Arquivo do mês: janeiro 2010

Ensaio sobre o Monte Olimpo

Giordana Medeiros

1.Martha

A noite cai lenta sobre nós. Somos muitos nesse apartamento, perdidos num cubículo em trevas. Tateando as paredes como loucos em busca de uma saída para este labirinto. Eu me envolvo nessa aura de desespero, e mantenho fixos meus pés no chão. Sou a que idolatra a razão. E me mantenho lúcida mesmo que o desespero se aproxime. Mantenho em ordem neste recinto, lavo os pratos, limpo os cinzeiros. Varro a sala e arrumo os quartos. Em um deles Rodrigo se mantém ausente do grupo, se exila frente ao computador, conecta-se com o mundo e desconecta-se da vida. Eu quero pensar que este cárcere que nos impomos é temporário, que poderemos sair ilesos, mas a cada dia um pedaço de mim é arrancado. Sou Prometeu acorrentado, e meu fígado é dilacerado pelos abutres porque conferi o fogo à humanidade. Eu conferi a luz. Sou a razão. Atenas então. Seco os pratos devagar enquanto os demais tentam se encontrar. Eu me encontrei. Nos livros que leio, nas cartas que escrevo e recebo. Sou o alicerce deles. Eu sei. Eles sabem. E todos sabemos como é horrível, duro e inapelável viver.  Mas sobrevivemos e adaptamo-nos. Sei que Luana tem medo e por isso se esconde nas estrelas que observa.  O infinito lhe completa. Ela quer o universo e não consegue compreender que estamos todos presos. Ela está presa a mim e aos outros. E mesmo em silêncio sei que sofre, quando observa as estrelas no universo infinito e na Terra tudo a limita. Limpo a lente da luneta para que ela observe melhor o que lhe é exterior, mas o interno é-lhe totalmente desconhecido. Ela bebe vinho e conversa sobre constelações, via lácteas, uma infinidade de galáxias. E todos concordamos em respeitar seus sonhos. Mesmo que seja clara a desconexão com o mundo. “Estamos presos. Eu, você e os outros”. Foi o que lhe disse Moisés. Ela mordeu os lábios e fechou os olhos para o real. É talvez a mais insana de nós. É que sua esperança é tão grande que a afasta do mundo. Eu tenho a lucidez de perceber o assoalho riscado e que estão todos loucos. Rodrigo, Luana, Moisés, Fabrício, Cecília, Adélia, Julius, todos perderam a razão e dependem de mim. Sou eu que cozinho e limpo. Eles são os sonhadores, Julius é aquele que escreve histórias. E conhece todos os escritores. Ele se prende ao manuscrito que escreveu e lê passagens que considera geniais de sua obra. Mas ele sabe, todos sabem que ele não é genial.  Sirvo o café amargo para Moisés enquanto ele fuma e conversa sobre as questões políticas do país. No sofá Cecília acaricia os cabelos de Fabrício, Adélia borda, ela que fia a linha da vida. Parca de nossa existência.  É Clotos. Eu desvendo as almas de todos. Sou eu que confiro a parte que cabe a cada alma, sou Láchesis, mas quem será Átropos?  Quem tem nas mãos a tesoura para dar cabo de nossa existência mesquinha e sem sentido?  Tenho a firme impressão que não posso viver de minha tristeza. Eles também não podem, também não podemos viver de nossas alegrias. Nem do que apenas se sucede. De que então viveremos? Das estrelas de Luana? Do exílio de Rodrigo? Do amor de Cecília e Fabrício? Da política de Moisés? Dos livros de Julius? Ou apenas do silêncio profundo de Adélia, que se detém apenas a bordar e bordar? Eles são tolos sonhadores. Eu não posso deixar que se percam por isso lhes dou o norte. Eles não me agradecem, mas sei que necessitam de mim. Não lhes falto. Sento na poltrona e vigio Cecília e Fabrício. Enquanto isso Julius novamente relê um de seus contos, enquanto isso fuma um cigarro, derruba a cinza no chão. Levanto-me e pego o cinzeiro. Sou eu que conservo a limpeza.  Pois a casa é minha também. Eu vivo aqui, nesse apartamento, onde divido a minha vida com sete conhecidos que me são totalmente desconhecidos. Oito estranhos. E conversamos como se falássemos a nós mesmos. Ninguém escuta, mas falamos. E falar é como extrair um dente. Pois o que temos dentro de nós está encravado na carne.

2.Julius

Minha vida foi dedicada aos livros. Leio muito, crio histórias. E elas são na verdade minha própria vida. Escrevo a maior parte do tempo sobre mim. E sei que o que tenho dentro de mim é real aos outros, nos parecemos em todos os sentidos. Acabo escrevendo para contar aos demais o que se passa em nós, porque assim posso talvez me compreender. Acabo escrevendo para não gritar. E tudo em mim é esta história sem fim. Um livro em branco que se escreve com sangue. “Há tanto sangue em meu derramado coração”. É por isso que escrevo. Mesmo que tenha a firme convicção que acabo por não agradar a meus sete ouvintes. Mas quero que me escutem. Preciso ser ouvido. Por que sei que não existo. Sou o espectro pensante que passeia pelo apartamento. Por favor, me escutem que quero ser ouvido. Minha pena foi carregar esta dor dentro de mim. E serei crucificado pelos meus irmãos. “Pai afasta de mim este cálice. Mas seja feita a Tua vontade e não a minha.” Estou percorrendo a minha Via Crucis. Meu espírito flagelado excede-me e transborda. E assim nascem minhas histórias. Já tentei falar sobre isto aos outros. Mas estão todos perdidos. Não nos encontramos quando nos batemos por este apartamento. Martha que enxuga os pratos é geralmente a única que me escuta. Mas receio que não aprecie meu manuscrito. Mesmo assim ela me escuta. E eu preciso de ouvintes. Sinto-me só, nesse apartamento cheio de pessoas. É como se fossemos estranhos presos tentando nos compreender, sem conseguir desvendar nossos espíritos. Não nos conhecemos. Creio que todos sabem disso. Acendo um cigarro, isso me acalma. Estou desesperado, e ninguém me ouve. Sei que vou enlouquecer se não conseguirmos nos evadir desse apartamento. Talvez porque eu pense demais ou sonhe demais, o certo é que não distingo entre a realidade e o sonho, o sonho é a realidade que não existe (mas que escrevo para que exista), assim intercalo entre as coisas que não podemos tocar com as mãos, ou pisar com os pés, são estas coisas fluídas, belezas da imaginação, com as quais construo minhas obras. Este manuscrito em minha mão, com folhas amassadas que a ninguém interessa é minha trajetória de sonhos, que tempera a minha existência. Martha senta em minha frente com uma xícara fumegante de café em suas mãos, tento lhe falar sobre meu livro. Mas ela se esquiva de mim com a desculpa de pegar o cinzeiro. Minha realidade a todos afugenta. Não querem saber de mim. Nem de si próprios porque a si também desconhecem.  São estranhos a si próprios, eu talvez seja o único que se conheça, talvez o que apenas preserva sua sanidade. O único que conserva a lucidez nesse harém de loucos. Não posso vê-los se perderem ao desespero. Martha, com a vassoura nas mãos, varre, limpa, arruma porque talvez assim  preencha o vazio dentro de si. Ela também está perdida, e agarra-se a nós, como uma tábua de salvação. Não sei se sobreviveremos. Náufragos da sociedade. Os loucos justificam com lógica e coerência sua própria loucura, tenho dúvidas sobre a minha lucidez e a dos outros. Estamos presos, mas temos almas livres. E ela se evade de nós, alma liberta não retorna ao dono, ao mundo explora e ao corpo nunca mais volta. Ninguém conhece o outro, já dizia Pessoa, porque se conhecesse, conheceria o mais íntimo e metafísico inimigo. Por isso creio ser melhor sermos estranhos, pois somos perigosos, feras selvagens defendendo seu território, ainda que seja um apartamento minúsculo onde se batem oito pessoas, estranhas, mas conhecidas, loucas, mas racionais, sei com que gestos cada um se mostra, exceto Rodrigo que não se mostra. Todos os demais se mostram, e tentam ser aprovados, mas desaprovo cada um. Não creio neles como não creio em mim.  Meu Deus, quem sou eu? A quem assisto? Quantos sou? O que é este intervalo entre mim e mim? Estou tão confuso. Sei que todos me vêem e eu os vejo? Ou será que são apenas facetas de mim que não existem realmente? Criei outros eus encarregados de sofrer o que sofro. Sou Zeus e dei origem aos demais Deuses deste Monte Olimpo.

 3. Luana

 O universo é meu mundo. Tenho todo infinito para viver. Viajo nas galáxias que observo pela minha luneta. Há uma imensidade de mundos inóspitos para desvendar. Observar a translação dos planetas. O mundo em que vivo é-me desconhecido. Mas o universo que trago em mim me excede. Todos desconfiam que tenho medo. Mas não temo, não mais, que não estou na Terra. Sou constelação de estrelas. Sou a Via Láctea, saboreio o leite do universo. Não podem me prender nesse apartamento, pois sou o infinito que não se pode reter. Lembro que gostava de me banhar na lagoa próxima a casa da minha mãe durante a noite, pois fazia uma cuia com as mãos na lagoa que refletia as estrelas. Assim podia pensar que as tinha nas mãos. Eu sou a garota que fugiu do cárcere sem precisar, nem ao menos, cruzar a porta que o tranca. Sou cometa errante, não podem me deter. Minha história está disposta no céu, são as constelações em que vivo. Ora sou Andrômeda sacrificada em função da arrogância de Cassiopéia, minha constelação mãe. Sou a mais bela das princesas Etíopes. E fui salva por Perseu. Outra ora sou Berenice que cortou as madeixas que agora brilham no céu. Sou todas as constelações. Sou Hércules e seus doze trabalhos. Brilho sobre a Terra, não estou sujeita as dores terrenas, sou luz.  Doris Lessing já dizia: “Somos todos criaturas das estrelas e das suas forças, elas nos fazem , nós as fazemos, somos parte de uma coreografia que de modo nenhum, nunca podemos pensar em nos separar”. E o universo dança ao nosso redor, tudo está em movimento. Nada está encarcerado como esses oito animais ferozes trancados num apartamento, temendo sair e enfrentar a realidade tão assustadora. Sou talvez aquela que conserva a razão. Pois vivo para as estrelas e não sou como os demais. Como Rodrigo que se conecta ao mundo estando totalmente desconectado dele. Ou Martha que tem necessidade de conservar a casa limpa e tudo numa ordem que não existe. O universo é o caos, ela nunca se dará conta disso. Julius escreve histórias e se perde dentro delas. Cecília vive para Fabrício e Fabrício para Cecília. Moisés e sua política utópica, de uma sociedade perfeita que jamais se concretizará. Ele é puro, a política, um mar de lama. Se ele tiver estômago terá de afundar nessas águas pútridas, sem se contaminar pela corrupção endêmica deste país. Adélia é a mais serena e estranha das mulheres, sempre bordando, talvez procure não se inserir na dança destes personagens. Por isso vivo para as estrelas.  Não há nódoa na luz pálida que me banha. Mesmo que Erídano banhe o céu com sua luz, as águas que circundam Hades não corrompem universo. Artemis matou o seu amado e colocou-o entre as estrelas mais brilhantes. É onde viverei, entre Órion e Sírius, pois quero viver o amor destruído, a dor da separação, o desespero da amante. E Apólo que tanto brilha pelas manhãs em que guia seu carro para trazer luz à humanidade, não mais cerceará o amor que trago em mim. Sou Artemis deusa da lua, da magia, da caça e vida selvagem e trago comigo meu arco com o qual jamais errei o alvo. Sou a mais pura e casta das Deusas. E me banho nas águas das fontes cristalinas. Sou a lua que ilumina a noite. O avesso de mim é Apolo. É ele que impressiona pela beleza e que se esconde durante a noite, no quarto conectando-se ao universo e abandonando-nos neste apartamento em penumbra onde nos batemos como loucos. Martha novamente vem limpar a lente de minha luneta.  Ela me abraça, procurando forças que não posso conceder-lhe. Esperança não há. Todos sabemos disso.

4. Rodrigo

Vivo em conexão com o mundo, pois mesmo preso não quero perder a ligação com a sociedade. Eu que lhes confiro luz. Sou Apólo. Em todas as manhãs ilumino o dia sobre meu carro dourado. Mesmo preso neste apartamento, não sou como os outros e não me misturo a eles. Não quero atravessar o liame entre a razão e a loucura. Os demais o fizeram. Batem-se por este apartamento, eu me conservo são neste quarto. E quando saio deste, é dia claro. Para observar a decadência moral dos que habitam comigo. São loucos. Deuses loucos, neste Olimpo inventado.  A exclusão que me impus, desta vida, desta realidade, esta ruptura que procurei, do meu contato com as coisas, e com estes que dividem a existência comigo, levou-me precisamente àquilo que procurava fugir. Eu não queria sentir a vida, nem tocar as coisas e pessoas, pois temia o contágio do mundo, e sabia da sensação dolorosa da vida. Mas para evitar este contato, isolei-me, e isolando-me, exacerbei a minha sensibilidade já excessiva. Coisas que não deveriam doer, me ferem como uma catástrofe. Confesso que errei no modo de fuga… Eu sei. E quando apareço os outros tentam me puxar para o convívio com o grupo. Não posso viver entre eles. Não sou como eles. “Meus hábitos são da solidão, que não dos homens.” Cito Pessoa.  O isolamento me esculpiu. Era rocha, ele foi o artista. Ele me talhou à sua imagem. E disso não posso fugir. Não sou afeito à vida social. Aliás, me aborrece sobremaneira, ouvir as dores dos demais. Não consigo ouvir Julius ler seu manuscrito amassado de imagens literárias de sua própria figura. Ou ver Martha limpar este apartamento, tentando impor ordem ao caos do cárcere. Por isso fico horas em frente ao computador, com meus amigos virtuais, que não são sólidos, são apenas seres de nicknames engraçados, que não sofrem. E me mantêm ligado ao mundo. Não sou como os outros que se batem neste apartamento. Sou talvez o mais lúcido dos que aqui se encontram. Sozinho sou capaz de criar respostas rápidas, de ser agradável e divertido. Mas tudo isto some quando estou perante a um outrem físico. Perco a inteligência. Somente meus amigos virtuais têm idéia de como sou realmente. Aqueles que convivem comigo desconhecem como sou belo. E vêem somente meu corpo físico.  Não têm idéia de quão belo posso ser. Na ponta dos meus dedos está a saída para a felicidade. A abertura de um mundo novo, que se encontra na rede de computadores mundial. Converso em francês, inglês e creio que assim posso entender os homens. Minhas noites em frente à máquina, que já faz parte do que sou, tornam-me mais humano. Mas não sou humano, sou um deus, deus grego como me nomeio nas salas de bate papo, onde converso com outros deuses sobre nossa existência divina. Somos todos belos, divertidos e agradáveis. Mas acho que a saída de tudo é se habituar a não ter paixões e ambições, impulsos, desejos, nem esperanças, a vida é limitada. E na internet você pode ser tudo. O que sempre idealizou, não precisa ser real, você é a ficção da existência. Você não existe mais do que em poucos caracteres.  Assim lhe conhecem, mesmo que não conheçam. Do que lhe vale o ser físico? Nada mais desagradável que apresentar-se sem a armadura do computador frente aos outros. Pois se dão conta o quão frágil você é. Você não é mais o deus grego. Mas um ser humano fraco e mesquinho. Uma figura patética e desagradável, em acordo com a vida, mas em desacordo com si próprio. Eu não sou o que seus olhos lhe mostram. Sou aquilo que descrevi na internet. Sou aquele ser agradável que conheceu, que lhe fez rir sobremaneira. Veja em mim não o que os olhos lhe mostram, mas o que o sonho deseja.  “Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos.” Como diria Pessoa. Veja em mim o sonho que a realidade é crua demais.

5. Moisés

Está escuro aqui, fumo mais um cigarro. Tento informar aos demais sobre a política de nosso país. E todos me dizem que sou um utópico. Já li Thomas More, ele idealizava uma sociedade perfeita, como Platão em sua República. Mas tenho fé no povo o que posso fazer? Creio que a população em breve tomará consciência de como deve se portar politicamente. Sonho com um país de governo honesto que irá proporcionar o verdadeiro crescimento de nossa economia.  Flutuo sobre este mar de lama que inunda nosso Estado. Sou Poseidon e comando os mares. Com meu tridente em punho ordeno maremotos, sou vingativo e instável. Temem-me os navegantes e oram a mim quando vão se aventurar em meus domínios. No Olimpo sou o irmão mais velho de Zeus. Julius, que adora a escrita, já eu idolatro a oratória. Sou um ser político. E minhas palavras são pela igualdade (ideal francês inalcançável), fraternidade (há como ser fraterno num país tão perigoso?) e liberdade (não de comércio como queria os liberais, mas de condutas, como quer a sociedade). Sou um ser de mente instável e liberta, as marés dirigem os meus dias. E as correntes marinhas me guiam, não tenho morada. Vivo em cada praia que os meus mares banham. Entre as vagas que molham meus pés, que resvalam eternamente em minhas mãos. Sou o oceano tempestuoso e o homem tenta me domar inutilmente. O homem e o mar. Relação de conflitos, como a política, onde as massas são domadas pelos políticos inescrupulosos. E vez ou outra está em voga mais um caso de corrupção. A relação de prestígio do governante eleito é totalmente demolida, para nascer um desprezo sem tamanho. Mas o povo esquece, dez anos no máximo, lá está de volta o político que se apropriou deslavadamente do dinheiro público. Dinheiro dos nossos impostos. E o povo perdoa. Uma população que se apieda frente a promessas de mudança. Mas na política não há calmaria como nos oceanos. Há apenas mares revoltos. Tempestades mortais. E novamente a tentação de ter tudo nas mãos, o dinheiro de todo um país, fará novamente o político se corromper. Corrupto eras, corrupto serás. Não há como mudar isso. Eu pretendo manter-me puro frente a tanta maledicência. Não vou me entregar à lama que inunda o governo. Serei o único a restar sem nódoas no espírito.  Sei que é impossível alcançar a perfeição. Não serei nunca perfeito, porque o repugnaria. O perfeito é desumano. Sou homem, sou carne, sangro. Sou, portanto, o retrato da imperfeição. Mas terei o currículo limpo, caso chegue a comandar algum Estado, ou mesmo criar normas que guiarão a conduta do povo. Sou probo, e me esmero quando se trata de ser honesto. Minha paixão não é o poder, mas alcançar um Estado onde todos os seus habitantes estejam satisfeitos com seu governo. Um Estado em que os mares vivam em calmaria, não esta tempestuosa política nacional, em que de tempos em tempos surge um novo escândalo envolvendo políticos e corrupção. Mensalões que intitulam nossos jornais, declarações vergonhosas, onde justificativas que seriam trágicas caso não fossem cômicas, nos envergonham de sermos brasileiros. Não vou entregar o pão pronto para o consumo, mas vou proporcionar o emprego, a educação necessários para o cidadão (verdadeiramente) poder comprá-los com o dinheiro do seu suor.  As crianças terão escolas públicas de qualidade, segurança para poder andar nas ruas sem preocupar-se com a violência (que é fruto da desigualdade social gritante em nosso país), saúde como requer um verdadeiro estado social. E a democracia, fruto da luta de toda uma geração, o poder se pronunciar sem temer represálias, será a carta de ordem de nossa sociedade. É isso que pretendo proporcionar quando conseguir domar o único mar que foge aos meus domínios: o mar de lama da política nacional. Martha me serve um café quente enquanto converso com Cecília e Fabrício. Fabrício se exalta, Cecília acaricia-lhe os cabelos. O amor os une, mesmo que sejam tão diferentes um do outro.

6.Cecília

Sou a mais bela dentre as deusas deste Olimpo, sou Afrodite, deusa da beleza de do amor. E apaixonei-me por Ares, Fabrício, que tenho no meu colo. Sou casada, mas espero que este, o qual acaricio, desconheça este fato. E minha vida é dedicada a esta ilusão que é o amor. Desconheço as fronteira de minha alma, mas com Fabrício estou pronta a explorá-la. Eu não sei se sou eu realmente, por que não me conheço. “Amar é cansar-se de ser só.” É minha covardia de ser como Luana, que ama as estrelas, ou como Julius que ama a escrita, ou como Moisés que se dedica a política ou pior, como Martha que não ama a ninguém e nada; ou ainda como Adélia que borda exaustivamente, sem pronunciar qualquer palavra.  É esta que mais incógnitas traz consigo, portanto, dentre os loucos desse apartamento é a ela que mais temo. A arte de Julius me comove. Mesmo que não seja tão genial como ele o prega. A arte consiste em fazer os outros sentir o que sentimos. Eu me identifico com o que ele escreve. É como se fosse escrito por mim, aquilo o que ele denuncia. E vejo em suas obras a tristeza de ser para sempre só. Mas eu tenho Fabrício, e sua paixão belicosa, a guerra de amar um homem cuja alma ferida de dor (ele que era um órfão) nunca soube o que é a maternidade. Sinto-me responsável por ele, creio que ele procura em mim a base que ele nunca teve. Moisés, conversa conosco sobre suas idéias políticas, Fabrício se exalta. Por que não podem simplesmente concordarem? Eu não tento fazer de mim a resposta para tudo, mas Moisés prega como se fosse o messias da política nacional. Não acredito que seja tão probo como o prega. Martha abraça Luana em busca de respostas que ela não tem. Nenhum de nós temos. Estamos tal qual loucos se batendo e se ferindo. Como se todos tivéssemos espinhos, não há como conversar sem ferir um pouco. Somos assim, a convivência é letal. Julius é um artista. Sei que a arte é uma maneira de esquivar-se de agir ou viver. Difere da vida. Enquanto a arte é a emoção intelectualizada a vida é a emoção volitiva. Que nasce da vontade, do desejo, da dor, da tristeza. A arte é uma maneira de fingir que não sente a dor que transcreve. Mas todos sabem que é o artista que sofre. Não há como se esquivar de transcrever em palavras a dor que sente. É como se na arte pudéssemos ser tudo que quiséssemos, ousar tudo aquilo que não ousamos, ter aquilo que não temos, e talvez jamais possuiremos. A arte é a fuga do espírito que excede o corpo.  Eu procuro conhecer e desvendar Fabrício esta é minha arte e minha ciência oculta. Digo-lhes: esta é uma tarefa mais árdua que um dos doze trabalhos de Hércules ou um enigma mais obscuro que o da Esfinge. Fabrício é dócil quando sabemos entendê-lo fora isso é arisco como uma fera acuada. E deve-se saber como tratar com ele. Sei que agora ele tem por mim grande amor, e isto é uma imensa responsabilidade para mim. Não quero decepcioná-lo, mas quero que me veja tal qual eu sou. Queria dizer-lhe sem que isso lhe ferisse: “não deposite em mim grandes esperanças. Tenho um marido, Hefesto, que desconhece nosso romance.” Não sou uma deusa caridosa, ao contrário, sou arrogante e mesquinha. O amor é egoísta, vai sabê-lo. A beleza nos torna um tanto envaidecidos de nós mesmos. Sou bela, sou o amor. Compreendam-me ou não, vocês vão se sentir dependentes de mim. O amor vicia, e sei que Fabrício está enamorado de mim como de uma droga. Estou aqui para satisfazê-lo. É meu e eu sou sua. Ares e Afrodite, o amor e a guerra que se unem. Porque amar é lutar contra um sentimento que lhe aprisiona. Talvez por isso suportemos estar juntos nesse cárcere, com estes estranhos que nos intimidam, cada um com sua idiossincrasia. E acima de tudo vemos o mundo deste Monte Olimpo. E em nada interferimos, apesar dos pobres mortais crerem em nossa intromissão. Somos apenas humanos, como vocês. Parvos humanos, desorientados, numa prisão auto-imposta. Quem nos conferirá a chave desta cela? Como poderemos fugir desta situação? Quero Fabrício junto a mim, mas me desfaço dos demais.  Como me desfiz de Hefesto, meu marido. Que se percam no mundo. Só lhes tenho simpatia. Mas o amor de minha vida é Ares, e nas batalhas estarei ao lado de meu amante.  “Mas também não é tudo assim escuridão e morte”. Já diria Hilda Hilst. Há dias claros, como a manhã que nasce. Difícil conciliar a manhã de fora com a treva de dentro. Mas devo fazê-lo. Abrir os olhos para Apolo em sua carruagem dourada.

7. Fabrício

Sinto-me estranhamente confortável no colo de Cecília. Amo-a é certo. Mas temo este amor que faz de mim prisioneiro. Não quero ser frágil. Não o posso que sempre tive de ser forte. Não tive pai ou mãe, fui criado pela vida. Tive de me fazer forte para enfrentar todas as guerras. Os ferimentos pelo meu corpo traduzem minha vida belicosa. Tive de matar um dragão a cada dia. Alimentar-me já me era uma batalha. Fui pobre toda minha vida. E tive de muito lutar para sobreviver. Creio que o que vivi não foi sofrimento. Por que mesmo que seja profunda a dor, não deve ser considerada mais que uma dor que temos. Sei que quando a sentimos nos parece infinita. Mas não há dor infinita, como não há ser humano infinito. Somos seres limitados e a dor também tem seus limites. É tudo uma questão de perspectiva. A dor do parto pode parecer imensa, mas logo que nasce a criança, a mulher não se lembra mais das contrações por que passou. As batalhas que venho enfrentando, apesar de parecem colossais, não são infinitas. São limitadas, e, após transposto cada obstáculo, estou pronto para mais um embate. Moisés tenta me fazer crer em seu “mundo perfeito” na sua Utopia, mas lhe desperto para a realidade do mundo. Eu sei o que o mundo realmente é. O que os demais nesse apartamento nem imaginam. São todos bem nascidos, tiveram quem os alimentasse e abrigasse. Tenho pena de suas idéias mesquinhas, de sua arrogância velada de serem bem providos enquanto, para mim a realidade mostra suas verdadeiras feições. Sou o desespero humano. Sou Ares o deus da guerra, Afrodite, que na verdade é casada com Hefesto, é minha grande paixão. Cecília pensa que não conheço seu segredo. Sei que fora deste apartamento conserva seu marido Hefesto, o deus do fogo. Mas de nossa relação, haverá de nascer Eros o mais jovem dos deuses, que despertará o amor nos homens com suas flechas, e aqueles que travarão guerras ao meu lado, Fobos e Deimos, o medo e o pavor. Não seremos uma família, que Cecília não abandonará jamais Hefesto, mas meus filhos hão de assolar este mundo, com o vício do amor ou com o temor que assombra os corações. Pavor, que é o mais próximo do desespero, minará a confiança dos homens. O medo, é um sentimento mais presente, a tudo tememos. O medo de nos vermos sós por toda vida. O medo de jamais conseguir ser o que se quer. O medo de errar, sempre presente em nossas escolhas. Medo e Pavor meus filhos mais queridos. Já Eros, vai enlouquecer os homens. O amor que é a renúncia de sua própria solidão. A solidão que não pesa em absoluto na juventude, vai maltratar nossos corações com o caminhar dos anos. Ver-se só é o pior pesadelo. De repente nos vemos sós, e esta é a visão mais abominável. Eu o sei que sempre fui só. Não tinha a quem amar nem como ser amado. Cecília mostrou-me a doçura do amor. Não sei como desfazer-me mais dele. Sei que as dores do coração não devem doer mais que as dores do corpo. Sei que não há sensação mais angustiante que possa doer mais que o amor, o ciúme  e a saudade, que possa sufocar mais que o pavor, que possa transmutar o homem como a cólera e a ambição. Mas não a dor que se compare a dor física. Aquela que não temos como controlar, que as lágrimas não curam (chorar por um amor é a ação mais digna a fazermos quando este estiver perdido), a dor física como a do parto, não dilacera o espírito, mas é quase insuportável para o corpo. Não menosprezo as dores do espírito, mas não há dor comparável a que o corpo físico nos proporciona. Sou Ares e estou entre os deuses deste Olimpo. Sei que os homens nos pedem tudo, mas não reconhecem que por eles já fizemos muito, como conceder-lhes o dom de sonhar. Eu que sempre fui órfão, nunca tive tal privilégio, sonhar não é para aqueles que têm de lutar pela vida. Sonhos, ainda que sejam impossíveis, são uma dádiva, é um dom que os deuses concedem aos humanos e que a aqueles não é concedido. Calo-me sobre o colo de Cecília, que me acaricia os cabelos. Em mim, o temor do abandono. Será que ela me ama mais que a Hefesto?

8.Adélia

Estou muito entretida com meu bordado para atentar para as pequenas guerras que se debelam neste cárcere. Dizem-me que sou Hera, mas não sou nem ao menos casada com Julius que se nomeia Zeus. Nem sou ciumenta, não me afeiçôo a ninguém, não sou como Martha que a todos abraça e afaga. Não me envolvo em devaneios como Julius ou mesmo Luana. Luana quer o infinito, Julius compreender o que lhe excede. Não me entrego a tais ilusões. Sou muito prática. Quero dar um ponto final a esta novela, abrindo a esta porta que nos encarcera para que todos possamos seguir as nossas vidas. Não compreendem que nós, humanos que somos, nunca nos realizamos. Não somos deuses e nem ao menos estamos presos neste Olimpo. Somos na realidade parte do manuscrito de Julius, que afirma ter nos criado, pois é real. Sou a que em silêncio ouve tudo a sua volta.  Tenho a percepção que somos meros personagens, Julius, o escritor que se intitula Zeus, é na verdade quem deu origem a esta novela. É hora de terminar este teatro, que se apresentem os atores, para o aplauso ou mesmo para a vaia. Reconheçam-se meros personagens do devaneio de um escritor. Em cena as facetas de um único homem, ele na verdade é um pouco de todos nós. Cada um dos deuses do Olimpo apresenta uma fraqueza humana. Julius tem todas. E a loucura de cada um é parte da insanidade de um só. Julius está sozinho nesse apartamento. Com seu manuscrito na mão, tentando evadir de sua realidade.  Sente os pés no chão, a barba por fazer e os olhos fixos na janela onde um pombo arrulha compassado. Sonzinho neste recinto é a você que impôs esta prisão, Julius. Acorde de seu sonho. Porque sonhar não é permitido aos deuses. Somente se quiser afirmar-se humano. Desperte escritor e reconheça a mediocridade de sua obra que mesmo assim lhe ultrapassa. É um ser mesquinho sentado na poltrona, com o cigarro numa mão, e as folhas amassadas do seu manuscrito na outra. Tentou criar alguém para compartilhar de sua dor. Nenhum de nós, a que concedeu deidade, existe realmente. Eu sou Hera e confesso minha inveja de não estar viva, como você, de não sentir as emoções que lhe afloram ao espírito. Só você pode ir até a cozinha, verificar o caos do apartamento, e que há muito tempo não se alimenta, e resolver tomar um banho (que também não ocorre com freqüência) para ir comer algo em algum lugar. Pode arrumar os livros na estante, desligar o computador sobre a mesa, tal qual faria Martha em sua racionalidade, e após o banho, trocar as roupas por algo limpo e seco. Agora envaidecido de si mesmo, de sua própria existência, coloca os sapatos, faz a barba e deixa o apartamento. Está livre pode ver? Saiu do exílio que se auto-impôs. Agora o sol fere-lhe os olhos. Apólo, em sua carruagem brilha sobre você. Prova da terra e voe, não aprendeu nada com Ícaro? Somente não tente tocar a carruagem de Apólo. Sente numa cafeteria e pede um expresso e algo para comer. E, pensando em suas criaturas, sorri de sua própria estupidez. Na verdade eram pedaços de sonhos, indivíduos imaginários, fruto do seu desespero, do seu temor. Não há prisão que lhe encarcere, pois em qualquer lugar em que estiver, sua mente se evadirá, como o faria Luana e seu universo infinito. Você, Julius, guarda o infinito em si.

“Para mim são iguais, deuses ou homens, na confusão prolixa do destino incerto. Desfilam-me neste quarto andar, incógnito, em sucessões de sonhos, e não mais para mim do que foram para os que acreditaram neles. Manipansos dos negros de olhos incertos e espantados, deuses-bicho dos selvagens de sertões emaranhados, símbolos figurados de egípicios, claras divindade gregas, hirtos deuses romanos, Mitra senhor do sol e da emoção, Jesus senhor da conseqüência e da caridade, critérios vários do mesmo Cristo, santos novos, deuses das novas vilas, todos desfilam, todos na marcha fúnebre (romaria ou enterro) do erro e da ilusão. Marcham todos, e atrás deles marcham, sombras vazias, os sonhos que, por serem sombras no chão, os piores sonhadores julgam que estão assentes sobre a terra – pobres conceitos sem alma nem figura, Liberdade, Humanidade, Felicidade, o Futuro Melhor, a Ciência Social, e arrastam-se na solidão da treva como folhas movidas um pouco para frente por uma cauda de manto régio que houvesse sido roubada por mendigos”.

     Fernando Pessoa In O livro do desassossego.

 

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A raposa e as uvas

 Giordana Medeiros

Sentou-se à beira do rio, como sempre fizera, para recolher o barro branco do seu leito. Barro com o que moldava suas bonecas, a casinha destas, o sonho destas, que apesar de belos, eram apenas barro.  E ela também era feita de barro, um barro sujo, que contrastava com a alvura de suas bonecas. O límpido sonho que lhe era tão grande que era necessário criá-lo de algum modo. Mesmo que tudo não passasse de barro que secava ao sol. Depois tão frágil que exigia a delicadeza do toque.  Com palha de milho fazia a cabeleira loira das bonecas. Ela, com seu cabelo negro pixaim, queria cabelos loiros, macios, que brilhavam ao sol. Os cabelos de Mariana. A filha da patroa, que tinha bonecas de louça, bonecas loiras de olhos azuis que lhe espelhavam, como se Mariana levasse outras Marianazinhas nas mãos. Bonecas francesas perfumadas, limpas e secas, de uma alvura glacial. Ela não podia ter bonecas assim, Mariana que disse: “afinal você é preta, deve ter bonecas pretas”. Mas as bonecas pretas não são princesas, são as filhas da empregada que têm de lavar a roupa, a louça e assistirem com olhos tristes as crianças loiras brincarem na piscina em que não podiam nadar, porque elas eram pretas. Mas ela podia nadar no rio, buscar pedrinhas coloridas lavadas pela água cristalina, que guardava numa caixinha que, para ela, era o seu baú do tesouro. Ela o escondia debaixo da sombra da mangueira, num buraco que cavou sob uma pedra. Lá estavam suas maiores riquezas dentro de uma lata de manteiga. Um dólar que o pai de Mariana lhe dera quando ele fora para os Estados Unidos e disse-lhe que esta era a moeda que circulava naquele país, que não passava de sonho. E ela sonhava com a Estátua da Liberdade, que dizia a todos naquela nação: “vocês são livres”. Ela não era. Sua mãe não o era. Pois jamais pisariam naquele solo, jamais ouviriam as pessoas enrolarem a língua daquele modo engraçado que fazia Mariana. Também havia na lata um broche de pérolas falsas, que sua avó lhe dera e ela nunca usara, porque não possuía roupas chiques em que se pode colocar o broche. Mas era uma boa lembrança daquele sorriso enrugado e sem dentes que a avó possuía. O cabelo branco, olhos bondosos e humildes, as mãos calejadas de quem muito trabalhara e pouco, mas muito pouco ganhara. Um mapa do Brasil, pequeno que recortara de uma revista, “um país imenso, cheio de riquezas, com um povo trabalhador e alegre” esse é o Brasil. O país em que nascera, e em que envelheceria e morreria. Um país de brancos e negros (como ela), índios e amarelos, mulatos, mamelucos e cafusos. Orgulho da bandeira de papel que ganhara na escola, do verde louro da sua flâmula. Era dela também? Ou somente da gente loura, com bonecas de louça?

Voltou-se para o rio, tinha de pegar o barro, com uma latinha enferrujada recolheu a massa úmida e áspera, com a qual faria seu mundo: o paraíso de barro. Poderia criar uma boneca a sua imagem, e conferir-lhe vida por um sopro. E eis que nasce uma boneca pálida de suas mãos, uma massa que ela enrola, puxa, amolda, e logo está pronta a mais perfeita boneca de barro que ela já fizera. “Você é tão linda”, disse num soluço, lágrimas abençoam sua criatura. Coloca a cabeleira de palha sobre a cabeça desta como se a coroasse rainha do seu reino de lama. Depois nascem cadeiras, camas, um menino jogando bola, uma cesta de frutas, potinhos de barro, que secam ao sol, para endurecerem e ela finalmente poder brincar de casinha. Mas somente fazer os brinquedos já era uma brincadeira, mal sabia Mariana como ela se divertia. “Do pó viestes, e ao pó retornarás”. Lembrava às suas criações mesmo sem nenhuma necessidade, talvez as bonecas já soubessem que seu destino estava nas mãos de sua criadora. E quando não mais lhe fossem agradáveis ela os destruiria, ceifando sua curta existência. Mas o mais fácil é que haveria barro suficiente para moldar novos mundos e novas brincadeiras. Gostava também de jogar bolinha de gude, aquela beleza vítrea como um milagre. Um suspiro que fica preso no mundo. E a luz que surge verde e azul quando passa através do vidro, do suspiro de um desejo nunca antes revelado? Mas Mariana não brincava de bolinha de gude que era jogo de moleque. Adorava passar horas penteando aquele cabelo loiro, frente ao espelho, como se desejasse que ele fotografasse sua imagem e congelasse-a para sempre: bela, jovem, bonita. Quem liga para Mariana? Jogava bolinha de gude sim, como brincava no rio e jogava bola. Mas detestava olhar-se no espelho que guarda uma verdade que não gostamos de ver. Olhava o céu límpido como os olhos de Mariana. E quando ela chorava, eles ficavam mais azuis e seu rosto guardava uma melancolia tão divina quanto o olhar daqueles santos na capela da fazenda. Sentia-se tão minúscula, uma pessoa de pele suja e olhar triste. Sempre empregada jamais princesa. “Uma negrinha estúpida” como dizia Mariana. Mas ela tinha seu reino de barro, suas princesas de cabelos de palha de milho. Suas criaturas que necessitavam dela, de seu toque, para serem criadas. Ela tinha seu mundo, com os livros de histórias que sua mãe pegava escondido, na biblioteca do casarão, para que ela lesse. Uma vez, até mesmo surpreendeu Mariana que fazia pouco das bolinhas de gude que trazia consigo, e ela insinuou que aquela fazia tal qual a raposa e as uvas. Afinal, quem desdenha quer comprar. Ela não era uma “negrinha estúpida”.

Enquanto brincava, a pele negra brilhava ao sol como uma uva roxa. E ela mesma poderia ser a uva a que Mariana desdenhava. Ela conhecia todos os insetos que havia na fazenda, todos os pássaros e os bichos da mata próxima. Coisas que Mariana nem suspeitava. Era livre, muito embora não o fosse como queria. Há as roupas a lavar, a casa a limpar. E na escola podia jogar futebol com os meninos sem o receio de sujar a roupa. Coisas que eram proibidas à menina rica de vestido de renda. Podia suar, podia gritar, tudo podia. Uma existência de animal livre, que não se restringe à etiqueta e reuniões chatíssimas regadas a chá. Nem mesmo às aulas enfadonhas de piano, latim e francês. Ela era a negrinha, a negrinha feliz que não tem rédeas, que pode lamber a bacia do bolo e correr como cavalo xucro pelo mato. E não havia cercas que a limitassem. Cerca de arame farpado corta, mas cicatriza. Há outros ferimentos que não cicatrizam jamais. E esses sãos os grilhões que lhe prendiam. O fato de ser somente a filha da empregada, de ter a pela escura, o cabelo ruim… Essa imagem que lhe apresentava o espelho a que tentava fugir, por ser pavoroso ser quem não se quer.  Ela tinha um mundo de barro, mas somente o barro estava ao seu alcance, não os dólares verdes dos americanos, os livros com histórias tão bonitas que ficavam adormecidos na biblioteca, as bonecas de louça com cabelos sedosos. Ah, esse mundo que ela desejava tanto, esse mundo tão bonito quanto um sonho, esse ela não podia ter. E Mariana era rica, já fora a Disneylândia, já viu neve, que deve ser como a pele macia e fria da menina de cabelos loiros. Mariana já se banhou no mar. E ela restrita aos portões da fazenda. Um mundo minúsculo para quem quer tanto. Ela queria desbravar oceanos. Ver o mundo que leu nos livros, livros ilícitos que tinha de pegar escondido. Livros a que Mariana rejeitava e ela tanto os queria. E tudo que ela tinha era tão pouco e feio. Bonecas de barro de olhos de pedra e cabelos de palha. Que horrendas criaturas! E sua ira destruía seus sonhos modelados, porque não eram caros, porque eram rudes, como seus pés acostumados a andarem descalços. E isso não a agradava. Nem a princesa de barro sobreviveu a sua raiva. Criadora e criatura aos pedaços. Aquela de joelhos lamentando sua sorte. Esta destruída, como uma estátua demolida, sorrindo um sorriso duro e seco, talvez de ironia ou de desespero. Mas Mariana sorria um sorriso branco e perfeito. Por isso que toda vez que ela mandava trazer-lhe água a “negrinha estúpida” cuspia no copo. Era uma maneira de se vingar das uvas que não poderia jamais colher.

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Vem comigo

Giordana Medeiros

Quero por perto as lembranças que tanto me inspiraram, as recordações de toda uma vida que me fortaleceram nestas tempestades, mares bravios que me sacodem a nau, e tentam me desviar do curso que escolhi. Quero você por perto também, segure minha mão, vem comigo nesta noite, cruzar este deserto que se estende para além do horizonte. Nessas noites pontilhadas de luz onde a brisa sibila árias em nossos ouvidos. Vamos correr o mundo com nossos corações, embalados pela música que as estrelas compuseram para nós. Vem, não há o que nos impeça, podemos nos tornar andarilhos vivendo do que o mundo nos oferece. O sol brilhará em nossos caminhos, a lua iluminará nossa viagem. Seguiremos felizes, cruzando fronteiras que não existem, pois somos livres e não pertencemos a nenhum país. Agora pegue minha mão porque quero seguir sonhando, não me desperte dessa ilusão. Pudera ser assim sempre, o sonho, a música, a luz. Vem comigo, não me abandone, pois temo que desperte do sono, a música silencie e a luz se apague. Não há limites aos sonhos, o que limita é a realidade. Ela que cerceia nossos horizontes, que enrijece nossos músculos, e percebemo-nos fracos, mas tão fracos… Somos tão fracos. E com você sou invencível, por isso temo que me abandone. Quero que se sinta como eu, o corpo leve que voa com o vento, como numa obra de Chagal. Nossas memórias são o combustível de nossa nau que segue a cruzar o rio, pois é um barco a vapor, e para isso fomos criados. A água do rio é límpida como nossas almas. Não há nódoa que nos macule, somos puros, tal qual índios, mansos selvagens. Ofereço minha mão, aceite-a e vem comigo. Escalar montanhas, dançar na chuva, secar nossos corpos ao sol. Meu caminho só existe com você. Siga comigo. Seja meu alicerce, sustente-me, que preciso de alguém que me dê forças. Em torno de mim só há discórdia. Não quero esta feia realidade. Recuso-me a aceitá-la. Há trevas onde vivo. Preciso do abrigo deste sonho, vem comigo. Nossas vidas podem ser como esta que imagino. Posso escrever toda nossa história, para dá-la mais veracidade. Mas não quero que se torne realidade, pois o real tem o poder de enfear o que é belo. O etéreo é nossa fortaleza. O que lhe oferece a vida que não lhe posso conceder no meu sonho?  Vem lhe convido a cruzar a mundo, lhe ofereço o infinito, o universo, estrelas distantes, planetas desertos. Onde possamos ser realmente felizes.

A mentira deste mundo, que é tão sólido e frio, não nos ameaça. Nosso sonho é o nosso refúgio, não me abandone. Pegue minha mão. E vamos nessa aventura que se mostra tão prazerosa e inofensiva. Minha solidão é tão terrível quanto temível. Minha doce amargura de ficar sob as luzes desta noite, esperando que me aceite. Escuto o sonho de olhos fechados. Se abrir-los verei que tudo desmoronou em realidade. Não quero isso, quero sua companhia nessa caminhada sem destino. Vem comigo, vamos para cidades interioranas e simples, onde galinhas ciscam o chão e acordamos com o cantar dos galos. Há um pomar de frutas frescas e a paz que circunda nossos espíritos. Podemos ir para o litoral, provar do mar e constatar o gosto deliciosamente salgado do infinito. O horizonte que se estende até onde não podemos mais enxergar. Mas sabemos que há algo e por isso continuamos. Pequenos pássaros voam sobre as ondas e retornam à praia, singelos, como devem ser os sonhos. E há toda esta solidão que me enche de amargura. Por isso insisto: vem comigo, as ondas resvalam em nossos pés, a espuma é branca, e a vida iluminada de ilusão, não esta cinza manhã de dezembro. Há tanto para mostrar-lhe, um mundo inteiro de novidades. E se vier, posso lhe apresentar este infinito que carrego em mim. Todas as direções que seguirmos findarão em felicidade. Eu nunca vou parar de amar você. Vem, nessa estrada sem nome, que termina em lugar algum. Mas mesmo assim chegaremos a algum lugar. Nem que seja na certeza de estarmos sempre juntos. Se formos de trem poderemos ver as paisagens correrem por nossas janelas, é a vida passando veloz por nós. A vida acontece tão rápido. Nunca nos damos conta disso. Mas quando estamos juntos o tempo passa arrastado, como se conseguíssemos mudar o curso das horas. Se não vier o que farei? Não posso estar sem você. Minha vida se resumiu durante estes anos a sua doce presença, seu sorriso mudo, sua beleza rara que me enfeitava o dia. Onde posso viver se não ao seu lado? Os sonhos são a imagem de nossos desejos. E tudo que desejo é estar com você, deixar-me estar nesses dias chuvosos de verão, observando a chuva bater nos telhados porque, com você ao meu lado, tudo me parece tão fantástico…

Vem, não há o que nos impeça, não há leis que nos proíbam, nem mesmo grades que nos prendam. Podemos cavalgar sobre unicórnios, e assistir ninfas dançarem sob a chuva, sentir o cheiro da relva molhada, que tanto lhe agradava. Minha mente pode nos levar a lugares exóticos, a selvas virgens e praias desertas. Segure minha mão que levarei você até onde possa nos levar a imaginação. E esta não tem limites ou regras. Tudo que quiser você terá. Não me deixe nessa dúvida, nessa dor de aguardar que se decida, que escolha a imagem do impossível e não o possível sólido que  existe, mas não lhe agrada como não agrada a mim. Vamos navegar os oceanos, conhecer continentes distantes, nestes mares verdes que se mostram tão revoltos. Mas para nós os mares são sempre mansos, calmaria de sonho, que para nós seria a verdade. A mentira de estar numa vida paralela, que nos liberta ao contrário da verdade que nos aprisiona. Um mundo que nesse universo sem fim é tão pequeno. O universo se expande como nossas mentes. Não vê que nada mais nos cerceia? Há tantos lugares para ir, há tantas coisas para ver, vamos voar com as aves migratórias que cruzam continentes. Vamos provar das nuvens, vamos nadar nesse céu azul, que de tão azul poderia ser oceano também. Vamos correr juntos para encontrar o fim do arco-íris como fazem as crianças em sua ingênua esperança.  Há tanto a se fazer. Pode ver? Se vier, posso lhe dar o mundo, ou as constelações que enfeitam as noites.  Peço para que venha como outros não vieram. Mesmo que soubessem que não o suportaria. Mas nada do que disse ou diga pode mudar o que é, o que fomos, o que sou. Nada pode fazer que venha e embarque em meu sonho. Eu sou qualquer coisa pequena, rastejante e sem Deus, que caminha nesse breu a procura de qualquer gesto, um toque de mão humana devagar em minha face. Mas você não vem. Eu estou tão viva que qualquer outra coisa viva e próxima merece minha mão estendida. Por isso lhe ofereço esta mão que clama pela sua, minha mão que pede e oferece. Mas você não pode aceitá-la. Ou eu que não deveria estendê-la? Seus olhos da cor do mar, como alguém que por muito tempo ficou olhando detidamente o mar e lhe aprisionou na íris, um olhar verde, móvel, inquieto como as vagas que ora penetram ora levam. Vem comigo, por favor, que agora suplico, não me abandone, não posso estar sem você.

 Por mais que clame sua presença, sua companhia nesta longa jornada, sei que não virá. As noites não terão o brilho das estrelas nem o mar o verde vítreo dos seus olhos. E minha vida fica limitada a esta realidade cinza em que não voamos nem somos felizes. Nem alegres ao menos. Não estou triste, mas sempre que abraço minha loucura recomeço a chorar. Tudo estanca na letra da velha canção, you just call out my name, tudo era tão bonito e antigo para nós. Éramos nós. And you know wherever I am, gostava de tudo assim mesmo que meio pesado. Mas havia a beleza de seus olhos. I’ll come running to see you again, vacilando entre as emoções, como um ébrio que tropeça nas palavras, winter, spring, summer or fall, gostava de sua voz como se gosta do som das ondas resvalando eternamente nas pedras, all you have to do is call, ou do que ficou de si, and I’ll be there, mas agora no passado, you’ve got a friend.  Até que tudo poderia ser assim como numa história inventada e você ressurgisse na neblina e aceitasse a mão que lhe ofereci. E dissesse: “vem comigo que tenho tanto a lhe mostrar”. E me chamasse como há pouco tanto lhe chamei e apresentasse tudo com que a pouco sonhei, com toda magia que criei para lhe mostrar um mundo maravilhoso tal qual ele não é.  Mas você não virá, não é?  Tudo é agora como um trecho dos Fragmentos do discurso amoroso de Rolland Barthes. “Mas também às vezes a Noite é outra: sozinho, em postura de meditação (será talvez um papel que me atribuo?) penso calmamente no outro, como ele é: suspendo toda interpretação; o desejo continua a vibrar (a obscuridade é transluminosa), mas nada quero possuir; é a noite do sem proveito, do gasto sutil, invisível: estoy a escuras: eu estou lá sentado simples e calmamente no negro interior do amor.” Não importa mais o que existe e não existe. Nem mesmo as águas verdes de seus olhos, ou o vermelho rubi do sangue das feridas. As noites não lhe trazem nem o sol brilha em nossos caminhos. Há sombras sobre nós, as lágrimas regam as flores em nossos jardins. E estou cansada de ouvir a voz rouca de Billie Holiday: “I’m fool to want you, I’m fool to hold you”. Na verdade estou cansada de fazer tantos planos. Só queria que segurasse minha mão e viesse comigo, mas nada é como sonhamos, nunca é. Não era você, não é? Talvez fosse ou pudesse ter sido, ou poderia voltar a ser.  Isso teria, quem sabe, um gosto de mel e pudesse estancar finalmente o sangue destas feridas.  E tudo que quisera é que viesse comigo a lugar algum, mas que viesse comigo aonde não chegaríamos, mas que apenas viesse. Mas agora sou eu que espero que me diga: “-Vem”. Posso esperar uma eternidade…

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