Arquivo do mês: junho 2009

Morreu o ídolo de minha infância, descanse em paz Michael…

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Insônia

Giordana Medeiros

Caminhava absorto em seus pensamentos, sob a chuva torrencial que lhe encharcava as roupas. Via as pessoas correndo tentando proteger-se inutilmente sob as marquises, e ele fazia questão de caminhar no sentido inverso. Não como uma forma de afronta, apesar do mundo jamais lhe ter acolhido, ele não lhe guardava ressentimentos. Pensava que assim conseguiria manter-se sem mácula. Ter sua própria ideologia, longe da influência dos demais que sempre desvirtuaram seus caminhos. Se a chuva era fria e seu corpo quente, e se a roupa grudava-lhe no corpo, isso não era o bastante para forçá-lo a seguir na direção em que determinava a corrente. Seus lábios tremiam, o calor de seu corpo esvaia-se. Então, resolveu esquentar-se com um conhaque. Se entrasse em qualquer espelunca que visse, não estaria se submetendo a força cogente da maioria, afinal era terça-feira. Somente sentaria, degustaria sua bebida, sem guardar nomes, nem mesmo as feições das pessoas com quem porventura cruzasse. Na noite escura, a chuva cantava, e os raios iluminavam. Mas não se ouvia som algum e nada se via. Entrou num bar cujo neon piscava vermelho: entre. E as portas que não nos convidam? Devemos transpor-las? Sentiu olhos inquisidores sobre si. Olhos que sugestionavam, olhos jocosos, olhos de desdém, olhos que olhavam somente. E ele não queria ver ninguém.  Sentou-se no balcão, pediu o conhaque. Quando lhe foi servida a bebida, instintivamente buscou os olhos do garçom. Verdes. Por que tinham de ser verdes? Se fossem castanhos ou negros facilmente seriam esquecidos. Agora aquele verde se fixaria em sua memória, e toda vez que pensasse verde, viria a imagem do bar, do garçom, dos olhos. Era necessário pensar azul. Para que não fosse vítima desse verde incômodo. E azul, era o mar, a terra também como provara Yuri Gagarin . E se ficasse com o azul que se impunha, poderia esquecer o verde, olhos verdes. E o calor da bebida, queimando a garganta. Havia uma canção que se entoava rouca no ar provinda de uma velha jukebox. Se colocasse uma moeda poderia ouvir o que quisesse.  Talvez não houvesse Debussy, no acervo da máquina. Mas poderia haver algo mais agradável que a rouquidão daquela voz rasgando-lhe os ouvidos.

Foi até a máquina e depositou alguns centavos que trazia no bolso. Não é que encontrou uma canção que há tempos não ouvia? E ficou perto da máquina, pois temia os homens. Poderia se proteger sob o som que a jukebox transbordava. Alguns casais foram ao centro do bar e começaram a dançar. Ele não quis observar. E voltou-se para dentro de si. A música toca seu coração. E ele toca a música que ninguém pode ouvir. Ou não quer ouvir. A roupa secava no corpo. Já estava começando a cansar-se de estar ali. Até que uma mulher ofereceu-lhe um cigarro. Foi como se tivesse sido açoitado. Como percebera que ele estava ali? Recusou os cigarros de cabeça baixa, para não cruzar seus olhos com os da mulher. Ela insistiu, ele desesperadamente tentou desvencilhar-se da incômoda intromissão. O que queria de si? Que se mostrasse interessado? Não era mais afeito a desventuras amorosas… Agora só a solidão lhe era importante. Porque somente possuía habilidade de tratar consigo mesmo. Os outros lhe eram um tremendo mistério, que ele se recusava a desvendar. Deixe permanecer a incógnita. A pergunta sem resposta que soa como um toque agudo no piano. Ele saiu protegendo o rosto com as mãos para não ter de ver as feições ousadas da mulher. Ela respondeu, praguejando: “Bixa!” Sentiu novamente os olhos sobre si. Olhos de reprovação, olhos que não olhavam somente, julgavam. Saiu do bar humilhado. Por que não compreendiam que ele não queria ver ninguém? Ele não queria mais sentir. Por que os sentimentos só lhe trouxeram sofrimento. A humanidade que sapateia indecorosa sobre sua dor. A chuva não parara, mas a bebida lhe esquentara o suficiente para que seus lábios não mais tremessem.  Os raios iluminavam as ruas escuras, onde o perigo se encontrava em cada viela, prostitutas fumando com lábios vermelhos e roupas exíguas, crianças cheirando cola, outras fumando crack. Num mundo cheio de maledicências e vícios, porque não poderiam simplesmente esquecê-lo? O raio que rasga a escuridão… As mãos nos bolsos ensopados, não para esquentá-las, mas como se assim pudesse guardar a si mesmo no bolso.  Como faz uma criança ao achar uma bola de gude e abismada por sua beleza vítrea, quer protegê-la.

Ele sentiu a face rubra. O rosto formigava, seus ouvidos zuniam.  Tinha de encontrar abrigo. Não para o corpo que nada lhe valia, mas para o espírito, que estava sempre tão aflito. As coisas estavam tão diferentes. Não foram sempre assim, mas com o tempo, suas relações pessoais desmoronaram como um prédio que perde seus alicerces.  Ele não mais conhecia o que era estar com outros homens. E tinha medo de estar com estes. A sociedade lhe oprimia de forma que não mais procurava estar com ela. E nessa noite escura com o vento, as árvores sacudidas, e a chuva incessante, sentia-se mais protegido que  se estivesse com outro alguém. Encontrar-se-ia nessa noite com o que tinha de mais sincero e puro. Nem que fossem suas lágrimas salgadas e quentes que se misturavam às gotas de chuva. Lágrimas que se escondem como ele. E se esconder foi seu abrigo. Somente virando as costas para o mundo, pode se proteger da indiferença deste. Procurava desafiar a vastidão inútil do mundo, com sua insignificância também de minúsculo valor. Braços abertos para sentir as gotas caírem em suas mãos. Água límpida que lhe batizava. Num momento sentiu-se como um garoto fresco e limpo que vai de manhã para a escola. O destino é algo muito curioso. Nunca se sabe por que caminhos ele vai te levar. Você apenas segue. Sem saber o que lhe espera além do horizonte. Água abençoada que lhe expurgava as faltas, cumpra a sua sina. Desvende seus mistérios. Ele era indecifrável ao olhar leigo, necessitava de alguém que desvendasse os mais difíceis hieróglifos. Em casa, depois de abençoado pela pura água da chuva, procurou a cama como se dormir fosse um bote salva-vidas num mar tempestuoso. Ele tinha medo. Tanto, que às vezes queria levar para o sono algo consigo, algo do dia, como se fosse uma garantia que no outro dia ele acordaria. E o mundo estaria igual. Mas sempre que acordava estava tudo diferente…

Deitou-se na cama, e tentou dormir, mas a noite é perversa, impede-o de sonhar.  Na verdade ele foi expulso do sonho. E não tem mais abrigo algum. Onde pode se esconder dos olhos, que reprovam, julgam, submetem e humilham? Onde? Escutava a música da chuva, trovões graves, ventania aguda. Árvores balançando-se. São bailarinas neste espetáculo. “Porque está tudo tão frio dentro de mim?” Ele se questionava, mesmo sabendo, que para tal pergunta não havia respostas. Sabia apenas que sua chama interior havia se extinguido. Seu corpo, não mais se inflamava. Aceitava submisso. A insônia que lhe prolongava o dia. A dor que lhe aumentava o sofrimento. A solidão que lhe sustentava nos seus tristes momentos. “Estou tentando reconstruir minha vida”. Pensou e riu. À contra gosto, mais por fingimento. Como uma defesa dolorosa, um ato masoquista, ou para mostrar que ele era um mártir que fingia não estar sofrendo, quando na verdade estava dilacerado. Esperando que alguém conseguisse ver o arrependimento e a piedade que ele sentia, e que só por heroísmo sorria. “Porque lençóis tão limpos para este corpo moribundo? Deixe-me pagar minha penitência. E atravessar minha via crucis, se quiserem, coroem-me com uma coroa de espinhos…” E falou com um ar de desafio para o quarto em penumbra. Ninguém lhe respondeu. Também não aguardava respostas. Ele apenas dizia como alguém que leva uma bofetada e diz que não está doendo quando na verdade está doendo. E se santifica em sua dor. A realidade menos lisonjeira é que ele lera muitos livros, mas neles nada encontrara que desmistificasse essa existência abjeta que vivia. Se esperasse mais algum tempo talvez a chuva parasse ou o dia nascesse e o sol iluminasse o quarto, pois ele precisava de algo luminoso para a escuridão de sua vida. Ele se via tão desamparado, mas era obrigado a contar consigo mesmo, pelo menos hoje em dia é assim. As pessoas só têm um recurso: elas próprias. E por isso estava rindo, não para ofender alguém, pois ninguém lhe via agora, mas por saber de sua posição ridícula. E da situação que era um pouco cômica em si. Adormeceu sorrindo, quando o dia já amanhecia. As gotas de chuva escorriam pela janela como lágrimas. Como se a vida chorasse a morte de uma de suas vítimas.  

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“Nothing is gonna change my world”

Giordana Medeiros

Tenho de redimir-me de minhas faltas, porque toda esta dor tem de existir por algum motivo. As noites estão frias no inverno. Dentro de mim, o vazio ressonante de uma catedral. Mas não sou território sagrado, sou profano, sou mortal. Ocorre que eu sigo vivendo, vivendo, os outros também, só que não se vêem como vêem a mim. A vida pode ser um terrível pesadelo. Vou fugir de retorno a mim mesmo, onde posso encontrar as portas abertas, não há como me negar acesso a esse mundo. Já me disseram que todos querem ser aceitos. E quando a própria vida nos rejeita? Não sirvo para esse mundo. E tenho os pincéis para pintar minha própria realidade. Porque poupar-me, proteger-me, é minha prioridade agora. Sou o compositor de minha dor. Se posso escapar de alguma forma de uma realidade aterradora, porque seguir sofrendo? Quero a mansidão dos espíritos. Não há como fugir de si. Tudo estava confuso, quero encontrar a lógica de meus pensamentos… Estou escrevendo de assalto, sem armaduras, sem defesa. Os pensamentos surgem no papel sem que possa impedi-los. Eu sou uma pessoa que não tinha coragem de se rejeitar, entretanto precisei que as demais pessoas o fizessem para que, então, nem eu mesmo pudesse mais viver comigo. Sou outro, no meu espírito sou outro, não o que demonstra meu físico. Imaginem uma pessoa pequena e sem força. É o que aparento ser. E dentro de mim… Dentro de mim há um tigre adormecido. Mas não há como expulsá-lo do sonho, só posso unir-me a ele, hibernando eternamente. E no sonho sou mais feliz. Toco a veia pulsante como alguém que toca a verdade no sonho. Por enquanto sou alguém deveras recente, aos poucos me encontro nesta nova realidade cujas tintas escolhi. E mesmo que seja uma felicidade vazia, estou feliz. E até para morrer serei sempre muito feliz. Uma mínima inspiração me trás a força para uma busca extremamente difícil. Exploro um interior que me era desconhecido, mas desvendo agora. E tudo que vejo me surpreende. Quero estar eternamente aqui. Posso fechar-me nesse esconderijo sem que os demais percebam. Vou permanecer aqui longe, para que nem a dor me alcance.

Sinto uma sensação de fracasso e resignação, pois sei que fiz tudo que estava ao meu alcance. Mas não foi o suficiente. Nunca é. No meu interior me fascina a total ausência de impedimentos. A vida nos cerceia tanto… Aqui, onde me encontro, não preciso me submeter a nada. Não intervenho no que me é exterior, e nada me atinge.  Há ainda a sede ruim de amor. Mas nada pode suplantar o reinado do medo. Meu coração é selvagem e não pode mais ser domesticado.  A verdade é que estava desorientado e toda a luz exterior me cegava. Aqui é escuro, mas consigo me mover com agilidade. Como se conhecesse todos os caminhos. Desconhecia a direção por que meus olhos me guiavam, mas em meus sonhos cruzo horizontes que não vejo. Apenas imagino. E imaginando, vou edificando meu mundo, minha existência de sonhos e pequenos fragmentos de realidade.  Pois extraio do que é real apenas o essencial. O restante, não necessito. Não mais. Desisti. Procurei adequar-me ao que me exigiam os homens. Falhei, simplesmente não pude alcançar os altos padrões que determinavam, porque sou pequeno e o coração deles mesquinho. As noites vão se tornando mais longas, noites intermináveis em que me encontrava numa espera muda. Esperei que fosse aceito, esperei que me inserissem, esperei, mas todos me viraram as costas. E não há quem me ampare na minha queda. Não há quem me enxugue as lágrimas, nem me acolha em seus braços, terei de seguir sozinho, não no mundo que eles impõem, mas no que escolhi para mim.  Não vale a pena toda a dor à que me submeti. Por que a “cura” é ser igual aos outros? Não sou como eles. Não sou como ninguém e meu destino é ser sozinho. Estava perdido com as soluções que me antecediam, o mundo me antecede a cada passo. Não quero mais seguir por esta direção. Sigo contra a multidão que tenta arrastar-me violentamente. Há uma música gravada em minha memória: “nothing is gonna change my world”, Accross The Universe dos Beatles, nada mais pode mudar meu universo, meu “infinito particular”.

A alma não apodrece como o corpo orgânico, torna-se abstrata. E posso imaginar o que quiser, sou imaculável em minha realidade, estou purificado, expurguei a influência dos outros em mim.  O silêncio traz um estrondo dentro de si. Eu quis, quis com todas as forças, lutei, feri-me profundamente. Está na hora de recolher os corpos e tratar as feridas. Ainda de procurar novos caminhos. Retorno para onde não deveria ter saído. Quando nasci, foi-me feita uma promessa, a que reivindiquei e não me foi cumprida. Estava ávido por algo, e aguardava com tanto fervor, que pode ter acontecido e não me dei conta, pois esperava uma emoção indefinível. Meu coração não bateu amplo. Não me dei conta que a razão de minha espera ocorria. E agora o que me resta, além de lembranças que vão sendo corroídas pela lepra do tempo? Há uma gravidade em ser o que sou que não compreendo. Será errado não se subsumir ao que é comum? “Do alto de uma montanha a gente se desacortina”, e ninguém compreende o que me levou a esta montanha e o que faço aqui, admirando um mundo que agora abandono. Adeus mundo, vasto mundo, não me chamo Raimundo, pois não procuro rimas, mas soluções. Não me ocorre nada no momento. Enxergo um tufo de margaridas, minhas flores preferidas por sua simplicidade. E nelas também não encontro soluções. Somente sei que são belas, simples e belas. Uma simplicidade que invejo, pois sou complicado como equações matemáticas logarítmicas, ou derivadas, mas não possuo a exatidão destas, porque sou humano. Complicadamente humano. Não sei ao certo o que esperavam de mim. Mas estou longe de ter alcançado. Agora vou virar as costas ao mundo que me renegou. Como o filho que vira as costas ao pai que lhe rejeitou. É minha vez de dizer-lhe que não! Sinto vontade de chorar, às vezes consigo. Outras, fica só esse nó na garganta de um soluço recolhido.

“Será maior a tua dor / que a daquele gato que viste/ a espinha quebrada a pau/arrastando-se a berrar pela sarjeta/sem ao menos poder morrer?” Versos de Ferreira Gullar. É sempre nele que me socorro quando me faltam palavras. E nessa solidão muda, posso seguir sentindo, não há como ficar impassível diante destes versos.  Outros mais: “Amigos morrem/ as ruas morrem/ as casas morrem ./ Os homens se amparam em retratos/Ou no coração de outros homens.” “Ma vie c’est sinistrée” Mas há quem se ampare na dor para criar diamantes. Estou lapidando minhas pedras. Não sei se criei algo palatável. Saboroso, não digo. Sei que tem um sabor ácido que trava na boca. É tudo que posso oferecer. Faz parte de mim. Estão expostas minhas entranhas. “Mais, où donc êtes-vous?” De novo o gosto do amor ruim. Meu coração é indomável e às vezes tem recaídas dolorosas. Cala-te e bata somente, num ritmo que possa conhecer, que não me confunda e traga-me terríveis consequências sentimentais. Frida Kahlo dizia : “lo que importa es la no-ilusión. La mañana nace”. A mim somente a ilusão é-me importante. Desvencilho-me da ressaca emocional de uma vida real. Viver nos sonhos é mais agradável e menos sofrido. Posso ser o que desejo ser. Sem que ninguém tome ao menos conhecimento. E posso reescrever minha história com as tintas que me concedem os sonhos, pinto uma tela com cores frias e quentes, nada de naturezas mortas, nem mesmo a dor das telas de Francis Bacon. Somente “les promenades”de Monet. A doçura das coisas. Eis aqui minha despedida: adieux monde, maintenent je suis dans mes rêves.

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