“Nothing is gonna change my world”

Giordana Medeiros

Tenho de redimir-me de minhas faltas, porque toda esta dor tem de existir por algum motivo. As noites estão frias no inverno. Dentro de mim, o vazio ressonante de uma catedral. Mas não sou território sagrado, sou profano, sou mortal. Ocorre que eu sigo vivendo, vivendo, os outros também, só que não se vêem como vêem a mim. A vida pode ser um terrível pesadelo. Vou fugir de retorno a mim mesmo, onde posso encontrar as portas abertas, não há como me negar acesso a esse mundo. Já me disseram que todos querem ser aceitos. E quando a própria vida nos rejeita? Não sirvo para esse mundo. E tenho os pincéis para pintar minha própria realidade. Porque poupar-me, proteger-me, é minha prioridade agora. Sou o compositor de minha dor. Se posso escapar de alguma forma de uma realidade aterradora, porque seguir sofrendo? Quero a mansidão dos espíritos. Não há como fugir de si. Tudo estava confuso, quero encontrar a lógica de meus pensamentos… Estou escrevendo de assalto, sem armaduras, sem defesa. Os pensamentos surgem no papel sem que possa impedi-los. Eu sou uma pessoa que não tinha coragem de se rejeitar, entretanto precisei que as demais pessoas o fizessem para que, então, nem eu mesmo pudesse mais viver comigo. Sou outro, no meu espírito sou outro, não o que demonstra meu físico. Imaginem uma pessoa pequena e sem força. É o que aparento ser. E dentro de mim… Dentro de mim há um tigre adormecido. Mas não há como expulsá-lo do sonho, só posso unir-me a ele, hibernando eternamente. E no sonho sou mais feliz. Toco a veia pulsante como alguém que toca a verdade no sonho. Por enquanto sou alguém deveras recente, aos poucos me encontro nesta nova realidade cujas tintas escolhi. E mesmo que seja uma felicidade vazia, estou feliz. E até para morrer serei sempre muito feliz. Uma mínima inspiração me trás a força para uma busca extremamente difícil. Exploro um interior que me era desconhecido, mas desvendo agora. E tudo que vejo me surpreende. Quero estar eternamente aqui. Posso fechar-me nesse esconderijo sem que os demais percebam. Vou permanecer aqui longe, para que nem a dor me alcance.

Sinto uma sensação de fracasso e resignação, pois sei que fiz tudo que estava ao meu alcance. Mas não foi o suficiente. Nunca é. No meu interior me fascina a total ausência de impedimentos. A vida nos cerceia tanto… Aqui, onde me encontro, não preciso me submeter a nada. Não intervenho no que me é exterior, e nada me atinge.  Há ainda a sede ruim de amor. Mas nada pode suplantar o reinado do medo. Meu coração é selvagem e não pode mais ser domesticado.  A verdade é que estava desorientado e toda a luz exterior me cegava. Aqui é escuro, mas consigo me mover com agilidade. Como se conhecesse todos os caminhos. Desconhecia a direção por que meus olhos me guiavam, mas em meus sonhos cruzo horizontes que não vejo. Apenas imagino. E imaginando, vou edificando meu mundo, minha existência de sonhos e pequenos fragmentos de realidade.  Pois extraio do que é real apenas o essencial. O restante, não necessito. Não mais. Desisti. Procurei adequar-me ao que me exigiam os homens. Falhei, simplesmente não pude alcançar os altos padrões que determinavam, porque sou pequeno e o coração deles mesquinho. As noites vão se tornando mais longas, noites intermináveis em que me encontrava numa espera muda. Esperei que fosse aceito, esperei que me inserissem, esperei, mas todos me viraram as costas. E não há quem me ampare na minha queda. Não há quem me enxugue as lágrimas, nem me acolha em seus braços, terei de seguir sozinho, não no mundo que eles impõem, mas no que escolhi para mim.  Não vale a pena toda a dor à que me submeti. Por que a “cura” é ser igual aos outros? Não sou como eles. Não sou como ninguém e meu destino é ser sozinho. Estava perdido com as soluções que me antecediam, o mundo me antecede a cada passo. Não quero mais seguir por esta direção. Sigo contra a multidão que tenta arrastar-me violentamente. Há uma música gravada em minha memória: “nothing is gonna change my world”, Accross The Universe dos Beatles, nada mais pode mudar meu universo, meu “infinito particular”.

A alma não apodrece como o corpo orgânico, torna-se abstrata. E posso imaginar o que quiser, sou imaculável em minha realidade, estou purificado, expurguei a influência dos outros em mim.  O silêncio traz um estrondo dentro de si. Eu quis, quis com todas as forças, lutei, feri-me profundamente. Está na hora de recolher os corpos e tratar as feridas. Ainda de procurar novos caminhos. Retorno para onde não deveria ter saído. Quando nasci, foi-me feita uma promessa, a que reivindiquei e não me foi cumprida. Estava ávido por algo, e aguardava com tanto fervor, que pode ter acontecido e não me dei conta, pois esperava uma emoção indefinível. Meu coração não bateu amplo. Não me dei conta que a razão de minha espera ocorria. E agora o que me resta, além de lembranças que vão sendo corroídas pela lepra do tempo? Há uma gravidade em ser o que sou que não compreendo. Será errado não se subsumir ao que é comum? “Do alto de uma montanha a gente se desacortina”, e ninguém compreende o que me levou a esta montanha e o que faço aqui, admirando um mundo que agora abandono. Adeus mundo, vasto mundo, não me chamo Raimundo, pois não procuro rimas, mas soluções. Não me ocorre nada no momento. Enxergo um tufo de margaridas, minhas flores preferidas por sua simplicidade. E nelas também não encontro soluções. Somente sei que são belas, simples e belas. Uma simplicidade que invejo, pois sou complicado como equações matemáticas logarítmicas, ou derivadas, mas não possuo a exatidão destas, porque sou humano. Complicadamente humano. Não sei ao certo o que esperavam de mim. Mas estou longe de ter alcançado. Agora vou virar as costas ao mundo que me renegou. Como o filho que vira as costas ao pai que lhe rejeitou. É minha vez de dizer-lhe que não! Sinto vontade de chorar, às vezes consigo. Outras, fica só esse nó na garganta de um soluço recolhido.

“Será maior a tua dor / que a daquele gato que viste/ a espinha quebrada a pau/arrastando-se a berrar pela sarjeta/sem ao menos poder morrer?” Versos de Ferreira Gullar. É sempre nele que me socorro quando me faltam palavras. E nessa solidão muda, posso seguir sentindo, não há como ficar impassível diante destes versos.  Outros mais: “Amigos morrem/ as ruas morrem/ as casas morrem ./ Os homens se amparam em retratos/Ou no coração de outros homens.” “Ma vie c’est sinistrée” Mas há quem se ampare na dor para criar diamantes. Estou lapidando minhas pedras. Não sei se criei algo palatável. Saboroso, não digo. Sei que tem um sabor ácido que trava na boca. É tudo que posso oferecer. Faz parte de mim. Estão expostas minhas entranhas. “Mais, où donc êtes-vous?” De novo o gosto do amor ruim. Meu coração é indomável e às vezes tem recaídas dolorosas. Cala-te e bata somente, num ritmo que possa conhecer, que não me confunda e traga-me terríveis consequências sentimentais. Frida Kahlo dizia : “lo que importa es la no-ilusión. La mañana nace”. A mim somente a ilusão é-me importante. Desvencilho-me da ressaca emocional de uma vida real. Viver nos sonhos é mais agradável e menos sofrido. Posso ser o que desejo ser. Sem que ninguém tome ao menos conhecimento. E posso reescrever minha história com as tintas que me concedem os sonhos, pinto uma tela com cores frias e quentes, nada de naturezas mortas, nem mesmo a dor das telas de Francis Bacon. Somente “les promenades”de Monet. A doçura das coisas. Eis aqui minha despedida: adieux monde, maintenent je suis dans mes rêves.

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Uma opinião sobre “

  1. Muito boa a sua colocação do personagem por trás da jaula. Mas nenhum ser pode viver nela.

    Parabéns pelo texto.

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