Arquivo do mês: dezembro 2008

O fim do mundo de um velho bêbado

Giordana Medeiros

O mundo teve um fim. Não um fim qualquer, não aqueles fins apoteóticos que ficamos acostumados a assistir nos filmes hollywoodianos, não houveram explosões, gritos ou apelos, tudo terminou num imenso vazio. Como se fosse terminada uma frase com reticências. Os seres humanos no oriente, como dormiam, pois para eles tudo ocorreu numa madrugada fatídica, não perceberam o termo da existência terrestre. Os ocidentais, só sentiram um imenso clarão. Depois… Depois nada. O vazio, o silêncio, não houveram especulações dos jornalistas sobre o que causou o fim. Nem mesmo fotografias deste tão aguardado, por que não dizer, momento. Havia tantos sonhos a serem realizados, tantas promessas que ficaram no ar… Um mundo inteiro, tantas pessoas que desapareceram num único instante. E para onde foram? Por onde andam? Houve o grande julgamento? Estão no prometido paraíso? Estas perguntas que jamais foram respondidas pela ciência, e que suscitavam dúvidas às religiões, permaneceram como uma grande interrogação. Não se sabe o destino dos terráqueos e os outros mundos, se continuaram a existir, não havia quem comprovasse. A espécie humana foi extinta. Num único e derradeiro instante.

Num piscar de olhos, estava eu a ler um jornal velho na rua, quando tudo ocorreu, talvez seja a única testemunha deste aterrador momento. Sou o único ser a saber deste desenlace fatal. Recordo-me bem, naquele momento crianças jogavam futebol num campo improvisado no meio da rua, onde suas sandálias de borracha eram as traves. Um casal trocava afagos num banco na praça em frente. Uma mulher regava as plantas na janela e, ainda, um velho pitava um cachimbo na varanda sentado em sua cadeira de balanço. Era um dia cinza, como todos os dias, nesta época do ano, em Brasília. Havia uma música distante, que depois do fim, acreditei escutar por mais alguns instantes… Mas depois só restou-me esse silêncio, essa luz ofuscante, e essa sensação estranha de liberdade. Será que meu corpo estava aprisionado à existência terrena, e o fim do mundo quebrou os grilhões que me mantinham neste mundo? E o que há para se viver nesse silêncio? Não sinto meu corpo, não o tenho na verdade. Talvez seja parte desta luz, deste silêncio. E não há o que se lamentar, não estou triste pelo fim. Era um simples bêbado, com minhas roupas rotas e encharcadas pela chuva constante de dezembro. Tossia havia uns dias, e cuspia sangue, sentia tanta dor, como se meus pulmões fossem arrebentar.

O fim do mundo libertou-me da dor. Libertou a todos nós. Somos seres de luz, energia pura. No fim não há ninguém a nossa espera, como não havia anteriormente quando o mundo ainda existia. Quem vai lamentar tantas mortes? Foram mortes? Quantas mortes? Esperava um anjo portando uma espada de fogo, impiedoso, contra os pecadores, e complacente com os crédulos. Eu não era um crédulo, provavelmente seria tragado pela ira do anjo. Com uma espada em chamas transpassando meu corpo. Mas não houveram avisos, como o fim de uma fita cassete… Ninguém se recorda destas, eu escutei muitas fitas cassetes com músicas do Aborto Elétrico, da Legião Urbana, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso, Titãs, Cazuza… O mundo trouxe a tecnologia e terminou com a aura mágica que havia em torno das coisas, dos artistas, do amor… O amor era uma coisa boa, mas desde que a bebida tornou-se a única coisa importante na minha vida, não havia mais espaço para ele.

Houveram mulheres, muitas, tantas a quem dediquei meu coração, que jamais corresponderam as minhas paixões platônicas… Desde garoto com meu tênis all star e meu walkman, escrevia poesias sentindo-me o ser mais solitário deste mundo. E quando o mundo acaba o fim é pura solidão. Não há o que sentir mais, não há corações entrelaçados ou corações solitários, somente esta luz essa sensação boa, mas ao mesmo tempo triste. Um silêncio que não dói, mas que deveria doer. Como quando meu coração foi quebrado pela primeira vez. Havia aquela menina linda, rica, com seu olhar que somente Machado de Assis poderia definir… E eu tão ridículo, gastei minha mesada inteira para enviar-lhe flores, mas não era um buquet muito fino, nem o mais caro da loja. Ela nem abriu o cartão, despejou as flores na primeira lixeira, um garoto impertinente teve a infeliz idéia de recolher o cartão. Então, foram semanas em que todos zombavam de meus sentimentos, sinceros embora impossíveis… Não chorei, deveria ter chorado, para saber o sabor de minhas lágrimas, nunca soube o gosto desta dor. Nem sempre a dor é salgada. Há uma miscelânea de sabores, o coração partido bate trôpego. Como bêbados na sexta-feira. Imaginava que todas as minhas aflições se reuniriam, todos os pedaços velhos deste enigma, se uniriam decifrando meu destino. Mas não houve nada, tenho de dizer que este fim decepcionou-me. Sem estardalhaço, não houveram pragas, doenças letais, somente a luz. Oh luz que me cega, mas não me cega, que ilumina, mas deixa tudo invisível. Enxergo a mim mesmo, minhas angústias, meus desgostos, transição de minha vida para além dela. Além de mim. Para onde? Não sei, como não sei a razão do fim. Quem saberá?

Quero encontrar a palavra perfeita para definir esta existência/não-existência de luz, não há palavras para explicar o que é o fim. A música talvez seja mais explícita, uma obra de Wagner, as Walkírias ou o Danúbio Azul de Strauss. Provavelmente um adágio fúnebre, La Pathètique de Beethoven. Tão patética e frágil é a vida. Num piscar de olhos e tudo termina, sem avisos, sem data ou hora marcada, num dia indiferente, como uma terça-feira, o que se faz numa terça-feira? Morre-se. Eu morri? Nós morremos? E se o fim é esta solidão incomesurável, porque vivemos esperando por ele? A terrível marcha da vida, em que cada passo era uma mutilação, nossa via crucis não resultou em nada? Não tenho olhos para derramar lágrimas por mim e pelos homens. Não posso engolir o soluço de mágoa de ter perdido tanto tempo, procurando a salvação que não viria… Não seremos salvos! Não há fuga de nosso destino. Não posso sequer descansar no esquecimento, estou ávido por sofrer minha dor, quero que lateje esta mágoa, deixe-me sofrer luz persistente, não quero a calmaria destas águas, quero mares revoltos, e dores lancinantes… E esta luz pálida, inerte, fria, impede que eu sofra. Olhando no fundo da memória percebo que era prisioneiro e também a minha abjeta prisão. É tempo de libertar-me, pois estou acostumado a dor. E sei que a vida sem ela é-me mais terrível. E para onde foram as idéias que jamais se construíram, que ficaram palpitando eternamente neste pensamento que constrói esta realidade, esta atmosfera luminosa, que libertou-me da existência e me aprisionou na não-existência, fatal irrealidade…

Sonhos que guardamos, flutuam transitantes pelo nada, coisas que esquecemos, vestígios de desejos que escorrem fluídos, cachoeiras de sensações que não podem mais ser vividas. Quisera abrir bem os braços e resgatar cada emoção fulgidia, cada sopro de tristeza, que não sei ser alegre, só triste. E sabia ser triste naquelas ruas funestas de Brasília, sabia beber algo bem forte para esquentar as madrugadas frias de solidão, dormindo sobre folhas de papelão… Poderia viver assim, não como esta forma luminosa sem sentimentos. Quero resgatar as raras delícias de viver um esplêndido amor. Mas o amor nunca foi tão fácil para mim. Amar, sempre foi um verbo que conjuguei sozinho. Amava desesperadamente, mas como alguém que cava interminavelmente um buraco, sem propósito, unicamente para afundar na lama de suas mágoas, no fundo de suas decepções. O mundo terminou num clarão. Não senti nada, esperava que a música que ouvia continuasse, era uma canção de Cazuza que escutava: “alguém me espera e adivinha no céu que o meu novo nome é um estranho que me quer…. Viver é bom, nas curvas da estrada, solidão que nada”. Sempre quis tudo, e não pude viver nesse mundo… Sem promessas, para onde íamos? E agora como existirei sem rumo? Não existo mais como era, nem como me viram, nem como imaginavam que eu era, mas como me mostrava o espelho toda vez que nele me procurava desvairadamente. Estou vivendo a morte de todas as esperanças, o fim de todas as esperas, a inconciliável tristeza da solidão e da imperiosa saudade, de tudo aquilo que não vivi. Não viverei. Não viverei, não viverei. Não vi-ve-rei…. A luz termina e os objetos reaparecem, num quarto de hospital tentam explicar-me algo sobre um coma, uma forte pneumonia, mas a única coisa que me chama a atenção é a beleza das cores do dia. O amor se extinguiu, tenho certeza, mas não a amargura que dele se originou, e essa dor que é só minha, deixa-me claro qual é o sentido inefável de viver.

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Poeminha de Natal

Giordana Medeiros

Neste natal espero:

compreender-me e a todos aqueles que amo,

permitindo-me ser falho como também aqueles

que de alguma forma me feriram.

Fazer a alegria de alguém que não conheça,

imaginar seu sorriso,

diante de uma chama tênue de esperança.

Trazer a tona minha essência mais pura,

Para que o que faça seja sincero, embora simples.

Perdoar meus tão numerosos fracassos,

para que saiba aproveitar as vitórias.

Acreditar que papai noel pode existir em cada pessoa.

E não apenas nos sonhos doces de crianças…

Ouvir badalar de sinos,

E não pensar na hipocrisia humana,

mas na fé que alimenta a vida.

Sentir um espírito de bondade,

crescer em mim, para que doe sem esperar

agradecimentos, pois na vida não há contrapartidas.

Abraçar minha família e analisar minha vida,

pois nada é assim tão imperfeito,

talvez a perfeição esteja escondida em

nossas falhas, em nosso coração,

de algum modo, sob o rancor, a tristeza,

a mágoa, e cada sentimento que alimenta nossa raiva.

Assim posso aprender comigo e com os outros,

como desconsiderar os erros e exultar as virtudes.

E não me deixar levar por esta melancolia persistente,

para que meu sorriso possa aflorar cheio de bons sentimentos.

Feliz Natal.

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alanis1

ARRASTÃO DA ALANIS PELO BRASIL

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