Arquivo do mês: outubro 2009

O infinito em mim

Giordana Medeiros

Depois de minha ausência programada (não escrevia nada suficientemente bom para publicar). Senti que precisava escrever porque algo em mim estava me matando. Corroendo-me por dentro, como um buraco negro interior. Não tenho nada de excepcional para contar, na verdade, não sei como sobrevivi a mim estes últimos meses. Vim como um bêbado, tropeçando em palavras e silêncios. O silêncio é uma espécie de música também. E meus dias foram sonoros e longos. Não via a hora que me surgiria coragem de voltar a escrever. Para isso é necessário muita ousadia e meu desespero me acovardava, medo de não escrever suficientemente bem, de não saber exprimir o que se passa. Não como uma história, com vários personagens e um enredo fantástico. A maioria das vezes escrevo sobre mim, e o que se passa em minha alma. Não creio que a alma nos seja interior, ela é infinita e, como tal, não pode ser retida por nosso corpo diminuto e frágil. E na minha alma uma revolução se debelava. Sou comandada por duas facetas de mim que não se entendem e nem mesmo concordam. Parte de mim tenta me fazer acreditar que não há mais tempo, que tudo passou e o que me resta é resignar-me ao que possuo e cuidar que não perca isso também. A outra parte é minha faceta mais otimista, que persiste, persevera na esperança que ainda há meios. Nunca será muito tarde. O tempo é um obstáculo minúsculo para sua esperança. Não sei se creio no pessimismo de uma ou no ingênuo otimismo da outra. Às vezes fico tão confusa, entre estas faces, que se debelam a todo instante, que acabo ficando inerte de qualquer forma, e perco tanto o que tenho quanto aquilo que sonhava.  Por isso me reprimo, como posso confiar em mim se não compreendo ainda o que sou? E com essa balbúrdia infernal no meu espírito, como posso agir? Se me escondo sou mais impetuosa, se me vêem sou covarde e fraca. Uma astróloga, quando eu ainda era criança, disse-me que devido ter como signo Gêmeos e ascendente Libra, ficaria sempre nessa indecisão. Sou a união dos opostos astrais: o falante e aventureiro Gêmeos e o tímido e reprimido Libra. Alguém tem de achar um meio para estes dois se entenderem… Mas realmente, quem se preocupará com isso?  Há quem se importe com isso?

Se porventura se lembrarem de mim, nem que para me dizer quanto tempo estive reclusa em mim, procurem-me no interior do mais profundo abismo, no sibilar da brisa primaveril ou no brilho da estrela mais longínqua. Talvez esteja na calda fria e brilhante do cometa. Se me acharem, avisem-me, pois, por mais que me procure, não me acho. Eu acho. Minha faceta Libra se manifesta. E se me ouvirem no canto dos pássaros, gravem este som, que minha música é algo extremamente raro. Minha morada é o silêncio. A dúvida, que perdura numa pergunta sem resposta. Longe para bem além do horizonte, em terras inóspitas e belas, onde o infinito é a longa espera, pode estar meu coração, que é um cofre cujo segredo é uma ária de ópera. E se ele se esconde longe de mim, é que próximo demais pode ser perigoso. Ele é selvagem e minha covardia poderia domesticá-lo. E ele não me obedece, e eu não o compreendo. Muito estranho não acreditar no que lhe diz seu coração. Ele me fala numa língua exótica e que não posso traduzir, por isso não confio quando creio que me diz: “vá em frente.” Reluto, e não sigo. E quando quer que eu espere, teimo em seguir mesmo crendo que é um terrível engano. O maior engano sou eu, que gosto de contar histórias. Se morrer, podem colocar no meu epitáfio: “alguém que gostava de contar histórias como ninguém.” Se há sentido em algo que digo, não sei, mas que me fez um grande bem, tenho certeza.  Aborrecem-me os sentimentos medíocres. Aqueles que não contribuem para o crescimento, mas para o empobrecimento de um espírito. Algo que conheço bem. Não faltam aqueles inquisidores, que julgam e desmerecem o que você é. Basta-me ser como sou. Não que seja a figura mais perfeita do que seja um ser humano. Na verdade, creio que sou um dos mais falhos. Mas tenho uma vontade muito grande de ser melhor, de não ficar entre o que determina a maioria opressora. As minorias são minha casa. Sempre fui o avesso dos ponteiros, gauche, como diria Carlos Drumont, não me chamo Raimundo, não tenho rimas ou soluções. Sou só perguntas, e minha alma é o reflexo da dúvida. E quanto mais se aproxima o ocaso da minha estrela, mais tenebroso se me mostra o horizonte. As noites são negras e frias dentro de mim. Mas continuo fidelis et  fortis, numa busca inalcançável de saber e de conhecimento. Não quero a imortalidade, pois meus dias não se limitam a mim. Espalho pequenas sementes de meus pensamentos, que creio eu, aflorarão em algum espírito fértil.  E me perpetuo desta forma, não tenho ou terei filhos. Somente estas linhas que escrevo, cuja existência, alguém, quem sabe, se dê conta. Não quero reconhecimento, pois não sou dotada de genialidade, pelo contrário. Sou tão insipiente quanto aqueles que procuram respostas. Eu mesma não sei nenhuma. Só tenho minhas dúvidas. E nada mais me ocorre. Nem mesmo a beleza de um poente. Só escuridão quando o sol se vai e a noite cai sobre mim.

Numa vida tão minúscula quanto a minha, nada de fantástico pode ser lembrado. Somente a comum sobrevivência, a necessidade de respirar e ser. Viver é como estar faminto o tempo todo. O que lhe alimenta é, na verdade, algo que lhe aprofundará mais a fome. Têm-se fome de ar, de alimento, de respeito, de conhecimento, de música, de sentimento, de amor. Esta fome insaciável é o que lhe guia. E por isso estou aqui escrevendo. Mais por vontade de dizer o que me apavora, que por qualquer outro motivo. Sou o que me transformaram meus medos e esta fome insaciável. Posso tentar me fazer crédula, procuro o que é santo em mim. Mas só encontro o opróbrio, o desrespeitoso. Sou um frágil sentimento de religiosidade que se mistura ao cientificismo de uma vida. Racionalidade por que me fez tão racional? Sentimentos por que me fizeram sentimental? E você meu reflexo invertido, o que guarda no país dos espelhos? Somem de mim as memórias do que se foi. Não me recordo mais de minha vida que o tempo corrói, recordações que desaparecem como se nunca houvessem existido.  E não sei mais se alguns fatos ocorreram mesmo, porque é uma memória tênue como um sonho. Então penso que sonhei e que não passei por aquilo. É assim que me sinto, como resultado de um sonho que foi apenas planejado e nunca realizado. Sou etérea como as nuvens do céu. Sou o sonho, a nuance, nunca o concreto e real. E se querem saber, sou mais feliz assim. Não me venham com a hipocrisia do discurso. Para que palavras, se tudo está no silêncio? Para que a fala se tudo está na música? Espero a similitude do sonho, não quero me adequar ao que é normal, sou a exceção a regra. (Aquilo que todos esquecem). E nunca serei um rosto em meio à multidão. Por que sabem que estou lá. Como “os frutos da árvore envenenada” que não estão isentos do veneno. Não podem fugir de mim. Sou fatal, como o arsênico ou o cianureto. Meus pensamentos são o veneno que corrói suas certezas. E creiam, as minhas também. Não estou certa de nada. Nada me ocorre de forma simples. Tudo se demora, meus dias são uma espera, e não consigo mais aguardar que me alcancem meus sonhos. Ou será que eu devo alcançá-los? Por que me demoro em concluir este conto?  Não encontro maneiras de dizer “fim” por que sou o infinito, meu espírito não tem fim e me excede. Transborda e se espalha em minha volta. Sou o silêncio que a todos alcança, ou a música que premia os ouvidos. Se pode sentir o que disse é que nossos espíritos se coadunaram e tornaram-se um só. Assim é que me aumenta a alma, como o universo que cresce continuamente. Por isso não posso dizer “fim”, pois é apenas um começo.

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