Arquivo do mês: fevereiro 2010

O mito de Sísifo

Giordana Medeiros

Sinto os dias passarem por mim, levam parte do que sou, levam-me algo que já me foi essencial. Agora não sei mais o que possuo, sou um ser desvalido de posses e amores. Não sou nada mais que um ser sozinho e triste. E só sei escrever assim, como o punhal cuja função é apunhalar. Eu apunhalo-me com frases e sentimentos transcritos em dores. Meu pequeno poema de desespero. Sou como Afonsina Storni, quero o mar como túmulo, o oceano de morada. Posso mais com as vagas que me puxam eternamente que com os homens que me rejeitam todo o sempre. Se pudessem ouvir meu soluço, minha agonia de não ter onde apoiar meu rosto quando em lágrimas transborda meu desespero. Um universo infinito ao meu redor, e tudo que sou é tão pouco. Sou tão insignificante. Quando me conceberam foram muito mesquinhos. Faltou-me tudo, principalmente amor. Minha própria tragédia é construída com atores estreantes e inseguros, não conseguem decorar suas falas, e perdem-se no texto. Há tanto sentimento dentro de mim… Eu não sei como fazer aflorar o que sinto verdadeiramente. Estive todo este tempo em busca de mim. Mas não me encontro. Procuro nos vales ensolarados, nas montanhas nevadas, na neblina londrina, nas luzes parisienses, no silêncio campesino, no ruído citadino, mas não me encontro em lugar nenhum. Quem sou eu?   O que sou eu? Sou um reflexo do passado projetado no presente, um prenúncio do futuro que se aproxima. É o futuro que me assombra, a iminência de encontrar-me sozinho, vagando por ruas desertas, como se procurasse alento no olhar cúmplice de outros velhos, que como eu, estarão a procura de respostas que não existem ou não nos querem dá-las. Somos o triste episódio da comédia humana. E a vida algo tão raro, mas para mim é tão supérflua.  Não vivo organicamente. Meu corpo físico, este que respira e come, este que se apavora e foge, não sou eu. Sou a representação de um sonho. Aquela sensação que não nos abandona quando acordamos. Havia algo a se lembrar, mas todos esquecem. Isto sou eu. Meu corpo, não o vejo, não o sinto. E me desfaço desse ser físico intolerável. Afaste-se de mim! Eu sou espírito e luz. Sou estas palavras que escorrem de mim. Não estes dedos que escolhem as letras, não este olhos míopes que tentam enxergar aquilo que não precisam ler para sabê-lo. Meu cérebro não pensa quando escrevo. Na verdade tudo surge do momento. Há alguma coisa impelindo-me. Sibilando as frases em meu ouvido. Não posso furtar-me a ouvi-las. Eis tudo aqui. Presenteiam-me com uma compreensão de mim que outrora não possuía. Adoro citar frases de livros que li, pois as palavras me fogem e não sei definir o que sou. Sou um embuste como escritor. Nada é meu, existe sempre esta voz que não sei de onde surge, que diz, fala-me com doçura. Ouço sua voz definindo-me, e sei que, esta voz, (é uma voz feminina), é algo muito próximo de mim. E pode ter sido, ou é, uma faceta desconhecida, ou mesmo, uma ilusão provocada por anos de solidão. Tantos que poderiam ser cem anos, mas não comparados ao realismo fantástico de Gárcia Marquez.  Anos comuns que me perdi observando nuvens, ouvindo o canto das sereias, o arrulhar dos rios. A voz me fala: “Minha música é tão triste. Pode ouvir como ela me extrapola e expande-se? É uma ária de ópera, o grito estridente de socorro. Mas não há salvação. Não há saídas, e, neste lugar em que me encontro, todas as portas estão trancadas. Onde estão as chaves do seu corpo? Para que minha alma se liberte desse ser orgânico que a limita. Eu vivo sufocada dentro de você. O som de todos os instrumentos podem me traduzir, sou canção, sou sinfonia e sonatas, sou toda música. Não este ser, minúsculo, desimportante e cuja música há muito se silenciou. Um corpo na biblioteca. Está morto, mas respira, está morto, mas ouço-lhe o pulso. Está morto, mas me diz que pare. Não vou parar, que não me ordena, sou a voz que lhe define. Você o ser físico que deve calar ao meu comando. Sou a sua música interior. E você, você não é nada. Não consegue traduzir-se sem auxílio. E tem tanto, mas tanto medo. Você é o escritor apavorado, que me escuta, e se perde em meu labirinto.”

Eu sou escravo desta voz. Minha pequena maldição. Tenho medo, medo de ser o que devo ser, mas que não deveria, porque sou algo tão autêntico que não encontra precedente e apavora a sociedade. Sou muito reservado, porque, quando me mostro e me deixo ver, os demais não me compreendem. Sou um dente de leão cujas sementes se desprendem e voam com um sopro. E minhas palavras são as sementes que tenho de mim. E não sei se estas palavras são minhas ou da voz, dessa mulher que me corrói internamente, que me transmite histórias que não sei se acaso são verdadeiramente minhas. O que é você? Ela se cala a minha pergunta. Será eu? Serei eu que me calo? Um enigma que me precede. Uma dama, que como a esfinge, pode definir meu destino: “Responda-me ou devoro-te”. “Só tenho a você.” Ela me sussurra e não há como escapar de ouvir-la. Ela corrige minhas faltas. Há tanto em que necessito de auxílio, que me agarro a ela, pois é minha saída de emergência. Embora ela não possa fugir de mim. Eu posso escapar nela. É assim que consigo abrigo. Meu mundo é tão triste e vazio. Escrevo e escrevo, por horas, às vezes por dias, para tentar compreender o que sou, o que fui, o que serei. Talvez nada. Ou tudo não seja nada mais que um único ponto, que dá fim ao mundo. Se fosse fácil achar respostas… Mas há problemas insolúveis, que procurar respostas para eles acaba por se tornar um castigo se Sísifo. Ou como no ensaio de Camus, a sua filosofia do absurdo: a busca fútil de sentido, unidade e clareza no rosto de um mundo ininteligível desprovido de Deus. Isso exige o suicídio? Hoje tendo para a resposta da revolta. O homem revoltado, dentro do seu meio, de seu habitat insuportável, da sociedade que o repele, a revolta é fugir para dentro de mim. Para a voz que me sibila respostas que não posso encontrar. Não sozinho. É impossível  reduzir o mundo a um raciocínio lógico e razoável. Como é impossível reduzir o que trago em mim. O infinito, meu universo interior, que me alimenta de histórias, posso viver o absurdo, e sem o homem o absurdo inexiste. É o que impede o suicídio. E é um desafio  escrever esta palavra, para muitos, repulsiva, mas tenho de definir tudo que me é interno. E esta possibilidade já me foi muito clara. Embora tenha descoberto como morrer é difícil. Não há caminhos fáceis e indolores. Nem tudo é permitido, Camus, nem tudo é permitido.  Sei que é tudo tão confuso e nebuloso. Como diria o filósofo: “se o mundo fosse claro a arte não existiria”. Mas nem a mim consigo compreender, nem a esta voz que me conduz nesta dança sem fim da realidade. Tudo me parece obscuro e ininteligível. Como uma língua que não compreendo. Há um idioma que não me foi ensinado, seu nome: felicidade.  Sou o que compreende apenas a tristeza, e não sei ser feliz. Não me ocorre como  seria caso encontrasse a alegria, a verdade de todas as minhas dúvidas. Far-me-ia mal como água nos pulmões de um afogado. Asfixiar-me-ia. Não posso viver se não a sombra da melancolia. Minha verdadeira natureza. Desse ser físico, que não consegue nadar nos mares da alegria. Deve-se aprender nadar, ou então manter os pés fixos no solo da melancolia. As vagas resvalam em meus pés, e tenho vislumbres de felicidade. Mas logo me vem a realidade com suas feições monstruosas e me desperta do transe da alegria. Não há esperança, e sem sentido, a vida não tem valores. Nada mais me traz importância, nem mesmo a voz dentro de mim que às vezes me consola, outras tripudia sobre meu desespero.  Na verdade não é o mundo que é absurdo, sou eu, sou eu que teimo em buscar razões para a irracionalidade. Não há respostas prontas. Nem caminhos perfeitos, mas deve-se seguir com cuidado mesmo em terra firme. Não se está sempre a salvo. Ainda bem que trago em mim a fuga racional do absurdo. Ou o absurdo da fuga racional. “O essencial é invisível aos olhos”. Deveria ser assim.

 

Categorias: Uncategorized | Tags: | Deixe um comentário

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: