Tempestade de fim de março

Giordana Medeiros

Pegou o ônibus no ponto, pagou a passagem com duas moedas reclamando do valor astronômico das passagens hoje em dia. Sentou-se, “pelo menos havia assentos livres”. Resmungou. Ficou observando as paisagens citadinas correndo por sua janela, tinha tanto a sentir, mas era tão, mas tão sozinho. E havia aquele casal na sua frente que o fazia lembrar que havia o amor. Mas ele sabia que este o era inacessível. Como se tudo lhe estivesse a mostra em vitrines que o separavam do que lhe é essencial. Seu mundo era a ausência de tudo, de felicidade, de sensações que lhe são totalmente exteriores. Ele sabe que existem, mas elas não lhe estão acessíveis. Se começasse a ler poderia mergulhar numa história, uma fantasia de ser aquilo que não é, mas que poderia ter sido, mas não mais agora, que já é muito tarde. Os anos foram-lhe cruéis. A vida, sua carrasca. Ela separou-lhe do seu espírito. Agora desprovido de algo que lhe era essencial, vive com este imenso vazio dentro de si. “As ilusões estão todas perdidas.” Vocifera o cantor o qual ouvia no celular o passageiro ao lado. Está, na verdade, tudo perdido, não há esperanças. Um frágil fio ainda o liga ao mundo, mas há sempre a iminência de que este se rompa. E tudo se torne um sonho de Lewis Carol. Entretanto não há maravilhas neste mundo. É um pesadelo de espelhos disformes. Como uma casa de espelhos que nos apresentam uma imagem distorcida da realidade. Começou a chover, obrigando-lhe a fechar a janela próxima ao seu assento. As gotas de chuva escorriam pela janela, prejudicando a visão dos monumentos da cidade de cimento armado, modernidade fria que brotou no solo avermelhado do cerrado. “É tudo um sonho”, mas não há como despertar para a realidade que almeja. Muitos anos o separam da esperança que um dia lhe foi tão real quanto esta chuva de ressentimento que deságua sobre si. Ao lado o homem não lhe poupava de ouvir as dores que ele sentia dentro de si. É como se quisesse que ele recordasse, para que as feridas que estancaram, voltassem a sangrar.  E tudo que ele queria era esquecer do mundo, do seu espírito perdido, como a sombra que foi separada do corpo de Peter Pan. Talvez o que ele necessitava, era  regredir a infância onde tudo era um sonho colorido, e as dores mais suportáveis. Havia aqueles contos de fada, que lhe fazia crer em ilusões que são a grande mentira da esperança.  Não são reais, não são reais. Eis tudo que tem em suas mãos. Sempre lhe disseram que sua maior propriedade era o conhecimento que possuía. Mas, mesmo isso, com o tempo, se tornou tão pouco. Ele tinha tão pouco. Tudo que ele realmente possuía era aquela vontade de ser feliz que era como uma dor de dente que lhe afligia incessantemente. Hoje é obrigatório ser feliz. Como uma lei que houvesse sido promulgada pela sociedade que impunha a felicidade enfiando esta pela goela abaixo. Ser triste é quase uma doença contagiosa. Quem quer saber de alguém assim? É proibida a melancolia. É proibido sentir, é proibido sofrer, então a depressão se tornou uma doença. Há remédios eficazes para o que sente. A “pílula mágica da felicidade”. “É um comprimidinho diário, que lhe fará se sentir bem melhor”. “Em que espelho deixei minha verdadeira imagem?” Ele se questionava ao olhar seu reflexo, que era a versão mais tenebrosa de seus maiores pesadelos. “É tudo uma questão de auto-estima” e mentir para si mesmo, que a realidade não é tão hostil quanto aparenta. A chuva escasseava e algumas gotas ainda escorriam pela janela. O homem do assento ao lado fazia todos no ônibus usufruírem de seu gosto musical peculiar.  “Somos tão jovens”, mentia o cantor, que ignorava solenemente a passagem dos anos.  Somos tão velhos quanto não queremos admitir. A vida um pesadelo mais temível que o que vivemos no sonho, pois a realidade é bem mais contundente. Palavras o ferem tanto quanto paus e pedras, pois sem espírito o corpo se torna imensamente mais sensível. Tudo que ele queria era guardar em si a alma da qual há décadas foi desfalcado. Sentir aquela emoção tamanha a qual procura como a um Santo Graal. A imortalidade de ser humano e sempre tão sensível, tão desprotegido e frágil.

Observou que chegava ao ponto em que findava sua viagem. Puxou a corda para acionar a campainha. E acreditou por um instante que atingir as suas metas era tão simples quanto tomar um ônibus. Mas foi apenas por um átimo. Ele logo se recuperou da ilusão da esperança na qual ele mergulhou, e em que poderia ter se afogado. O ônibus parou e ele saltou, e se dirigiu, a mansos passos, para seu destino. Seu destino era na verdade algo tão fatal, a solidão de ser um ser tão diferente, que não encontra equivalente neste mundo. E por isso sentia-se como um estrangeiro em seu próprio país. E tinha de aprender a falar o idioma deste lugar que lhe era desconhecido, felicidade, que não se escreve com míseras dez letras. Nem se restringia a somente uma palavra. Era todo um idioma, um modo de ser, como uma moda, a qual não estava acostumado. Ele era na verdade atemporal, e os costumes do seu tempo eram ignorados, nem sabia mais quantos anos possuía, sabia que eram tantos quanto não se podiam contar com os dedos das mãos. Nem mesmo tinha na realidade a esteira de sua vida. Caminhava nas nuvens etéreas do sonho, como se a vida fosse algo interior da qual o mundo não fazia parte. Ou seria ele que não fazia parte do mundo? Uma verdade na realidade tão perigosa quanto a mentira em que se escondeu por toda a existência.  A mina das desilusões onde a pedra que mais brilhava era o verde esmeralda dos olhos, que jamais cruzaram com os seus, era na verdade seu tesouro mais precioso, e desvalido de todos os bens que se pode acumular neste mundo de consumo, a existência desse bem que era imaterial, mas tão material quanto a garoa que ninguém percebe, era a promessa de uma vida que não se realizaria. Um dia poderia parar de chover, não no mundo, onde as chuvas são essenciais, mas dentro de si, onde há tempestades e mares revoltos. E não se encontra céu aberto dentro de si, mas nuvens negras e tormentas.    Como este fim de tarde escuro, que lhe impedia de ver o sol. E o sol que queria encontrar e tocar, num delírio de Ícaro, passou como um raio. Iluminou, numa beleza fatal e não convencional, mas, da mesma forma inesperada que surgiu, se foi, deixando recordações e saudades. Ele pode ferir as mãos, ou mesmo perder a vida, tombando com suas asas desfeitas, destruídas por esta beleza perigosa, mas o essencial era apenas tocar. Sentir que os sonhos não são sempre etéreos. Há certa realidade no irreal, nem que seja uma grande coincidência, uma frágil correspondência ao que são, nem que seja pela grandeza do que almeja a insignificância do que era. Caminhava absorto nos seus pensamentos e nas calçadas, mendigos imploravam pela misericórdia de um mundo que fechava os olhos para o feio. Há somente o belo, as feridas pútridas, presentes em nossas ruas, são desprezadas como algo vergonhoso e que deve ser rejeitado por não ser belo. O mundo hedonista é seletivo, nem todos têm acesso aos prazeres. Somente aqueles poucos privilegiados num país onde há um abismo social, que é tão gritante, que ninguém escuta. As lamentações dos mendigos eram tão normais, que eram como parte da realidade, não há revolta, mas somente resignação, ele mesmo conformava-se com isso. Sentiu uma vontade de cantar, e veio-lhe a canção de Eloa e de Moise:

“Um jour, tout était calme,et la mer

Pacifique, Par sos vagues d’azur,

D’or et de diamant

Renvoyait ses splendeurs

Au soleil  du Tropique

Un navire y passait majestueusement.”

 Recolheu a voz como quem recolhe as armas, quando adentrou a biblioteca, onde uma moça num cartaz exigia o silêncio com o dedo em riste. Silenciou o corpo desprovido de espírito e desvalido de felicidade. Nas mãos um livro bem antigo, de folhas amareladas e rotas, que deveria devolver ao acervo da biblioteca.

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2 opiniões sobre “

  1. Dear Jô,

    Sempre que posso – apesar da correria sem fim em que me encontro – de deleito com as narrativas tuas, me reportando e transcedendo à todas as imagens, cheiros, e reflexões mistas com que teus personagens me proporcionam. Muitíssimo obrigado por partilhar suas obras, possibilitando que em qualquer lugar do mundo, literalmente falando, e possa “ver-te”.

    Um abraço longo.

    Saudades,

    Wallace 🙂
    PS: Dê meus parabéns a tua mãe, não esqueci de seu aniversário no dia último dia 13 – ela também é “culpada” por eu estar aqui.

  2. Caríssima … como está?
    Depois de um tempão,vim espiar-te e gostei do que li.
    Vou dar uma espiada nos outros … óbvio! hahahaha!
    Parabéns por mais esta obra.
    Da tua fã ( sou mesmo).
    Elis.

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