Arquivo do mês: setembro 2009

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Eugênio

Giordana Medeiros

Sempre foi um rapaz de olhos tristes. Pelo menos era o que diziam aqueles que o conheciam desde pequeno. Muito cedo descobriu sua vocação para música. Menino, com apenas 9 anos, compôs seu primeiro noturno. Seu piano, que ganhou do pai sempre lhe acompanhou. E sua vida tornou-se aquele piano, seus dedos conheciam cada tecla, e corriam soltos, criando notas musicais. Nunca fora lá muito sociável, passava horas ensaiando, de modo que sua infância e adolescência se foram muito antes que percebesse. Mesmo com grande talento, não ascendera profissionalmente. Veio à cidade, saiu do campo, da cidadezinha em que vivia com sua família, tentar a vida como músico.  Nos primeiros meses, viveu a duras penas com um ordenado minúsculo que recebia como professor de piano. Depois arranjou emprego num banco, de modo que pudesse arranjar-se melhor financeiramente. Vivia numa pensão onde felizmente aceitaram o piano e a rotina de ensaios que sempre se submetera. Quando não estava compondo suas músicas melancólicas, estava com seus poetas e escritores, aos quais tanto prezava. Chamava-se Eugênio, e desde que abandonara o campo pela cidade já fazia duas décadas.  Nunca mais voltou, e as lembranças da vida que abandonou, sempre lhe assombravam, como uma nostalgia amarga, pela vergonha de voltar sem poder levar nada além do que trouxe. Ou menos que isso.  Eugênio sempre foi dado a devaneios. Sua mente não cabia em seu corpo, num único instante apenas, queria estar em vários lugares onde o coração lhe levava, mesmo que não fosse para muito longe, para a sala na qual os vizinhos preparavam a árvore de natal. Ou para a esquina onde havia um homem vestido de papai Noel, distribuindo panfletos. E ressentia-se por aquele homem, que no verão tinha de usar roupas quentes, por apenas imaginar como penava. Devia sofrer também a família do homem, pois necessitava do ordenado que este recebia para estar durante todo o dia sob o sol, distribuindo panfletos. Via a alegria das crianças que voltavam da escola, pulando, conversando, sorrindo. E lembrava-se dos anos em que se escondera atrás do piano, de seu pai, que sempre lhe apoiara, e que quando foi embora lhe estendeu a mão dizendo: “Deus lhe abençoe meu filho!” A mãe não conseguia conter as lágrimas, porque ele era homem, tinha de percorrer longos caminhos, às vezes, por dentro de si mesmo.  Eugênio seguiu, por entre vales e colinas, pisando a relva, orvalhada da manhã, para chegar de onde havia partido. Mas já não estava lá. Não estava lá.   A cidade é mesquinha e ilusória. A vida um rio cuja corredeira lhe puxa contra sua vontade. Passamos a vida inteira tentando nadar contra a corrente.

-Seu Eugênio, não lhe agrada a comida?

A dona da pensão, uma senhora de meia idade, gorda, cuja beleza se perdeu com o tempo, despertava-lhe para a realidade. Todos da mesa se voltaram para Eugênio, que ficou desconcertado ao observar que nem tocara a comida. Ensaiou uma desculpa, e cortou um pedaço do bife, já frio, mastigando com certa dificuldade. Não era lá a melhor refeição do mundo, mas era o que podia pagar. Os outros hóspedes tentaram inserir-lo na discussão em que participavam à mesa:

-Então, seu Eugênio, que lhe parece essa política do Obama?

Outro hóspede, que chegava atrasado para o almoço, repreendeu:

-Vamos cuidar de nosso país e deixemos para lá os dos outros.

Eugênio sentiu-se feliz de ter sido salvo da resposta, e retornou para seus pensamentos.

A vida só resta seguir. E se era triste, é que muito se perdera por seu caminho. Ninguém compreendia suas músicas melancólicas. Mas continuava as escrever, mesmo que não houvesse muitos para ouvir-las.  Como os pássaros que cantam na floresta, onde ninguém pode ouvir seu canto, e saber se é belo. E dizer que é belo.  Assim sob o mundo que o ignorava solenemente, ele compunha noturnos, suítes, sonatas…  No coração, um sonho tão grande que nem ele próprio lhe conhecia os limites. Ele só pensava em poesia, música, e nas grandes sinfonias que um dia criaria. Veio o emprego no banco e a esperança que um dia lhe viesse outro melhor. Um dia foi o futuro que nunca chegou.  E se conformou, os sonhos, sinfonias e poemas ficaram postergados para um dia, data que não se localiza em nenhum calendário. Um dia foi indo e um dia não voltou.  Tinha muitos projetos, poesias por escrever, melodias que faltava serem compostas, sinfonias que aguardavam em partituras.  Mas não realizava nada, talvez por medo que todos seus sonhos fossem engolidos por este estranho monstro de cimento armado que se chama cidade.  Já pensou diversas vezes em voltar, para um lugar mais calmo, de onde saiu, mas lhe doía profundamente a idéia de voltar como o filho pródigo, que se arrependera de andar com suas próprias pernas, que se perdeu em sonhos, e voltou como o mais minúsculos dos homens.  Na mocidade se perdera dos sentimentos da juventude, pois nem ao menos levantava os olhos dos livros. Agora é tarde, tarde para voltar, tarde para corrigir e o milagre da mocidade não se repete. E só na arte a beleza é imortal, como o versos de Keats: “A thing of beauty is a joy for ever” Seu momento luminoso passou, pois ele mesmo apagou a vela de sua juventude. Com um simples sopro ignorou aquilo que era belo em si. Mas como diria Érico Veríssimo “na verdadeira arte nada morre. A mocidade e o encantamento se renovam perpetuamente: e a eterna luminosidade, a eterna graça”.  Suas músicas, que eram etéreas como sonhos, preservavam a juventude e os sonhos, assim não morreriam jamais, mesmo o tempo que devora os homens, não consegue jamais matar a música, pois esta se eterniza em som. Poesia mesmo que transcrita em papel, também, pois a arte é a idéia mais próxima da eternidade.

Na sua vida sempre as mesmas caras envelhecidas, homens e mulheres que arrastam seus dramas, suas vidas insignificantes, suas idiossincrasias… Mas há a canção. E a música é a ligação com o mágico, com o fantástico. Abre a mente para o longínquo espaço. A tudo embeleza. Mesmo nesta noite próxima ao Natal, nesta sala de móveis gastos, uma televisão antiga com imagem dupla onde passava a novela das oito horas, e uma árvore de plástico que lembrava as festividades de fim de ano. Ele poderia se trancar em si, viajando em partituras.

 Subiu para o quarto sem terminar o jantar. Para se encontrar com o piano vertical, único bem que possuía. Único bem que lhe possuía. Tocou o teclado, sentiu um aperto no peito, veio-lhe o adágio de Albinoni. A música então se derramou triste sobre a noite que chegava.  Os olhos de Beethoven lhe fitavam pétreos do pequeno busto sobre a estante.  E em sua volta livros e mais livros de histórias que ele não viveu. Ele tocava “to the montains, and fountains, and ghosts, and posts, and witches, and ditches”.  E das poucas graças que lhe acompanharam pela sua vida, e da benção que seu pai lhe concedeu quando colocou os pés no mundo, restaram-lhe os sonhos, que se desfaziam em música e poesia, sonhos em versos e partituras, que não morrem, mas se eternizam, mesmo que jamais surja a grande sinfonia, mesmo que não se crie o belo romance, ou uma feliz antologia há esta expectativa feliz de ser ouvido. Como se aquele pássaro no meio da floresta fosse enfim descoberto.   Somente assim conseguia se expressar, através da arte que lhe escolheu, pois não se escolhe a arte, ela que lhe escolhe, e você agraciado desta dádiva deve se dedicar a este dom, a esta vocação. A noite agora já escurecia o quarto, distante, crianças cantavam uma música natalina, Eugênio parou de tocar para ouvir a canção, “são desses momentos preciosos que a vida é feita” pensou. “Noite feliz, noite feliz, oh senhor Deus de amor, pobrezinho nasceu em Belém…” Soava ao longe a canção, que mergulha em esperança este pobre e solitário coração.

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