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Um sorriso de domingo

Giordana Medeiros

Rua silenciosa, pássaros cantando, o sol esquentando o dia, deixando tudo morno e agradável. Céu azul como somente o inverno brasiliense pode proporcionar. Uma xícara de café quente numa das mãos, um bom livro em outra. Sento-me num banco do jardim para aproveitar o domingo. E se aparece um vizinho, com um aceno, digo olá e dou boas vindas a este oásis no meio do deserto de prédios, que se estendem até perder de vista. Mas mesmo neste mundo de cimento armado, há pássaros que cantam como se estivessem no campo. E também borboletas e beija-flores. Meu reduto neste mundo. Um minuto de paz neste ritmo frenético da vida. Como correr em meio a uma densa floresta, e numa clareira, encontrar um rio de água cristalina e pura. O sentido de um domingo é não ser. Não ser trabalhado, não ser visto e não ter qualquer sentido. Para que compreender? Deixe-me estar neste dia sonolento, que se arrasta e desfaz-se em segunda-feira. Muitas vezes acordar cedo no domingo pode não ser um pecado. Poder ver o dia nascer com suas cores características, tudo tão belo e calmo. Muito calmo. Não há o que fazer, mas não há necessidade que haja. Degusto meu café amargo que não macula a docilidade do dia e proporciono-me uma leitura agradável, para que planos? Não quero programar-me, posso deixar-me estar neste vazio. Nesta solidão que necessito, e muitas vezes é-me insuportável. Mas hoje não, vou sentir meu domingo com um sorriso nos lábios, como se toda dor fosse suportável. Vou caminhar por essas avenidas vazias, sob o silêncio que inunda a cidade. Quando as crianças começam a invadir as ruas com suas bicicletas coloridas, bolas e pipas, sou vítima de uma felicidade indescritível. Como quando era uma dessas crianças que se lançava às ruas, com meus pés descalços e meus joelhos ralados, para brincar.  E tudo isso no domingo.

Um dia percebi que as manhãs de cada dia têm sua característica própria. E a peculiaridade do domingo é toda esta mansidão que se estende sobre as pessoas e coisas. Não iria ser domingo se não fosse assim. E todos os dias guardam em si uma chama de esperança de se tornarem domingo. As carolas vão à missa. O sino da igreja badala. Roupas engomadas e limpas são exibidas. Não uso relógio no domingo. Para que saber as horas? Eu não quero seguir os desmandos de Chronos ao menos hoje.  Estou cansada de viver a espera do sentido. Meus sentimentos são o avesso da razão.  Sou toda sentimento. E quase nenhuma razão. No domingo, sou mais feliz. E se todos os dias fossem domingo? Não seria a mesma coisa, pois tem de haver o monótono trabalho para que haja feriado. O que seria do domingo se não houvesse a semana em si? O homem logo se entediaria com a existência perpétua da felicidade. E não seria mais felicidade. Converter-se-ia em monotonia. Não vamos estragar a espera da semana, cujo término é o prazer do domingo.  Se tenho de aguardar anos para que surja esta pérola, a espera é a esperança em si. Não há obrigações que me exijam. Não quero compromissos, tudo é meu hoje. Nem que seja apenas este café que saboreio ou este livro que me entretêm. Se posso aproveitar melhor o dia, com algo mais lucrativo, ou mesmo dormindo até tarde, como outros fazem por avareza ou preguiça, não me importa. Domingo é meu. Muitas vezes me recordo de fatos que ocorreram neste primeiro dia da semana. E meus olhos revêem acontecimentos como um déjà vu. Num instante sou eu que estou a acompanhar um circo que chegava à cidade. Toda música e cores. O engolidor de chamas, que lançava uma labareda e apagava a tocha com a boca, palhaços que divertiam a todos com suas brincadeiras. E a multidão de crianças correndo atrás da caravana do circo.

Eu no meio daquela multidão, num colorido domingo. Havia música, dança e algodão doce. Lembro-me de ter despertado com a caravana que chegava à cidade. O mágico, que fazia aparecer pombas com a facilidade que as fazia desaparecer. E o som que ecoava na cidade, contagiando a todos com aquela felicidade. Malabaristas que faziam voar bolas e malabares sem deixar cair nenhum. Contorcionistas com elasticidade sobre-humana, que se dobravam como se fossem feitos de borracha. Pessoas em pernas de pau distribuindo folhetos com os horários das apresentações. A música que jamais me saiu da cabeça. Um dos meus momentos mais extraordinários. Lembro de ter pedido aos meus pais que me levassem naquele circo, e fui a uma das apresentações. Era mágico estar naquele lugar, e recordo-me com doçura do dia que o circo despertou-me no domingo. E devo salientar: era domingo de Páscoa. Além dos chocolates que aguardava com a paciência exígua de uma criança, depois da semana santa inteira expiando os pecados (no sábado de aleluia havia confessado ao padre que tinha trapaceado no jogo de bolinhas de gude, meu mais grave pecado, pelo qual fui penitenciada a rezar vinte Ave-Marias), fui agraciada com aquela surpresa, aquela magia que só o circo pode proporcionar. E se pudesse sair dançando ao som daquela música, como aquela trupe fizera, sairia agora. Mesmo que os vizinhos pudessem estranhar tal comportamento. Eu me lançaria nas ruas, dando voltas, com aquele som. Eu sentia tudo e via todas as cores. Se voltasse aos meus sete anos, como naquele domingo feliz, para poder vivenciar tudo de novo…  Hoje o que me entusiasma é tão insignificante. Eu quero o entusiasmo infantil. O “maior de todos” era o maior, mesmo que não fosse de todos. Lembro-me que quando criança imaginava que o quintal de minha avó era gigantesco. Quando cresci, depois de anos sem ver-lo, ele ficou incrível e estranhamente menor.

Quando sai do circo, queria fazer tudo igual aos artistas, e decepcionava-me o fato de não ter a mesma agilidade, elasticidade ou a magia do ilusionista. Eu tinha sete anos ainda, era inocente e me impressionava com facilidade. Tinha um grupo de amigos fiéis, uma imaginação privilegiada e muito entusiasmo. Mesmo hoje, que sou desprovida quase totalmente destas qualidades, ainda me agrada o domingo. Pena que o circo não realize mais desfiles ao chegar numa cidade. Acho que continuaria a impressionar as crianças como o fizera a mim. E olhando aquelas crianças, na rua em que morava, brincando, correndo, sorrindo, desejava tornar-me novamente uma delas. Mas uma vez disse que Chronos devora seus filhos. Isso é a verdade mais literal. O tempo nos devora, rouba-nos a infância, consome nossos corpos. E o que resta é somente pó. “Do pó vieste ao pó retornarás”. Acho que ouvi isto em alguma das aulas de catecismo que fui. Viemos de partículas que se uniram e formaram os primeiros compostos protéicos, para depois, por alguma condição propícia, surgir o primeiro ser unicelular. E pela cadeia evolucionária chegamos a este ser complexo que somos hoje. No fim vamos nos desfazer com auxílio de vermes que se alimentarão de nossa carne. O tempo nos devora. A vida é passageira e curta. Muito curta. Anos que correm velozes, quando nos damos conta, o passado fugiu de nós. Resta-nos somente o futuro. O presente, não é mais que a sensação de perda, a perda dos anos que se desfizeram em sonhos. E sonhos são eternos. Guardo os meus como o fazia com minha coleção de bolinhas de gude que ganhava jogando com os meninos: num lugar muito especial.  As bolinhas de gude eram meu tesouro, meus sonhos também o são. Não quero desfazer-me deles jamais. O café terminou, o entregador de jornais chegou com o jornal de domingo, e tive de despertar para a realidade. A notícia de capa era mais um caso de corrupção, e no país do futebol, um grupo de garotos jogava pelada, sem se importar com a falta de caráter de seus políticos. Sorri, ainda era domingo.

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2 opiniões sobre “

  1. Oi, Giordana,

    Lendo este seu belo texto, não pude deixar de me lembrar dos versos de um poeta português do qual gosto muito: António Gedeão. Como não sei se você os conhece, compartilho-os contigo.

    Um beijão pr’ocê.

    “Poema do domingo”

    Aos domingos as ruas estão desertas
    e parecem mais largas.
    Ausentaram-se os homens à procura
    de outros novos cansaços que os descansem.
    Seu livre arbítrio alegremente os força
    a fazerem o mesmo que fizeram
    os outros que foram fazer o que eles fazem.
    E assim as ruas ficaram mais largas,
    o ar mais limpo, o sol mais descoberto.
    Ficaram os bêbados com mais espaço para trocarem as pernas
    e espetarem o ventre e alargarem os braços
    no amplexo de amor que só eles conhecem.
    O olhar aberto às largas perspectivas
    difunde-se e trespassa
    os sucessivos, transparentes planos.

    Um cão vadio sem pressas e sem medos
    fareja o contentor tombado no passeio.

    É domingo.
    E aos domingos as árvores crescem na cidade,
    e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se a cantar empoleirados nelas.
    Tudo volta ao princípio.
    E ao princípio o lixo do contentor cheira ao estrume das vacas
    e o asfalto da rua corre sem sobressaltos por entre as pedras
    levando consigo a imagem das flores amarelas do tojo,
    enquanto o transeunte,
    no deslumbramento do encontro inesperado,
    eleva a mão e acena
    para o passeio fronteiro onde não vai ninguém.

  2. Muito interessante esse texto; o jeito que o elaborou.
    Porém, os meus domingos de manhã tornaram-se diferentes do que era. E dou graças a Deus por isso.
    Mas como citou o personagem: “Um dia percebi que as manhãs de cada dia têm sua característica própria”. E o domingo têm sua peculiaridade que gosto.

    Parabéns pelo texto.
    Um envolvente abraço pra você.
    Se cuida.
    :]

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