Arquivo do mês: março 2009

Ausências

 

Giordana Medeiros

 

Um dia repleto de ausências, uma vida de esperas, sem muitas revelações. Agora que não tenho mais a quem dedicar estes vazios, qual a razão de persistirem em mim? A procura eterna de uma figura, que jamais me fora acessível. Sei que tudo que procurava, não poderia achar. Não existe. Não existe nada ou ninguém. Somente estas palavras derramadas, que transbordam de mim. Na verdade nada digo. Pois nada há que se dizer. Vive-se. É tudo. Não há definições e nem se explica. É uma sentença. Só escrevo o que sinto, por que assim diminuo a febre de sentir. De resto com que posso contar comigo? Toda a vida é apenas um sonho, sempre foi, tenho de despertar para a realidade. O mundo desfaz-se como se fosse feito de cinzas, ou qualquer material leve e poroso. Levado pelo vento como a areia das dunas. Sinto saudades do tempo em que acreditava. Hoje sou um incrédulo que se perde em lamentações. Até mesmo as manhãs em que despertava com a aurora fazem-me falta. Uma canção, que me embalou nos meus longos caminhos, traz-me de volta a melancolia das ausências, da incompletude de meus primevos dias se estendendo por toda a minha existência. Onde achar o que me falta? O que deveria completar-me e que não compreendo? Não encontro. Mesmo só, vou por estas estradas, sem direção, ou destino. Apenas sigo temeroso de estar indo por errôneos caminhos. Como saber para onde ir? Se a vida nos apresenta uma gama imensa de possibilidades? E não tenho como saber. Vou. Tentando me guiar pela escuridão. E sei que será assim até o fim de meus dias.

Algumas palavras surgem como ecos de um passado distante. Lembranças que deveriam ser apagadas, mas que persistem maculando brancas memórias. A consciência é a sentinela de minhas ações. Tudo que fiz leva consigo um pedaço de minhas virtudes. Algumas vezes sei que agi de forma leviana. Comprometi-me além de minhas possibilidades. Mas mesmo minha faltas são carregadas de inocência. Sei que não passo de um amador. Durante todo este tempo pude descobrir que o segredo da felicidade é o correr dos anos e uma memória fraca. Mesmo assim não posso dizer-me feliz. Talvez porque tudo seja ainda muito recente. A dor para desfazer-se leva mais que uma simples década. Para no fim restar somente a saudade. Quero encontrar alguém que diga que rumo seguir depois de morto. Ainda haverá caminhos? E para onde seguem todas estas estradas? E sinto, com uma fome desesperada de sentimentos. Lanço-me nestes caminhos porque espero encontrar o sentido para tudo isto.  Para essa ausência gritando em mim. Ergo-me soberano de minha vida, mas não passo de um plebeu diante do destino. E não entendo a razão de meu abandono porque tudo que fiz durante todo o tempo foi seviciar-me para ser mais aprazível para os outros. Simplesmente não compreendo. “Não fui para lugares desertos, não me abstive do convívio humano, não guardei com usura minhas palavras, não fechei os caminhos do meu pensamento, não retive impulso nenhum do meu coração. Não sei, pois, como me tornei uma criatura sozinha.” Então, após tanto me sacrificar pelos outros, não me reserva nada o futuro? Onde estão as respostas para este enigma? Sei que coloco todas minhas estrelas no céu. Para enfeitar a noite que cai sobre mim.

Nuvens cobrem meu espírito como um manto de dor. Para onde me levam estas águas partidas? Não vejo cores neste mundo, nem formas ou momentos. Apenas ouço, ao longe, sonhos sussurrarem uma outra realidade, e escuto-os de olhos fechados como se uma vida inteira fosse freada bruscamente. Estou imóvel sob a noite. Como alguém desfalecido que acordou de repente, e, zonzo, tenta reconhecer o mundo a sua volta. Que canção vale a pena de tamanha dor? Que som pode ser tão essencial que me faça sofrer tamanhos percalços? Se seguir esta música, sei que me machucarei profundamente. Entretanto não há mais como voltar. Não se pode simplesmente abandonar a sinfonia no momento do solo dos violinos. E a música continua mesmo sem o maestro que dê a direção à orquestra. Mesmo assim sei que todos os instrumentos são importantes. Desde a percussão, até metais e cordas. E a música pode trazer pedaços para preencher estes vazios em minha vida. Sinto falta de algo que perdi e que me era essencial. Todavia sei que nada perdi, e que ainda assim me falta um pedaço. Uma peça de meu quebra-cabeça, sem a qual a imagem não se completa. Sempre desejei um jardim repleto de flores onde pudesse caminhar sobre a grama molhada, descalço, para exorcizar meus desenganos. E, quando morrer, espero ter minhas cinzas aspergidas num imenso jardim, para que possa penetrar na essência das flores. Debruço-me sobre o som do vento nos galhos das árvores. O silêncio nunca é total. A brisa refresca-me o corpo nesta tarde quente. E uma garoa fria vem suavizar o calor do verão. As ausências tornam-se mais suportáveis, mas, nem por isso, menos doloridas. Se pudesse estar frente o mar infinito, sentindo as ondas resvalarem, uma por uma, em minhas mãos… É a absolvição de minhas faltas. E nada preenche o vazio de uma voz emudecida. Quem poderá restituir-me a voz? Perdi a canção. Perdi o grito, e também os sussurros. Nada posso dizer, não posso mais emprestar minha voz para estes sentimentos encravados em mim. Apenas uma lágrima viaja sobre a tristeza do meu rosto. Para responder todas as perguntas que jamais foram feitas.

Sobre minha face transfigurada pela dor segue a melancolia a derramar-se sobre mim. Sou grande mesmo não sendo nada. Carrego comigo a majestade sombria de um esplendor desconhecido. Tenho uma inteligência aguda para compreender isto. E algumas coisas mais que não me ocorrem neste momento. E frente a esta máquina, onde transcrevo minha vida repleta de ausências, sou menos reles, não sou mais um empregado anônimo. Escrevo palavras como se fossem a salvação de minha alma. E sabendo disso encontro nestas a solução destes vazios. Escrever é dilacerante. Dói profundamente, e sentimos uma solidão enorme sozinhos com nossas letras. Palavras débeis que quando reunidas, têm uma força colossal, que nos atocaia, e desprevenidos somos tomados por sentimentos devastadores. Numa só sentença podemos exprimir tudo que nos atormenta. As palavras emprestam-me sua voz. Não estou mais amordaçado, posso gritar mesmo afônico. Com o que escrevo posso sentir e fazer sentir. Criar sentimentos em quem lê estes lamentos.  Sei agora por que canto, não por outro alguém senão por mim. Para que consiga expressar estas ausências, pois não há canção que valha aquela que eu não puder cantar. E eu posso. E eu canto. E eu sangro. Pois isso é tudo que me faz sentido. Não mais a dor das partidas sem adeus, nem das lembranças esquecidas. Mas o momento eternizado neste conto. Uma dor que será esquecida pela memória em duas décadas, mas que neste texto ficou gravada. Assombroso como consegui achar respostas para uma gama de perguntas às quais jamais me ocorreu encontrar soluções. E sei que aos poucos estas respostas vão preencher os vazios de minha existência. Estou sozinho, mas mesmo assim, sei que a solidão de meus dias guardam uma aura mágica de um profundo conhecimento de mim mesmo. Agora me reconheço. Sei o que sou. E que estas ausências que tanto me atormentam também fazem parte de mim. São, na verdade, tudo o que sou.

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