Arquivo do mês: janeiro 2009

Não me deixe ir…

Giordana Medeiros

Não me deixe ir, pois tenho medo da noite que se abaterá em minha vida… Não me deixe ir, pois temo os efeitos da solidão e da saudade, e sei que, caso fosse, não voltaria jamais. Sua indiferença dói como uma lança que transpassa meu corpo, mas sei que apenas meu coração está ferido, na verdade meu espírito, aguardei toda uma vida… E o que me resta senão desilusões? Estou cheio e cansado de procuras… Não me venha com este embuste, pretende enganar-me com falsas promessas? Estou desestruturado, não me encontro mais, antes sabia o que era. Eu era. Não sou mais. Estou. Um estado passageiro que tende para o corriqueiro, talvez…. Não me deixe ir eu lhe imploro. Se for, tudo não passará de um singelo sonho. É tudo um sonho, e a realidade oprime, suprime, submete. Forço-me a aceitar este mundo tão hostil, esta vida, minha via crucis… E quero voar, voar alto como Ícaro, tocar a carruagem de Apolo e cair. É doce cair, abro os braços para abraçar o mundo… Uma infinidade de desculpas. Onde esteve por todos estes anos? Onde eu estive? Deixe-me chorar estes anos de espera, sentir a profundidade de toda minha mágoa. Mas não choro, não mais. É doloroso sofrer sem lágrimas, a dor se intensifica e não explode. Fica gravada eternamente. E sei que tenho de ir, pois só assim poderei recomeçar, de algum ponto… Talvez de onde eu parei, do lugar em que lhe esperei todos estes anos. Uma década de expectativas, desejos, em que menti, menti a mim mesmo que seguiria. E com você meu mundo ficou estático, andava em círculos, pois esperava em vão, uma palavra… Qualquer palavra. Não precisava ser amor, não há necessidade, pois esta palavra já conheço intimamente. Ainda chove. Todos estes anos em que estive aqui aprendi a compreender os dias cinzas de chuva. Fiquei só. Numa destas ruas sem esquinas, entre as quadras numeradas e as largas avenidas.

As noites estão mornas no verão. Abro livros ao acaso, há ainda tantos para ler. Se partir, deixarei histórias pela metade. Minha própria história. Há acordes no piano que me fazem recordar, e tento esquecer aquele turbilhão de emoções que, no fim, se tornaram tão triviais… Eu era complicado, você disse, mas agora vejo tudo perfeitamente e entendo toda a trama desta peça. Ao contrário dos demais atores, não uso máscaras. Quero encontrar uma palavra, um verso qualquer que lhe faça olhar para mim. Não há palavras. Estão todas gastas, com frases desnecessárias, ditas a esmo. Escritas impulsivamente. Não há paixão, talvez somente dor. Ou quase isso. Ou quase nada. Mas o que é você senão uma ilusão? Veio de minha visão, de meu desatino. E entrou de surdina em meu peito. Mas agora que tenho de ir, sei que me abandonou por completo. Não há mais lágrimas, percebe? Tenho mesmo de ir. Você deixar-me-á partir? Tenho de preparar minha defesa. A razão de ter me fechado ao exterior. Ao humano. Mesmo que resista a este, sei que palpita dentro de mim, este humano latejante, que me impulsiona a escrever histórias, desejos, sonhos, desilusões… Amo de forma drástica. E padeço inutilmente. Sou um sonhador… Não há mais emoção nenhuma. Só lembranças de partidas e separações. Estou tão vazio… Não sou mais alvo da curiosidade de ninguém. Morri um pouco estes anos. E não sei como ressuscitar o meu lado mais belo. Minha veia mais otimista. Quero o afago de um abraço. Não posso navegar nestes mares tortuosos. Vou virar o disco que esta música está me cansando. Não quero mais insistir nesta melancolia. Se há ainda dor, que escoe pelo bueiro, com toda esta baboseira romântica. Acendo um cigarro, vou para a janela. E o som do piano toca-me como uma brisa. Se aquele carro virar a esquerda, eu telefono. Direita. Uma segunda tentativa. Se aquele homem seguir em frente, eu permaneço. Você tinha de virar, desconhecido que decidiu meu destino? Só você carregará a culpa de minha covardia.

Incrível. Tudo conspira contra mim. Onde se encontram as respostas para os mais difíceis dilemas? Podemos nos imiscuir de nossas culpas atribuindo-as a outras pessoas. Desconhecem a razão de suas faltas, mas já as processei à revelia. É madrugada de um sábado qualquer, não sei que dia é hoje. Acho que é dia primeiro de fevereiro. Quero que o dia amanheça logo e traga-me uma falsa sensação de segurança… Escovarei os dentes, pentearei meus cabelos mesmo que não os tenha bagunçado, pois passei a noite inteira numa vigília sem razão. Tentando convencer-me a partir, abandonar por completo este sonho. Recomeçar. Reinventar-me. Escrever uma nova história, mais feliz, mais real. Uma vida verdadeira, não esse emaranhado de mentiras que venho me impondo, estas vãs justificativas… Se amanhecesse teria a luz cinza claro do dia a iluminar o quarto em penumbra. Não esta luz artificial do computador lembrando-me que tenho de terminar de vez com este conto. Se der um ponto final é que me cansei de escrever e reclamar de meu abandono… Está decidido, vou-me embora para Pasárgada. Ou para onde possa ser mais feliz. Cidade imaginária. Vou inventar uma também, uma cidade em que possa levar meus amigos e onde possa ser amigo do rei. E quero somente o ar puro do campo, mas também desejo o cheiro do mar. E se nada existisse? E se tudo fosse, de qualquer modo, coisa nenhuma? E se essa coisa nenhuma que me angustia estiver me sufocando? Preciso respirar. Na janela os pingos de chuva trazem recordações indesejáveis. Recuso-me a lembrar. Não vêem que me cansei desta maldita história sem fim? Resolvi terminar este ato. Pois esta peça se prolonga eternamente. Vou reparar somente no dia real. Ali fora, ali fora o amanhecer me consola, esse amanhecer triste de dia chuvoso. No inverno ele se enche de cores, mas no verão de Brasília o cinza predomina. E só ouço o piano lamentar minha partida. Você mantém-se indiferente e não escuta meus apelos. Eu irei definitivamente. E farei o impossível para esquecê-la.

E deixo-me levar pela nostalgia, pelas recordações que chegam como ecos, de uma história que nunca começou realmente, apenas ficou na expectativa, numa interminável espera… Convertendo-se aos poucos em tristeza e decepção. Remendo as palavras com imagens, fotografias de uma época que está guardada, arquivada na memória… Às vezes sinto falta de coisas simples, como de um caminho por onde segui, da sombra de uma árvore onde deitei, ou de uma música que escutei num determinado momento. Não adianta tentar reproduzir novamente estes fatos. Tudo depende da circunstância… Eu gostaria de ficar sempre aqui, neste quarto escuro, escutando ao longe um piano tocando a Sonata ao Luar de Beethoven. Com uma taça de vinho na mão, e meu coração aos pedaços… Sinto as sombras se esvaírem e a luz tênue do sol chegar transformando a noite em dia. E sorrio, um sorriso triste, como aquele que surge quando esquecem de telefonar em seu aniversário e dias depois tentam saudá-lo quando não faz mais sentido felicitá-lo… Eu quero mesmo um punhado de estrelas maduras e doces como a vida. Estrelas que se possa colocar na boca como drops de hortelã… Você chamaria isto de paz. Eu não consigo ver isto como paz, pois escorre de mim uma coisa escura, e paz não é algo escuro, mas tento não fazer perguntas… E minhas trevas se estendem infinitamente, pela luminosidade do dia que apenas começa. Você tem mania de definir as coisas, até as coisas indefiníveis… Você definia-me, mas nunca lhe defini, pois não queria colocar limites no que você é. E você limitava-me, cercava-me com sua indecisão, com sua indiferença… Não lhe compreendo, jamais lhe compreendi. Apenas sei que chegou e sua chegada modificou em mim todas as coisas que eram suaves, toda cordialidade ou amenidade que construí… Eu erigi muros para proteger-me do mundo e você demoliu minhas defesas, fincou sua bandeira em minha alma e apossou-se de mim. E agora o que sou? Sou o oposto do que fui. E pretendo voltar a ser o que era, só que para isso tenho de ir. Agora compreende a razão desta pungente despedida? Eu ansiava por você como quem anseia pela salvação, porque qualquer coisa poderia me salvar desta imobilidade que me devastava por dentro. Agora que chegou, posso ver-me mais claramente, e a luz, que você trouxe um dia, apagou. E entendo agora que tenho de ir para alcançar as estrelas. Estrelas açucaradas, que iluminam o céu da boca… Por favor, tenho medo deste horizonte que se abre, não, não me deixe ir…

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Crítica do show da Alanis

Giordana Medeiros

O show, para mim, começou bem antes da Alanis chegar ao palco. Cheguei as 13:30 da tarde no Ginásio Nilson Nelson onde outros fãs, desde meio dia, já se encontravam na fila da área vip. Fiz novas amizades, conheci pessoas especiais como a Marcela(esta desde o aeroporto JK em que esperávamos a Alanis), o Félix e sua tattoo da Dona Nadine, revi velhos amigos como a Karen, o Jairo, o Paulo, a Luciana, o Júlio, o Gui e outros com quem dividi minhas expectativas, esperanças e ansiedade pela apresentação. Ficamos horas na fila, que passaram, confesso, sem nem ao menos sentirmos, tendo em vista que estávamos tão felizes que as horas voaram rapidamente, nem mesmo a chuva incessante na capital do país, feriu nosso ânimo. E chegavam notícias todo o tempo sobre a rotina de nossa cantora preferida. Muitos amigos foram premiados, como a Kathy e o Rapha que puderam ver a Alanis no camarim, e ficamos felizes por eles, por terem conseguido o que todos ansiavam e sonhavam. À nós, ficou reservado o prazer de assistir um show vibrante do início ao fim.

Alanis entrou ao som de The couch, que foi dividido em três partes. Escutamos ao longe o som do voz da Alanis que entrou aclamada no palco. Foi uma euforia total. A platéia começou a gritar muito antes, quando viu a rockeira chegar com seus cachorros no Ginásio. E o show não foi em nenhum momento parado como distorce a mídia com suas críticas ferinas. A platéia gritou, pulou, dançou e entrou verdadeiramente em transe com as canções. Alanis estava muito feliz no palco e demonstrava isso com muitos obrigados, thank yous, e inclusive respondeu a empolgação do público, dizendo “You are so sweet”. Foi mágico, estupendo, não há palavras para descrever o show. Apesar de não ter lotado o Ginásio, a platéia de seis mil pessoas não deixou por menos e cantou todas as músicas, felizes, empurraram uma atuação magistral da artista.

Depois seguiu-se Uninvited, cantado em uníssono pelo público, até as músicas novas como Versions of Violence, Moratorium, Tapes e Not as we foram acompanhadas por um coro afinado. Essa última com vozes gritando: “fock you Ryan” em referência ao ex-noivo da Alanis. You Oughta Know foi a música mais prestigiada pelo público, Ironic foi cantada quase que inteiramente pela platéia e Everithing foi dedicada pela Alanis para os presentes: “todas as pessoas complicadas”… So Unsexy foi minha preferida da noite mas toda a parte acústica com Hand In My Pocket e Everything foi radiante. Flinch, que nunca me agradou muito, ficou tão bela que mudei meus conceitos quanto a esta canção. As músicas do Jagged Little Pill foram as mais aclamadas e trouxeram um sabor de nostalgia dos anos noventa. Foram executadas You Learn, All I Really Want e Not The Doctor, além das já mencionadas You Oughta Know, Ironic e Hand in My Pocket. O público, entusiasmado, não ficou apático em momento algum, respondendo com gritos e aplausos a cada canção executada. E sentia-se o prazer de Alanis em estar fazendo o show, não parou um único segundo, frenética, ocupava o palco inteiro, com piruetas, interpretava cada sensação que aflorava em sua música. A platéia foi ao delírio. Foi uma apresentação fantástica, fiquei triste quando chegou a vez de Thank You, a última canção da noite. Após a despedida da artista muitos esperaram para pegar palhetas e outras lembranças do show. Mas a melhor lembrança é aquela que ficará guardada na memória de cada um dos presentes.

No outro dia, um grupo de fãs, onde estou incluída, ainda tentou despedir-se da Alanis no aeroporto, infelizmente não a vimos, mas Mariana e Rodrigo pegaram o mesmo vôo que ela e conseguiram tirar fotos com a cantora. Mesmo não tendo o prazer de ter conseguido conversar nem, ao menos, tirar uma foto com a Alanis, estou feliz pela apresentação, que me deixou quase afônica, pois cantei todo momento com a Alanis. Foi muito divertido, muitíssimo prazeroso e espero que o show de Porto Alegre, para o qual também tenho ingressos, seja tão bom quanto o de Brasília. Um concerto fenomenal. Esta foi a sensação impressa em todo o público. Satisfeitos, felizes e aguardando por mais um regresso de Alanis à Brasília o público deixou o Ginásio extasiado com o show.

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Quando os sonhos se realizam

Giordana Medeiros

Não sou acostumada a escrever crônicas. Espero que esta diga por si uma emoção de 30 segundos, um efêmero instante, em que um sonho de 13 anos se tornou real. Esperei 13 anos para estar 30 segundos frente a uma, senão a melhor, das maiores rock stars do planeta. Cheguei lá pelas 3:30 da tarde no aeroporto de Brasília, e comecei uma angustiante espera de quase quatro horas, recompensada com louvor, pois estive muito próxima de ninguém menos que Alanis Nadine Morissette. Na minha espera compartilhada por outros fãs, tão loucos e apaixonados quanto eu, conheci novas pessoas, ansiosas pela chegada da nossa estrela predileta. E conversamos, rimos, sonhamos, tentando imaginar como seria a recepção que faríamos. Seguimos a produção do show, até tentamos ler o que diziam os lábios distantes, daqueles responsáveis pelo acolhimento da Alanis em Brasília. Uma verdadeira novela. Daquelas mexicanas, cômicas, sem perder a dramaticidade. A vida é engraçada, ou, como diria a Alanis, irônica. Sofri, desde 2003, uma expectativa, uma idealização, que pensava, “não deve coincidir com o que ela é realmente”, e tentava imaginar, de uma forma mais realista , uma imagem fiel de uma estrela. Astros são, por sua natureza, esplêndidos, e não menos esplêndido foi o sorriso fugaz, que presenciei, que me respondeu com um único gesto, que ela é tudo aquilo e muito mais que imaginava, ela é tão bela quanto sonhei, talvez mais por se mostrar tão amistosa e doce.

E por tudo que passei em companhia de meus amigos, muitos de longa data, outros com quem fiz uma amizade instantânea, sei que a Alanis efetuou uma grande mudança em mim, no que eu fui: um esboço malfeito de um personagem de Edgar Alan Poe, transformando-me em alguém muito melhor. Anteriormente achava-me a mais solitária das poetisas, a mais rejeitada das escritoras. Quando conheci as músicas da Alanis, de uma forma mais profunda e, porque não dizer, contundente, aprendi a superar meus próprios complexos, e fazer amigos, verdadeiros e perpétuos. Meus amigos estavam lá no momento de mais espantosa alegria, quando conseguimos, ao cantar em coro On the tequila, canção do Flavors o Entanglement, último cd da cantora, arrancar-lhe um sorriso carregado de simpatia. Antes desse momento mágico, brincamos, e senti-me verdadeiramente inserida no mundo. Podia dizer: “tenho amigos, amigos leais e verdadeiros”. Há uns cinco anos encontrei um grupo de pessoas maravilhosas e o amor pela Alanis nos uniu. Melhor corrigir esta frase: eles encontraram-me e mudaram minha concepção do mundo, que, antes, para mim era algo aterrador. Depois de conhece-los a existência tornou-se algo bem mais suportável. Posso até dizer: sou uma pessoa feliz. E não foi em função de remédios, que consegui chegar a esta conclusão. Acho que o melhor remédio são as risadas que surgem em nossas conversas e o carinho que temos uns com os outros. E lógico, a nossa psicóloga, que expõe nossos traumas, nossas feridas que tentamos esconder, transformando nossa dor em canções e performances estonteantes, Alanis Morissette.

Sinto que, com cada música que ela cria, um pedaço de mim se torna canção e música. E sei que meus amigos pensam o mesmo. Quando vemos que nossa ídola é tão real quanto nós, e humana, e sensível, e sincera, e tantas qualidades que encontramos em poucas pessoas, só naquelas especiais em toda a sua singularidade, sentimo-nos mais completos. E sei que a Alanis fez algo muito especial para mim, sem, nem ao menos, ter consciência disso. Ela inseriu-me num círculo de pessoas maravilhosas, ela curou meu espírito, e conseguiu fazer com que eu aceitasse-me em todas as minhas imperfeições sem que desistisse de tornar-me uma pessoa melhor. E seu sorriso tão simpático, fez-me encontrar o que estava tão evidente que não conseguia perceber: sou uma pessoa verdadeiramente feliz. E tenho muito a agradecê-la, por sua benéfica influência em minha vida, por ter me reinventado e retirado do buraco negro em que me escondia do mundo. Agora com suas feridas que ela apresenta em suas canções confessionais, sinto-me exposta, e posso ver minha própria vida como espectadora de sua música. E vendo minha realidade aprendi o que devo fazer para evoluir. Alanis contribuiu para fazer uma sociedade melhor, pois se pode trazer tal mudança a mim, o que não faz por sua legião de fãs? É, como ela diz, uma mudança no micro tendo efeitos no macro. Seguirei para o show de amanhã, consciente das transformações que esta mulher, tão especial, provocou em mim e em minha volta. E por tudo isto só tenho que agradecer-lhe, provavelmente você não saiba Alanis, mas você trouxe brilho, compreensão e alegria a minha existência e por tudo isto, tenho muito a  agradecer-lhe. Muito obrigada Alanis.

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Pequena história de um coração desvalido

Giordana Medeiros

Por que cada história tem de surgir de algum lugar? Quero iniciar pelo fim. Para que não sofra com a dura tarefa de criar, tão dolorida e por diversas vezes inclemente. As palavras guiam-me para algum lugar. Não quero saber meu destino. Sigo, com os olhos vendados, por caminhos minados. Em cada passo deixo um pouco de mim. Cada palavra trás consigo um pedaço de meu coração. Há um ultimato a ser cumprido: é preciso viver. Mesmo que a vida nos destrua, todos os dias, e tenhamos que nos reconstruir sempre. Neste momento quero somente a essência da palavra. Sei que perco, todos os dias um pedaço de alegria que jamais poderei recuperar, nunca haverão dias iguais. Há momentos em que a incerteza pesa sobre nosso julgamento, mas não a clara, silenciosa e obstinada realidade. A realidade impele. O sonho socorre. A tristeza estende-se por toda a vida. Por onde quer que transborde, deixa um gosto de mágoa, que é um pouco menos que dor e muito mais que pura melancolia. Para onde vou? Quem sabe para onde vai? Vou com a docilidade de uma folha ao vento. Sem destino, pelos caminhos que soprar a brisa, ou pela força das marés, que me arrastam, para mares nunca antes navegados. A minha vida inteira esperei por um instante mágico, aquele em que a existência justificaria a razão de viver. Mas não sabia que a vida não possui nenhuma justificativa. Vive-se. É tudo. Não há motivos ou causas, somente conseqüências.

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A noite cobre tudo, trazendo lembranças de épocas que passaram, mas que se mantém marcadas em nós, na nossa pele, no nosso corpo. Os anos pesam sobre nós. E onde ficou a beleza que meus olhos não quiseram fruir e minhas mãos, indomáveis, abstiveram-se de tocar? Se a vida fosse clara, não era necessário estudar-se tanto para compreendê-la. Uma flor cálida brota em meu peito, será que há ainda esperança? Frágil esperança, de que… De quê? Meus sonhos perderam-se todos nesta vida. Desejaria um par de asas, para que me aproximasse da pureza dos anjos. Uma auréola dourada e a abnegação de furtar-se à própria vida. A cada dia viver me esmaga com toda força. A minha solidão não cabe em mim e, de tanto viver dispersa, estou sem mim. Atiro meu coração às ondas, como uma oferenda, e meu pensamento à noite, como uma estrela. E tento viver entre as nuances de meu espírito. Entre todas as facetas que possuo… Posso parecer triste, mas sabem-me alegre. Sei que cada emoção, ainda que fugidia, é importante, mas que devo esperar de meu coração tão acostumado a dor? Não sabe tocar além de uma única nota. E de tanto insistir, acaba por ferir-se imensamente. Tolo, tolo coração. E a amargura de ficar ouvindo eternamente, as ondas resvalarem em nossas mãos? Eu só queria escutar sua voz, aquele timbre tão conhecido, que tanto me inebria e enlouquece…

❁❁❁

Sigo a cadência de nossas almas que parecem cantar, transbordando música, escuto este sonho de olhos fechados pois só o som é-me suficiente. Meu pequeno poema impossível, minha obra incompleta. Minha canção quebrada de dor… Meu coração é uma coisa triste e frágil. Como algo que se desfaz ao simples toque, e tão sacrificado… Pobre coração que, de tão selvagem, tornou-se avesso à sociedade. Precisa ser domesticado… E ensinado a sobreviver nessa realidade, nesse mundo, pois está sobremaneira acostumado aos sonhos. E sonhos são seus olhos me seguindo ao infinito. E tudo que não possui fim é belo. A vida poderia terminar em reticências. Não com pontos finais. Para que se deixe em aberto a possibilidade de algo mais… O fim é o monossílabo mais triste que existe, mais dolorido que a própria dor. Mas a dor do fim nem sempre é mais pungente que o fim da dor. É algo transitório. A vida é transitória também. Tudo só transita, vai de cá para lá. E só seus olhos é que ficam. Ficam eternamente, em meus sonhos e devaneios. Estarão sempre em mim. Mesmo que sobre mim não recaiam seus olhares… E por entre momentos de silêncio passam anjos… Ao menos era assim que costumava dizer minha mãe, quando me aterrorizava o silêncio da noite. Somos tão acostumados ao barulho… Eu sempre amei as canções, aquelas mais sinceras são as que mais me agradam. Quando dizem sobre dores reais, não emoções inventadas… Porque dor sincera comove mais que a artificial, creio que, de tão verdadeira, acaba por se tornar nossa também… E cada lágrima que se desprende de minha alma, é um pouco de dor que transborda de mim.

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Às vezes penso que você não passa de uma vertigem, uma ilusão,que criei com as tintas do pensamento… “Isso porque te transfigurei com fórmulas do sonho e disse a mim mesmo que tuas mãos eram asas brancas, que tua boca era como uma estrela nova, que tu eras um mundo, esse mundo sem descrições nem limites de que precisa um pobre poeta para viver com sua canção.” Coloco todas minhas esperanças num momento. Instante que pode não ocorrer ou desviar seu norte. Somos como os rios, a vida escorre em nosso leito e a nossa foz é o nosso instante derradeiro, a morte. Por que tudo parece tremer quando anunciamos o som de nosso último ato? E todas as máscaras que eu usei nessa comédia que é a vida, tinham a face triste de quem perde um grande amor. Eu o perco todos os dias, por que a cada segundo, sei que você morre um pouco em mim. Mas estas águas partidas do rio da vida não podem levar seu esplendor por completo, e sei que sempre haverá algo de você em mim. Nem que seja a lembrança de seus olhos, só seus olhos, que recordo todo instante, são o farol que guiam minha nau por densos nevoeiros. Angustiante ter uma vida inteira entregue a um devaneio. A um instante de desatino que perdura por toda uma vida… Onde é que se pode deixar um segredo que o coração carrega? Numa caixinha minúscula, que bate compassadamente, levo todo um universo de emoções… E tudo que levo passa levemente, nem sabe como é frágil a eternidade…

❁❁❁

Quando criança criei um texto que findava com reticências: lembro bem que escrevi: “ela não tinha esperanças…” E fui repreendida pela professora. Ela disse-me que não se poderia deixar o fim em aberto. Nunca entendi porque para tudo tem de haver um fim. Na verdade, nada morre, somente se transforma, e não há um ponto final, apenas reticências. Sempre soube que tudo caminha para o infinito… E sigo meu caminho nesta estrada cheia de percalços. Não há obstáculo que não se contorne. Nem dor grande demais que não se suporte. Sempre se pode chorar, quando a noite cai sobre nós. Fria, inóspita, como um deserto de sentimentos, que inundamos com nossas lágrimas. Minha dor percorre meu rosto, viaja sobre meu espírito e deságua em meus lábios. Já não há como voltar. Na vida tudo tem apenas um sentido, mas não tem sentido algum… Difícil de entender? Leia nas entrelinhas, onde se esconde as frases mais preciosas dessa trama. As conclusões mais sagazes não estão acessíveis ao olhar… Mas são simples, tudo é muito simples, sou eu que complico tudo… Deixo a complexidade derramar-se em mim… As rosas com suas pétalas sedosas escondem sua dor em seus espinhos. Eu deixo a minha dor à mostra… Mas não firo ninguém, são os espinhos das pessoas que me ferem. Sou como as tulipas que trazem belezas menos agressivas. E sou passiva, silenciosa, vivo na surdina da existência… E quase ninguém me percebe, e aqueles que me percebem fazem questão de ignorar-me. O que mais me fere é que amanhã você não estará diante de mim. Foi apenas um pouco de música no meu caminho…

❁❁❁

Mas chega um tempo em que a vida é uma ordem. Viver apenas. Chego ao mesmo ponto. Um castigo de Sísifo. Sempre empurro a mesma rocha montanha a cima para depois vê-la rolar montanha a baixo, e ter de realizar o mesmo esforço novamente, infinitamente… Queria falar sobre meu coração, selvagem e manso, racional e insano, puro e maculado, tolo e sagaz… No fim, desviei o curso da história, e terminei por não definir minha máquina pulsante, que bombeia mágoa por todo meu corpo. Eis aqui algumas definições que me ocorrem: meu coração é a união dos opostos Yin e Yang, sou ao mesmo tempo o médico e o monstro. Na verdade meu coração é um caleidoscópio que sempre apresenta imagens belas e coloridas, mas guarda em si um mecanismo lógico de espelhos. É indecifrável como uma Esfinge, será que pode responder ao seu enigma? É como um álbum de retratos tão antigo que as faces já não se podem adivinhar. Na verdade não tem forma, apenas som: um Noturno de Chopin. Sei que esta vida entristece-lhe, mas não chore, não ainda, mesmo que tudo tenha se perdido, mesmo que a canção tenha silenciado, a infância tenha se esvaído, e o amor tenha se findado, a vida, a vida que nos é mais cara e sagrada, ela perdura, insistente, impelindo, obrigando… A esperança resiste também, ainda que um pouco desvalida e bastante ferida… Mas não diga: eu sofro, porque jamais soube o que é sofrer, porque não o ensinaram, e desconhece por completo a mágoa que carrega seu coração. Apenas viva, sem nenhuma pretensão, pois o destino encarrega-se do futuro. Sempre quis terminar uma história com reticências, fica esta assim terminada então…

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