Não me deixe ir…

Giordana Medeiros

Não me deixe ir, pois tenho medo da noite que se abaterá em minha vida… Não me deixe ir, pois temo os efeitos da solidão e da saudade, e sei que, caso fosse, não voltaria jamais. Sua indiferença dói como uma lança que transpassa meu corpo, mas sei que apenas meu coração está ferido, na verdade meu espírito, aguardei toda uma vida… E o que me resta senão desilusões? Estou cheio e cansado de procuras… Não me venha com este embuste, pretende enganar-me com falsas promessas? Estou desestruturado, não me encontro mais, antes sabia o que era. Eu era. Não sou mais. Estou. Um estado passageiro que tende para o corriqueiro, talvez…. Não me deixe ir eu lhe imploro. Se for, tudo não passará de um singelo sonho. É tudo um sonho, e a realidade oprime, suprime, submete. Forço-me a aceitar este mundo tão hostil, esta vida, minha via crucis… E quero voar, voar alto como Ícaro, tocar a carruagem de Apolo e cair. É doce cair, abro os braços para abraçar o mundo… Uma infinidade de desculpas. Onde esteve por todos estes anos? Onde eu estive? Deixe-me chorar estes anos de espera, sentir a profundidade de toda minha mágoa. Mas não choro, não mais. É doloroso sofrer sem lágrimas, a dor se intensifica e não explode. Fica gravada eternamente. E sei que tenho de ir, pois só assim poderei recomeçar, de algum ponto… Talvez de onde eu parei, do lugar em que lhe esperei todos estes anos. Uma década de expectativas, desejos, em que menti, menti a mim mesmo que seguiria. E com você meu mundo ficou estático, andava em círculos, pois esperava em vão, uma palavra… Qualquer palavra. Não precisava ser amor, não há necessidade, pois esta palavra já conheço intimamente. Ainda chove. Todos estes anos em que estive aqui aprendi a compreender os dias cinzas de chuva. Fiquei só. Numa destas ruas sem esquinas, entre as quadras numeradas e as largas avenidas.

As noites estão mornas no verão. Abro livros ao acaso, há ainda tantos para ler. Se partir, deixarei histórias pela metade. Minha própria história. Há acordes no piano que me fazem recordar, e tento esquecer aquele turbilhão de emoções que, no fim, se tornaram tão triviais… Eu era complicado, você disse, mas agora vejo tudo perfeitamente e entendo toda a trama desta peça. Ao contrário dos demais atores, não uso máscaras. Quero encontrar uma palavra, um verso qualquer que lhe faça olhar para mim. Não há palavras. Estão todas gastas, com frases desnecessárias, ditas a esmo. Escritas impulsivamente. Não há paixão, talvez somente dor. Ou quase isso. Ou quase nada. Mas o que é você senão uma ilusão? Veio de minha visão, de meu desatino. E entrou de surdina em meu peito. Mas agora que tenho de ir, sei que me abandonou por completo. Não há mais lágrimas, percebe? Tenho mesmo de ir. Você deixar-me-á partir? Tenho de preparar minha defesa. A razão de ter me fechado ao exterior. Ao humano. Mesmo que resista a este, sei que palpita dentro de mim, este humano latejante, que me impulsiona a escrever histórias, desejos, sonhos, desilusões… Amo de forma drástica. E padeço inutilmente. Sou um sonhador… Não há mais emoção nenhuma. Só lembranças de partidas e separações. Estou tão vazio… Não sou mais alvo da curiosidade de ninguém. Morri um pouco estes anos. E não sei como ressuscitar o meu lado mais belo. Minha veia mais otimista. Quero o afago de um abraço. Não posso navegar nestes mares tortuosos. Vou virar o disco que esta música está me cansando. Não quero mais insistir nesta melancolia. Se há ainda dor, que escoe pelo bueiro, com toda esta baboseira romântica. Acendo um cigarro, vou para a janela. E o som do piano toca-me como uma brisa. Se aquele carro virar a esquerda, eu telefono. Direita. Uma segunda tentativa. Se aquele homem seguir em frente, eu permaneço. Você tinha de virar, desconhecido que decidiu meu destino? Só você carregará a culpa de minha covardia.

Incrível. Tudo conspira contra mim. Onde se encontram as respostas para os mais difíceis dilemas? Podemos nos imiscuir de nossas culpas atribuindo-as a outras pessoas. Desconhecem a razão de suas faltas, mas já as processei à revelia. É madrugada de um sábado qualquer, não sei que dia é hoje. Acho que é dia primeiro de fevereiro. Quero que o dia amanheça logo e traga-me uma falsa sensação de segurança… Escovarei os dentes, pentearei meus cabelos mesmo que não os tenha bagunçado, pois passei a noite inteira numa vigília sem razão. Tentando convencer-me a partir, abandonar por completo este sonho. Recomeçar. Reinventar-me. Escrever uma nova história, mais feliz, mais real. Uma vida verdadeira, não esse emaranhado de mentiras que venho me impondo, estas vãs justificativas… Se amanhecesse teria a luz cinza claro do dia a iluminar o quarto em penumbra. Não esta luz artificial do computador lembrando-me que tenho de terminar de vez com este conto. Se der um ponto final é que me cansei de escrever e reclamar de meu abandono… Está decidido, vou-me embora para Pasárgada. Ou para onde possa ser mais feliz. Cidade imaginária. Vou inventar uma também, uma cidade em que possa levar meus amigos e onde possa ser amigo do rei. E quero somente o ar puro do campo, mas também desejo o cheiro do mar. E se nada existisse? E se tudo fosse, de qualquer modo, coisa nenhuma? E se essa coisa nenhuma que me angustia estiver me sufocando? Preciso respirar. Na janela os pingos de chuva trazem recordações indesejáveis. Recuso-me a lembrar. Não vêem que me cansei desta maldita história sem fim? Resolvi terminar este ato. Pois esta peça se prolonga eternamente. Vou reparar somente no dia real. Ali fora, ali fora o amanhecer me consola, esse amanhecer triste de dia chuvoso. No inverno ele se enche de cores, mas no verão de Brasília o cinza predomina. E só ouço o piano lamentar minha partida. Você mantém-se indiferente e não escuta meus apelos. Eu irei definitivamente. E farei o impossível para esquecê-la.

E deixo-me levar pela nostalgia, pelas recordações que chegam como ecos, de uma história que nunca começou realmente, apenas ficou na expectativa, numa interminável espera… Convertendo-se aos poucos em tristeza e decepção. Remendo as palavras com imagens, fotografias de uma época que está guardada, arquivada na memória… Às vezes sinto falta de coisas simples, como de um caminho por onde segui, da sombra de uma árvore onde deitei, ou de uma música que escutei num determinado momento. Não adianta tentar reproduzir novamente estes fatos. Tudo depende da circunstância… Eu gostaria de ficar sempre aqui, neste quarto escuro, escutando ao longe um piano tocando a Sonata ao Luar de Beethoven. Com uma taça de vinho na mão, e meu coração aos pedaços… Sinto as sombras se esvaírem e a luz tênue do sol chegar transformando a noite em dia. E sorrio, um sorriso triste, como aquele que surge quando esquecem de telefonar em seu aniversário e dias depois tentam saudá-lo quando não faz mais sentido felicitá-lo… Eu quero mesmo um punhado de estrelas maduras e doces como a vida. Estrelas que se possa colocar na boca como drops de hortelã… Você chamaria isto de paz. Eu não consigo ver isto como paz, pois escorre de mim uma coisa escura, e paz não é algo escuro, mas tento não fazer perguntas… E minhas trevas se estendem infinitamente, pela luminosidade do dia que apenas começa. Você tem mania de definir as coisas, até as coisas indefiníveis… Você definia-me, mas nunca lhe defini, pois não queria colocar limites no que você é. E você limitava-me, cercava-me com sua indecisão, com sua indiferença… Não lhe compreendo, jamais lhe compreendi. Apenas sei que chegou e sua chegada modificou em mim todas as coisas que eram suaves, toda cordialidade ou amenidade que construí… Eu erigi muros para proteger-me do mundo e você demoliu minhas defesas, fincou sua bandeira em minha alma e apossou-se de mim. E agora o que sou? Sou o oposto do que fui. E pretendo voltar a ser o que era, só que para isso tenho de ir. Agora compreende a razão desta pungente despedida? Eu ansiava por você como quem anseia pela salvação, porque qualquer coisa poderia me salvar desta imobilidade que me devastava por dentro. Agora que chegou, posso ver-me mais claramente, e a luz, que você trouxe um dia, apagou. E entendo agora que tenho de ir para alcançar as estrelas. Estrelas açucaradas, que iluminam o céu da boca… Por favor, tenho medo deste horizonte que se abre, não, não me deixe ir…

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3 opiniões sobre “

  1. O Google tem dessas magias, colocar o acaso mediante nossos olhos e nos sublimar mediante novas descobertas. Confesso estar em extase com seus textos, me sinto em cada sentença como se fosse algo escrito a mim, sobre mim. Gpstei muito e agora virei fã ! Abraços.

  2. Impressionante como não consigo me aproximar e sentir alguns dos seus textos. Mas fica todo o controle sobre cada frese.
    Muito bom o seu texto. (Como sempre)

    Agora, sobre o meu que comentares a pouco tempo, fique tranquila que não me expressei excessivamente carente no texto. O texto é apenas uma forma de dar o sentido a apenas uma pequena frase.

    Um envolvente abraço pra ti.
    se cuida.
    :]

  3. Ai … que isso? chegou a doer em mim.
    Cantei “não me deixe só” da Vanessa da Mata na minha cabeça enquanto eu lia … onde eu estava que nao vim aqui? Ta tudo tão bem resumido, tem vinho, sentimentos e piano ao fundo, cheguei a pensar que eu tivesse escrito tudo aqui, pq eu senti tudo, tudo … texto perfeito, mais uma vez com tudo que eu gosto. Densidade, sentimentos e som. E teu talento, claro.
    Bjs da Elis.

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