A fatalidade das horas

Giordana Medeiros

-Tic-tac, tic-tac, tic-tac…

-Você pensa que me amedronta? Acha que ficarei paranóico por ter de me submeter a você? Imagina que serei manso como tantos outros que apenas escutam o fatal passar as horas?

-Tac-tic, tac-tic, tac-tic…

-Enfrentarei sua força ameaçadora com pulsos cerrados! Não serei um fraco, não sou tolo, sou muito diferente dos homens a quem está acostumado a mandar. Não recebo ordens, se me dize para envelhecer vou rejuvenescer até a tenra idade para não obedecer seus desmandos. Ser jovem ou velho que me importa? Seus conceitos não significam nada para mim. Deixo que continue sua marcha, sem pausas, sem descanso, um ultimato aos homens. Eu sou indomável e não serei um dos seus escravos.

-Tic-tac, tic-tac, tic-tac…

-Desafia-me? Pois saiba que compro seu desafio. Não tenho medo de sua força exaurindo aos poucos a vida dos seres. Você é uma invenção do homem. Você não existe! É uma definição tola para medir… Medir algo que nunca antes deveria ter sido criado. A criatura submetendo seu criador. Mas me insurjo contra seu domínio. Não manda em mim seu tirano! Não sou amestrado por seu som hipnotizante. Pensa que pode me domar como faz aos outros homens…

-Tac-tic…

-É um espectro, um fantasma que assombra a humanidade. Você que tinha como intuito marcar as épocas das colheitas, se revelou um inimigo atroz. Agora fia, e corta como as parcas o fio de nossos destinos. Quem lhe deu o título de Atrópos? Você inimigo oculto, que vem sugando-me a vida, a juventude que se esvaiu como a areia de uma ampulheta. Anteriormente era assim que se mostrava, inocente, silencioso. Hoje para mais nos apavorar tomou um som mecânico. Uma máquina, a primeira a se voltar contra seu criador. Não é como uma história de Kubrick, pois você não pensa. Não pensa! Escutou-me? Você não tem idéia do que se passa… Ou têm? Esconde seus reais intentos de nós. E nos escraviza. E mede nossas vidas, determina nossa morte. Nunca haviam pensado que é você nosso maior inimigo. É culpado! Culpado! Culpado por essa voz fraca, essa pele enrugada, esses ossos frágeis como vidro. Se minha coluna encurva-se agora é em razão de muito haver estendido o fio de minha existência. Quando irá valer-se de sua tesoura dourada parca?

-Tic-tac, tic-tac….

-Não me punirá por minha insolência? Não infligirá mais castigos que me impõe?

Estes dentes em minha pele que não há como se limar? Por acaso és a Baleia Branca que venho procurando desde sempre? Algoz que reina absoluto sobre a existência na terra. Não podemos segurá-lo ou retrocedê-lo. Embora possamos atrasar o relógio, para dar-nos a falsa idéia de segurança, não há como retroceder o passar dos anos. Essa é a marcha inexorável. A vida que se esvai como água de uma fonte que corre sempre, sempre. E muita água passou por baixo da ponte. O rio que segue numa única direção, há como desviar o curso deste, mas a vida é muito diferente. Quando tudo toma um rumo… Ah, não há mais como mudá-lo. Seguimos, só seguimos. Nossa história será contada assim. E assim não é como queríamos.

-Tac-tic, tac-tic, tac-tic…

-Não se importa, não lhe comove esta dor? Este sofrimento que impõe aos homens, esta espera agonizante que tudo termine… Como tudo terminará? E tudo realmente terminará?O que se revela além do continuum espaço tempo? E lá você também é imperador? A eternidade que tanto almejamos não é nada mais que uma lenda. Tempo que reina, que domina, que nos trás a compreensão que muito se passou em nossas vidas. Tão efêmeras para você. Seu tic-tac se estenderá por séculos e minha respiração tênue não alcançará nem mais uma década.

-Tic-tac, tic-tac…

-Se ao menos pudesse mudar o curso da história como um escritor que, descontente com o andamento de um livro, modifica essencialmente o rumo que segue seu romance. E quando o livro já está escrito, há como modificá-lo?

-Tac-tic, tac-tic,tac-tic…

-E os tempos inesquecíveis prestigiosos, que se sucederam tão frenéticos que não pude saboreá-los em sua completude? Décadas em que tive um vislumbre de felicidade. Os anos passam indomáveis, e quando nos damos conta nossos espíritos não se contêm em nossos corpos decrépitos. Agora não consigo reter-me em mim. Não tenho a mesma agilidade física para satisfazer-me os sentidos. Tenho pavor da senessência que se apodera de mim. Dentro em breve não terei mais controle de meu corpo, dizem que os homens rejuvenescem quando atingem a terceira idade. E não conseguem como os recém-nascidos, reter seu esfíncter, e urinam-se, pois são crianças velhas. Crianças, pois jamais deixamos de sê-lo. O mundo adulto é uma mentira! E tudo foi coordenado por você, vil robô, máquina assassina. Se quer saber, estou aqui para combatê-lo. Sei que sou um personagem Quixotesco lutando contra invisíveis gigantes… Luto contra uma força desconhecida, da qual a única representação é um relógio antigo com seu pêndulo indo de um lado para o outro. Por que temos que medir o tempo que nos resta?

-Tic-tac, tic-tac, tic-tac…

-O que nos resta mesmo? Um punhado de mentiras, outro tanto de desilusões e muitas, muitas caixas de saudades. Em nossos mundos íntimos, silenciosos, guardamos nossas lembranças mais estimadas. De tempos em tempos, num suspiro, liberamos um pouco dessas saudades. Que transborda, como um copo muito cheio. Nessas noites absolutas sou tomado de uma inquietude, como se tudo que já se foi, fosse apenas um sonho, de que dentro em breve despertarei, para a vida que vivo quando não estou dormindo. Mas na realidade tenho consciência de que estou mesmo acordado. E deixo-me ao sabor das marés. Há tempo de melancolia como também o há de alegrias, mas com o passar do anos a felicidade torna-se cada vez mais esporádica.

-Tac-tic, tac-tic, tac-tic…

-Você levou todos quem amava, e esqueceu-se de mim nesse mundo trágico, não precisa e mim? Não sou parte essencial de seu enredo? Que tramas prepara na surdina, sem que me conceda participar de sua trupe? Fui excluído de seus planos, máquina? Pretende prolongar-me a pena? Insurjo-me contra você! Sou mais hábil que uma dezena de pequenas roldanas. Interligadas entre si, pelo sopro de uma vida inteira. Guardo um de seus asseclas no bolso, um relógio de ouro que pertenceu ao meu avô, você me precede e precedeu a todos nós. Pois não é sua representação física, é superior aos homens e a vida. É o tempo que se apresenta poderoso. Tende piedade de mim, Cronos. Não me devore, sou um simples mortal submetido a sua ira. Reconheço-me depois de enxergar todos os desencantos e misérias, sou um minúsculo homem que não deixará qualquer marca sobre a Terra. Alguém que ficará esquecido, sob a terra úmida. Um corpo inerte e sem vida, entregado para os vermes que se deliciarão com a carne podre em meus ossos.

-Tac-tic, tac-tic…

-Sei que “cada uma das aflições humanas dorme numa onda misteriosa do tempo”. E guarda todos os meus momentos, sei que me conhece bem. Nos meus derradeiros instantes quero que se lembre desse diálogo que tivemos. E desconsidere cada palavra de ira, cada lamento funesto. Não quero a vida eterna, não quero a imortalidade dos deuses. Sou mortal. O mais mortal dos homens, o mais servil dos servos. Quero unir os pedaços velhos e rotos da minha vida e decifrar meu destino. Por onde me levem as vagas, por que caminhos me levem as correntes. Verei a mim mesmo e com profunda piedade compreenderei e perdoarei todas as minhas faltas. E numa lágrima tudo findará.

-Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac…

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Uma opinião sobre “

  1. oi minha querida amiga. :]
    Bom texto. Cada palavra leva o leitor a sentir as ações de cada parágrafo. Muito bom.
    Me perdoa que eu disse que estava lendo seu blog naquele dia e depois deve ter olhado e nada tinha encontrado.
    Queria deixar pra ti também um abraço bem duradouro por este Natal que se aproxima e ano novo. Felicidades pra você sua família sempre!

    Tudo de bom.
    se cuida.

    PS: queria conversar contigo numa próxima oportunidade sobre “mudanças”.

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