Sempre ao meu lado

Giordana Medeiros

Uns dias são mais fáceis que outros. Mas há aqueles em que sou tomado de uma profunda angústia como se estivesse me afogando num mar de desespero…  Nesse vazio totalmente repleto de pessoas e palavras. Tento me exprimir de uma maneira mais clara, mas começo a pensar que não há quem entenda o que digo. Nessa noite quente de primavera, sinto-me como um náufrago, pois minha nau afundou nesse mar tormentoso da vida. E agora me agarro a qualquer coisa que flutue para não me perder. Não temo a morte. Na verdade é-me indiferente o risco dela. Não tenho medo do que me espera, só espero que venha logo. Numa dessas noites chuvosas, repletas de relâmpagos e sons. Prefiro noites assim, o silêncio me aflige. E quero que a música em mim transborde e exceda-me, não posso esconder em mim o que me é mais sincero. A verdade em mim é insuportável. Não me repreenda, pois apenas me confesso, não quero que me julgue, porque não o faço a você. É o único ao meu lado agora. Se pudesse ver tudo que vejo, se pudesse sentir o que sinto, como  se uma lâmina transpassasse o meu peito, e já não batesse em mim esse coração solitário e descrente. Coração selvagem, como um índio não civilizado, índio antropófago, que se alimenta de outros corações, mas no fim não resta ninguém. Somente o som compassado de sua música. Ela é a percussão de minha vida. E sei que, se pudesse, mesmo ele me abandonaria. Até mesmo você me abandonou, não é? Estou reaprendendo a andar, é difícil você sabe… Muitas vezes não conseguimos sustentar o peso de nossas faltas. É mais fácil aprender andar quando somos crianças, pois não carregamos o mundo sobre nós. Eu tenho vivido, continuo vivendo, mesmo que não veja o término desta pena. O sol nasce e nada acontece, deveria acontecer algo, eu sei, mas NADA, NADA MESMO, acontece. O dia prossegue tedioso, pesado, rotineiro. E sei que a vida ocorre fora de mim. Em mim somente esta dor, por que me sinto assim? Acho que me roubaram a esperança, não há como aguardar que esta me surpreenda numa noite chuvosa, como ocorria quando era criança. E você dizia que não deveria espantá-la porque ela trazia sorte. E suas palavras me enchiam de esperança. Como se estes insetozinhos verdes me cobrissem todo o corpo. Tinha muita sorte. Geralmente havia sorvete na sobremesa. Hoje não há sorvete que diminua minha dor. Tento fazer felizes os outros para tentar ser feliz também. Como se a felicidade deles fosse a semente da felicidade que não há em mim.

Eu não compreendo em que ponto errei o caminho, acho que não cheguei onde deveria chegar. E parece que me perco a cada passo e não me encontro.  Não mais… Você me dava o norte, agora sou um navio à deriva. Acredite, não sei retomar a direção de minha vida. No mundo quem não tem objetivos se perde, é um clichê, mas é a pura verdade. Não tenho mais sonhos, não quero nada mais que tenho hoje, e desisti de tudo que pretendia ser. Não sou nada. Ou pior que isso, menos que nada, sou a ínfima sub-partícula do átomo, mas mesmo ela já é algo e eu não existo. Pelo menos é o que as outras pessoas demonstram, é como não passasse de um espectro, mas não acredito neles também. Sou tão cético, que temo estar perdendo algo importante. Aqueles crédulos são tão felizes e conformados com sua sorte, e eu não posso me resignar a isso. Não posso! Se pudesse sorrir pelo simples fato de ver o nascer do sol. Se pudesse enxergar a alegria nas miudezas, nos fatos corriqueiros, mas isto é um dom que não possuo. Perdi a fé, e ao perder esta também se vai a esperança, e sem esperança a felicidade não vinga, como uma semente num solo infértil. Mas não há nem mesmo a semente, somente o solo ressequido onde nada nasce, solo arenoso, levado pelo vento, dunas que caminham ao sabor da brisa. Espero que possa me ouvir mais do que o fazia antes, e que não esteja incomodando-o com minhas aflições. Mas quero dizer isto, sem que me interrompa, tal qual o fazia antes. Eu queria ser especial, um único instante me sentir especial e não apenas este mísero ser que sou. Um entre uma multidão, sem nenhuma importância, cuja falta não se sente. Mas mesmo quando deveria ser importante fui anulado, como o livro abandonado, cuja leitura, mesmo que profícua, não desperta qualquer interesse. Eu sou assim, desinteressante e monótono. Sei que você já sabe disso, sempre me ignorou mesmo quando estava presente. E para você era somente mais um prato na mesa, um assento ocupado na sala de jantar, nunca pudemos conversar mais que conversamos agora. Você jamais me deu oportunidade. Nunca se preocupou com meu desespero. Eu tinha tanto medo. E, quando pequeno, você me contava histórias tão belas, fábulas, que me inspiraram a escrever, porque também eu queria contar histórias. Queria agradecer por isso: obrigado. Queria agradecer por você ter me amado, mesmo que de um jeito bem estranho e distante. Eu sempre quis dizer quando me ignorava, que eu estava ali, sempre ao seu lado, e que mesmo que não quisesse me ouvir, minhas palavras só diriam: amo você. E queria que soubesse disso. Não queria que você me deixasse sem que pudesse dizer esta frase que me sufocou durante todos estes anos. Agora ela sai em meio a lágrimas e como um soluço de tristeza e mágoa. Poderia ter sido diferente, mas nunca me deu oportunidade. Porque não era como os outros, não era engraçado ou expansivo. Somente um rapaz tímido e desajeitado, que sempre derramava o suco sobre a mesa. Não era forte, sei que você tentou me fazer mais que este homem fraco e triste que me tornei. Você achava que somente era necessário nutrir-me, mas há ainda outras coisas. E são tantas as que me faltaram, mas não por sua culpa, ninguém tem culpa afinal. A vida é assim.  

Minhas lágrimas não lhe incomodam tanto quanto antes, você achava que não havia em minha vida razões para elas. E elas nasciam assim: sem razões, mas volumosas.  Eu chorava tanto, que lhe incomodava. Você não tinha tempo para me ouvir lamentar. Não queria ouvir meus dissabores, minhas dores. Então deixei de chorar e guardei dentro de mim esta dor. Não me fez muito bem, confesso. Mas não lhe constrangia em frente aos seus amigos, às pessoas que valia a pena ouvir. Eu então me calei e me escondi em mim. Nas minhas histórias internas que me faziam esquecer o mundo e o seu desprezo. Eu enxergava você, sabia o que lhe agradava, e mais que isso: o que lhe desagradava, mas nunca se preocupou comigo. Nunca soube de mim mais do que os outros lhe contavam. E nesses dias vim descobrindo em mim coisas que nem mesmo eu sabia. Sei que não posso amar alguém, com o amor que se exige entre um homem e uma mulher. Não posso. Não sei, não consigo. Talvez por isso tenha me condenado à solidão eterna. Sem família ou amigos, não há quem vá lamentar minha morte. Não que não tenha me esforçado para me fazer agradável. É meu esforço diário, mas não há quem me ame, mais do que cordialmente, e preciso da paixão que não mais inflama em mim. Estou tão habituado a dor, que acho que desaprendi a amar. Não sei mais como amar alguém, nem me fazer querido. Talvez nunca o tenha sabido, pois mesmo você, nunca me deu mais que dois minutos de atenção. Não quero que isso lhe pese em absoluto, mas talvez se soubesse o quanto isso me feriu, pudesse compreender a razão de esperar um abraço seu ao lhe presentear com meu carinho. Não se recorda de todas as vezes que esperei você chegar para lhe dizer algo que ocorrera comigo? É o que faço nesse momento, mas agora você tem que me ouvir, pois não sairei daqui sem que me ouça. Tenho ainda tanto a contar-lhe, fruto de três décadas de desprezo. Estou cheio de histórias, cheio de dúvidas as quais queria que ouvisse, mesmo que não me responda nada, que não me diga mais o caminho que devo tomar, mas só quero estar aqui. E se a chuva desta véspera de Natal, permitir quero ficar por mais algumas horas, estou tão confortável, quanto quando me colocava em seus ombros nas longas caminhadas que fazíamos. Em silêncio, numa madrugada púrpura, me recordo de uma das raras ocasiões que falou comigo. Eu tinha fome, você me disse que haveria bolo para o café da manhã ao chegarmos em casa. Isso foi o mais próximo do “eu amo você” que eu pude ouvir de seus lábios. Mas já me era suficiente, eu só queria que ainda estivesse aqui pai, mas sei que mesmo que não possa mais lhe ouvir, você estará para sempre ao meu lado. Adeus, meu amigo.

 

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Uma opinião sobre “

  1. Mesmo pelo “peso” em palavras, não passa despercebido o verdadeiro afeto.

    Parabéns pelo texto.
    Um envolvente abraço pra você.
    Se cuida.
    :]

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