Arquivo do mês: agosto 2009

 

mao%20e%20caderno

Memorial de um desconhecido

 Giordana  Medeiros

Este conto é parte de um diário que encontrei sob uma árvore no parque, em razão da curiosidade e também como não havia nome ou endereço do possuidor, levei-o comigo para casa onde me envolvi na narração da vida desse rapaz, suas frustrações e desejos, vitórias e derrotas e todo um universo complexo de relações. Escolhi alguns trechos para compor este conto. A veracidade do relato não pode ser comprovada, autoria tão pouco. Mas, com certeza, é uma boa história.

1º de janeiro de 2001

Ano novo, resolvi escrever este memorial para poder compreender-me, talvez ao visualizar minha realidade possa encontrar respostas para todo este vazio dentro de mim. Quando houve a contagem regressiva, acreditava piamente que este novo ano era o começo de uma nova história. Minha história. Não começo com uma folha em branco, pois há muito já não o sou. Estou coberto de histórias, sou o resultado de uma série de fatos, que me antecedem. A vida me antecede a cada minuto. O mundo já existia, a sociedade também. A solidão não foi algo que inventei, mas que conheço bem. Esse é na verdade um vazio cheio de palavras, mas sem sons. Uma leitura silenciosa e fatalista. Essa é minha vida.

13 de janeiro de 2001

Senti os dedos da morte sobre mim. Eram suaves. Não pesavam em absoluto. Era uma sensação boa, de uma saída num labirinto. Minha vida é o labirinto onde me perco sempre. Um emaranhado de sentidos que não tem sentido. Só sei que hoje dei fim a um de seus capítulos, a partir de agora, há uma nova fase, novos personagens entram nesta trama. Um enredo mais rico. Mas se estreita mais o liame entre a razão e a insanidade. Equilibro-me entre estes como se andasse numa corda bamba. Para onde vai pender esta balança?

2 de fevereiro de 2001

As horas andam devagar, como se Chronos quisesse fazer perdurar a tortura deste dia. Entre estes muros brancos, o silêncio se estende, mas sinto vontade de gritar, para acabar de vez com a serenidade. Quero a explosão, balbúrdia, o silêncio guarda um estrondo em si, eu sei, eu sinto! Mas ninguém se ocupa de descobri-lo. Negam a realidade, querem viver sob a ilusão perpétua que a vida é suportável. Não posso viver aqui, não posso viver aqui…

10 de março de 2001

Havia uma história a ser escrita no início deste memorial. Não a encontrei. Tudo que vejo mudou muito, desde que decidi que o ano seria o início de uma nova história. No fim estou relendo um livro antigo. Mas sempre que voltamos a ler um livro, encontramos uma nova perspectiva para entender o seu enredo. Estou caminhando em território minado. Cada passo pode ser fatal. Retorno para casa: estão todos lá. Mas é como se não estivessem. Não há ninguém, e começo a desejar os muros brancos e serenos. Não é incrível como podemos nos acostumar com uma sensação desagradável até que ela se torna essencial a nós? E quando todos querem nos fazer feliz a infelicidade se insere em nossa vida entre as frestas de seus dedos. Querem me proteger como a um objeto delicado. Mas não adianta, o frágil sempre se quebra. E já estou em frangalhos. Não resta nada de mim. Vou dormir.  

28 de março de 2001

Meus olhos se deparam com imagens desconexas. E se tudo que vejo não é na verdade real? É um poema, meu pequeno poema impossível. Onde há muitas palavras para dizer o que sinto, mas no fim o sentido é um só. Meu coração é uma coisa triste e frágil. Tudo que quero dizer pode ser resumido. Mas sou naturalmente prolixo. Minha existência é cheia de palavras sem sentido. Hoje poderia buscar a razão de toda a dor numa sentença, há diagnósticos precisos para o que sinto. Traduzir em ciência minha dor. Será que a ciência pode fazer isso? Será que isso é a saída? E por que procuro saídas se já estou tão familiarizado com esta sensação? Tenho medo de perder-me novamente, mas num caminho que desconheço. Onde não possa sentir-me, e saber que existir é algo deveras difícil. Não quero viver sem dar-me conta disso. Vou aguardar que as derradeiras chuvas de março caiam sobre mim.

14 de abril de 2001

Sei que dia é hoje, mas isso é importante? Se não soubesse faria alguma diferença? Hoje poderia ser qualquer dia, mas hoje é 14 de abril! Meus sonhos desfizeram-se em 14 de abril. Meu mundo ruiu em 14 de abril. Tudo está acabado em 14 de abril. Há alguém se importando com isso? É apenas 14 de abril. O que se há para fazer? Assistir televisão, comendo pipoca, bebendo guaraná, numa letargia absurda. Se houvesse uma maneira de destacar minha vida, passaria um marca texto verde-limão sobre 14 de abril. Mas não importa. Não mais. Foi, não é mais.

30 de maio de 2001

Peguei-me sentido de novo. Isso não é bom. Achei que depois de tudo poderia superar esta sensação asfixiante, este sonho que se desfez em lágrimas.  Sempre soube que era um desejo irrealizável. Mas, sempre haverá um “mas”, um “se”… Como dar fim a uma história que nem começou? Onde os personagens não se conhecem e não se falam? É uma comédia? Não, um drama. Poderia ser pior, uma tragédia. Mas sou muito fraco e covarde.  No fim todos riem porque não entendem do que se trata. Nunca sentiram profundamente o roteiro desta peça, que senti e não acho a menor graça.

01 de junho de 2001

Hoje é um dia especial. É cheio de expectativas, pode-se esperar um milagre. Como se percebessem que eu existo. E não serei apenas uma presença incômoda, ignorada, num canto da sala enquanto todos se divertem. Sou sempre excluído. Mas amanhã posso ser protagonista. Hoje é o sonho, amanhã tudo se desmancha em realidade. Deixe-me sentir o hoje, que amanhã fatalmente não serei quem sou hoje.  Anos seguem-se velozes, em oito anos já não sei o que serei. Há o sonho, a expectativa. Por isso o dia de hoje é tão especial. Amanhã poderia não ocorrer para que tudo se resuma a hoje. Se o mundo terminasse em hoje… Mas o fim é sempre o futuro. O futuro é o amanhã tão distante que provavelmente nunca ocorra.

17 de junho de 2001

“Não espere de mim algo que não posso conceder-lhe”. É o que me diz a vida. Aceito com resignação.  A vida desgosta-me como um remédio inútil. Mas não me furto de tomá-lo, pela ilusão do placebo, pelo desejo de cura, pelo desejo insistente de me adequar ao que é correto. Normal. No fim minhas idéias se confundem neste memorial, minhas memórias sem vida. As minhas confissões. Se nelas nada digo é porque não há nada a se dizer. Escrevo sozinho no quarto escuro, como sempre tenho sido, como sempre serei. Minha vida é uma ironia do destino. 

Estava lá no momento que ocorreu? Não, como nunca estamos perto quando um botão se abre em flor. Estive sempre atrasado. Um segundo atrasado, um instante que me distancia de tudo que poderia ter sido e não fui. A minha história não tem história. São apenas sentimentos aos quais falta sentido. Não quero relatar meus dias, mas meus pensamentos mais profundos. É a eles que pertenço e eles são tudo que possuo.

20 de julho de 2001

Ontem escrevi um poema, e nele pretendia exprimir meu universo. Como se em rimas fosse possível contar uma história. Muitos o fazem: Dante, Goethe… Faz-me falta a Beatriz e Mephisto. Fé ou a total ausência dela. Não me encontro neste mundo. Olho em volta e tudo que vejo desconheço. Como um estrangeiro no meu próprio país. Sei que não tenho talento para rimas, mas sei contar histórias. Tenho o feito desde criança. E minhas histórias foram perdendo a pureza, amadureceram em dor. Como nós nascemos do trauma do parto. Há algo mais abrupto que isto? Creio que não.

03 de agosto de 2001

Não quero ser mais que um contador de histórias. Há uma pergunta sem esperança que trago comigo, mas que não a profiro. É um desejo. Uma possibilidade que se insere neste memorial apenas pela sua ausência. Não vou escrever-la. Resta-me guardá-la entre meus sonhos mais queridos. Há algum rumo a tomar quando estamos confusos? Há bússolas que me mostrem a direção que devo seguir? Pus todas minhas estrelas no céu. Mas guardo aquela que mais me brilha. É minha.

 25 de agosto de 2001

Tenho um mau pressentimento. Uma amargura, uma agonia que me inquieta. Como se algo muito ruim fosse ocorrer. É fruto de um sonho que tive. Havia uma chuva de papel picado e poeira. E não sei por que esta imagem não me apetecia.

11 de setembro de 2001

Ocorreu hoje o pior ato terrorista da história. Algo que se fixará na memória de todos eternamente. Agora sei por que senti aquela inquietação. E a chuva de papel picado e poeira se transformou numa imagem real e tenebrosa. O mundo enfrenta uma instabilidade social. Eu enfrento a minha instabilidade pessoal. Eu me desfaço todos os dias como as Torres de desfizeram em destroços. E foram-se tantas vidas. Eu sou um só e minha tragédia pessoal não traz dor comparada a daqueles que faleceram inocentes hoje. Nunca fui inocente. Meu veredito sempre foi culpado. Minha pena é permanecer neste mundo.  O mundo sente o peso da diferença religiosa, de hábitos e costumes. São estrangeiros no seu próprio país. Bem vindos ao clube.

24 de setembro de 2001

Quero um pouco de consolo, meu terror é o medo de estar eternamente sozinho.  Ninguém vive para si. E para quem eu vivo? Por que eu vivo? Por que insistir neste jogo se já perdi minha Rainha e os Bispos? Um jogo fadado à derrota. Ao menos se conseguisse fazer algum peão chegar à última casa, convertendo-o em Rainha…  Se eu prosseguir posso me tornar rei? Antes que ouça o Xeque Mate, empresta-me tuas asas, que quero voar!

16 de outubro de 2001

Creio que tenho relatado pouco de minha vida aqui. Não me descrevo nem a ninguém. Também não falo de meus dias, do que sou ou fui. Não importa. É minha maneira de falar de mim. Sou o que tenho por dentro. Meu espírito é muito mais importante do que meu aspecto. Talvez por me considerar um Quasímodo. Talvez por que não veja os sinos de Notre Dame. Há sempre uma boa leitura para um dia chuvoso. Choveu pela primeira vez desde abril.

25 de novembro de 2001

O ano está findando. As chuvas derramam-se sobre o cerrado, Brasília fica verde outra vez. E o Natal se aproxima. Vou andando solitário como a lua no céu. Mas as densas nuvens de chuva não me permitem que a veja. Nem mesmo as estrelas. Sei que estão lá, isso me basta. É fácil ter fé quando a presença material se confirma. Sou um homem de pouca fé. Por que pude tocá-las eu creio. Toco as estrelas em sonho, não são quentes, mas luminosas e frias, como a calda de um cometa. Não entendo nada de física…

14 de dezembro de 2001

Resolvi que terminarei este memorial no fim deste ano. E depois de escrever o fim desta história não vou eternizar outros anos mais. Este vai ser o único que verei relatado, transcrevi em palavras toda carga de emoção porque fui tomado nestes meses que se desenrolaram. Amei, chorei, sofri, no fim estou desiludido e cético.  A alma humana é um abismo, a queda é fatal. Talvez por isso tenha mergulhado em minha alma. Porque sabia que o que era não poderia sobreviver à queda. Todavia agora ainda não sei quem sou… Talvez um dia descubra, talvez não… Creio que não.

24 de dezembro de 2001

Véspera de Natal. Sou sempre tocado por esta data. Vivia o Natal muito antes, em agosto já escrevia minha cartinha ao Papai Noel. Este ano não pedi nada. Não creio que felicidade seja algo fácil de embrulhar e colocar debaixo da árvore de Natal. Provavelmente ganharei um par de meias, se fosse pelo menos um jogo de Xadrez…  Mas prefiro mesmo felicidade. Mas não se ganha felicidade se não puder presenteá-la a alguém.  Como se embrulha felicidade? A quem posso dá-la? Felicidade rima com eternidade, mas nem sabem como estas duas são frágeis. A felicidade é facilmente convertida em dor, eternidade, como é débil o para sempre… Creio que este nem existe mais…

31 de dezembro de 2001

Esta é minha despedida deste memorial. Depois não vou relê-lo, vou abandoná-lo sob uma árvore num parque. Não quero destruí-lo, mas concedê-lo a alguém. Não que haja algo de proveitoso em suas páginas, somente um relato de sensações que me assombraram neste início do século XXI. A você que o terá em suas mãos, não há necessidade de saber quem sou. Sou qualquer um, ou posso também ser você. Faça bom proveito, despeço-me. Uma derradeira lágrima escorre pela minha face. Segue a melancolia a derramar-se sobre mim.

 

Categorias: Uncategorized | Tags: | 2 Comentários

circo_foto_william_volcov_20_40_

Um sorriso de domingo

Giordana Medeiros

Rua silenciosa, pássaros cantando, o sol esquentando o dia, deixando tudo morno e agradável. Céu azul como somente o inverno brasiliense pode proporcionar. Uma xícara de café quente numa das mãos, um bom livro em outra. Sento-me num banco do jardim para aproveitar o domingo. E se aparece um vizinho, com um aceno, digo olá e dou boas vindas a este oásis no meio do deserto de prédios, que se estendem até perder de vista. Mas mesmo neste mundo de cimento armado, há pássaros que cantam como se estivessem no campo. E também borboletas e beija-flores. Meu reduto neste mundo. Um minuto de paz neste ritmo frenético da vida. Como correr em meio a uma densa floresta, e numa clareira, encontrar um rio de água cristalina e pura. O sentido de um domingo é não ser. Não ser trabalhado, não ser visto e não ter qualquer sentido. Para que compreender? Deixe-me estar neste dia sonolento, que se arrasta e desfaz-se em segunda-feira. Muitas vezes acordar cedo no domingo pode não ser um pecado. Poder ver o dia nascer com suas cores características, tudo tão belo e calmo. Muito calmo. Não há o que fazer, mas não há necessidade que haja. Degusto meu café amargo que não macula a docilidade do dia e proporciono-me uma leitura agradável, para que planos? Não quero programar-me, posso deixar-me estar neste vazio. Nesta solidão que necessito, e muitas vezes é-me insuportável. Mas hoje não, vou sentir meu domingo com um sorriso nos lábios, como se toda dor fosse suportável. Vou caminhar por essas avenidas vazias, sob o silêncio que inunda a cidade. Quando as crianças começam a invadir as ruas com suas bicicletas coloridas, bolas e pipas, sou vítima de uma felicidade indescritível. Como quando era uma dessas crianças que se lançava às ruas, com meus pés descalços e meus joelhos ralados, para brincar.  E tudo isso no domingo.

Um dia percebi que as manhãs de cada dia têm sua característica própria. E a peculiaridade do domingo é toda esta mansidão que se estende sobre as pessoas e coisas. Não iria ser domingo se não fosse assim. E todos os dias guardam em si uma chama de esperança de se tornarem domingo. As carolas vão à missa. O sino da igreja badala. Roupas engomadas e limpas são exibidas. Não uso relógio no domingo. Para que saber as horas? Eu não quero seguir os desmandos de Chronos ao menos hoje.  Estou cansada de viver a espera do sentido. Meus sentimentos são o avesso da razão.  Sou toda sentimento. E quase nenhuma razão. No domingo, sou mais feliz. E se todos os dias fossem domingo? Não seria a mesma coisa, pois tem de haver o monótono trabalho para que haja feriado. O que seria do domingo se não houvesse a semana em si? O homem logo se entediaria com a existência perpétua da felicidade. E não seria mais felicidade. Converter-se-ia em monotonia. Não vamos estragar a espera da semana, cujo término é o prazer do domingo.  Se tenho de aguardar anos para que surja esta pérola, a espera é a esperança em si. Não há obrigações que me exijam. Não quero compromissos, tudo é meu hoje. Nem que seja apenas este café que saboreio ou este livro que me entretêm. Se posso aproveitar melhor o dia, com algo mais lucrativo, ou mesmo dormindo até tarde, como outros fazem por avareza ou preguiça, não me importa. Domingo é meu. Muitas vezes me recordo de fatos que ocorreram neste primeiro dia da semana. E meus olhos revêem acontecimentos como um déjà vu. Num instante sou eu que estou a acompanhar um circo que chegava à cidade. Toda música e cores. O engolidor de chamas, que lançava uma labareda e apagava a tocha com a boca, palhaços que divertiam a todos com suas brincadeiras. E a multidão de crianças correndo atrás da caravana do circo.

Eu no meio daquela multidão, num colorido domingo. Havia música, dança e algodão doce. Lembro-me de ter despertado com a caravana que chegava à cidade. O mágico, que fazia aparecer pombas com a facilidade que as fazia desaparecer. E o som que ecoava na cidade, contagiando a todos com aquela felicidade. Malabaristas que faziam voar bolas e malabares sem deixar cair nenhum. Contorcionistas com elasticidade sobre-humana, que se dobravam como se fossem feitos de borracha. Pessoas em pernas de pau distribuindo folhetos com os horários das apresentações. A música que jamais me saiu da cabeça. Um dos meus momentos mais extraordinários. Lembro de ter pedido aos meus pais que me levassem naquele circo, e fui a uma das apresentações. Era mágico estar naquele lugar, e recordo-me com doçura do dia que o circo despertou-me no domingo. E devo salientar: era domingo de Páscoa. Além dos chocolates que aguardava com a paciência exígua de uma criança, depois da semana santa inteira expiando os pecados (no sábado de aleluia havia confessado ao padre que tinha trapaceado no jogo de bolinhas de gude, meu mais grave pecado, pelo qual fui penitenciada a rezar vinte Ave-Marias), fui agraciada com aquela surpresa, aquela magia que só o circo pode proporcionar. E se pudesse sair dançando ao som daquela música, como aquela trupe fizera, sairia agora. Mesmo que os vizinhos pudessem estranhar tal comportamento. Eu me lançaria nas ruas, dando voltas, com aquele som. Eu sentia tudo e via todas as cores. Se voltasse aos meus sete anos, como naquele domingo feliz, para poder vivenciar tudo de novo…  Hoje o que me entusiasma é tão insignificante. Eu quero o entusiasmo infantil. O “maior de todos” era o maior, mesmo que não fosse de todos. Lembro-me que quando criança imaginava que o quintal de minha avó era gigantesco. Quando cresci, depois de anos sem ver-lo, ele ficou incrível e estranhamente menor.

Quando sai do circo, queria fazer tudo igual aos artistas, e decepcionava-me o fato de não ter a mesma agilidade, elasticidade ou a magia do ilusionista. Eu tinha sete anos ainda, era inocente e me impressionava com facilidade. Tinha um grupo de amigos fiéis, uma imaginação privilegiada e muito entusiasmo. Mesmo hoje, que sou desprovida quase totalmente destas qualidades, ainda me agrada o domingo. Pena que o circo não realize mais desfiles ao chegar numa cidade. Acho que continuaria a impressionar as crianças como o fizera a mim. E olhando aquelas crianças, na rua em que morava, brincando, correndo, sorrindo, desejava tornar-me novamente uma delas. Mas uma vez disse que Chronos devora seus filhos. Isso é a verdade mais literal. O tempo nos devora, rouba-nos a infância, consome nossos corpos. E o que resta é somente pó. “Do pó vieste ao pó retornarás”. Acho que ouvi isto em alguma das aulas de catecismo que fui. Viemos de partículas que se uniram e formaram os primeiros compostos protéicos, para depois, por alguma condição propícia, surgir o primeiro ser unicelular. E pela cadeia evolucionária chegamos a este ser complexo que somos hoje. No fim vamos nos desfazer com auxílio de vermes que se alimentarão de nossa carne. O tempo nos devora. A vida é passageira e curta. Muito curta. Anos que correm velozes, quando nos damos conta, o passado fugiu de nós. Resta-nos somente o futuro. O presente, não é mais que a sensação de perda, a perda dos anos que se desfizeram em sonhos. E sonhos são eternos. Guardo os meus como o fazia com minha coleção de bolinhas de gude que ganhava jogando com os meninos: num lugar muito especial.  As bolinhas de gude eram meu tesouro, meus sonhos também o são. Não quero desfazer-me deles jamais. O café terminou, o entregador de jornais chegou com o jornal de domingo, e tive de despertar para a realidade. A notícia de capa era mais um caso de corrupção, e no país do futebol, um grupo de garotos jogava pelada, sem se importar com a falta de caráter de seus políticos. Sorri, ainda era domingo.

Categorias: Uncategorized | Tags: | 2 Comentários

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: