Arquivo do mês: novembro 2009

muro

Sob os Muros

Giordana Medeiros

Jogou a água no cimento que havia comprado, não tão caro como se poderia imaginar, para os propósitos que nunca teria deduzido, mas eram tão óbvios, que se admira que neles já não houvesse pensado. Era necessário misturar bem, pois seria ele que solidificaria seu exílio. Faria as pilastras de sua morada interior. Alicerces sólidos, que não seriam facilmente derrubados, não que houvesse alguém com este propósito, nunca há, mas era o único meio. Este que lhe ocorrera num dia cinza, onde não era possível iluminar as idéias. Pensava que talvez assim pudesse chegar a algum lugar. Só que, para chegar, é necessário mover-se e não criar raízes. O alicerce que finca no solo, é na verdade a mentira de um abrigo que não existe. Não há soluções simples. Somente dúvidas irresolúveis. Não há como se esconder. De alguma forma a vida lhe encontra. E sozinho a vida é muito mais penosa. Acredite, eu sei. Se você continuar nessa loucura pode ser pior, como se um dia cinza pudesse trazer as soluções de toda uma vida. Mesmo que esta também seja dolorosa como um adágio fúnebre. O violino geme, como se sofresse profundamente, o cello lamenta e o piano chora, com lágrimas musicais, cada mágoa que alimenta sua dor. É assim que as músicas lhe parecem, o sofrimento de quem as compôs transcrito em notas. Não deve ser assim? Como então? Não é assim que ele toma o primeiro tijolo que dará início a sua obra? As canções dizem mais do que parecem dizer. A vida não diz nada do que esperamos ouvir. E há o silêncio que inunda o recinto, que lhe absorve, sugando-lhe o espírito na sua ausência de som. O vácuo suga, a ausência absorve, o nada converte em nada o que está próximo e era alguma coisa. Não é nada então que lhe alimenta erigindo estes muros, colocando o cimento entre os tijolos de sua aflição? Quantos muros serão necessários erguer para cumprir seu objetivo? É isto que lhe guia? E se não for esta resposta por qual ansiava? Ficará preso no seu abrigo. Não haverá mais como sair dessa prisão que ergue dentro de si. Cada tijolo foi feito com sua dor, sofrimento que lhe concede agora uma saída. Mas a saída é não permitir mais saídas. É a cadeia de seus sentimentos que ergue, cada mágoa que lhe invadiu. Não foi sua culpa, mas se penaliza. Pois não há maneiras de se proteger que não seja se escondendo dentro de si. Aumenta estes muros, pois se vier mais uma vaga como impedirá que ela lhe leve? E as ondas que colidem contra os muros, tornam-se mais vorazes com o passar dos anos, por isso é necessário se defender com estas paredes de dor que lhe isolam do que é exterior.

Quem poderá demolir suas defesas? Estas paredes em torno do que é seu. Do que você é, e, na realidade, nunca foi. Pois você não é na verdade o que aparenta ser, mas ninguém se dá conta que você é outro.  E este outro é que está debaixo destes muros. E ninguém o vê. Sozinho neste recinto mórbido. O promontório de sua alma. Quem poderá enxergar o que você é, se você o escondeu em si? Esse seu esconderijo que não pode ser transposto porque você tem tanto, mas tanto medo, que se paralisa, e não deixa transparecer o que é mais verdadeiro em si. Ergue estes muros então. Altos para que ninguém lhe possa ver. Não é seu desejo? Não é isto que procura? Se não lhe vêem não há como lhe ferirem. Sua alma está demais flagelada, feridas profundas que não se curam, que lhe infligem a dor da sobrevivência. O mais fácil é morrer, mas morrer também é difícil. Pode acreditar, nada é tão fácil quanto parece. Há sempre algo que lhe impede, e os dias passam velozes convertendo-se em anos que não deveriam existir. Três décadas que a covardia lhe prende, estático diante do medo. E sua vida escorre entre seus dedos, não há como conter a existência. Existir é a dúvida do ser. E ser, não é nada mais que sofrer eternamente. Portanto, para que sua busca frenética por algo que lhe realize? Só deve saber como passar os dias, nessa corrida de um tempo que não é real e não pode ser contado em segundos, minutos, dias ou anos.  No seu esconderijo não há como observar a vida fora de si. Não fizeste janelas para ver o que ocorre lá fora. Então, não se dá conta que a vida que lhe é exterior continua sem você. E não sentem falta do que você queria ser. Nem do que você era e nunca foi. Ignoram sua ausência, pois não era importante, não sabem nem mesmo o que você foi. E nunca será o que deveria ter sido. Mas não há quem se preocupe agora com isso. Nesse seu exílio não quer que ninguém lhe veja. Este sempre foi seu intento, engole em seco o choro, por que lágrimas se a dor agora lhe é exterior? Compreende? Agora sabe que a dor na verdade sempre esteve dentro de si. Não há como extrair-la porque ela lhe é essencial agora. Nesta prisão, o que faria sem esta companheira de sua solidão? Dor que lhe esposou prematuramente, impedindo que, de outro modo, tivesse a vida por esposa. Agora lhe deve fidelidade e dela não pode fugir. Sabe que não há como lhe ser infiel, porque estão ligados, como gêmeos siameses, dividindo o mesmo corpo. Corações que batem coadunados, no mesmo ritmo, com o mesmo compasso, criam uma só sinfonia. E no compasso desta música vão-se os anos, embalados pela sonoridade de um silêncio que não deixa de ser música também. Mais alto, erija estes muros, espessos para que nem o som possa transpor-los. Assim tudo lhe será indiferente, pois em nada lhe afetará. É assim que deve ser? Cai a noite dentro de você, e nessa escuridão não há como distinguir o que sente. Mas penso que não deve se preocupar com isto, não há problema agora. Está sozinho, se quiser chorar, chore. Ninguém lhe verá. Soluce esta dor que tanto lhe aflige, esse sofrimento que lhe invade. Sei por que sofre.  E me compadeço de sua dor. Queria poder confortá-lo como espera, abraçar-lhe e dizer que há esperança. Mas não há. Não há.

Nada ocorre como esperamos, a esperança é uma fantasia que tentam nos fazer acreditar quando somos pequenos. E não há como se livrar dessas crenças, dessas histórias, dessas ilusões impostas aos homens para lhes fazer fáceis de manipular.  E você, com estes muros em volta, para impedir que outros se aproximem, para parar as vagas que invadem o que lhe é exterior. É assim que se protege de  vir a ser manipulado? Será que estes muros são sólidos? Ou são frágeis como castelos de areia que as ondas destroem no fim do dia ao sabor das marés? Todo tempo esteve compenetrado em seu intento, e nem se deu conta que pode estar a erigir castelos de areia. Como uma criança que pranteia a destruição de seu brinquedo, verá a água demolir estes muros que outrora lhe serviam como cela. É assim que aponta o destino, não há como fugir da ordem das coisas. Entre estas paredes que erigiu pode chorar, mas não poderá se esconder eternamente.  O vento não sopra em outra direção, as chuvas tendem a alcançar-lhe, e não fez um teto para sua prisão. Queria poder ver as estrelas, que flutuam como uma mentira no céu. Luzes que na verdade nem piscam mais, mas continuam brilhando, pois estão tão distante de nós, que seu brilho nos parece eterno. A vida é irremediável. Não há escolhas sem consequencias, terá de se acostumar com isto. Mesmo segregado do que entende por mundo, será alcançado por ele, pois o mundo, antes de tudo, lhe é interior. Se cerrar os olhos sentirá uma estranha sensação, pequena, misteriosa, alegre por que não? É como olhar para dentro. Para nos vermos, completos, mesmo sabendo que sempre nos faltará algo. A ausência de nossos espíritos nunca será preenchida, sobretudo no seu espírito onde tudo falta. E ainda assim sobra sofrimento. Amigo, que se esconde sob altos muros, erguidos com a dor de suas feridas, o cheiro de mar das ondas que chicoteiam as paredes, invade seus pulmões. Afoga-se em solidão, nessa sua cela, com a companhia da dor e das estrelas. A Cassiopéia, sobre você, lhe faz pensar que mesmo às estrelas, que se criaram na desordem do universo, o ser humano quer ordenar, e transforma estrelas, antes solitárias, em constelações que na verdade não existem. Cada estrela é única, você sabe. E sabe ainda que nada as prende, não pode impedir que brilhem sobre você. E nem mesmo deseja isto. Quer a chuva de estrelas sobre si. E elas derramam-se pálidas sobre sua pele. Incandescente pelo banho de luz, sob estes muros que você mesmo erigiu, acredita que algo é seu. Nem que seja este recinto de dor e solidão que lhe abriga, todavia lhe aprisiona.

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