Muito som e pouca fúria

Giordana Medeiros

“Nenhum homem é uma ilha. Há sempre o contato, espiritual ou físico. Talvez lingüístico. Há sempre a vontade de interagir. Porque os sinos dobram por todos nós. Por isso a pior das penas é retirar o homem do convívio social. Ninguém quer ser esquecido, por que todos querem ser vistos, querem se tornar importantes, destacar-se na vida em sociedade, serem alguém, ter status. Afinal a felicidade só é real quando compartilhada.”

 Escreveu estas linhas de impulso. Pensou em apagar e retornar do início. Mas releu e decidiu continuar. Escreveu estas que seriam as memórias de um louco, “uma história escrita por um idiota, cheia de som e fúria, sem nenhum significado”. Na realidade não sabia o que redigir, e tudo que lhe veio em mente foi a profunda solidão em que estava. Ele sim era uma ilha num oceano de desconhecidos. Cercado de mentiras por todos os lados. Foi tomar um gole do café, mas estava frio. Então se ergueu da cadeira para servi-se de mais um pouco. Lá fora um pôr do sol alaranjado, tão inusitado, que faria lembrar os antigos filmes de faroeste, onde na cena final o “mocinho” cavalga em seu cavalo branco para o poente. Dentro de si, a dor que corrói, uma sensação de abandono, a tristeza de uma vida onde tudo que fez foi erigir muros em torno de si. E apesar do clichê, ele arrepende-se de não ter erguido pontes. Mas já é tarde. O espetáculo está no fim. Não haverá aplausos para os atores desta peça mal ensaiada. As cortinas se fecharão, sem que ovacionem o diretor. É uma tragédia grega. Mas ninguém compreende o que se interpreta, talvez a lágrima que escorre na face do protagonista seja mais real que o texto que ele decorou. Mas não há scripts ou roteiros. Somente o monólogo de um louco, sob a luz do sol poente, tentando encontrar-se no labirinto de sentimentos que lhe domina. Sozinho, sempre sozinho, neste imenso oceano que é o mundo. “Estamos cercados de mar. Mas estamos tão distantes da praia. Onde atracaremos nossos barcos?” Ele se questiona, enquanto adoça o café amargo que lhe esquentará o corpo frio, que vive a geleira das paixões. Ele está ausente de si. Mesmo que por dentro tenha todo um universo infinito e inexplorado. Há tanto para descobrir, mas quem se interessa? Não há quem procure desvendar os mistérios deste ser que, de tão grande, torna-se insignificante. Sua alma é tão grande que lhe excede e transborda. Serve-se do café fumegante e enxerga em si uma dúvida para a qual não há respostas. Deseja ardentemente as ondas do mar beijando-lhe a face, o cheiro do sal em seus pulmões. Quer provar a água do mar que tem o sabor do infinito. Mas contenta-se com o café, pois é tudo que tem no momento, o que lhe é acessível. O mundo não lhe é acessível, é como quando era garoto e as outras crianças impediam-no de brincar. Assistia mudo aquelas crianças perversas se divertirem enquanto brincava com uma fileira de formigas, nas quais descontava a mágoa de ser rejeitado, esmagando-lhes a cabeça. Formigas… Ele era assim: minúsculo. E o mundo negou-lhe participar de sua brincadeira. Então teve de aprender a ser sozinho. Ir sozinho ao encontro do que lhe é agradável. Sentar sozinho numa cafeteria enquanto lê. Fora de si o mundo ocorre. Mas ele ocorre apenas fora de si. Dentro dele, um navio a deriva. Sem esperanças de encontrar um porto para atracar no meio de um oceano de lamentações. Se fosse ao menos belo. Mas se fosse belo, a história se contaria com outras canções. Um musical dos anos 30. O som propaga-se também na água, mas não no espaço, pois é vácuo. Mas o melhor é ouvir a canção do coração batendo, é um sopro de vida, a esperança que nos invade tentando fazer-nos crer que há soluções viáveis. Apesar da indubitável realidade desmentido os nossos sonhos infantis. Há ainda muitos livros a ler. Isso o consola. Há muitas histórias a serem vividas e escritas, uma realidade paralela, onde poderia ser quem quisesse, mas estranhamente ele prefere ser o que é. Não sabe atuar, por isso perde-se nesta peça. As vaias expulsaram-no do palco. É uma estrela sem constelação. Está livre no espaço, mas ainda assim, tão preso. Preso aos seus medos, a sua postura honrada, a sua moral ilibada, esses grilhões que lhe foram atrelados aos braços e pernas desde a infância. A educação que recebeu limita-lhe sobremaneira. Poderia ter ao menos raiva. Mas sente apenas uma profunda pena de si mesmo. Autocomiseração. Mas não reclamava sequer. Calava-se. Pois não lhe era permitido falar. Não se pode dizer sobre o que se sente, pois pode enfadar as pessoas. Elas não querem saber o que lhe dói. Ninguém quer. Egocêntricos. Ele também. Sabia-o.

Voltou para o computador. Se soubesse contar histórias para adolescentes talvez tivesse mais que parcos leitores. Mas foi desastrosa sua tentativa de agradá-los com suas histórias. Não sabe escrever alegre. Somente melancólicas sentenças, que na verdade são a sua sentença de prisão perpétua. Está eternamente condenado a escrever o que sente. Muito embora isto não interesse a ninguém. Hoje, é muito mais material que o amanhã e menos dolorido que o ontem. Mas lembrar do ontem é uma forma de corrigir os erros cometidos para que, no amanhã próximo, possa se ferir menos. Queria dizer que a partir de agora não existirá mais nada sério nesta vida. É tudo uma comédia, chamem os bufões! Ele sempre foi um clown, afinal, todos o achavam ridículo. Sua profunda seriedade já lhe tornava extremamente engraçado. Naïf. Era o adjetivo com o que lhe denotavam. Ele se sentia mais puro que os demais, talvez porque não manchara suas mãos com a lama das emoções humanas. Só conhecia um aspecto do homem: sua imagem mais inocente. Como se acabasse de ser batizado, mas é abençoado por Hécate e sua luz. A prateada luz da lua que inunda o quarto, que lhe dava a falsa sensação de não estar mais sozinho. Às vezes sentia-se como o filhote de pardal que uma vez vira cair do ninho. Foi tentar recolocá-lo em sua mangedoura, mas os pais o rejeitaram, tentou tratá-lo e criá-lo sozinho, mas depois de algumas semanas o passarinho morreu, talvez, de tristeza. Há ainda que se completar o texto, mas as palavras têm asas e voam ao seu redor, para capturá-las deve-se ser gentil e um tanto esperto. Afinal são muito ariscas, muitas vezes não se adaptam às frases em que as enjaulamos. As palavras eram livres até escrever a sentença na tela do computador. Agora elas estão um tanto desconfortáveis em sua cela. Será que ele deve libertá-las? Apagar este período e desistir da história? A liberdade da palavra vale mais que a prisão dos sentimentos num conto que ninguém lerá? Mas ele tem de escrever o que sente, pois é como um verme que lhe corrói por dentro, e tem de ser expelido, para que não o destrua. Ele, que não sabe contar histórias felizes, também não sabe tantas coisas, como tocar violão. Inventou de comprar um, pois achava que seria extremamente fácil aprender a dedilhar o instrumento. Verificou que a música era uma de suas limitações. E por falar em música seria muito bom escutar uma canção, talvez uma canção de amor impossível. A ópera de Tristão e Isolda. Achava tão bonito ouvir Wagner. À noite, Wagner, café, e, ao lado, Macbeth e Mrs. Dalloway. Eram os livros que lhe entretiam e libertavam nesta noite. As chaves para as prisões que lhe encarceravam estavam ali lotando as prateleiras do seu quarto. Em várias línguas, ora francês, ora português e, por vezes, mesmo o inglês. Foi assim que aprendeu a libertar-se do cárcere que o mundo lhe infligiu. Por causa destes livros conhece mais o mundo que este o conhece. Pois é anônimo num mundo de status, mas o mundo não lhe é totalmente ignorado. Ao contrário, conhece-o minuciosamente. A ganância de Macbeth, o desespero e o absurdo do Mito de Sísifo, a loucura e a insignificância das pessoas, a busca do sentimento impossível que Virgínia Woolf soube com maestria retratar. Há tanto do mundo que conhece, naquelas páginas estão as chaves de inúmeras prisões, só é preciso encontrar a porta certa em que possa usá-las. Tudo isso e ele nem ao menos começou a sentir a sua grande dor. Assim eram as suas trevas. E não tinha nem idéia do que escreveria. Um imenso bloqueio criativo. Talvez a falta de sentimento numa noite tão bonita. Estrelas, que há semanas estavam cobertas por nuvens, hoje puderam se mostrar. E faziam um belo espetáculo, com auxílio de Hécate que estava ainda mais prateada nesta noite solitária. Sentia-se liberto nas páginas dos livros, são  sua morada. Sempre se pode desvendar um livro e é tão mais fácil que a um ser humano. Basta abrir as páginas e lá está a história, pronta para ser desfrutada. Ele, depois de enfrentar a história iniciada em seu computador, desistiu das linhas que escreveu, tão desastradas, sem sentido algum. Muito som, pouca fúria. Ele somente se entendia assim.

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