Arquivo do mês: abril 2009

Quando fui outra

Giordana Medeiros

Hoje passei o dia relembrando, é que encontrei uma foto que me fez recordar tantas coisas… E sei que me espelho em Proust para seguir vivendo, pois também estou em busca do tempo perdido. Tempus fugit. Minhas memórias começariam com estas palavras. E uma menininha de onze anos, sempre tão sozinha… Aquela garotinha que tenho vontade de aninhar em meus braços para que não sofra…  Mas sei que é impossível poupá-la da dor que irá sentir. Ela segue numa madrugada fria de junho, com as mãos nos bolsos do jeans surrado, tanto quanto o all star companheiro de tantos passos. E essa menininha tão frágil, irá enfrentar diversos perigos, e se fortalecerá com as feridas em seu espírito, e lutará contra males da alma, que lhe furtarão quase duas décadas, em que ela esperava um momento que fosse seu instante. Mas era tudo um sonho. E ela só descobrirá isso se passar por todos esses percalços. No fim estará tão sozinha quanto nos seus primevos dias. Só que com mais experiência, cicatrizes, e uma bagagem enorme de sofrimento. Naquela manhã fazia tanto frio. “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.” Era o que dizia a canção que tocava no walkman que levava consigo. Onde estão aqueles dias que me abandonaram por completo?  Nunca mais houve uma manhã tão fria… E a música ficou eternamente gravada em mim. “O que você vai ser quando você crescer?” Acho que era feliz, não sei, eu tinha um futuro pela frente e imaginava estar trilhando meu sucesso. E só erigi os muros da minha prisão. Agora estou enclausurada por estas lembranças. Se pudesse ter agido de forma diversa… Poderia ter procurado vias menos doloridas, e ter aproveitado mais a infância que se foi, a juventude a qual virei as costas. Hoje tenho tanto remorso. De tudo que poderia ter sido, e que não sou. Tenho tanto a lamentar. Meu sofrimento é ter perdido tanto tempo. Poderia ter me poupado de toda dor.

Se eu pudesse dar as mãos a essa garotinha para guiá-la pelo caminho certo. E soprasse-lhe ao ouvido as escolhas corretas. Por que óculos tão grandes? Por que se furtar ao convívio das pessoas? E que faz escondida atrás desses livros? É sábado! Sempre leva consigo um livro, por que a literatura é um esforço para tornar a vida real. Sua vida é um punhado de sonhos que rega com as lágrimas de seu sofrimento. Nunca se deu conta que não era de Dante, Cervantes, Shakespeare, Machado de Assis ou Kafka que sentiria falta no futuro. Eram tão poucos seus companheiros, nunca foram realmente amigos, pois os anos os levaram como o vento que leva aos poucos as dunas da praia. Eles se foram, mas deixaram sua marca em mim. Recordo-me deles, todavia seus rostos estão sumindo de minha memória, pois o tempo é na verdade uma borracha que vai apagando nossas histórias. Associava músicas a minha vida. Continuo associando, e sempre há uma música que interpreta plenamente todo sentimento de um momento. Conheço-me, mas estou sem mim. Aquilo tudo que era meu, meu futuro que me parecia tão mágico, a expectativa de uma vida brilhante, tudo se perdeu, no reboliço de uma história que ficou pela metade. Não fiz as escolhas certas, perdi-me em sonhos que não eram meus. E fechei os olhos ao que realmente gostava. Fui tola e leviana em minhas decisões. Por isso se pudesse guiar essa menininha naquela manhã fria de outono, eu far-lhe-ia seguir por um caminho diverso. Onde sei que seria muito mais feliz. Ela faria aquilo que gosta realmente, seria um tanto menos exigente consigo mesma. E perdoar-se-ia por ser tão diferente. Ela era uma menina que tinha urgência de viver. Sempre fiz tudo aos atropelos. Tola. Sei que fui… Sei que sou… Mas sou o produto de uma vida de desenganos. Existo sem que eu saiba. E morrerei sem que o queira. É isso o que tenho a dizer sobre meu tolo coração. Sobre minha existência abjeta. Talvez seja sempre melhor aquilo que passou. O presente é a sensação de um passado que desejamos viver novamente. Futuro? O que há mais para se viver? Não desejo que chegue o futuro, mas que o passado retorne.

 Para Pessoa “o mal verdadeiro, o único mal são as convenções e ficções sociais que se sobrepõe as realidades naturais”. Eu sempre fui avessa às convenções sociais. E passei a vida lutando para me manter autêntica, seguir meus próprios conceitos de moral e ética. A sociedade repudia o que é diferente, o que não compreende. Teme aquilo que não se subsume ao que é convencional. Eu sempre fui discriminada por ser o que sou. Ninguém me compreendia, não tinham idéia do que eu sentia. E me excluíam do convívio social. Sou uma caverna inexplorada que guarda milhares de seres desconhecidos. Guardo tantas descobertas em mim. Não há quem me desvende. “Nasci em num tempo em que a maioria dos jovens havia perdido a crença em Deus pela mesma razão que seus maiores a haviam tido – sem saber porquê.” E perdi a crença em mim mesma. Via-me de modo diverso dos demais e meus sonhos também não se pareciam com os dos outros. Eu nunca aceitei a divindade completamente e não soergui a humanidade como sucedânea de Deus. Sou cética, mas temo a força da fé. Na verdade nunca soube crer em Deus. Como não sei me fazer entender pelos demais. Sou tão confusa e incongruente… Creio que amar-me é ter pena de mim. Como tenho pena da garotinha indo para escola naquela madrugada fria de outono. Sei que não pode me escutar, que só a vejo na lembrança, não sinto o frio que lhe eriça os pelos, mas recordo-me de seus passos. Lembro-me que na escola tive as piores experiências sociais que se pode viver. O fato “é que sempre era outono no outono. E o inverno sempre vinha depois fatalmente. E só há um caminho para a vida, que é a vida.” O que parece não dizer nada sempre diz alguma coisa. O que quero dizer é que ela não siga pelos caminhos que segui. Neste outono, ela completa doze anos. E não haverá comemorações, seu único presente será a presença na folha de chamada. Quero que ela discirna entre o real e o sonho para que jamais venha confundir-los.

Sonhos são perigosos, são desejos tão profundos que podem misturar-se à realidade. Eu sei. Tenho algo que aquela menina, tão desajeitada, não tinha: experiência… Lembro-me das palavras que ela disse a si mesma nesse dia, que “viveria em seus sonhos que é a realidade que desejava, e a realidade seria somente o sonho, o pesadelo que tinha de viver quando estava acordada”. Foi quando o sonho que não era mais sonho se revoltou e tentou tomar de assalto a realidade. Foi uma confusão sem tamanho. Não compreendia mais nada, pois não tinha idéia do que era real. O que é real? O que eu queria ver ou o que meus olhos me mostravam? Os meus olhos me mostravam o que queria ver, ou eu interpretava os fatos de forma distorcida? Foram quase duas décadas perdidas nesse dilema. Hoje estou curada do sonho. Foi duro, mas me desvencilhei da realidade imaginada. Tenho de viver o que é imposto a mim pela vida.  Não posso conformar o destino aos meus desejos. E decidi viver, a vida, o tangível. Mas foi sofrido desvencilhar-me do sonho. É tão bom sonhar. O absurdo, o improvável é comum. Entreguei-me ao sonho, pois desconhecia os perigos de se sonhar. E aprendi. Mas foi difícil, tenho de dizer. Só se aprende pelo meio mais difícil. Se pudesse contar a ela o que terá de passar, para que possa finalmente se encontrar. Ela está perdida. Num mundo em que ninguém poderá entrar por anos. Ninguém somente ela conhecerá este sonho que assumirá o controle de sua razão. Quando ela acordar, lamentará sua tolice. Quem se entrega ao sonho e recusa a realidade, pode ter felicidade, mas esta é irreal e passageira.  E somente duas décadas depois, quando finalmente despertar, ela se dará conta disso. Se ela pudesse me ouvir… Chutando as pedras no caminho e sonhando, lá se vai ela, para longe, longe da realidade.

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Canções do abandono

 

Giordana Medeiros

 

O coração se pudesse pensar, simplesmente pararia. Pois não há sentido para a vida. O sentido é não ter sentido algum. E só se vive. Vive-se só. Numa solidão abominável. E nesses dias em que a brisa é fria e chove os males do mundo sobre os homens, tenho certeza que a vida não é muito mais que isso, ou pouco mais que nada. E conheço várias histórias de corações que trabalham como relógios, batendo infinitamente, se ferindo, destruindo-se como se seu único objetivo fosse a dor. Sofrer é seu destino. Corações tolos e selvagens. Consigo ver através dessas nuvens espessas que escondem as constelações… As estrelas são minhas cúmplices. A noite que cai sobre mim é eterna. Como a imagem desse desespero mudo, de restar nessa imóvel espera, de que a dor converta-se em algo… Alguma coisa ao menos, não posso estar para sempre nesse vácuo. Deserto de pessoas. Caminho só nessas ruas repletas, não há como estar sozinho. Mas nunca me senti tão só. As palavras são longas e desnecessárias, a chuva é triste como um lamento. E um violão converte minhas dores mais profundas em doces canções. Canções do abandono. Sempre haverá uma canção para marcar os momentos mais preciosos. Recordo-me das canções mais importantes. Os acordes surgem leves nas mãos, o instrumento é feito de dor, as notas são as lágrimas, choro música. Lamento canções. Muito se esconde nessas frases, quisera poder dizer tudo, mas as palavras não conseguem exprimir o que sinto em sua completude. Sempre haverá algo a se dizer. Mas jamais digo nada. Sinto o frio de uma doença súbita na alma. Uma nódoa no meu espírito, contaminando todo o meu ser. Sei que a alegria é passageira, tem os tickets para a viagem no trem da minha vida, mas atrasou-se e teve de embarcar no trem seguinte. Feliz sou triste, talvez não saiba ser alegre, só triste. A solidão desola-me, mas a companhia de alguém me oprime. Meus hábitos são afeitos àquela, não à presença dos homens. E minha canção é uma concha quebrada de dor, porque me dói qualquer sentimento que desconheço. Talvez seja saudade que me acompanha sempre, de um passado que não se foi, e permanece em mim.

Eu penso com minha sensibilidade e sinto com meu pensamento. Algo não muito comum. Sou um homem raro. Um espécime único… Somente eu me vejo assim. Os demais me confundem com o restante dos homens, pois somente o interior difere-me deles. Não podem saber o que sou realmente por dentro. Sou alguma coisa pouco comum. Um ser desmedidamente humano e profundamente insano. Só os loucos compreendem esta imagem disforme que me representa, os sãos só vêem borboletas, manchas de tinta são toda uma existência para os insanos. Sou um sonhador, e não necessito adentrar nos reinos de Morfeu para poder ter acesso ao sonho, apenas extraio da vida o que é mais sublime, e vivo, o sonho, não a realidade, o que é muito mais fantástico, pois no sonho pode-se ser quem realmente se deseja. Acredite, não há saudade mais dolorosa que aquela das coisas que nunca foram. Sou quem não sou, e a vida é pronta, previsível e triste. Como os lances de um homem no tabuleiro de Xadrez não conseguem ludibriar o computador que se aprimora com as jogadas dos humanos. Como nos fazer imprevisíveis ao destino que se encarrega de todas nossas ações? Parca maldita que tem nas mãos o fio de minha vida. Um oceano imenso em mim. Um oceano de sentimentos que se confrontam em tempestades, mares bravios, controlando o que sou realmente. Sou levado pelas emoções: minha razão é irrisória e governada pelos sentimentos. Nem sei sequer o que sou para mim mesmo. Sei que o mundo, eu ou o mistério que nos envolve é supérfluo. Pode sobreviver-se sem compreendê-los, aliás, é de compreender que nos cansamos, viver não é compreender. Felizes os seres que viviam sem ter consciência de sua existência. A consciência é o verdadeiro pecado original, quando os homens tomaram consciência que existiam foram expulsos por si mesmos do paraíso. Pois a dor é a consciência de existir. Se eu amasse profundamente, talvez algum motivo restar-me-ia, mas a vida prejudica sobremaneira a expressão da existência.  Não há sentimento cuja ausência não sinta mais que o amor, que me abandonou. Ordinariamente, era um homem apaixonado, hoje creio que este sentimento foi-me roubado, foi extraído de minha vida. Sou indiferente àquilo que se pode chamar de amor. Não tenho mais esperanças de encontrar esse sentimento em mim. O amor que tinha extinguiu-se como uma fogueira que se consome com suas próprias chamas. Crepitou mas findou seu combustível. Não restou uma única brasa em meu peito, somente cinzas, para não esquecer o que representou em mim, e a sensação de vazio em meu peito. Escrevo o que sinto, pois assim posso ignorar solenemente a vida. A literatura é uma forma sutil e agradável de esconder-se do mundo. E assim faço das palavras meu abrigo, minha fortaleza de imagens literárias, onde sou aquilo que sinto e não o que sou na verdade. A realidade nos torna ridículos, as palavras nos faz cavaleiros, prefiro combater gigantes que me defrontar com moinhos de vento. Ter em sonho uma Dulcinéia que me inspire a esse vazio em meu coração. A literatura consiste num esforço de tornar o sonho real. E dar sentido a algo que escapa a todas as definições. Por isso escrevo.

Sei que excluo os outros de minha vida, erijo altos muros para que não me alcancem e permaneçam, para mim, outros, jamais alguém, o alguém a quem entreguei o que tinha de puro em mim, e desfalcou-me de algo que me era essencial. Escolher modos de não agir tornou-se o mais importante em minha vida. E a que dedico minha atenção e escrúpulos. Aprisiono-me numa esfera de vidro que me separa da vida, posso vê-la, mas não posso tocá-la. E sei ainda o que é o amor, mas somente sua definição, sentir não o sinto mais. Foi-se embora tudo que era amor em mim. Sei que sentir é essencial, muito mais que viver, vida efêmera que não me vale mais que um punhado de sonhos… Daria toda minha vida para ter de volta o amor que perdi. Não sou mais o que era, sou um ser incompleto que desaprendeu a amar. Agora faço o possível para afastar de mim quem quer que se aproxime. Quando criança ainda cria em meus sonhos. Eram tão reais que raras vezes não confundia a realidade com os sonhos. Agora me dizem pessimista, mal sabem que sou apenas triste. Triste e só. Por ter a certeza que fui tudo e que nada, nada mesmo, vale a pena. Nunca desembarquei do trem de minha vida, acontece que depois de mim ninguém jamais embarcou. Demoro-me nestas palavras, pois não sei mais o que devo escrever. Quero tornar clara a escuridão dentro de mim, e valho-me da luz da consciência que trouxe toda a dor em si, para descrever o que é indefinível. Minha tristeza é muda e meu amor era cego, minha dor é surda sou praticamente inacessível ao exterior. Somente o tato me resta, ocorre que me afasto do que é real e o contato físico não acontece nos sonhos. Não há sentido que me valha. Por isso minha vida não tem sentido algum. Nada possuo porque nem a mim mesmo possuo. Não sou nada, não tenho bens ou herdeiros, nada transmito que seja de algum valor, a não ser esses retalhos de palavras, que surgem de lugar algum e não tem aonde ir. Estão presas nesta página e somente quando lidas serão libertadas da prisão que as impus. Mas de minha prisão não há quem me liberte. Sou o mais desvalido dos homens, e minhas canções celebram o meu abandono. Meu trem descarrilou porque meu maquinista era míope, só via para dentro, somente o sonho via com o olhar. A realidade era que eu era o único passageiro de minha vida. E a canção de meu abandono não há quem escute, essa canção triste, minha única riqueza, pois minha alma é tudo que tenho, e esta riqueza na verdade sou eu. Eu sou tudo que tenho, e parte de mim já me foi saqueado, mas resta ainda muito a se admirar, mas não há quem se aventure a me desvendar. Minhas canções não tem ouvintes como meu trem não tem passageiros e meu pranto é um soluço seco, que engulo nesta noite fria em que me cubro de palavras para aquecer o vazio em meu peito onde só habita minha profunda melancolia. Viver não é preciso, já a canção é fundamental. Com meu violão encontro a chave de todos os mistérios. São muitas as canções de meu abandono. Uma última nota, um derradeiro acorde e o silêncio toma novamente conta de mim.

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