento era acometido de uma lucidez vigilante. O que era normalmente incomum. Os loucos são muito mais racionais em seus delírios que os sãos na sua racionalidade limitada. Tem de haver o sonho, aquilo com que a noite premia os homens quando estes não são senhores do seu cérebro. Então a loucura pode se apoderar de tudo, determinando o delírio, a imagem confusa, coberta de razão, mas sem explicações lógicas, que entretanto é o desejo vivo da verdade. A mentira é o sonho da razão. Em sua volta a cidade pulsava, pessoas corriam para pegar o ônibus parado no ponto. Casais mostravam-se apaixonados em seus afagos, cães vira-latas andavam sem direção, peregrinos da fome. A noite sem lua tinha estrelas vivas, que suspiravam luz, num tênue brilho distante. As famílias adormeciam em suas casas, com suas televisões ligadas no noticiário, tentando compreender aquilo que não tinha na realidade nenhum sentido, ao final de cada tragédia se entendiam como mero pó de estrelas.  A existência e a não existência são fruto do mais vacilante acaso.  As pernas lhe doíam, os pés com bolhas, clamavam por descanso. Mas ele seguia no seu intento. Onde queria chegar?  O que lhe guiava, além das estrelas, que astrolábio seguia? Um homem sozinho numa noite fria de outono, ébrio de luz e sóbrio de escuridão. Tinha medo, como o mais mortal dos homens, mas o medo alimenta os feitos mais corajosos. A lua nova que desaparecia na sombra o acompanhava nesta viagem, contava-lhe os passos na escuridão. É muito tarde para lutar. É muito difícil desistir depois de tanto caminho e tanta espera. Mas é possível olhar para o horizonte onde estrelas caiam acompanhadas de desejos, chuva de estrelas, esperanças que tombavam sobre a Terra, e aí permaneciam esquecidas. Se pudesse, choraria, não seriam as lágrimas mais duras nem mesmo as mais ardentes, lágrimas de uma dor já conhecida e presente, quase costumeira. Ele bem sabia que a fonte de sua melancolia não seca, rio perene da dor. Continuava sempre, por estas ruas povoadas de tristeza, guiado pela única sentença real possível: a certeza do fim.  Um gato miava para a lua que se escondia, miado de dor, talvez houvesse sido abandonado por um dono fatigado que esquecera de deixar a porta de casa aberta para que o bichano pudesse entrar, ou mesmo, fosse  um gato de rua, cuja a busca por alimento naquele dia mostrara-se infrutífera. Nas janelas dos edifícios havia olhos distraídos observando o movimento das ruas, seguiam os passantes, pairavam sobre tudo, como se acompanhassem a vida da qual não participavam. Excluídos do mundo pelo concreto armado, lá estavam as pessoas, distantes do chão e do mundo. Observando tudo pela janela, camarote para a vida alheia, sem que haja, porém, janelas para suas próprias vidas. Não se viam em seus cubículos, nas suas idiossincrasias, contudo costumavam apontar as dos outros. As pessoas são assim, infelizmente.

Continuava seu percurso, sibilando uma canção mal ritmada e por vezes esquecia-lhe até mesmo a letra. Tropeçava, mais por que caminhava absorto em memórias de um passado distante, que por haver realmente algum obstáculo em seu caminho. A música adormece os sentidos, mas liberta a alma. Pudera dizer isto a Thomas Mann, que, em sua Montanha Mágica, foi injusto ao atacar esta arte. Acreditava que poderia estar trancafiado na mais abjeta prisão, mas se houvesse consigo, meios para que a música pudesse distraí-lo, seria mais suportável estar privado da liberdade. Se é que era livre realmente. Não estava preso por grilhões de ferro ou aço, não estava em alguma cela dividindo a mesquinha ração diária com outros condenados, mas sentia-se, por vezes, mais miserável que um sentenciado à prisão perpétua. Não havia quem se apiedasse de sua condição e concedesse-lhe as chaves de sua jaula, de seu exílio interno, pois externamente, havia todo o mundo a sua volta, pessoas que lhe vendo não lhe enxergavam , que lhe ouvindo, não lhe compreendiam. Isolado num planeta totalmente tomado de pessoas. Havia no solo folhas secas das árvores despidas para o outono que estalavam sob o peso de seus pés. Ele até se divertia com o som de suas pegadas. Num rádio ligado, em um quiosque próximo, o noticiário informava que aquela seria a noite mais fria do ano. A temperatura caia, as árvores perdiam suas folhas, as pessoas se enfiavam em seus mundos particulares, existências mesquinhas, avessas ao que lhes circundavam, aos mendigos que dormiam sob as marquises, num chão gélido sem algo que lhes concedesse um pouco de calor nestas noites frias.   Alheias a diferença social, que separa os ricos habitantes dos sobrados bem aquecidos por suas acolhedoras lareiras, dos moradores de repugnantes barracos sem sistema de esgoto, ou algo que pudesse conceder-lhes algum conforto, e amparar realmente uma família. Os meninos cheiravam cola nas ruas, alguns até ao devastador crack se entregavam. Para esquecer a fome, para disfarçar o frio. E ele até se sentiu um pouco envergonhado de suas dores tão insignificantes caso comparadas a esta tragédia social que a humanidade presencia cúmplice todos os dias. Apiedava-se do menino hirto de frio, deitado no chão, tentando dormir, enquanto a sua volta pessoas caminhavam apressadas, sem perceber naqueles seres, que se esgueiravam pelas calçadas clamando por tostões de misericórdia. Também ele fechou os olhos para tudo isso, porque tinha um caminho a seguir. Tinha assuntos mais urgentes, mesmo que nem tão prementes assim. Agora, já vacilava, não tinha certeza do que faria realmente, se teria forças para realizar seu intento. Afinal estava muito frio, e talvez não sentisse aquela dor nunca mais, dor que hoje já era até mesmo uma companhia nesta vida solitária. Será que havia outro caminho? Será que seguir por estas estradas sem nome, destituiu-lhe de sua vontade? “It ends tonight” acabou por se tornar apenas o verso da canção e não um desejo verdadeiro. Ele tinha caminhado tanto, mas quais seriam os caminhos, que lhe esperavam além da dor? Esta dúvida atroz mortifica os homens com a ansiedade, a expectativa de descobrir o que lhes aguarda. Alta noite, altos desejos, pequenas possibilidades, pequenas vidas. Antagônicas sentenças, que, na verdade, são quase uma condenação. Os sábios homens da lei podem entender bem dos códigos que determinam as condutas, mas ignoram a realidade, pensam que sabem tudo, mas na realidade nada sabem. Nem o mais sábio dos sábios, considerava-se realmente sábio, não por falsa modéstia, mas pela consciência que há muito a se descobrir, e que ninguém tem todas as respostas. Tudo lhes é exterior.  Ele também não tinha mais comando de suas ações. Não sabia se retornava, ou se seguia em frente, se aceitava a possibilidade de mudança, ou continuava no confortável estado em que se encontrava. Afinal, é muito mais fácil se esconder sob a melancolia de uma vida limitada, mas suportável, conhecida e previsível. Tinha medo do novo, e fechava-se a algo cujas possibilidades de controle fossem quase nulas. Era covarde e fraco. É muito tarde para nutrir esperanças, a única coisa que desejava no momento era um café fumegante e a companhia de um livro que lhe proporcionasse uma evasão de sua vida e de seus medos. Esquecer, todos os intentos, todos objetivos, tudo que alimentava os seus delírios, tudo que lhe impulsionava até então. O que lhe fez cruzar a cidade, que lhe imprimiu o desejo de dar um fim a esta história que se prolonga por mais de dez anos. O problema que ele estava tão inserido nesta comédia, que caso findasse com algum ato, talvez fosse o término de toda peça. Por isso tremiam-lhe os joelhos e suas mãos estavam frias quando chegou o momento crucial, e, num longo suspiro, abriu a porta da casa onde uma luz acesa indicava que já o esperavam. Talvez por muitos anos, ou mesmo somente por aquela noite. Mas havia quem o aguardasse e ele já não mais se sentia tão sozinho.

 

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Cegos que cantam

Giordana Medeiros

O som estridente do toque do telefone despertou-lhe do sono. Apesar de não dormir tanto quanto deveria, há um momento que o corpo debilitado cai desfalecido, sobre todas as mentiras que se convertem em sonhos, desejos irrealizados, promessas de uma vida que restam apenas na expectativa. Uma esperança delicada, frágil como a própria felicidade, que se deforma com um simples toque. Um momento efêmero de alegria é tão raro quanto insustentável. Leveza fugaz, o sono é a inconstância da vida, quando se pode ser feliz, mesmo que num mundo ideal, de nuances, imagens embaralhadas que se somam em histórias. Histórias impossíveis, admirável mundo de sonhos.  Ele atendeu ao chamado, com o tom de voz ainda sonolento, meio sem vontade, contrariado por haver sido despertado, afinal, quem quer abrir os olhos para o real quando há a imagem mais aprazível do sonho? Ouviu a voz de seu amigo Lucas, este o questionava se ainda estava vivo. Sorriu, sem vontade, sorriso forçado e falso. Por que falar se é possível calar. Somente sentir. O coração bate tão forte. A vida é inevitável. Pegou o maço de cigarros, acendeu um e preparou-se para conversar por horas. Lucas perguntou-lhe o que andava fazendo.

-Nada.

 A vida é realmente uma ponte entre dois nadas, há momentos em que se é justamente este nada.

-Estava escutando música, Legião Urbana, sabe? Dizia a voz rouca no telefone, enquanto o interlocutor sonolento distraía-se com a fumaça do cigarro que fazia estranhas nuvens cinzas ovaladas.

-Que música? Observou-se no espelho, uma imagem envelhecida para a idade que possuía lhe deu a certeza de estar realmente acordado.

-Várias. Estou quase há três horas, ouvindo todas aquelas canções que você me disse para escutar. Lembra?

Uma lembrança vaga de uma conversa de semanas atrás lhe veio à memória:

-Sim, lembro.

-Estava triste depois de haver discutido com minha namorada, então me recordei das coisas que você dizia sobre Renato Russo e da magia com que ele criava canções que parecem dizer tudo aquilo que sentimos.

-É verdade. Deveria mesmo ter aquela conversa com Lucas? Estava querendo desvencilhar-se deste monstro denominado solidão, que há décadas o acompanhava. Será que poderia fazer companhia a um amigo, sendo tão ou mais sozinho do que ele? Poderiam apenas unir-se formando um vazio ainda maior.

-Estava tão deprimido e sozinho, que tinha de ligar para alguém, então pensei em você. Será que pode ouvir-me um pouco?

 -Sou seu amigo, não sou? Pode falar que serei seu ouvinte esta noite. É noite, não é? Tentou observar as horas num relógio que não possuía no pulso.

 -Na verdade são duas da madrugada… Agradeço por me ouvir, tenho tanto a falar, um turbilhão de frases e imagens dentro de mim, que vão explodir tal qual uma erupção vulcânica. A solidão é violenta. E Renato Russo era muito solitário, não era?

-É verdade, ele salientava sua solidão em várias canções que ele escreveu. Esfregou os olhos, estava extenuado, mas deveria manter-se lúcido para ouvir o lamento de um amigo de coração despedaçado.

 -“O mal do século é a solidão”.

 -Cecília Meireles escreveu algo parecido: “Solidão, solidão… Acumulam-se os dias de solidão.” Citou de memória um trecho de uma crônica que havia lido naquele mesmo dia. Fumar o despertou, sentou-se na cama e despejou a ponta do cigarro no cinzeiro que transbordava.

 -O mundo separa as pessoas…

-As pessoas se separam do mundo.  Retrucou, na verdade sabia que ambas as sentenças eram reais, mas pela fatalidade do que elas representavam, fez-se um minuto de silêncio entre os dois.  Havia tanto a se falar, mas o silêncio era o som de todas as frases ditas e não ditas, que restavam subentendidas, tolhidas por defesas, “self-protection”. Não se pode revelar o tamanho da sua solidão. Está dentro de si, a sua volta, em todos os espaços, ocupando tudo com um vazio cheio de tristeza.

-Renato Russo era um poeta.

-“No más, los poetas son ciegos que cantam!” Disse feliz por Lucas ter findado com o silêncio, tão constrangedor quanto as palavras, o silêncio revela mais que pretendemos esconder com estas, está tudo visível, a dor está a mostra, a ferida aberta que pulsa na alma.

  -Quem escreveu isso?

– Ricardo Mimenza Castillo, poeta da década de 30 de Yucatan no México. Respondeu mordiscando a unha do polegar. A madrugada avançava, eles já haviam falado tanto, mas há tanto ainda a ser falado, as palavras surgem e se chocam. É difícil falar sobre o que há dentro de si. Mesmo que não seja nada. Nada que fosse importante, nada que pudesse ser dito com fonemas, nada que a língua pudesse ou devesse proferir.

-Lembra daquela frase: “Acho que o imperfeito não participa do passado”? Não era a gramática que Renato Russo queria ressaltar, era a condição de imaginar o passado mais dourado que ele era realmente. Acho que sou um tanto assim também.

-Somos todos: o tempo apaga as dores e cura os amores. Mas a solidão permanece sempre a mesma. O tempo acompanha a solidão. Ligou a televisão, onde cenas grotescas de programas de qualidade duvidosa preencheram o quarto de som, ficou trocando os canais com o controle remoto, sem parar em nenhum, de modo que as imagens passavam desconexas, no fim ele queria apenas um pouco de barulho.

-Sabe, “se fosse só sentir saudade, mas tem sempre algo mais…”

-“… Seja como for, é uma dor que dói no peito, pode rir agora que estou sozinho”. Continuou a canção de onde o amigo havia parado. Fico imaginando, a situação em que ele estava para escrever esta letra. É realmente uma dor, mas às vezes é bom sentir saudade também. Disse observando a televisão com suas imagens desconexas e tolas. Não há o que se aproveite, preferia os livros que lotavam as estantes, para ele tudo tinha de ter ao menos algum conteúdo. Algo proveitoso. Mesmo que não se aproveite realmente. Os livros revelavam o que lhe era interior de uma forma mais verdadeira que a superficialidade dos programas de tevê comerciais e sensacionalistas, o interior não é visível quando visível.   

-“Sei que faço isto para esquecer. Eu deixo a onda me acertar e o vento vai levando tudo embora.” Queria estar no litoral para poder desaguar as dores em mim agora no mar. Ela era tão importante. E tudo que tinha era o que tínhamos. Era grande, mas frágil e quebradiço.  Sabe, “dos nossos planos é que tenho mais saudade”. Havia um futuro a nossa espera, e agora não há nada. Nada…

– Mas há ainda a continuação desta canção: “E quando vejo o mar, existe algo que diz que a vida continua e se entregar é uma bobagem…” Nas palavras de Lygia Fagundes Telles: “Nascemos todos os dias quando nasce o sol.” “Sempre em frente, não temos tempo a perder, nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo.” Sabia que este verso da canção foi retirado da Divina Comédia de Dante Alighieri? Tinha de fortalecer o amigo, mesmo que não cresse realmente no que falava.  Era necessário tornar o que dizia verossímil, para que Lucas recobrasse suas forças e não tencionasse dar um ponto final em sua própria história.

-“O futuro não é mais o que era antigamente” Não posso crer que daquelas feições tão singelas pudessem sair as sentenças que deram um fim ao que éramos.

-“Não existe arte que ensine a ver as feições da alma.” Macbeth, Shakespeare. Não tinha como supor que aquela a boca que beijava pudesse dizer os absurdos que findariam com o seu namoro. Relações são assim, não há como se prever as reações humanas. Desligou a televisão que o barulho já o aborrecia.

-Estamos há muito tempo conversando, não é? A manhã nasce fria, pois já é outono. Acho que vou me deitar e tentar dormir um pouco: estou cansado… E por mais que tente me enganar sei que só “ela tinha a cura do meu vício de insistir nessa saudade de tudo que ainda não vi.”

– Ainda há a vida, e ela pulsa. Sei que sofre agora, mas a “vida continua”. Somos dois seres solitários e tristes. Mas como diria Renato Russo: “queria acreditar que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes”. Acho que o mais autêntico de nós dois é nossa profunda tristeza, caro amigo. “Seus verdadeiros amigos esperam por você”. Foram horas agradabilíssimas em sua companhia.  Tente relaxar, não se entregue a devaneios tolos. Queria continuar diálogo, tinha certeza que poderia fazer muito mais pelo amigo. Todavia cria que Lucas estava realmente muito cansado e seria ótimo que dormisse e tentasse esquecer. Ele já chorara tanto, pois a voz que escutava era embargada, cheia de mágoa, num misto de dor, desilusão e desespero. O melhor seria mesmo deixá-lo curar-se sozinho.  

-Até logo, obrigado por sua paciência e palavras. Ajudaram-me muito.

-Bom dia. Desligou o telefone,  ainda o segurava  entre as mãos enquanto presenciava o amanhecer púrpura pintar o horizonte. “E depois nada mais. Silêncio. Nada mais? Não, uma espécie de melancolia que modifica todas as coisas que vai encontrando….

Solidão, solidão…” Mais uma vez, lembrou de Cecília Meireles…

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