Arquivo do mês: fevereiro 2009

Uma noite de música ou uma história sobre borboletas

Giordana Medeiros

A noite se aproximava, lenta, suave… Como uma dama, desenrolava seu véu sobre o dia. A lua surgia plena e prateada no céu, derramando sua luz, que surgia não de si, mas do sol, que lhe emprestava a luminosidade de que resplandecia. Cachorros vira-latas uivavam, liberando seus instintos primitivos, talvez se sentissem mais que simples cachorros de rua, o uivo transformava-lhes em lobos. Mas não eram lobos, eram cães que lamberiam sua mão se lhes concedesse um minuto de afago. E uma leve brisa fazia as árvores dançarem como moçoilas faceiras que se entregam ao prazer da música, mas que música as árvores escutavam para dançarem, balançando-se verdes, liberando uma centena de folhas sobre as calçadas? O cheiro de relva fresca denunciava chuva recente e grilos compunham sua própria sinfonia, anunciando a chegada da noite. As luzes de sódio, alaranjadas, acendiam e iluminavam as ruas competindo com o luar daquele sábado. Um grupo de jovens, alegre, falava alto e ria muito, eles brincavam, empurravam-se e quebravam a melodia daquele entardecer… Há canções a que devemos dedicar o silêncio, pois só em silêncio podemos ouvir-las… E em cada canto ouvia-se um som, um ritmo… E as ruas são cheias de pequenas poesias, como aquela goteira a pingar compassadamente sobre a lata vazia no chão… É como um piano triste e solitário. E violinos são o cantar dos grilos… E mesmo aquela sirene estridente, ajuda a compor a sinfonia citadina. Há ainda as preces do mendigo, reclamando a esmola que a vida não lhe concedia… E as pessoas apressadas pelas ruas, com passos rápidos, driblando poças de lama, falando ao celular, deixando o ambiente mais vivo. Mesmo esses sons tão comuns podem ser belos… E em silêncio vejo estas ruas sem esquinas, entregarem-se a sua canção diária. Um jornal velho é levado pelo vento e sai voando com suas asas de papel a planar sobre o chão, mas acaba por ter seu voo interrompido por um casal que passava, em cujas pernas se enrolou… Se não ficar em silêncio, pode perder estas pequenas coisas, e são tão pequenas que ninguém percebe… Ninguém mesmo. Ninguém percebia as lágrimas da moça sentada no banco da praça que tentava conter o choro, enxugando os olhos com as costas da mão. Será que se emocionava com a sinfonia citadina? Ou seu mal era um coração partido? De desilusões amorosas costumam surgir as mais belas canções, eu compunha também sua canção, desconhecida, sua solidão é-me companheira… É tudo música. E a verdadeira música está em nós. Pode ouvir? Seu coração é a percussão de meus ensaios. As estrelas são nossa platéia… Que se ilumina mais que os músicos, e onde estão nossos instrumentos?

Uma mulher aparentemente embriagada derruba um molho de chaves no chão, uma porta range ao ser aberta, os carros passam esguichando água das poças de lama nos pedestres. Um cego aproxima-se com sua bengala a bater na calçada, e o som se propaga até meus ouvidos. Os cegos ouvem melhor do que os que veem, fecho meus olhos para sentir o mundo… E o som do teclado do computador é minha contribuição para esta melodia. Let me feel the song… Um homem se entrega a corrida noturna, e escuto suas passadas longas, ele não me sente, nem toma conhecimento de mim, que observo a música desta noite. E todas as noites as canções se modificam, não há músicas iguais, cada um compõe um pedaço desta sinfonia, até mesmo o relógio e seu tique-taque infinito… O infinito é a sentença de seus dias, mas a minha sentença é a solidão. O rio da melancolia me leva nesta noite cheia de pequenos sons, um homem tropeça numa lata de lixo, pragueja e continua seu caminho, a lata ainda rola por algum tempo, depois para no meio da rua… E há tantas pessoas com quem se conectar, mas minha única conexão é com os sons que escuto, denunciando meu abandono. E sinto falta do som que me impedia de escutar todos os outros. O som de sua respiração suave que me impossibilitava de dormir para que pudesse velar seu sono… Onde está minha felicidade, que se apagou, quando não estava mais aqui para ouvir-lhe? Uma buzina apita distante, cães ladram ferozes, gatos miam assustados… É tudo música. Um homem passa com um radinho de pilha chiando o jogo de futebol, aos poucos as ruas adormecem, e tudo que fica é o silêncio… A solidão também, mas esta já me é comum. Se adormecesse poderia sonhar com um passado que me dói profundamente, pois o perdi para sempre. O futuro não retrocede e o que resta são as lembranças de felicidades perdidas… Oportunidades que não surgem mais, somente esta sensação, um pedaço que me falta, que me era essencial… Ce pays est vraiment un des coins du monde où le rire de filles éclate le mieux... Releio a frase, poderia transportá-la para esse conto, mas a noite se propaga em mim. E meus lábios se movem devagar para sentir sua musicalidade, ce pays, este país, nestas ruas, nestes lugares lúgubres… Nestas noites insanas de amor e música, a sinfonia se estende sobre todos, e o silêncio se faz mais alto que o som. Porque o silêncio fere e a música anestesia. A dor da solidão é-me mais presente que a mágoa do abandono. Quero ouvir de novo a canção que me foi tirada. Roubaram-me o som de seu sorriso, o som de seu choro, o som… Aqueles sons que não me cansava de ouvir, quando você murmurava aquela canção: “ne me quite pas…” Não me deixem lembranças, pois são tudo que possuo… E tudo isto é ainda muito pouco.

Onde estão os dias que perdi, o tempo que se passou? Sem que percebesse caminhava para um beco sem saída… Que caminho seguir? Aquele que me leve para seu lado era o que escolheria, nesta noite clara como o dia, a lua deixa tudo visível, a moça que chorava, agora se levanta e tenta se recompor. Por que chorava, nunca saberei, mas suas lágrimas eram também um tanto minhas, o problema é que não tenho mais lágrimas. Nem mesmo o som, só esta música citadina de que me aposso, pois transformo o silêncio em música para não me doer tanto esta saudade… E muitos dias já se passaram, a estrada é demasiado longa, pode segurar-me a mão enquanto atravesso esses vales? O espelho denuncia-me, não se deveriam deixar espelhos pendurados em casa, eles nos obrigam a confessar nossas vidas, que os anos passaram e que somos tão velhos quanto não queremos admitir. Um grito na noite me desperta do transe que me causou a minha imagem refletida no espelho. Que desespero! Onde deixei minha antiga face, pois esta que vejo eu desconheço. Tudo é divisão. Esquisofrenia. Drama. (Citando Luis Carlos Maciel.) E minha loucura finge que isso tudo é normal. Eu sou um ser esquisito, uma versão piorada de Gandhi e uma melhorada de Hitler. Sou aquela que escuta todos os sons da noite, pois a passa acordada para sentir a vida. Viver na verdade é sofrer da vida. Mas dessa dor profunda buscar a grandeza de existir encravada na rocha. Deve-se cavar fundo. Pois é das entranhas que a retiramos. Seu silêncio me atacava, hoje sinto falta até de sua mágoa. Onde anda neste mundo estranho e tão profundamente hostil? Nele tudo é proibido, de modo que falamos, pois falar é uma forma de protesto. E protestávamos, contra tudo e todos… Onde estão nossos gritos? De repente ficamos mudos… Sinta a canção que fiz para você. É sobre você, tudo sobre você, não vê? Posso escrever estas derradeiras frases com o sangue de meus pulsos? Na verdade esta é uma história sobre borboletas. Não fazem nenhum som, e, não sei porquê, me lembram você. Mas você tinha sons tão próprios, que seu silêncio era compensado com seu sorriso. Anaïs Nin citou, uma vez, Antonin Artaud, copio a frase agora: “je suis le plus malade des surrealistes”. E completo: vraiment, je suis le plus bizarre des écrivainesEstou assim desde que borboletas começaram a nascer entre meus cabelos… Borboletas coloridas, frágeis e esvoaçantes, silenciosas, mas fatais, pois elas se multiplicam velozes, e de repente você está a ouvir a canção da noite de sábado. Tão in-lúcido, translúcido, trans-in-lúcido. Se recomeçasse a chover, o som da chuva batendo nas telhas seria outra sinfonia, as bolhas nas poças de lama, tudo isto me sensibilizaria… Amanhã novas borboletas deixarão seu casulo, começo a ver nas pessoas o que elas não sabem sobre si mesmas. Eu sei tudo desta canção, e posso repetir-la infinitamente, é minha pequena maldição. Isso é terrível. É uma viagem sem volta. No meio podemos escutar a música que surge no silêncio da madrugada. Mas este conto é somente uma história sobre borboletas, com um pouco de música no caminho…

Categorias: Uncategorized | Tags: | 3 Comentários

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: