Arquivo do mês: julho 2009

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A mente tem vida própria

Giordana Medeiros

A vida tem mente própria e a mente tem vida própria. Somos todos loucos em busca de uma razão fugidia. Inconstante. Sei o que quero, mas não tenho forças para consegui-lo. Tudo me parece distante e difícil. Como se alguém me estendesse a mão e depois me negasse-a. E vivo nesse mundo. Outrora havia sons, horizontes. Mas não eram reais, não eram reais. Vertigens, miragens mirabolantes de uma mente perturbada e solitária. Foi minha culpa? Será que foi minha culpa? Eu fiz algo errado? Será um castigo? Por não ter me comportado bem, por ter me furtado ao convívio dos demais… Tinha medo que estivessem a rir de mim… E ouvia seus pensamentos, e todos me desmereciam. As pessoas começaram a tornar-se apenas borrões, não lhes via os rostos, assim não sabiam se olhavam realmente para mim. Então, então… Meu oceano de palavras não teve valor algum, pois as palavras que precisava fugiram de mim no meu momento crucial. Agora… Há agora? Sei que vivo à sombra de um passado que me persegue e assombra. Hoje não sei o que quero, pois estou infeliz com o que sou.  Eu sei que poderia ter sido mais e sei que nada sou.  Meu desespero é ter de escrever sem leitores, ninguém mesmo se interessa. Acho que não me faço entender. Talvez ninguém queira mesmo entender. Quando busco em mim o silêncio, encontro tormenta. Sei que todos os instrumentos tocam ao mesmo tempo numa balbúrdia monumental. Difícil se concentrar. Quando criança queria ser cientista. Fugi da ciência, para concentrar-me nos sentimentos. Acho que lidava melhor com coisas indefiníveis e imprevisíveis. Mas fui tola ao escolher meu destino, confiei demais em caminhos já traçados. Tive medo, novamente, de construir meu próprio caminho. E agora não há mais como voltar atrás. Todos conjecturam novas possibilidades, mas apenas consigo enxergar as possibilidades que deixei para trás. Todos sabiam o que eu era, mas me negaram a possibilidade de sabê-lo. E quando dei por mim, já não era mais o que deveria ser. Sou um projeto erigido à surdina, longe de meus olhos. Assim não pude ver no que me transformava.

Posso gritar e tentar desfazer-me desta casca que me cobre e me sufoca, mas se assim fizer… Haverá consequências, e não posso suportá-las, são demasiadamente pesadas. Não posso caminhar sozinha sob o peso desta cruz. O que me alivia? Onde posso descansar meu corpo sacrificado? Estas chagas que ardem, este corpo que de nada me vale? Não sou o que sou. Sou o que querem que eu seja. E nada me alegra neste uniforme que me vestiram. Nessa cartilha que me obrigaram a decorar. Por que fui tão fraca? Minha mente vivia, pulsava e obrigava-me a ceder. Abri mão de meus sonhos, pelos sonhos dos outros. Por que não lutei pela minha própria vida? Porque era justo desta que tentava desfazer-me. E isto é difícil. Os joelhos tremem e o corpo implora, mais um minuto… Mais um minuto… Quando finalmente domei meu cavalo selvagem, vi que tudo que me tornei, era uma pintura assinada por outro artista. Não sou eu. Não sou eu. O que sou eu? Por que há tantas perguntas a fazer e tão poucas respostas recebidas?  Sou uma mentira, um embuste. Nada em mim é verdadeiramente meu. Só minhas palavras que não surgem em sons, mas em letras escritas sobre a folha em branco para que ninguém leia. Somente eu. Depois de ler vou rasgar o papel e tudo ficará como está. Para Sartre, o homem foi condenado a ser livre. É mesmo uma pena? Eu me infligi o cárcere perpétuo, a mentira, a superficialidade dos sentimentos. Nada é real. Somente este sofrimento de ter me tornado algo que não compreendo. Se tivesse feito minhas próprias escolhas… Mas sempre tive medo. O medo é uma constante, medo das pessoas, do mundo, da sociedade. Se mesmo eu não me compreendo como o mundo pode compreender-me? “I can give not what men call love.” P. B. Shelley . Minha mente está mesmo controlada? E este texto cheio de dor, este soluço recolhido e esta decepção que sinto, isto é normal? Ninguém mais confia no que digo ou faço. Porque eu confiaria? Pode não ser real. Pode não ser normal. Minha vida não pode mais se restringir a mim. Todos se preocupam com que faço. Tudo é monitorado. E se estou triste, minhas lágrimas não podem regar minha dor. E se estou alegre todos desconfiam de minha felicidade. Meus sentimentos não são mais apenas meus.

Era uma vez alguém que nunca chegou a ser… E foi o que não era. Minha história se resume à duas sentenças.  O espelho esconde de mim minha verdadeira face. O que vejo é o Retrato de Dorian Grey. E o que sou é a figura que não envelhece, que não se deforma, que se conserva eternamente.   Mas todos só querem saber do que é exterior. O importante, que ficava inacessível aos olhos, perdeu toda sua necessidade. Posso desfazer-me de mim tão fácil quanto as outras pessoas o fazem. Sou insignificante. Desimportante. Nem um pouco interessante.  Por isso fugi para dentro de mim. E minha mente logo acusou meu desaparecimento. A mente tem vida própria, já disse. Não pude viver sozinha, e não posso… Mas não sou a companhia mais agradável. Sei que é o que todos pensam. É o que todos demonstram.  Serei sempre coadjuvante na minha própria peça. E quando fecharem-se as cortinas, os aplausos não serão para mim. Se fechar os olhos posso imaginar um mundo diverso. Nesta história, posso ser a atriz principal, num cenário menos hostil, pessoas amigáveis e sensíveis. Lembro-me de ter pedido a minha mãe um irmãozinho igual a mim. Porque desde criança me ressentia minha solidão. Não veio este presente, como não vieram outros, e passaram-se os anos. Só consegui ter mesmo a companhia deste amigo de papel prensado, que não escolhe quem abrirá suas páginas. Um universo ao meu alcance. Pude representar várias peças. “Sei o que sou, mas não sei o que posso ser”, discordo de Shakespeare, pois não sei o que sou e sei o que posso ser. E não é o que espero, não é o que espero. Eu renuncio ao que sou, este ente que desconheço e que não compreendo, pelo que espero ser.  Não me negue este desejo. Vida que sempre me negou abrigo, porque sempre me virou as costas, quando o mundo me aniquilava. E para que não o denunciasse cortou-me as mãos e a língua, como malfeitores fizeram à Lavínia. Entretanto este crime perdura. E logo serão denunciados os culpados.

A minha dor que transbordou de mim, agora é tão mesquinha… Sou humana, sou frágil, sou amarga, sou sensível, sou uma série de coisas que não me traduzem, porque sou muitas em uma só. Meu espírito é de tal forma complexo, que somente a figura de um caleidoscópio pode traduzi-lo.  Mas no fim são apenas espelhos. Somente espelhos. É tudo tão simples. Sou a complexidade mais simples que existe. Mas ninguém se preocupa em traduzir-me. Ninguém se ocupa em ouvir-me, mesmo que não tenha voz forte o suficiente para ser ouvida em meio a tal balbúrdia. Padeço de muitos males, o pior deles é o pavor deste vazio que me consome. Será eternamente assim?  O silêncio trás um estrondo em si. Não consigo me guiar por estes caminhos, pois não foram por mim escolhidos e levam-me a lugares que não queria ir. Se desobedecer estas estradas, se dirigir na contra-mão da história, pode ser uma possibilidade. Mas o tempo passa, rápido e atroz, Chronos devora seus próprios filhos. É impossível fugir ao tempo.  Ele não teve o seu poder de cura em mim. Somente abriu novas feridas entre aquelas que já sangravam. Minha mente foi dividida entre aquilo que me transformavam e o que eu era. E desse ser que era, não me lembro. Ficou enterrado durante décadas e padeceu de asfixia. Agora não há mais como ressuscitá-lo, talvez com alguma poção mágica, que possa dar vida aos mortos, mas é perigoso ressuscitar aquilo que o tempo enterrou. Assim pode ser mais fácil compreender este texto, um muro de lamentações, por um passado roubado, por um futuro distante, por uma história transformada. Nada do que sou é o que era. O que serei: nada mais do que sou agora.  Hoje sou nada, o que serei: nada. Algo sem valor algum. Posso enumerar meus defeitos, mas não posso corrigi-los porque já fazem parte de mim. O que sou e que não compreendo. Entendo que quiseram fazer de mim algo nobre. Mas não foi o que me tornei. Sou como a espada a qual não se pode dar o corte. Pode se limar eternamente. Produzida do mais puro aço. Mas se não tem corte, para que serve? Para enfeitar, como um prêmio numa prateleira ganho décadas atrás, e do qual não se recorda por que.  Sou grata por tentarem guiar-me quando meus olhos não conseguiam ver. Mas agora que vejo, com assombro constato que tomei errôneos caminhos. Sinto-me consternada como quem está perdido. Onde devo ir? Seguir, sempre em frente, pois não há mais como voltar. Não serei nunca quem sou realmente. Tenho de aprender a conviver com o que me tornei. Este estranho com quem me deito todas as noites. Amá-lo (será possível?) e tentar compreender… Muito mais que só entender.  Enfim, perdoar este inimigo que está dentro de mim.

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Sob o som do saxofone

Giordana Medeiros

Amassou mais uma vez a folha de papel que retirara com violência da máquina de escrever. Recomeçou do início: “Carlos, meu irmão, estou escrevendo esta carta, pois tenho esperanças que ela chegue algum dia as suas mãos. Já me disseram que cartas de suicidas ficam com a polícia, e fazem parte do processo que averigua a causa mortis. Entretanto torço para que leia estas palavras antes de esquecer-me por completo.” Pegou o maço de cigarros, retirou um, colocou na boca e friccionou o fósforo na caixa, colocou a mão sobre o palito para proteger a chama até que acendesse o cigarro. Quando conseguiu, soltou a fumaça num grande suspiro. Releu o trecho escrito. Achou ruim e, novamente, formou uma bola de papel que foi arremessada ao chão onde encontraria uma dezena de outras similarmente escritas e também desprezadas. Não sabia ao certo o que queria escrever. Ele não desejava, na verdade, deixar um relato melodramático de seus últimos dias, nem acusar ninguém por sua escolha, nem mesmo deixar um testamento não-oficial, dividindo os escassos bens que possuía que quase se resumiam àquela máquina de escrever, com a qual escrevia seus romances. Aliás, o último não passara da quinta página. E não tinha nem ânimo de escrever. Sua carta de suicida não passava nem mesmo do primeiro período. Estava com um bloqueio criativo, nome pomposo para os mais validos; como era pobre, sofria na verdade de falta de sonhos e perspectivas. Ele não mais ansiava por nada.  E sentia um vazio enorme. Era um artista desiludido diante da força massacrante da vida.  Na verdade a arte é um vazio que alguém entendeu. A este vazio, essa solidão enorme frente à folha em branco, ele compreendia. Não a esta sensação de derrota, que percorria suas veias, como um veneno que tomava todo seu ser. Maculando os outrora sonhos, convertendo-os em desilusões. Queria dizer ao irmão, porque se escondia dele quando este o procurava. Desde criança escondia-se no guarda-roupa, no escuro, respirando naftalina, para poder estar consigo mesmo. Pois quando estava com Carlos, tudo era somente Carlos. Seus olhos claros, seu corpo esguio que não parecia nem mesmo suar. E sempre que ele se escondia de Carlos, sua mãe ralhava: “Não vê como ele gosta de você?” Ele era praticamente obrigado a gostar de Carlos, porque todos gostavam. Ninguém jamais esquecera Carlos. Mas ele, quando se escondeu definitivamente do irmão mais novo e do restante da família, foi esquecido, como um dos móveis velhos que recheavam a sala de estar da Bisavó Ricarda.

Agora estava disposto a se tornar novamente lembrado, pois afinal alguém teria de tomar conta do corpo que apareceria bem na hora do jantar. Atrapalhando, como sempre incomodou o seu corpo roliço, suarento, seu jeito acanhado e suas unhas roídas até a carne. Lembrava-se que quando sua mãe morreu, foi a última vez que vira Carlos, tiveram de dar um fim ao corpo, e dividir os móveis do início do século, outrora pertencentes à Bisavó Ricarda. Não quis ficar com nada. Lembrava-se que cada peça fazia Carlos recordar algo. Como aquele capacho antigo que ficava junto à lareira, ou aquele espaldar junto à estante. A cristaleira que mamãe amava. Não quis nada. Como também não exigiu o amor e a dedicação da mãe. Não quis nem mesmo ficar com os retratos. “Veja bem, moro sozinho num apartamento minúsculo, onde guardaria estas relíquias? E para quem?” Disse ao seu irmão, praticamente obrigou-o a ser guardião das memórias da família. “É um presente de casamento, terá todos os móveis e o casarão.” A família crescia, Carlos tivera dois filhos, que corriam enlouquecidos pela casa e pelo terreno amplo em que se localizava o “sobrado dos Ferreira” . A família dele era conhecida, seu avô e seu pai foram grandes jornalistas fundaram o maior jornal da cidade: “O diário do povo”. A fortuna que amealharam foi dilapidada pelos péssimos investimentos do pai e do avô, e o alcoolismo que marcou a vida de ambos. Como uma herança maldita. De herança ele recebera somente a facilidade com as palavras, e o profundo conhecimento de si mesmo. Sabia que Carlos ressentia-se de seu distanciamento. Mas tivera de estar longe do que Carlos era. E estar somente com o que sabia de si. Seu silêncio, sua vida medíocre e a insanidade de ser humano. Sentia-se mesquinho por furtar-se ao convívio dos demais. E tão incrivelmente minúsculo, por todos terem se esquecido tão facilmente dele. Agora ouvia o som do silêncio, o som de sua respiração, do seu coração pulsando e gritando: estou vivo! E a isso se resumia seu mundo. A simplicidade de ter de estar somente consigo. E quando se escondia de Carlos, fugia do abismo que separava os dois. O cuidado que todos tinham com a saúde frágil do caçula. E do desprezo que todos sentiam pela presença suarenta do filho mais velho, obeso, lerdo e melancólico. Carlos sempre chorava quando não o encontrava. Ele sentia remorso e ia ao encontro do irmão, abandonando seu esconderijo. Onde guardava os esqueletos de suas dores. E tudo que tinha estava naquele apartamento, até mesmo as baratas. Como aquela que corria desabaladamente para debaixo do rodapé, deixando a cabeça e as antenas de fora. Se Carlos visse, iria logo sugerir um dedetizador muito bom que exterminou os insetos de sua casa, “o sobrado dos Ferreira”, inclusive os cupins que estavam destruindo os móveis.

Havia a possibilidade de doarem o seu corpo para alguma faculdade, mais uma forma de humilhar-lo mesmo depois de morto.  Agora ouvia o saxofone do vizinho, que era um excelente músico cuja fortuna não acompanhou seu talento.  E a única mulher porque se apaixonou, abandonou-o por não conseguir viver com a escassez de luxo e dinheiro. Já ele, o escritor falido, seria lembrado pelo silêncio e ausência nas reuniões do condomínio. “Nem sabia que o apartamento 202 estava ocupado.” Diriam alguns. Ele só cruzava com poucos moradores, e vínculos, que se assemelhava a uma amizade, ele tinha apenas com o saxofonista. Um artista reconhece outro. São ligados pelo mesmo vazio. Dores que se encontravam. E se comunicavam. A música é a dor que se esparrama em som. A literatura é o sangue das feridas sobre o papel. E tais dores são irmãs e se reconhecem.  Agora ele se preparava para seu derradeiro ato.  “O corpo quer a alma entende…” O cadafalso já estava pronto, em breve sentiria a asfixia que finalmente faria parar o pulso frenético, que lhe lembrava a cada segundo que estava vivo. A história dele ficaria pelo avesso, como um de seus contos que restaram pela metade, esboços de vida que nunca saíram do papel. No fim não tinha medo do céu ou do inferno, mas “acreditava em anjos e porque ele acreditava, eles existiam”. Quando morresse um anjo com asas grandes, corpo esguio e cabelos loiros, tão loiros quanto os de Carlos, viria pegar-lhe a mão. E não se esconderia mais, pois seria finalmente achado. Como um tesouro escondido, um sonho que não foi sonhado, e que ficou como um plano que jamais chegou a ser. Ele poderia ter sido tanto, mas todo o foco concentrava-se em Carlos. Ele era esquecido, num canto, dentro do guarda-roupa, inalando naftalina e observando o trabalho das aranhas tecendo suas teias. O que ele era? O que Carlos era? O que são realmente os homens? O que verdadeiramente são, senão o que o impossível cria em seus espíritos ? Ele queria fumar mais um cigarro, mas o maço estava vazio. Procurou fumar os restos dos cigarros que transbordavam do cinzeiro. Ele tentou com obediência servil representar o papel de ser, mas lhe foi impossível. Pois não esteve jamais preparado para atuar nesta comédia que é a vida.  Encarava a máquina de escrever, que exigia, que cobrava, mas as palavras fugiam. Ele não tinha idéia do que escrever. Pensou em resumir tudo num “adeus”. Mas achou muito cômico e desistiu. Imaginou tecer comentários sobre a dor que lhe afligia desde que Carlos nasceu, mas achou muito dramático. E todas as idéias eram descartadas uma a uma, como todos os seus sonhos que foram abandonados. Não se compreendia, nem a si mesmo nem aos sonhos. É difícil compreender-se. Como é difícil perder-se sem se achar. Mesmo que achar-se seja de novo a mentira que estava vivo. Ele estava vivo? E num suspiro. Porque não encontrava palavras para despedir-se da vida e do mundo. Talvez só do mundo, pois a vida já lhe expulsara muito antes, adiou a idéia do suicídio para alguns dias, talvez anos que se sucederiam vazios, melancólicos, sob o som do saxofone do vizinho.

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WEEDS (Season 5)

Despida das armaduras

Giordana Medeiros

Com um calhamaço de folhas numa mão, uma xícara fumegante de chá em outra, Alanis tentava decorar as falas de sua personagem na série Weeds. Ela estava “descansando” da extenuante rotina de shows que havia realizado no ano anterior na Europa e Estados Unidos, e no início deste ano na América do Sul. Como não sabia descansar sem se ocupar, resolveu investir em sua carreira artística. Na realidade ela adorava atuar, e sua evolução como atriz era notável, e novos convites para que atuasse chegavam a todo momento. Depois da médica Audra Kitson, um novo papel já estava programado. Agora como uma garota com problemas alimentares. Esse lhe apavorava, tendo em vista ela mesma já ter sofrido com tais problemas. A anorexia era um fantasma para ela, precisava expurgar-lo, nem que fosse interpretando na ficção algo que foi tão real em sua vida. Ela se recordava da dor que a doença lhe causara, as feridas que deixou em seu espírito, e ela não sabia se estas já haviam cicatrizado completamente, mas ela se aventurava. Na realidade era um desafio, e ela adorava se ver desafiada. E lançava-se de cabeça numa aventura. Ela organizaria, inclusive, uma maratona para beneficiar as pessoas que sofrem de transtornos alimentares. Ela mesma correria a maratona, agora que estava curada, queria ajudar quem também sofre com este mal. E havia ainda o livro que estava escrevendo. Ela tinha múltiplos talentos, e como uma boa geminiana, tentava explorar todos de uma vez só. Agora pensava se seus fãs apreciariam seu trabalho como a médica Audra Kitson, ela se dedicava ao máximo. E queria, na verdade, ver a reação de seus fãs ao assistir a série. Será que teriam uma boa impressão de seu trabalho? E eram tantas falas, pois ela estaria na maior parte dos capítulos desta temporada. Ela sempre se lançando aos desafios…

Alanis havia sofrido muito com o fim do relacionamento com seu ex-noivo Ryan Reynolds, que foi acompanhado de perto pela mídia sensacionalista. E durante este período, compôs as músicas de seu último cd, Flavors of Entanglement. Ela sempre usou o trabalho como uma maneira de escapar da dor. Mas esta nos persegue insistente, há momentos em que ela nos alcança, e lágrimas brotam em nossos olhos, contudo ela não queria mais chorar. E nem se entregaria à dor. Reuniu todas as forças que possuía e superou todo o sofrimento. Estava muito feliz com seu novo namorado. Ele, um ativista ambiental, despertou-lhe o desejo de proteger o planeta. Ela se dedicou a campanha da Earth Hour, uma hora em que todos deveriam deixar de usar energia elétrica, um protesto contra o desperdício e a poluição do planeta. Sempre foi ligada a causa ambiental, muitos dos seus amigos já se empenhavam na proteção do planeta. Foi mágico descobrir a floresta tropical e estar com os índios, o que fez quando esteve em turnê pela América do Sul.  Alanis estava ligada a diversas causas beneficentes, ela também ajuda a reconstruir as cidades destruídas pelas tsunamis na Indonésia. Foi assistir de perto a superação daquelas pessoas com a vida marcada pela tragédia. E tanto os índios quanto as pessoas da Indonésia estavam tão felizes, viviam uma vida de tantas restrições, mas conseguiam sorrir, com a pureza que é comum àqueles de bom coração. Ela amou nadar com os botos no Rio Amazonas, bem como, visitar as crianças da Indonésia e ajudar, nem que seja com um pouco, diante de tantas dificuldades.

A vida presenteava-lhe a todo momento, e ela não mais diria não à ela. Gostava de pegar seu carro e dirigir pela auto-estrada, bem como o fazia com sua moto, para sentir o vento em seu rosto. Ela sempre se entregava ao novo. Estava aprendendo a jogar capoeira, uma luta dos escravos brasileiros, que lhe encantou ao visitar o Brasil. E fazia tanto, por que queria sentir o mundo, ela era uma cidadã do mundo e sabia da responsabilidade que adquirira por sua posição de destaque nele. E consciente de seu dever, se lançava aos desafios. Agora deveria decorar suas falas para poder atuar com maestria em mais um episódio da série Weeds. Havia rumores que deveria aparecer nua em cena, mas ela não temia, afinal era consciente de seu corpo, não se envergonhava dele. Ela finalmente convivia bem com o que era exterior e interiormente. Se tivesse que aparecer nua não seria algo inteiramente novo. tendo em vista ter estrelado um videoclipe totalmente nua. Thank You é lembrado até hoje pela coragem que teve de deixar-se isenta de qualquer proteção, mal sabiam que as roupas não são a única armadura que possuímos. Ela não se constrangia em estar nua, não mais desde que superara os problemas com a anorexia.  E tudo que ela queria era ajudar àqueles que também sofrem com distúrbios alimentares, mostrar que não estão sozinhos, e que há cura para tal dor. Olhou o relógio e percebeu que deveria apressar-se, dentro de minutos deveria ser maquiada para aparecer em cena. Leu mais uma vez as falas, tinha uma memória muito boa, afinal para decorar tantas letras, das músicas que compôs durante toda carreira, somente uma memória aguçada e profissionalismo. Tinha prazer em tudo que fazia, estava feliz com seu trabalho, com tudo que havia feito, e, ao olhar para trás, não guardava decepções ou mágoas. “Tive que cruzar todo este caminho para chegar até aqui.” Pensou, feliz por ser tudo aquilo que imaginava ser. Poucos alcançam tal nível de realização. Ela era privilegiada.

Bateram na porta do camarim para informá-la que deveria ir para a sala de maquiagem. Terminou seu chá. Arrumou o script, tomou fôlego: estava pronta.  Observou seus cachorrinhos que brincavam um com outro, afagou-lhes a cabeça. Se tivesse filhos seria uma mãe tão dedicada quanto o é para seus filhotes. Mas o desejo da maternidade, não lhe pressionava. Não se sentia obrigada a fazer mais nada, fazia tudo por paixão.  E por isso estava tão feliz. Saiu do camarim, seguida por seus filhotes que lhe acompanhavam sempre. Na sala de maquiagem, foi acolhida com carinho pelas funcionárias. Ela sabia que ninguém mais lhe exigia nada, além de sua própria consciência, porque tinha uma tendência muito forte ao perfeccionismo. Ela tinha de dosar sua própria vontade, pois sempre exigia o melhor de si mesma. E isso era na verdade seu “calcanhar de Aquiles”.  Esse perfeccionismo que lhe levou à anorexia, e outros problemas de cunho pessoal. Deveria se dedicar, mas dosando seu entusiasmo. E ela estava aprendendo a fazê-lo com o acompanhamento terapêutico. Superava seus desafios dentro de suas possibilidades, não tentava mais fazer algo que estava fora de seu alcance, também não mais o exigia dos outros. Muitos conflitos surgiram dessa vontade que os outros agissem com o mesmo entusiasmo que ela. Agora ela tinha consciência de si, dos outros, e do que ela representa neste mundo. Enquanto tivesse certeza disso, sabia que seria muito feliz. A maquiadora informou-lhe que havia terminado, e foi chamada a atuar. Quando foi anunciado o início das gravações sentiu-se protegida com suas armaduras e livre como um pássaro novo que aprende a voar.

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BP

Corinthians campeão da Copa do Brasil!

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